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Neve

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Neve

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Autor: Orhan Pamuk

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Luciano Vieira Machado

Páginas: 487

Ano de edição: 2006

Peso: 740 g

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Bom
Marcio Mafra
16/06/2012 às 18:52
Brasília - DF


Não foi à-toa que Orhan Pamuk recebeu o Nobel de Literatura em 2006. No extraordinário  livro intitulado Neve, ele faz verdadeiro malabarismo literário para tratar de política, religião, poesia e amor. Ka é o personagem principal. O narrador da história é  Orhan Bei, amigo de Ka, que se baseou nas cartas e anotações deixadas pelo poeta, encontradas quatro anos após  sua morte. Kars, que no idioma turco significa neve é onde se passa todo o confronto agressivo, as vezes sangrento, dos islamitas radicais. Leitura boa, romântica sem ser piegas. Um bom livro. 



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Ka, poeta e jornalista, nascido na cidade de Kars, Turquia. Por motivos exclusivamente políticos ele vivia exilado na Alemanha e viaja de volta à Kars pretextando fazer uma reportagem sobre a cidade, para publicá-la em jornal da Alemanha. O jornalista aproveita a mesma reportagem para pesquisar as causas do aumento do número de suicídios entre jovens meninas de Kars. Durante a sua estada, acontece uma grande tempestade de neve, que isola completamente a cidade do resto da Turquia. Nessa ocasião o poeta se apaixona loucamente por Ipek, uma linda muçulmana, que era sua antiga colega de escola e com quem ele pretende se casar e voltar a ser feliz.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Segundo o relato mais comedido das anotações de Ka, a atmosfera tensa e expectante da sala lhe trouxe a lembrança de sessões espíritas a que nós assistíramos quando éramos crianças, um quarto de século antes, numa casa em uma das ruas afastadas e pobres de Nisantas. Aquelas sessões eram organizadas por uma mulher gorda, mãe de um amigo nosso; ela ficara viúva ainda muito jovem; quase todos os seus convidados eram donas-de-casa infelizes, mas havia também um pianista com dedos paralisados, uma estrela de cinema neurótica de meia-idade (mas só porque a gente sempre pedia que viesse), sua irmã que não parava de bocejar, um oficial reformado que fazia a corte à estrela já meio passada, e também, quando nosso amigo conseguia nos fazer entrar de fininho, Ka e eu. Durante o inquieto período de espera, alguém dizia "Oh, espírito, se voltaste para nós, fala!", e depois de um longo silêncio ouvia-se um ruído quase imperceptível, o arrastar de uma cadeira, um gemido, e às vezes o som de um rápido chute na perna da mesa, quando então alguém anunciava em voz trêmula: "O espírito chegou". Mas quando se dirigiu à cozinha, Ka não parecia um homem que fizera contato com os mortos. Seu rosto estava radiante de alegria.
"Ele bebeu muito", disse Turgut bei, e então, voltando-se para Ípek, que já ia correndo atrás de Ka: "Sim, vá ajudá-Io, filha".
Ka lançou-se numa cadeira perto da cozinha, pegou o caderno e a caneta. "Não consigo escrever com todos vocês à minha volta olhando para mim", disse ele.
"Vou levá-Io para outro lugar", disse Ípek.
Precedido por Ípek, Ka atravessou a cozinha, que recendia ao doce aroma da calda que Zahide derramava sobre o pudim de pão; eles atravessaram um quarto frio e entraram num outro mergulhado em penumbra.
"Você acha que consegue escrever aqui?", perguntou Ípek acendendo a luz.
Olhando em volta, Ka viu uma peça em perfeita ordem, com camas arrumadas de forma impecável. Havia uma mesinha de centro e um criado mudo sobre o qual as irmãs enfileiraram vários tubos de creme, batom, frasquinhos de água-de-colônia, livros, uma bolsinha com zíper e mais algumas substâncias guardadas em garrafas de álcool ou de óleo de cozinha. Uma velha caixa de chocolate suíço estava aberta sobre a mesa, cheia de escovas, canetas, amuletos contra mau-olhado, colares e pulseiras.
Ka sentou-se na cama, ao lado da vidraça da janela coberta de gelo.
"Aqui eu consigo escrever", disse ele. "Mas não me deixe sozinho."
"Por que não?"
"Não sei", disse ele, acrescentando: "Estou preocupado".
Ele se pôs a trabalhar no poema, que começava com a descrição de outra caixa de chocolate, que seu tio lhe trouxera da Suíça quando Ka era criança. A caixa era decorada com as mesmas paisagens suíças que ele vira o dia inteiro nas casas de chá de Kars. De acordo com as anotações feitas por Ka tempos depois, quando retomou os poemas escritos em Kars para interpretá-los, classificá-Ios e organizá-Ios, a primeira coisa que surgiu da caixa de Ipek foi um relógio de brinquedo; dois dias depois ele iria descobrir que Ipek brincara com aquele relógio quando criança. E Ka usaria aquele relógio para voltar no tempo e dizer algumas coisas sobre a infância e mesmo sobre a vida ...
"Não quero que você me deixe nunca", disse Ka a Ipek. "Fiquei loucamente apaixonado por você."
"Mas você mal me conhece", disse Ipek.
"Há dois tipos de homem", disse Ka em tom professora!. "O primeiro não se apaixona antes de ver como a jovem come um sanduíche, como ela penteia o cabelo, com que tipo de bobagem ela se preocupa, por que ela tem raiva do pai, o que as pessoas comentam sobre ela. O segundo tipo de homem - aquele em que me enquadro - só se apaixona por uma mulher quando não sabe quase nada sobre ela."
"Em outras palavras, você se apaixonou por mim porque não sabe nada sobre mim? Você acha mesmo que se pode chamar isso de amor?"
"Se você se entrega por inteiro, é assim que acontece", disse Ka.
"Quer dizer que quando você souber como eu como um sanduíche e o que uso no cabelo, deixará de me amar."
"Não, porque a essa altura a intimidade que se criou entre nós se aprofundará, transformando-se num desejo que envolverá nossos corpos, e estaremos ligados para sempre por nossas lembranças felizes."
"Não se levante; continue sentado na cama", disse Ipek. "Não consigo beijar ninguém quando meu pai está sob o mesmo teto." Ela não se esquivou de seus primeiros beijos, mas depois o afastou. "Quando meu pai está em casa, não gosto disso."
Ka tentou beijá-Ia nos lábios mais uma vez, depois voltou a sentar-se na beira da cama. "Temos que nos casar e sair correndo deste lugar tão logo seja possível. Sabe quanto podemos ser felizes em Frankfurt?"
Houve um silêncio. Então: "Como você pode apaixonar-se por mim sem nem me conhecer?".
"Porque você é muito bonita ... porque já vi em meus sonhos como seremos felizes juntos ... porque consigo lhe dizer qualquer coisa sem a menor vergonha. Em meus sonhos não consigo nunca parar de nos imaginar fazendo amor."
"O que você fazia quando estava em Frankfurt?"
"Eu pensava um bocado sobre os poemas que não conseguia escrever...
Eu me masturbava ... A solidão é essencialmente uma questão de orgulho; você mergulha em seu próprio' cheiro. É sempre assim com todos os verdadeiros poetas. Se alguém passa muito tempo se sentindo feliz, se torna banal. Da mesma forma, se você fica infeliz por muito tempo, perde sua capacidade poética ... A felicidade e a poesia só podem coexistir por um prazo brevíssimo. Depois disso, ou a felicidade embota o poeta ou o poema é tão verdadeiro que destrói sua felicidade. Morro de medo da infelicidade que me espera em Frankfurt."
"Então fique em Istambul", disse Ipek.
Ka olhou-a atentamente. "É em Istambul que você quer viver?", perguntou num sussurro. Seu maior desejo naquele momento era que Ipek lhe pedisse alguma coisa.
Ipek também percebeu isso. "Eu não quero nada", disse ela.
Ka sabia que a estava pressionando. Algo lhe dizia que ele não ficaria em Kars por muito tempo - que logo não conseguiria mais respirar ali -, por isso precisava pressionar, como se sua vida dependesse daquilo. Por alguns instantes eles ouviram fragmentos de uma conversa ao longe; então passou uma carroça puxada por um cavalo, e eles ficaram ouvindo o ruído das rodas avançar pela neve. De pé no vão da porta, devagar e meticulosamente, Ipek tirava fios de cabelo da escova em sua mão.
"A vida aqui é tão pobre e tão sem esperança que as pessoas, mesmo pessoas como você, se esquecem de como se deseja alguma coisa", disse Ka.
"Não podemos"Pensar em vida aqui, só em morte ... Você vem comigo?" Ipek não respondeu. "Se você for me dar uma resposta negativa, não me responda", disse Ka.
"Eu não sei", disse Ipek, olhos fitos na escova. "Estão esperando por nós na outra sala."
"Há alguma intriga em curso por aqui, mas não tenho idéia do que se trata", disse Ka. "Por que você não me explica?"
As luzes se apagaram. Como Ipek ficasse imóvel, Ka quis abraçá-Ia, mas estava tão preocupado com a idéia de voltar para Frankfurt sozinho que também não se mexeu.
"Você não vai conseguir escrever um poema nesta escuridão de breu", disse Ipek. "Vamos."
"Qual a coisa que você mais deseja de mim? O que posso fazer para que você me ame?"
"Seja você mesmo", disse Ipek. Ela se levantou e encaminhou-se para a porta.
Ka sentira-se tão feliz sentado na beirada da cama que precisou de um grande esforço para se levantar. Ele voltou a sentar-se no frio quarto ao lado da cozinha, e à luz bruxuleante da vela se lembrou do poema intitulado "A caixa de chocolate", que estava no seu caderno verde.
Quando se ergueu de novo, encontrou Ipek bem à sua frente; ele se avançou para abraçá-Ia e mergulhar nos seus cabelos, mas seus pensamentos se interpuseram; era quase como se estes também estivessem cambaleando na escuridão.
Ali, afogueadas à luz da vela da cozinha, estavam Ipek e Kadife. Com os braços ao redor do pescoço uma da outra, enlaçavam-se como amantes.
"Papai mandou procurar você", disse Kadife. "Está tudo bem, querida."
"Ele não conseguiu escrever o poema?"
"Eu escrevi", disse Ka, emergindo da sombra. "Mas agora eu estava esperando poder ajudar vocês."
Ele entrou na cozinha; à luz da vela, não viu ninguém. Mais que depressa, encheu um copo de raki e tomou-o puro. Quando as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, ele emborcou um copo de água.
Quando saiu da cozinha, encontrou-se mergulhado numa escuridão ameaçadora. Então viu ao longe uma vela sobre a mesa de jantar e se encaminhou para lá. As pessoas que estavam ali sentadas voltaram-se para olhar Ka e a sombra gigantesca que ele projetava na parede.
"Você conseguiu escrever o poema?", perguntou Turgut bei. Antes de perguntar, ficou alguns instantes em silêncio, como se quisesse imprimir à pergunta um certo ar de troça.
“Sím."
"Parabéns." Ele empurrou um copo de raki para a mão de Ka e começou a enchê-Io. "E sobre o quê?"
"Sobre todos a quem entrevistei desde que cheguei aqui, todos com quem conversei. Concordo com todos. O medo que eu sentia em Frankfurt quando andava na rua, agora está dentro de mim."
"Eu o entendo perfeitamente", disse Hande com ar de quem sabia das coisas.
Ka sorriu agradecido. Não descubra sua cabeça, belezinha, ele teve vontade de dizer.
"Se, quando você fala que acredita em todos que ouviu aqui", disse Turgut bei, "está querendo me dizer que acreditava em Deus quando estava em companhia do sheik efêndi, então deixe-me esclarecer uma coisa. O sheik efêndi não fala em nome do Deus que veneramos em Kars!"
"Então, quem fala em nome de Deus aqui?", perguntou Hande. Turgut bei não se irritou com ela. Embora fosse turrão e briguento, tinha o coração mole demais para ser um ateu implacável. Ka também percebeu que, por mais que Turgut bei sofresse com a infelicidade das filhas, sofria ainda mais com a possibilidade de desintegração dos próprios hábitos e do seu mundo. Não se tratava de uma preocupação política, mas da preocupação de um homem que, mais que qualquer outro, temia perder seu lugar à mesa, de um homem cujo único prazer era passar as noites com as filhas e seus convidados discutindo durante horas sobre política e sobre a existência ou não-existência de Deus.
A energia voltou, e a sala ficou iluminada de repente. Àquela altura eles já estavam tão acostumados com as idas e vindas casuais da luz que ninguém mais se incomodava com os rituais de interrupção de energia elétrica que Ka lembrava da sua infância em Istambul - ninguém comemorava a volta da luz nem perguntava se a máquina de lavar roupas parara no meio de um ciclo; não havia nada daquela alegria que ele sentia outrora em dizer "Deixem que eu apago as velas"; em vez disso, todo mundo se comportou como se nada tivesse acontecido. Turgut bei ligou a televisão de novo e, controle remoto na mão, começou a trocar de canais. Ka sussurrou para as jovens que Kars era uma cidade extraordinariamente silenciosa.
"É porque temos medo de nossa própria voz", disse Hande. "Isso", disse Ipek, "é o silêncio da neve."
Dando-se por vencidos, ficaram olhando a tela da televisão que mudava o tempo todo. Quando segurou a mão de Ipek por baixo da mesa, Ka pensou que se passasse os dias sem fazer nada e as noites de mãos dadas com Ipek olhando televisão, viveria feliz até o fim da vida.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Orhan Pamuk ganhou o Premio Nobel de Literatura de 2006. Interessado em conhecer uma visão romanceada de um muçulmano não radical comprei o seu livro Neve.


 

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