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País Sem Chapéu

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País Sem Chapéu

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Dany Laferrière

Editora: Editora 34

Assunto: Romance

Traduzido por: Heloisa Moreira

Páginas: 237

Ano de edição: 2011

Peso: 300 g

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Ótimo
Marcio Mafra
17/07/2012 às 21:44
Brasília - DF


“País sem chapéu” é uma luz sobre o Haiti, pelo olhar de um haitiano que vinte anos antes de escrever o livro foi para os EUA e Canadá, fugindo da maldição Baby, o filho de Papa Doc. Ambos ditadores sanguinários. Quando ele foi, se chamava Windsor. Agora é Dany. Trocou de nome, se fez jornalista, mas não perdeu a identidade, nem a poesia. Ele descreve o Haiti com olhar haitianos. Com as misérias, crenças, mitos, gostos, cheiros, amores e a lua. Mas sem aquele horror que nos mostra a TV, com reportagens que só retratam misérias, calamidades, assaltos, pobreza, doenças e com uma lista interminável das coisas que faltam. Assim o leitor enxerga aquilo que falta, mas também vê aquilo que tem o Haiti. Sem ficção. É um Haiti assim, de dentro para fora. Leitura gostosa, fácil, diferente, sem rebusque.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A historia do próprio autor, Dany Laferrière, jornalista haitiano, que retorna ao seu país depois de quase 20 anos e redescobre seus valores, sua poesia, seus cheiros, suas mangas, seus mitos e suas crenças. Em breves capítulos ele conta como era e como ainda é o seu Haiti.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O Jantar

Minha mãe ainda está sentada na varanda, bem escondida atrás dos loureiros em flor. De lá, ela pode ver o que se passa na rua sem ser vista.
- Ficou me esperando?
- Não, estava tomando a fresca. Tem uma brisa deliciosa aqui, à noite.
- Não acredito, mãe. Você sempre fazia isso quando eu voltava tarde da noite.
- Já faz tanto tempo ... Você sabe, de uns tempos para cá, aqui ficou ainda mais perigoso.
- Não fui muito longe.
- Você parou no hospital.
- Como é que você sabe, mãe?!
- Pierre me disse. Ele mora bem na esquina. Ele te viu lá, no hospital. Ele veio agora mesmo me perguntar se você estava doente.
- Isso é o Haiti. Nunca estamos sozinhos. Tem sempre um olho te espiando.
- Teu jantar está na mesa.
Vou até a sala, seguido por minha mãe. Uma tigela de Ovaltine me espera. Viro-me e sorrio para minha mãe que continua na porta. O gosto me surpreendeu. Lembro-me de repente do anúncio que tocava na rádio: "Ovaltine dá forças". É isso que deve ter convencido minha mãe, ela que me achava fraco demais para o seu gosto. Durante toda minha adolescência, tomei Ovaltine toda noite.

O Medo

Durmo na cama de minha mãe. Ela me cedeu um espaço. Na verdade, tenho quase toda a cama só para mim, uma vez que minha mãe, como de hábito, deita-se bem na beirada. Ela está de costas para mim.
- Todo mundo tem medo - diz minha mãe, como se estivéssemos no meio de uma conversa começa da faz tempo ...
- Felizmente, nunca assaltaram sua casa.
- Não é disso que estou falando, Velhos Ossos ...
- Você fala dos matadores, então?
-Não.
- Não entendo, mãe.
- Temos medo. Temos medo de não existir. É disso que temos medo.
- É isso que eu queria dizer. Com todos esses crimes ...
- Não! (Minha mãe quase gritou.) Os crimes não são o pior.
Não a interrompo para deixá-Ia explicar melhor o que pensa.
- Você sabe, Velhos Ossos ... Você não pode saber, você não estava aqui, mas é bem mais grave do que se imagina, o que aconteceu aqui, neste país.
- O que aconteceu? O que você quer dizer, mãe?
- Temos a impressão de já estarmos mortos, aqui. Todo mundo, quero dizer os justos e os maus. Sabe?, encontramos cemitérios clandestinos quase em toda parte. Os que matam não estão mais vivos do que os que foram mortos. Nós já estamos todos mortos. Ele bem disse: "Deixai os mortos enterrar seus mortos". Sabe, passei minha vida tentando entender o que Cristo queria dizer com isso. Agora sei. Tudo está claro para mim, hoje. Nós já estamos mortos. Pierre, você sabe, nosso vizinho que te viu no hospital esta tarde, ele me disse outro dia que conhece um homem, um matador. Pois é! esse homem lhe contou que não sabe por que mata, que isso não serve para nada, que é como se ele passasse a vida a lavar as mãos para suja-las imediatamente depois. Ele não podia dizer as coisas claramente, mas Pierre o entendia. Ele também disse a Pierre que até já encontrou na rua pessoas que ele tinha matado antes ... Ou estamos mortos, ou estamos vivos. Não se pode ser os dois ao mesmo tempo. Tenho certeza de que já estamos mortos e ninguém nos contou. E isso, Velhos Ossos, seria a pior maldade com a gente ... Com todos nós, quero dizer os matadores e os mortos.
Ela para um momento. Parece que precisa respirar um pouco. Olho sua nuca. É dali que sai sua voz.
- Esta cidade é um grande cemitério. Você ainda não está morto, então cuidado. Não confie em ninguém. Aqui, não tem nem bons nem maus, só mortos.
Não sei exatamente quando o sono me levou, mas não era profundo o bastante já que a voz de minha mãe ainda me chegava, falando sempre dessa fina fronteira que separa a vida da morte.

Sonho

Estou deitado de costas, os braços abertos. Pergunto-me onde estou. Vozes me chegam. Reconheço a música em créole. Talvez eu esteja ainda em Montreal e simplesmente sonhe que estou em Porto Príncipe. É um sonho que eu costumava ter antigamente, logo que cheguei a Montreal. Sonhava com o Haiti todas as noites. Sonhava principalmente que andava nas ruas de Porto Príncipe, ou que conversava com um ex colega de escola em frente ao estádio Sylvio-Cator. Curiosamente, quase nunca sonhei com minha mãe em Montreal. Durante uns dez segundos, cheguei a acreditar que estava em Montreal e que tudo acontecia dentro da minha cabeça. Estou mesmo em Porto Príncipe e a voz que ouço é a da vizinha que conta alguma coisa a minha mãe.

O Rádio

Minha mãe tinha colocado um radinho perto da minha cabeça. Automaticamente, ligo-o. Uma voz jovem e fresca está terminando a leitura dos horóscopos. Não tive tempo de saber o que o dia reserva aos nativos de Áries (meu signo). Já passaram para a seção de esportes. Voz de homem bastante quente e dinâmica. O objetivo secreto dos cronistas esportivos é fazer você se sentir um molenga porque não está correndo os cem metros, nem lançando dardos, nem nadando em uma piscina olímpica. Ah! como eu detesto os cronistas esportivos, de manhã cedo. Em todo caso, acabaram de me informar que o Racing Club derrotou o Violette, ontem à noite, por dois a zero. Isso me alegra por uma razão bem simples. No dia de minha partida, faz vinte anos, o Racing ia enfrentar o Violette. E agora tenho a impressão de chegar a tempo de saber o resultado. Como se eu não tivesse deixado o país. Estou tenso como um arco. À espreita da mínima sensação, da mais sutil emoção, de tudo que poderia me dar a impressão de nunca ter deixado o país. Queria que nada tivesse mudado durante minha ausência. Gostaria de retomar furtivamente meu lugar entre os meus, como se nada tivesse acontecido, como se nunca os tivesse deixado. Ao mesmo tempo, não renego minha viagem.

Água Quente

Entro no banheiro para fazer minha toalete. Tudo já está pronto. A pasta de dente na escova. Duas bacias de água, sendo uma cheia de água quente. Lavo-me, visto-me e desço para almoçar. É assim na casa de minha mãe, e será sempre assim. Não lhe nego o direito de me tratar como um príncipe. É a sua educação: ela sempre considerou seu filho um príncipe. Foi isso que me permitiu sobreviver no início de minha estadia em Montreal, quando os outros só viam em mim um negro a mais.
Alguém, em algum lugar, em uma casinha em Porto Príncipe, sempre pensou que eu era um príncipe.
 


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Em maio de 2012 estive na Livraria da Villa para comprar titulos de autores convidados para a FLIP 2012, porque neste ano não irei a Paraty. País Sem Chapeu, do haitiano-Canadense Dany Laferrière foi um deles.


 

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