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1961 O Brasil Entre a Ditadura e a Guerra Civil

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1961 O Brasil Entre a Ditadura e a Guerra Civil

Livro Ótimo - 2 opiniões

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Autor: Paulo Markun

Editora: Benvirá

Assunto: Ciencia Politica

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 367

Ano de edição: 2011

Peso: 540 g

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Muito bom
Milene Aparecida Corrêa
24/07/2013 às 11:37
Salto - SP
Gostei da sinopse do livro, conteúdo muito interessante. (M.A.C.)

Excelente
Marcio Mafra
17/06/2012 às 10:23
Brasília - DF


Quem tinha entre 15 e 20 anos de idade em 1961 há de se lembrar de quase tudo que se passa neste livro do Paulo Markun. É um livro – de certa forma – triste, porque em 2012 quase a totalidade dos personagens mencionados no livro já morreu. O livro tem muito de vingança, “vendetta” como dizem os italianos. Vingança dos tenentes e coronéis que perderam para Getúlio Vargas, em 1930 e 1946. Estes levaram exatos 18 anos para dar o troco. Em 1964 aplicaram um bem urdido golpe de estado, que durou outros 18/19 anos.



Vingança de Tancredo Neves, que tinha sido Ministro de Estado de Getúlio e foi defenestrado da função com o suicídio de Vargas. Depois foi o primeiro Primeiro Ministro no curto reinado do Parlamentarismo Brasileiro. Parlamentarismo enfiado garganta abaixo do povo, para acalmar os militares que tinham medo do falso comunismo de Jango, que sucedeu o exótico Jânio Quadros.



Jânio, o homem da vassoura, só faltou sair voando nela feito um bruxo exótico e trapalhão que queria ser o ditador, coisa que estava na moda nos anos 60 e os americanos apoiavam.



E o povo? O povo, ora o povo que se dane. O Brasil era dos herdeiros das capitanias hereditárias. Até hoje, em 2012 ainda existem algumas delas. Bastante enfraquecidas, mas ainda estão aí.  



Livro bom, escrito quando o ranço das paixões partidárias já se encontra esmaecido, fraco, quase imperceptível. Livro que se constitui num bem nutrido tratado de ciência política de brasileiro no pós Segunda Guerra mundial, tão metido a homem cordial. Cordial sim, mas só da boca pra fora.



Livro triste pelos sacrifícios, ilusões, desilusões, desesperanças e ódios de pessoas – líderes políticos, empresariais, religiosos, militares e militantes sociais que morreram, sem que suas vidas tenham brilhado como, certamente, queriam. Paulo Markun é um craque da comunicação, e em conjunto com a jornalista Duda Hamilton se superaram. Eles fizeram um respeitável trabalho de pesquisa e colocaram talento de escritor para acabá-lo.  Excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da crise institucional brasileira que começou com a renúncia do Presidente Jânio da Silva Quadros em 25 de agosto de 1971, culminou com o golpe de estado desfechado pelos militares em março de 1964 e só terminou em 15 de janeiro de 1985 com a eleição indireta de Tancredo Neves para a Presidência da Republica.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O longo regresso

30 de agosto de 1961, três horas da manhã, Hotel George V - o mais badalado de Paris, que recebe estrelas de todo o mundo, local de hospedagem de ex-presidentes americanos como Gerald Ford e Jimmy Carter e atores como John Wayne, Orson Welles e Burt Lancaster. João Goulart recebe, por telefone, uma longa explicação sobre a crise brasileira do deputado San Thiago Dantas, vice-presidente do PTB, que pode ser resumida em quatro palavras: a democracia corre perigo. Em voz alta, para ser entendido do outro lado do planeta, Jango pondera:
“Não posso, não devo apresentar meu pedido de renúncia, porque seria uma covardia. Mas, se vocês, meus amigos, que estão no fogo, vivendo o drama com tanta intensidade, julgarem que o Congresso Nacional, que tem sido tão formidável em sua atuação, deve votar o meu impedimento para preservar a paz social e evitar o derramamento de sangue, então que o façam. É uma questão de consciência dos congressistas.”
No Brasil, o telefone troca de mãos. Juscelino pede a Jango que não sacrifique o regime e ouve uma resposta não muito diferente: "Aceito o parlamentarismo, mas deixo ao Congresso a suprema decisão".
A ligação cai. Os participantes da conversa ignoram, mas os primeiros a conhecer o teor do diálogo, fora daquela sala e da suíte do hotel, seriam os ministros militares: o telefonema fora grampeado, admitiria o general Ernesto Geisel, chefe da Casa Militar. Meia hora depois, novo contato. Mesmo sem dormir havia quatro noites, Jango ainda tem ânimo para duas observações: "Querem me fazer de rainha Elizabeth ... O Juscelino, entre o parlamentarismo e o presidencialismo, prefere o impedimento".
Na suíte do George V: Jango e seus acompanhantes dispararam ligações para Brasília, Rio de Janeiro e Porto Alegre, o que faria a já salgada conta do hotel alcançar cifras astronômicas. Numa das conversas, Amaral Peixoto, presidente do PSD, recomendou prudência, sugeriu a Goulart chegar mais perto do Brasil e prometeu: "O PSD não vai apunhalá-Io pelas costas".
Jango embarcou para Nova York às 13h30 daquele dia, para fazer a rota do Pacífico, única forma de chegar à América do Sul sem pisar em São Paulo ou Rio de Janeiro. A idéia era entrar no Brasil via Porto Alegre. Para isso, teve de fazer escalas na Cidade do Panamá, Lima, Buenos Aires e Montevidéu. Em todos esses pontos, ligou para o Brasil e deu dúzias de entrevistas, reafirmando sua disposição de ser empossado, sem parecer uma ameaça à democracia e ao mundo livre.
Entre Cidade do Panamá e Lima, o repórter Jean Porterelle, do jornal La Derniere Heure, estava no avião. Foi para ele que Jango afirmou:
“Embora queira a paz geral, sei que uma parte dos brasileiros deseja ver-me na prisão. A guerra civil seria uma coisa terrível e não creio que meu país queira chegar a isso. Jamais concordaria em subir à Presidência se soubesse que, no dia seguinte, a luta estaria nas ruas. O Brasil atravessa uma gravíssima crise e estou perfeitamente preparado para as responsabilidades que me esperam.”
Quando o jato branco e dourado da Transcontinental pousou em Buenos Aires, por volta das 14h30 do dia 31, nenhum civil pôde entrar no Aeroporto de Ezeiza. Por ordem do presidente argentino, Arturo Frondizi, centenas de agentes da Polícia Federal ocuparam pontos-chave em edifícios e ruas, impedindo a aproximação de veículos.
Trajando terno azul-escuro, camisa branca, gravata escura e um lenço claro no bolso esquerdo do paletó, Jango foi recebido na pista pelo deputado Lopes de Almeida, do PTB gaúcho, portador do segundo relatório sobre a crise - o primeiro fora entregue no dia anterior, em Paris, pelo cearense Carlos Jereissati, também trabalhista.
Um grupo de parlamentares argentinos do Bloco Nacional Radical e Popular quis furar o bloqueio e foi retirado aos empurrões, ao mesmo tempo que a comitiva abandonava rapidamente o aeroporto. Sem dar uma só palavra aos jornalistas, Jango passou quatro longas horas nos apartamentos 113 e 144 do Hotel Internacional. De repente, uma confusão na rua: eram os mesmos deputados tentando entrar no prédio. A polícia feriu um deles no rosto, enquanto uma senhora de idade, falando portunhol, atravessou a calçada, tentando apressadamente infiltrar-se entre os agentes: "Soy Ia tia deI senor Goulart!".
A mentira não colou. Romualdo Salazar teve mais sorte: empunhando um cartaz com os dizeres “Jango, trago uma mensagem do Leonel Brizola", em letras vermelhas, conseguiu alcançar o hotel, com ajuda do cônsul brasileiro Alfonso Palmero.
Desde o primeiro momento, Jango percebeu que não estava seguro na Argentina. Seu velho amigo Floreni Lisboa Carrion, chefe do Departamento Comercial da embaixada, armou a saída da comitiva por uma porta dos fundos.
Correndo junto ao carro e levando empurrões da polícia, os jornalistas puderam fazer apenas duas perguntas básicas através da pequena janela entreaberta do carro: "O senhor vai assumir a Presidência do Brasil?".
Sorridente, Jango respondeu:
- É claro, está escrito na Constituição.
- Com quem o senhor se reuniu no hotel?
- Vou para o Brasil tomar posse.
Foram as únicas declarações de João Goulart na Argentina.
Minutos mais tarde, o carro voltou ao Aeroporto de Ezeiza. Enquanto isso, o vôo 231 da Transcontinental saiu na hora prevista para Montevidéu. Seus passageiros tinham ficado em terra, sob o pretexto de que o aparelho sairia num vôo de prova. Mal decolou, o avião fez uma breve escala em Ezeiza para recolher Jango e seus três companheiros - o senador Barros de Carvalho, seu secretário, Dirceu di Pasca, e Carrion, que alugara o aparelho por 120 mil pesos argentinos.
Mal acomodou-se na poltrona, Jango agarrou os jornais. Em seguida, leu com atenção o relatório entregue por Lopes de Almeida. Quando o aparelho atingiu a altura prevista no plano de vôo, a aeromoça Anselmi serviu uísque para a comitiva, registrando a reação do ilustre passageiro: "Ele não tocou no uísque e fez todo o percurso de muito bom humor".
Diferente dos argentinos, os uruguaios estavam de braços abertos para Jango. O Aeroporto de Carrasco estava repleto.
Duas horas antes, haviam pousado dois aviões C-46, com cerca de 80 jornalistas enviados pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.
A viagem, de última hora, começara às dez da manhã daquela mesma quinta-feira, 31 de agosto, no porão do Piratini, com o seguinte convite feito por Brizola: "O Jango chega hoje no final da tarde a Montevidéu. Ele precisa voltar para o Brasil, e quero que vocês o tragam. Já consegui dois aviões da Varig que os levarão até a capital uruguaia". "Vocês serão a guarda de honra do presidente ... "
O repórter político da Folha da Tarde e do Correio do Povo Lucídio Castello Branco, irmão do Castelinho, secretário de Imprensa de Jânio, encontrou uma explicação para a estratégia do governador: "Ele fez isso porque ninguém iria bombardear um avião cheio de jornalistas, inclusive com correspondentes internacionais".
Enfurnados desde o dia 26 no porão e sempre dispostos a qualquer negócio em troca de uma notícia, os jornalistas embarcaram - literalmente. Assim que o avião pousou no Aeroporto de Carrasco, foi cercado pelo Exército. Não era uma ação de repressão, e sim preventiva, de acordo com Lucídio: "Viajamos com revólveres na cintura. Os militares pediram para deixar o armamento dentro do avião, e o chão ficou coalhado de armas. Descemos em fila para tomar a vacina contra a febre amarela. Depois fomos liberados, mas não pudemos sair do aeroporto".
Um olho na pista, outro nos corredores, os jornalistas ficaram vagando pelo aeroporto, até às 18h50 daquela quinta, 31 de agosto, quando Jango afinal chegou. Na porta do avião, sorriu, sem dar sinais de fadiga, e deteve-se por um instante, saudando os jornalistas brasileiros e uruguaios com um largo aceno da mão direita, como era seu hábito.
Ao pé da escada, foi recebido como presidente pelo ministro das Relações Exteriores do Uruguai e pelo embaixador do Brasil.
A primeira pessoa a cumprimentá-lo foi o chanceler Martinez Montero. Mas quem lhe dirigiu as primeiras palavras foi a filha do presidente: "Seja bem-vindo ao Uruguai".
Um corre-corre em direção ao avião provocou muita confusão.
Eram os jornalistas com câmeras a tiracolo e, nas mãos, canetas, blocos e papéis em busca de uma declaração. Os seguranças fizeram Jango voltar para dentro da aeronave, acompanhado pelos representantes do governo uruguaio. Por dez minutos, eles ficaram conversando no interior do avião, até a situação estar sob controle.
Às 19h10,Jango desceu do avião e encaminhou-se para a área administrativa do aeroporto. Diante do escritório da Varig, cercado pelos repórteres, afirmou: "Estou feliz em pisar no solo uruguaio, país tão conhecido por seu respeito à Constituição e às leis. Mas sobre meu país prefiro não fazer declarações agora, preciso conhecer qual a situação atual, para depois falar".
No escritório, conversou a sós com o embaixador brasileiro no Uruguai, Walder Sarmanho. Logo depois se dirigiram, sem abandonar o perímetro vigiado, para a Base 2, ficando lá até as 20h30, fazendo ligações telefônicas - duas delas para Brizola -, mas as linhas não estavam boas.
De surpresa, às 20h43,Jango apareceu na sala de embarque e conversou com os jornalistas. Entrevista mal-ajambrada: cercado por sete guarda-costas e pela polícia uruguaia, o presidente disse as primeiras palavras, muito pausadas, para que os jornalistas uruguaios entendessem, agradecendo ao governo do Uruguai pela amabilidade. Antes que alguém lhe perguntasse, disparou: "Só vou falar sobre o Brasil mais tarde, depois de me comunicar com algumas pessoas. Os telefonemas, vou dar da embaixada do Brasil".
Era a senha para dizer que dormiria em Montevidéu. Encostado no braço de uma poltrona e com aparência tranquila, Jango continuou a responder às perguntas:
Só posso opinar sobre a crise como presidente, respeitador da Constituição e esta, segundo o artigo 79, me confere o cargo de presidente. Só um detalhe falta para cruzar a fronteira. Espero nova comunicação telefônica com o Brasil, que decidirá a crise em definitivo.
Emendou elogiando Brizola e prometendo defender a Legalidade. Foi nesse momento que o repórter do jornal Última Hora, Dilamar Machado, na época com 26 anos, explicou que os jornalistas estavam ali para levá-lo a Porto Alegre.
- Essa missão nos foi dada pelo governador. Nós não vamos abrir mão de levá-lo para a capital gaúcha. Estamos aqui para escoltá-lo.
- Olha, eu nunca me senti orgulhoso em ter uma escolta tão segura, porém vou pedir a vocês que me dêem um prazo, pois estou em negociações.
Em relação à renúncia de Jânio, o vice-presidente declarou ter ficado tão surpreso quanto todo o Brasil. Sem dar tempo para mais perguntas, desfiou um rosário de elogios. Chamou Machado Lopes de herói por seu respeito à Constituição e à Legalidade. Agradeceu o apoio do clero e revelou nunca ter agido, na vida pública, sob a pressão de "forças ocultas", embora soubesse que "tais forças conspiravam contra o Brasil e a sua Constituição". Congratulou-se com a Assembléia do Rio Grande do Sul, falou bem do Congresso Nacional e citou várias vezes o artigo 79 da Constituição. Lamentou a censura imposta à imprensa em alguns estados. Rasgou seda para a atitude de Almino: "Ele é um dos grandes valores do trabalhismo brasileiro".
Disse ainda que tudo estava a seu favor, a julgar pelos telefonemas que recebera dos amigos e correligionários e pelo apoio compacto do povo brasileiro. Finalizou a entrevista às 21h30 e retirou-se debaixo do frio intenso e de chuvisco para uma estação da Força Aérea Uruguaia, de onde tentou mais uma vez, sem sucesso, comunicar-se com Brizola.
Um jornalista do El Dia abordou-o no corredor e perguntou: "Quais os vínculos que o unem ao Partido Comunista?" Jango não gostou, mas respondeu, rapidamente: "Nenhum”.
“Eu sou membro do Partido Trabalhista, que tem no Brasil uma tradição democrática. Eu viajei à China comunista, mas o marechal Montgomery também foi, e ninguém suspeitou de sua convicção democrática por isso".
Escoltado por quatro patrulheiros da Polícia Rodoviária Uruguaia, conhecida como polícia caminera, Jango seguiu para a embaixada do Brasil num Impala preto, último modelo. No Aeroporto de Carrasco, os jornalistas passaram por maus bocados. Ney Fonseca tinha apenas 200 cruzeiros no bolso. O dinheiro brasileiro valia quase nada no Uruguai, e não havia carros suficientes no aeroporto para levá-los até a embaixada: "Eu, com os meus míseros trocos, sobrei".
Alguns jornalistas uruguaios estavam mais exaltados do que os brasileiros - mais pareciam revolucionários prestes a tomar o poder. Outros propunham que Brizola separasse o Rio Grande e se juntasse ao Uruguai, formando assim um grande país. Notícia, de verdade, não havia uma sequer - só fome, sono e bravatas. Alguns se deitaram nos sofás e cochilaram, até serem acordados com a informação de que Jango resolvera ficar em Montevidéu e não seguiria com os jornalistas para Porto Alegre.
Decidiu-se então que um dos aviões voltaria naquela noite para a capital gaúcha, levando a turma que ficara no aeroporto. Fonseca, Dilamar e o fotógrafo Lemyr Martins partiram - este com a incumbência de levar seus filmes e os de Assis Hoffmann, da Última Hora, mais as anotações de Adauto Vasconcelos.
Era uma noite escura, sem lua, e, logo após cruzar a fronteira, o comandante desligou as luzes de navegação e baixou a altitude. Curioso, Fonseca perguntou: "Por que estamos voando tão baixo? Estou vendo os morros bem pertinho".
A resposta veio curta e grossa: "Estamos a 100 metros de altura. É que por aqui tem coisas no ar! Temos notícias de que caças da Força Aérea querem atingir aviões no Sul do Brasil".
Foram momentos de pavor, lembraria Dilamar Machado: "Quem não tem medo numa hora dessas é anormal. Um dos tripulantes do avião passou com um fuzil na mão. Imagine, um fuzil para enfrentar caças!"
Ao amanhecer, depois de muita tensão, os repórteres desceram no Aeroporto Salgado Filho, sãos e salvos. Jango ainda estava na esquina da rua General Rivera com boulevard Artigas, em Montevidéu. Ali ficava o Palácio Pietracaprina, um prédio de dois andares, portas grandes e jardins bem cuidados, um dos bons registros da influência francesa sobre a arquitetura uruguaia. Construído nos primeiros anos do século XIX por Roberto Pietracaprina, foi adquirido pelo governo brasileiro em 1941, para ser a sede da embaixada brasileira, que Getúlio Vargas entregara a seu cunhado, João Batista Luzardo.
No primeiro andar, a ala residencial ocupada pelo embaixador Sarmanho, Jango atracou-se ao telefone, tentando ligações para Porto Alegre, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.
O repórter Adauto Vasconcelos e o fotógrafo Assis Hoffmann, da Última Hora, fazendo-se passar por integrantes do governo Brizola, tinham conseguido entrar na embaixada brasileira. Quando encontraram Jango, este estava ladeado pelos seus concorrentes: Ubiratan Lemos, de O Cruzeiro, e Lucídio Castello Branco, da Folha da Tarde e do Correio do Povo, de Porto Alegre. Adauto não perdeu a oportunidade e foi incisivo: "Presidente, sou da Última Hora e tenho ordens do Samuel Wainer de só retornar ao Brasil na companhia de V Excelência".
Jango encarou-o e respondeu: "Transmita o meu abraço ao Samuel e diga-lhe que vocês voltarão ao Brasil comigo".
O embaixador Sarmanho interferiu, pedindo para os repórteres se retirarem, deixando Jango tratar dos problemas de 70 milhões de brasileiros. Sonolentos, os jornalistas ficaram de plantão nos jardins da embaixada, olhos grudados nas janelas do primeiro andar.
Pouco depois, Lucídio conseguiu chegar ao primeiro andar.
Encontrou Jango descansando. O vice-presidente confessou ao jornalista que estava atordoado: “Eu não sei o que vou dizer, porque eu nem sei o que está acontecendo no Brasil. Eu vou começar agora a telefonar para as pessoas para que elas me digam o que está acontecendo e o que eu posso dizer. Nós vamos fazer o seguinte: você chega lá e diz que foi nomeado secretário da Presidência da República no exílio e que, a partir de hoje, eu só falo com eles por seu intermédio. “
Lucídio, também correspondente do Jornal do Brasil em Porto Alegre, não era nem mesmo funcionário do governo gaúcho, embora tivesse atuado como uma espécie de braço direito do assessor Hamilton Chaves no Palácio Piratini. O jornalista aceitou a proposta, procurou os colegas - profissionais de veículos do mundo inteiro - e explicou que o vice-presidente só falaria às dez da manhã do dia seguinte.
À Oh40 do dia 1º, Jango conversou por alguns minutos com os repórteres que continuavam na embaixada. Informou que tinha feito contato com políticos de Brasília e com Brizola, mas admitiu que ainda não decidira quando voltaria ao Brasil: "Quem sabe nas próximas horas".
Ninguém ficou sabendo a que horas ele foi dormir, nem mesmo se conseguiu pregar os olhos naquele tenso dia. Na manhã seguinte, o improvisado porta-voz acordou muito cedo e presenciou uma cena incomum. Jango falava alternadamente em dois telefones, no gabinete do embaixador. Num aparelho estava Leonel Brizola, utilizando uma linha instalada nos primeiros meses de seu governo, ligando a capital a Santana do Livramento, na fronteira, e à vizinha Rivera, no Uruguai. Na outra linha, o interlocutor era Tancredo Neves.
O trisavô deste chegara a São João del Rey, Minas Gerais, vindo do arquipélago dos Açores e assumiu o posto de ouvidor-mor da comarca de Rio das Mortes. No solar que comprou, nasceu Tancredo de Almeida Neves, o quinto dos 12 filhos de Francisco de Paula Neves, comerciante de secos e molhados, com Antonina de Almeida Neves, a dona Sinhá, em 4 de março de 1910.
Seu pai morrera aos 48 anos, quando ele ainda era um pré-adolescente, mas fora uma influência decisiva na vida do garoto: vereador pela oposição, Francisco costumava pedir ao filho que lesse discursos imensos feitos pelos mais importantes políticos no Senado e na Câmara.
A família era marcada pela disciplina - tinha hora para tudo. Apesar disso, Tancredo teve uma infância normal, nadando nos rios, colhendo jabuticaba no pé e jogando futebol no Esparta Futebol Clube, na mesma posição em que faria toda a sua carreira política: meia-direita. Depois de tentar sem êxito uma vaga na Escola Naval, formou-se em direito. No tempo de faculdade, participou das manifestações que precederam a Revolução de 1930 e garantiu seu sustento como revisor, repórter e redator do jornal O Estado de Minas. Aos 26 anos, já era promotor de Justiça quando se elegeu vereador pelo Partido Progressista em São João deI Rey.
Em 1937, a habilidade como negociador assegurou-lhe a presidência da Câmara Municipal, cargo que exerceu por pouco tempo, até ser cassado, como todos os outros parlamentares, pelo Estado Novo.
De volta à banca de advogado, passou nove anos atendendo boa clientela, e sua competência nos tribunais assegurou-lhe o apelido de Patativa do Rio das Mortes.
Em maio de 1938, casou-se com Risoleta Tolentino, de 21 anos, de sólida família do município de Cláudio. O casal teve três filhos: Tancredo Augusto, Maria do Carmo e Inês Maria.
Prestigiado por Benedito Valadares, entrou para as fileiras do PSD. Em 1946 obteve 5.256 votos e foi o penúltimo colocado na relação dos eleitos para a Assembléia Constituinte mineira. Até 1950, liderou a oposição ao governador Milton Campos, eleito pela UDN, participando ativamente da costura que resultou no lançamento da candidatura do pessedista Juscelino ao governo de Minas Gerais.
Juscelino foi eleito, Tancredo também. Sua atividade na Câmara Federal começou a lhe garantir ressonância fora de Minas. Gustavo Capanema, líder da bancada do governo no Congresso, pediu-lhe que defendesse o primeiro veto de Getúlio Vargas a um projeto aprovado pelo Parlamento. Tancredo enfrentou a chamada banda de música da UDN - Lacerda, Afonso Arinos e outros - e, depois de 20 minutos de discurso, conseguiu manter a decisão do presidente. Era o começo de um relacionamento cordial com Getúlio, que o levaria ao Ministério da Justiça, com o aval de Juscelino, em meados de 1954, quando alguns ministros se desincompatibilizaram para concorrer às eleições.
Tancredo ficou ao lado do presidente até o fim do governo.
Mais de uma vez, propôs a Getúlio que reagisse ao cerco estabelecido por Lacerda, a UDN e os militares, sugerindo ao presidente utilizar as tropas que ainda lhe eram fiéis e o uso de todos os meios para resistir.
Getúlio não levou as sugestões em conta; incumbiu Tancredo de redigir a nota que informava sobre seu afastamento do cargo até que fossem concluídas as investigações sobre o atentado contra Lacerda e deu-lhe uma caneta Parker 51 de ouro, indo para o quarto onde se suicidou.
Tancredo ainda viu o presidente agonizante, depois do tiro no coração: "Foi o instante de maior emoção da minha vida pública".
Reassumiu a cadeira de deputado, ajudou a eleger Juscelino para o governo de Minas, assumiu a diretoria do Banco de Crédito Real de Minas Gerais e, quando JK tornou-se presidente, passou a dirigir a carteira de redescontos do Banco do Brasil. Foi secretário das Finanças do governador Bias Fortes e saiu candidato ao governo de Minas em 1960, sendo derrotado pelo udenista Magalhães Pinto.
Segundo Lucídio Castello Branco, Tancredo tentava convencer Jango a não voltar imediatamente:
O Tancredo fazia um apelo a ele para não vir para o Brasil. Para não aceitar a provocação do Brizola, porque eles estavam articulando uma saída. Que ele não desse entrevista, que ele não falasse, não botasse lenha na fogueira. O Jango dizia para o Brizola: "Olha, o doutor Tancredo está dizendo isso, isso, isso", e o Brizola dizia: "Deixa de ser mole, vem pra cá, essa tá ganha e por aí afora". No estilo do Brizola. Na conversa com o Tancredo, Jango disse: "Olha, doutor Tancredo, eu lhe prometo que esperarei pelo senhor até a tarde, pelas suas informações, e não vou dar entrevistas, nem vou viajar para Porto Alegre, antes deste telefonema à tarde". Aí, ele pegou o telefone do Brizola e falou: "Olha, Brizola, me comprometi com o doutor Tancredo Neves que, primeiro, não daria entrevista, segundo, não vou para Porto Alegre". O Brizola deve ter ficado buzina da vida, porque, como todo mundo, estava confiante.
Lucídio relatou a conversa aos jornalistas. Às dez horas, foi servido o café da manhã. Uma hora e meia mais tarde, dois visitantes chegaram à embaixada. Antes de pisar no tapete abóbora que recobria a escada para o segundo andar, o mais baixo deles, 51 anos, calva pronunciada, nariz pontudo, olhos muito vivos, anunciou aos repórteres: "Vim em missão de paz e legalidade".
No topo da escada, Jango aguardou os emissários. Nenhum dos dois tinha mandato. Um era o advogado Hugo Araújo de Faria, membro do diretório nacional do PTB, que dois meses antes deixara a diretoria da Confederação Nacional da Indústria. Carioca, 46 anos, ele substituíra Jango no Ministério do Trabalho de Vargas, em 1954, e tinha excelente relacionamento com o vice-presidente. O outro, que falara com os jornalistas, era o mesmo homem que participara da improvisada conferência telefônica naquela mesma manhã: Tancredo Neves.
Sua missão fora idéia de Amaral Peixoto. Ranieri Mazzilli queria que o dirigente pessedista voasse até o Rio e dali fosse a Montevidéu no avião presidencial conversar com Jango. Amaral Peixoto já havia mandado o deputado Euclides Pessoa, do PSD do Ceará, ao Rio Grande do Sul e recebera um relatório preocupante, dando conta de que os gaúchos estavam dispostos à luta e tinham mesmo o apoio do IV Exército. Por isso, achou melhor ficar em Brasília e indicou Tancredo em seu lugar. Hábil negociador, bem relacionado com Jango, capaz de ser aceito pelos militares, o mineiro tinha a vantagem adicional de não ter mandato.
Sua primeira tarefa foi conversar com o general Ernesto Geisel. Mesmo inscrito entre os militares que admitiam a saída política, o chefe da Casa Militar de Mazzilli apresentou três precondições para que Jango assumisse o cargo a que tinha direito: aceitar o parlamentarismo, passar ao largo de Porto Alegre em seu retorno e chegar a Brasília sem ter Brizola a tiracolo.
Acertadas as condições, Tancredo preparou a partida, enquanto Almino Affonso entregava ao deputado Wilson Fadul, que deveria representar a bancada do PTB no encontro com o vice-presidente, a seguinte mensagem, escrita às pressas:
Brasília, 30 de agosto de 1961. Presidente, hei de cumprimentá-lo quando atravessarmos a cachoeira. Agora, opino (em caráter estritamente pessoal) sobre o problema maior que o senhor terá de enfrentar: a adoção do parlamentarismo.
O parlamentarismo, agora, é "golpe branco" das forças reacionárias. É o mesmo "golpe", em termos civis, que os militares tentaram dar. É eminentemente de sentido reacionário. Não significa apenas um veto ao seu nome. É o veto a todos que se propunham a defender as teses que correspondem hoje aos interesses do povo. Em termos populares, é um desastre. O povo, por intuição talvez, percebe o caráter reacionário da medida a ser adotada neste instante e não o perdoará. Não me parece uma solução para a crise em termos políticos e talvez não o seja em termos militares. Imagino que a única hipótese aceitável, à parte o conteúdo da emenda que analisaríamos, é que seja condicionada à prévia aprovação do povo em plebiscito.
Ontem, o Congresso reconheceu a legitimidade de seu mandato e, a rigor, o direito à sua investidura, mesmo antes da emenda parlamentarista.
Hoje, entretanto, o presidente Mazzilli confessou-me que, se o senhor chegasse a Brasília agora, seria preso pelos militares. É claro que o Mazzilli apenas narra uma situação de fato.
O Fadul completará esta informação feita de corrida. O momento é por demais tumultuado e não é fácil apontar a diretriz com absoluta clareza.
Até breve. Grande abraço.
Fadul não completou coisa alguma, e Jango jamais recebeu a carta. Quando o emissário de Almino chegou à base aérea, o avião já havia partido.
Antes de chegar ao Aeroporto de Carrasco, às dez da manhã de 1 º de setembro, no Viscount presidencial, que levara Jânio para longe do poder, Tancredo ainda teve de dar a volta em Brizola. O governador gaúcho fora informado por Jango de que o mineiro estava a caminho, mas deveria passar antes por Porto Alegre. Foi Brizola quem relatou:
Na manhã seguinte, recebi o aviso de que o avião do Tancredo se aproximava do Aeroporto Salgado Filho. Nessa altura nós já éramos donos do aeroporto, donos da torre, a Aeronáutica não tinha mais controle da situação. Mandei desimpedir o campo, que estava cheio de tonéis, e preparar a descida do Tancredo. A minha intenção - parece que ele adivinhou, ele tinha um sexto sentido - era prendê-lo.
O Viscount sobrevoou uma, duas, três vezes o Aeroporto Salgado Filho e arremeteu em direção a Montevidéu, derrubando por terra o plano brizolista de manter Tancredo em Porto Alegre e usar o avião presidencial para buscar Jango no Uruguai.
No primeiro andar da embaixada brasileira em Montevidéu, Tancredo, Hugo de Farias e Jango ficaram horas trancados numa sala. Não houve intervalo para o almoço - funcionários levaram refrigerantes e sanduíches -, e, do lado de fora, nem um murmúrio foi ouvido. Jango, que já admitira o parlamentarismo em conversas telefônicas, recusou a idéia com veemência, segundo relatos posteriores de Tancredo. Teria lembrado que sua família sempre fora presidencialista e que a história do Rio Grande do Sul tinha vários episódios sangrentos de confrontos entre adeptos dos dois sistemas.
Tancredo argumentou que valia a pena pagar esse preço para evitar a guerra civil, e o vice-presidente acabou cedendo. Por telefone, o mineiro informou ao general Geisel sobre o avanço das negociações, mas, espertamente, acrescentou que Jango exigia discursar em Porto Alegre. O chefe da Casa Militar não admitiu, em nenhuma hipótese, que Jango jogasse lenha na fogueira acalentada por Brizola. O pessedista propôs então que Jango fosse até Porto Alegre, mas não abrisse a boca diante do povo. Geisel concordou. Faltava obter o sim de Jango.
De volta à sala, passou as informações para o vice, que se irritou: "É uma humilhação passar pela capital da resistência em silêncio".
Com muita calma, Tancredo lembrou-lhe que, se dissesse palavras duras, agravaria a crise e, se fizesse um discurso brando, daria a impressão de ter se curvado aos militares. O certo, aconselhou, era limitar-se a aparecer na sacada do Palácio Piratini e dali acenar para o povo. Jango achou boa a idéia.
Contornadas duas das três exigências militares, Tancredo disse que existia mais uma precondição para sua posse. Quando começou a falar, o gaúcho perdeu a calma e soltou muitos palavrões, assegurando ao interlocutor que não faria mais nenhuma outra concessão. Mostrando tranqüilidade, Tancredo disse: "Essa é a mais fácil, justamente por isso deixei-a por último. Os militares não querem ver Brizola na sua posse".
Ao ouvir o recado, Jango abriu um largo e franco sorriso e concordou: "Eu também não quero isso".
As negociações demoraram das 11h45 às 15 horas, sendo interrompidas várias vezes por telefonemas e por um entra e sai de políticos e assessores. Enquanto isso, correu o boato de que estava sendo apresentado a Jango o texto de uma nova Carta Constitucional. A notícia desnorteou os jornalistas. Um alto funcionário da embaixada informou que Tancredo trazia uma proposta conciliadora, mas dentro da Constituição. Um dos repórteres perguntou: "Qual o texto da proposta?".
O funcionário simplesmente deu as costas e dirigiu-se de novo para o primeiro andar.
A maior parte dos jornalistas estava nos jardins externos da embaixada. Do lado de dentro, havia apenas três: Ubiratan Leemos, Lucídio Castello Branco e Adauto Vasconcelos.
Às 13 horas, a primeira informação oficial: o vice-presidente ficaria mais duas horas em Montevidéu. O telefone tocou, e Jango atendeu. Era preciso gritar, para que o outro escutasse. A voz deveria ser um chiado distante. Os três jornalistas começaram a anotar algumas frases de Jango, nítidas, soletradas: "Brizola, eu não resolverei nada sem consultar vocês. Hein? Fala mais alto. Não escuto bem. Sim, sim, consultarei você e o nosso amigo general sobre as conversações. Segura esta linha, que vou falar um pouco mais com O Tancredo".
Em Porto Alegre, o governador recebia o primeiro sinal concreto de que Jango estava cedendo: "Naquela ligação ele me comunicou que estava assumindo uma posição conciliatória porque não tinha conhecimento da realidade no Brasil".
A ligação terminou, e os repórteres já não escutavam mais nada, até que o professor Ajadil de Lemos, que Brizola enviara a Montevidéu e funcionava como consultor jurídico de Jango, deu mais uma pista: "Tudo vai bem, e eu vou tomar um cafezinho".
Em novo telefonema internacional, os repórteres conseguiram ouvir Jango dizendo que seguiria naquele dia e pretendia chegar a Porto Alegre na manhã seguinte. O que permitia imaginar que a viagem seria por terra. Mas eram 14 horas de estrada até Porto Alegre, argumentou Adauto Vasconcelos, para quem aquele era apenas um despiste.
O telefone tocou mais uma vez. Jango atendeu, mas não ouvia nada. Pediu para Brizola fazer outra ligação, trocando o número 41-0481 para 41-0445. "Neste último eu te ouvirei melhor."
Às 15 horas, terminou a reunião. Todos desceram as escadas com semblante sério. Jango aparentava cansaço. O almoço foi servido. A embaixatriz, Gilda Sarmanho, fez um pedido a Tancredo: "Deputado, pelo amor de Deus, resolva isso direitinho. Eu sempre ouvi dizer que Deus é brasileiro. Prove isso, sim?".
A resposta não poderia ser mais mineira: "O espírito de 1932 transferiu-se de São Paulo para o Rio Grande. O Rio Grande salvou o país da guerra civil. Salvou as instituições".
Na saída do almoço, Adauto Vasconcelos abordou Tancredo, que repetiu as palavras ditas à embaixatriz e acrescentou: ''As negociações em torno do parlamentarismo tiveram um avanço substancial. Será o fim da crise".
Isso deu certeza aos jornalistas de que Goulart concordara com a mudança de regime. Às 16 horas, os emissários saíram da embaixada rumo ao aeroporto. Uma hora mais tarde, horário marcado para a partida de Jango, o vice-presidente desceu para o segundo encontro formal com os jornalistas. Nos jardins, em pé, com o mesmo terno azul-escuro da véspera, Jango explicou:
“Tenho o espírito aberto para encontrar uma solução para a crise dentro da ordem legal. Os homens mais responsáveis da nação estão empenhados em manter o regime existente. Considero que temos de evitar o derramamento de sangue, e todas as forças vivas da nação estão procurando a forma de encontrar uma solução aceitável “.
Para não criar problemas, a entrevista foi dividida em duas.
Primeiro, por dez minutos, Jango atendeu os jornalistas uruguaios e os representantes das revistas Life e Time.
Para os brasileiros (apenas três presentes), 40 minutos de respostas, resumidas na edição especial da revista O Cruzeiro) do dia 16 de setembro de 1961, desta forma:
Minha primeira preocupação é debelar a crise. O caso da política externa pertence não só a mim, como às forças partidárias, a todas as correntes vivas dos setores populares e do governo. Essas correntes é que devem estudar os rumos da política externa, as suas conveniências ou inconveniências. É assunto que convoca toda a nação e que deverá atender à índole dela.
Sou grato ao povo paulista e ao seu governador, na presente crise que a nação atravessa. O respeito à lei e à Constituição, que vejo nos paulistas, muito me comove.
Não posso, até o presente, pronunciar-me sobre a emenda parlamentarista. É assunto complexo, que ainda não conheço em profundidade.
Irei até o impossível, para que não haja derramamento de sangue. Confio em Deus e nos brasileiros para que se evite, a qualquer custo, a guerra civil.
Penso, como base para um governo, na presente conjuntura, numa composição ministerial de todos os partidos.
Não conheço os motivos da renúncia de Jânio Quadros. Recebi essa renúncia com surpresa, em Cingapura.
Acredito na elevação dos propósitos do presidente Mazzilli. E aguardarei, confiante, a data para a minha posse.
Perguntado sobre se acreditava que Jânio tentara um golpe, como denunciado por Lacerda, limitou-se a dizer que nada sabia a respeito. Portanto, não poderia comentar o que desconhecia. E firmou-se, em todas as respostas, na tecla do respeito às instituições, na restauração da ordem democrática, como único meio de superar a crise. Mas de uma pergunta Jango esquivou-se: "O que foi tratado com Tancredo e Faria?".
A resposta foi evasiva: "Falei longamente com eles".
Quando os jornalistas apertaram o vice-presidente para conhecer o conteúdo da conversa, Jango desviou o diálogo para temas mais gerais. Bateu nas costas de Adauto e disse, com seu forte sotaque: "Te prepara, vamos para o Rio Grande".
Em passos lentos e com a mão direita no bolso, entrou novamente na embaixada. Às l8h46, um carro preto saiu em alta velocidade do prédio, seguido de outros três veículos. A rapidez da manobra desconcertou os presentes. Quando alguns jornalistas indagaram o que estava acontecendo, um funcionário da embaixada informou que o senhor Goulart tinha ido "por terra" até Porto Alegre.
Um jornalista do El País conseguiu seguir o carro, que em alta velocidade pegou a boulevard Artigas. Ao chegar à avenida Itália, dobrou para o leste rumo ao Aeroporto de Carrasco. Quando chegou lá, Jango percebeu que os jornalistas brasileiros estavam entrando no avião. Segundos depois, já no avião da Varig, sentou-se na terceira fila, ao lado do senador Barros de Carvalho, e acenou.
Às 19h24, o avião levantou vôo com destino a Porto Alegre.
Jango pegou os jornais e examinou as manchetes. Logo depois, acomodou-se melhor na poltrona e repousou. A tripulação do Caravelle apagou as luzes e ordenou a todos que não fumassem. Tempos depois o comandante avisou os dez passageiros: "Nós vamos fazer uma descida numa área onde temos absoluta certeza de segurança".
Ao sobrevoar Porto Alegre, o avião apontou o bico para baixo.
Os passageiros ficaram com as costas grudadas nas poltronas. O Caravelle, o jato mais moderno da época, pousou finalmente na capital da resistência.
 


  • 1961 O Brasil entre a Ditadura e a Guerra Civil

    Autor: Jornal Valor Economico

    Veículo: Jornal

    Fonte: Valor Economico, Eu & Fim de Semana, 8, 8 e 9 outubro 2011

    "1961 - O Brasil entre a Ditadura e a Guerra Civil"

    Há 50 anos, o Brasil passou por um período de tensão extrema, prenúncio do golpe militar de 1964 e dos 30 anos de ditadura que se seguiram. No fim de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência sob alegação de que havia "forças terríveis" contra ele. Que forças eram essas? Como era o país? Com base em cuidadosa pesquisa e entrevistas com pessoas que acompanharam os fatos de perto, os jornalistas Duda Hamilton e Paulo Markun contam essa história. Como observa o diretor da Benvirá, Thales Guaracy, é importante conhecê-la, "porque o Brasil, mesmo depois de viver períodos democráticos importantes, já perdeu o rumo da liberdade política e civil mais de uma vez" e é preciso ficar atento para que isso não aconteça mais.

     

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Na festa de amigo oculto do Sindivarejista, no natal de 2011 fui presenteado pela Francisca, colega de trabalho, com o livro de Paulo Markun, “ 1061 o Brasil Entre a Ditadura e a Guerra Civil”. Nessa tal festa, também chamada de troca de interesses ou de inimigo às claras, consiste numa confraternização para a qual, é obrigatório fornecer antecipadamente uma espécie de listas de "desejos", onde o "oculto" oferece diversas opções para ser "presenteado". 


 

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