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Reparação

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Reparação

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Ian McEwan

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Paulo Henrique Britto

Páginas: 269

Ano de edição: 2011

Peso: 375 g

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Excelente
Marcio Mafra
25/07/2012 às 16:43
Brasília - DF


Geralmente os livros que contam história de amor são chatos, bobinhos, previsíveis e tolos. São doces de escorrer açúcar pelas páginas. Reparação, embora conte uma historia de amor,  é extraordinariamente bom porque não é nada disso. Ian McEwan, o autor tem 64 anos, é inglês de Aldershot, uma cidadezinha de 200 mil habitantes, distante uns  55 quilometros de Londres. O titulo do livro em português seria melhor se fosse “expiação”, porque tem mais cara de sofrimento. Reparação tem mais cara de desculpa. A história de Bryoni Tallis, personagem principal, tem mais cara de sofrimento. Ela passa a vida “sofrendo” pela besteira ou pelo crime que cometeu. O autor, McEwan foi um dos convidados da FLIP em 2012. O livro tem tudo que é bom: história, horror, egoísmo, crime, solidariedade, beleza, carinho, sexo, feiura, covardia, amor, solidão, guerra, piedade, nobreza, arrependimento, raiva, honra, paixão, mas sobre tudo tem muita classe. Classe, finura, delicadeza, humor, cultura e educação que só os ingleses tem. Ingleses como Mc Ewan. Ou como a família de Bryoni Tallis. Este romance, narrado na primeira pessoa, encanta o leitor desde a primeira página. O livro ultrapassa o conceito  excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Briony Tallis, vivida no ano de 1940, durante a 2ª Guerra Mundial, começa quando ela tinha 12 ou 13 anos de idade. Nessa época ela já se considerava escritora porque escrevera uma peça de teatro que ia apresentar na visita de seus primos que chegavam do interior. Os Tallis moravam numa grande mansão, perto de Londres, Inglaterra. Briony ensaiava a peça quando ao passear pela propriedade, assiste sua irmã mais velha, Cecilia, se despir e mergulhar numa pequena fonte do jardim, diante de Robbie Turner, que era filho da arrumadeira. Um escândalo. Nessa ocasião Robbie e Cecilia já estavam apaixonados, embora fossem muito jovens. Instigada pela inveja deste grande amor e, principalmente, movida pela fértil imaginação de futura escritora Briony acaba cometendo um crime.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Aquelas trivialidades inofensivas, bem mais suportáveis que o silêncio, permitiam que Robbie se recolhesse por trás de uma máscara de atenção bem-humorada. Cecilia apoiava a mão esquerda no rosto à altura dos olhos, provavelmente para excluí-lo da periferia de sua visão. Fingindo dar atenção a Leon, que relatava o episódio do rei num teatro no West End, Robbie podia contemplar o braço e o ombro nus de Cecilia, e ao fazê-lo imaginou que ela sentia na pele o contato do ar que saía de suas narinas, uma ideia que o excitava. No alto do ombro da moça havia uma pequena depressão no osso, ou entre dois ossos, com urna penugem suave nas bordas. Em breve a sua língua percorreria o contorno oval daquela mossa e penetraria nela. A excitação que ele sentia assemelhava-se a dor e era exacerbada pela pressão das contradições: Cecilia era familiar como uma irmã, exótica como uma amante; ele sempre a conhecera, ele não sabia nada sobre ela; ela era feia, ela era bela; era forte - com que facilidade se defendera do irmão - e, vinte minutos antes, havia chorado; a carta idiota de Robbie a repugnara, porém tivera o efeito de libertá-la. Ele lamentava seu erro, ele exultava por tê-lo cometido. Logo estariam os dois a sós, com mais contradições - hilaridade e sensualidade, desejo e medo por sua ousadia, temor e impaciência para começar. Em algum quarto vazio no segundo andar, ou longe da casa, sob as árvores à beira do rio. Onde? A sra. Tallis não era nada boba. Fora da casa. Protegidos pelo cetim da escuridão, começariam outra vez. E isso não era fantasia, era a realidade, era seu futuro próximo, ao mesmo tempo desejável e inevitável. Mas fora justamente isso que o infeliz Malvolio pensara, o Malvolio cujo papel ele havia representado uma vez na faculdade - "nada pode me separar da completa realização de minhas esperanças".
Meia hora antes, não havia esperança alguma. Depois que Briony entrou na casa com a carta na mão, ele continuara andando, torturado, sem saber se voltava ou não. Mesmo diante da porta da casa ainda não estava decidido, e aguardou alguns minutos sob a lâmpada da entrada, com uma única mariposa fiel, tentando decidir qual das duas opções infelizes seria a menos desastrosa. As alternativas eram estas: entrar, encarar a raiva e a repulsa de Cecilia, dar uma explicação que não seria aceita e, muito provavelmente, ser despachado - uma humilhação insuportável; ou voltar para casa sem dizer palavra, dando a impressão de que a carta fora intencional, padecer um verdadeiro suplício a noite inteira e nos próximos dias, sem ter ideia da reação dela - mais insuportável ainda. E covarde. Repassou todas as possibilidades outra vez e chegou à mesma conclusão. Não havia saída, o jeito era falar com ela. Levou a mão à campainha. No entanto, ainda era tentadora a ideia de ir embora. Ele podia escrever um pedido de desculpas na segurança de seu escritório. Covarde! A porcelana fresca estava sob a ponta de seu dedo indicador, e antes que a argumentação recomeçasse em sua cabeça ele se obrigou a apertar o botão. Deu um passo atrás como um suicida que acaba de engolir uma pílula de veneno - nada a fazer, só esperar. Ouviu passos lá dentro, o staccato de passos femininos sobre o soalho do halI.
Quando ela abriu a porta, ele viu o bilhete dobrado em sua mão. Por alguns segundos ficaram a se entreolhar fixamente, sem dizer palavra. Apesar de tanta hesitação, ele não havia preparado nada para dizer. A única ideia que lhe ocorreu foi que ela era ainda mais bonita na realidade do que nas suas fantasias. O vestido de seda que trajava parecia venerar cada curva e reentrância de seu corpo flexível, porém a boca, pequena e sensual, estava apertada em sinal de reprovação, talvez até de repulsa. Atrás dela, as luzes fortes da casa ofuscavam a vista, e ele não conseguia determinar a expressão precisa em seu rosto.
Por fim Robbie disse: "Cee, foi um equívoco".
"Um equívoco?"
Vozes chegaram a ele, pela porta aberta da sala de estar. Ouviu a voz de Leon, depois a de Marshall. Talvez por temer a chegada de outra pessoa, ela deu um passo para trás e escancarou a porta para ele. Robbie seguiu-a até a biblioteca, que estava às escuras, e esperou à porta enquanto ela procurava o interruptor de uma luminária sobre a escrivaninha. Após acender a luz, ele entrou e fechou a porta. Imaginava que dentro de alguns minutos estaria voltando para o bangalô.
"Não era essa a versão que eu pretendia lhe mandar." "Não."
"Eu pus a carta errada no envelope." "Sim."
Ele não conseguia concluir nada a partir daquelas respostas secas e ainda não podia ver com clareza a expressão no rosto dela. Cecilia afastou-se da luz, em direção às estantes. Ele avançou para dentro do recinto, não exatamente indo atrás dela, mas para que não se abrisse uma distância maior entre eles dois. Ela poderia tê-lo despachado de uma vez à porta da casa, e agora havia uma oportunidade de lhe dar uma explicação antes de ir embora.
Disse ela: "A Briony leu". "Ah, meu Deus. Desculpe."
Ele estava prestes a evocar para ela um momento secreto de exuberância, uma impaciência passageira com a convenção, quando lera a edição Orioli de O amante de Lady Chatterley, que ele comprara clandestinamente no Soho. Mas esse elemento novo - a criança inocente - tornava seu erro irreparável. Inútil insistir. A única coisa que pôde fazer foi se repetir, dessa vez num sussurro:
"Desculpe ... "
Ela se afastava mais e mais, em direção ao canto, à escuridão mais profunda.
Embora julgasse que ela estava fugindo, deu mais dois passos em sua direção.
"Foi uma estupidez minha. Não era pra você ler aquilo. Nem você nem ninguém."
Ela continuava recuando. Um dos cotovelos estava apoiado na estante, e ela parecia deslizar, como se num instante fosse desaparecer em meio aos livros. Ele ouviu um som suave e úmido, o som que se produz quando se está prestes a dizer algo e a língua descola do céu da boca. Porém ela não disse nada. Foi só então que ocorreu a Robbie a possibilidade de que ela não estivesse fugindo, e sim atraindo-o para o canto mais escuro da biblioteca. Desde o momento em que tocara a campainha, ele não tinha mais nada a perder. Assim, foi avançando lentamente enquanto ela recuava até chegar ao canto, onde parou e ficou olhando para ele. Também Robbie parou, a pouco mais de um metro dela. Estava agora perto o suficiente, e havia luz o bastante para que ele percebesse que ela estava começando a chorar e tentando falar. Por um momento não conseguiu e balançou a cabeça para que ele esperasse. Virou-se para o lado, uniu as mãos e sob elas ocultou o nariz e a boca, colocando as pontas dos dedos nos cantos dos olhos.
Controlando-se, Cecilia disse: "Isso já está durando semanas ... ". Sua garganta apertou, e ela foi obrigada a se interromper. Imediatamente Robbie julgou entender o que ela dizia, porém reprimiu a ideia. Ela respirou fundo e prosseguiu, num tom mais pensativo: "Talvez meses. Não sei. Mas hoje ... o dia inteiro foi muito estranho. Quer dizer, estou vendo as coisas de uma maneira estranha, como que pela primeira vez. Tudo parece diferente - nítido demais, real demais. Até as minhas mãos pareciam diferentes. Às vezes era o contrário, era como se as coisas que eu estava vendo tivessem acontecido fazia anos. E o dia inteiro eu estava furiosa com você - e comigo. Eu pensava que ia ficar feliz se nunca mais visse você nem falasse com você. Eu pensei que você ia pra faculdade de medicina e que eu ia ser feliz. Eu estava furiosa com você. Acho que era uma maneira de não pensar nisso. Muito prático, até ... ".
E deu uma risada tensa.
Disse ele: "Isso?".
Até então ela estava olhando para baixo. Quando voltou a falar, tinha os olhos voltados para ele. Robbie via apenas o brilho nos brancos de seus olhos.
"Você entendeu antes. Alguma coisa aconteceu, não é? E você entendeu antes. É como estar perto de uma coisa tão grande que a gente nem vê. Mesmo agora, não sei se estou vendo direito. Mas sei que a coisa está aí."
Ela olhou para baixo e ele esperou.
"Eu sei que está aí porque me fez fazer uma coisa ridícula. E você, é claro ... Mas hoje de manhã, eu nunca antes tinha feito uma coisa assim. Depois fiquei furiosa. Aliás, na mesma hora. Fiquei pensando que dei a você uma arma pra usar contra mim. Então, agora à tarde, quando comecei a entender - mas como é que eu pude ser tão ignorante em relação a mim mesma? E tão burra?" Ela parou de repente, tomada por uma ideia desagradável. "Você sabe do que eu estou falando. Me diga que sabe." Temia que não houvesse nada em comum na verdade, que todas as suas conclusões estivessem erradas, e que com suas palavras ela houvesse se isolado ainda mais, e que ele a julgasse uma idiota.
Ele se aproximou. "Eu sei. Sei exatamente. Mas por que você está chorando? Tem alguma outra coisa?"
Robbie imaginou que ela fosse mencionar um obstáculo intransponível, e era claro que o sentido do que ele dissera era alguma outra pessoa, mas ela não entendeu. Não sabia como responder, e ficou olhando para ele, completamente desconcertada. Por que estava chorando? Como poderia ela lhe explicar quando havia tanta emoção, tantas emoções, a dominá-la? Ele, por sua vez, sentiu que sua pergunta fora injusta, imprópria, e se esforçava para achar uma maneira de  consertar a situação Olhavam um para o outro confusos, sem conseguir falar, sentindo que um equilíbrio delicado entre eles podia ser posto a perder. O fato
De que eram velhos amigos de infância e se transformara numa barreira - sentiam-se envergonhados diante do que tinham sido no passado. Amizade entre eles havia se tornado vaga, até mesmo constrangida, nos últimos anos, mas continuava a ser um velho hábito, e quebrá-lo agora para se tornarem estranhos e assumirem uma relação íntima exigia uma firmeza de propósito que por um momento lhes faltava. Naquele instante, não parecia haver nenhuma solução que envolvesse palavras.
Robbie pôs as mãos nos ombros dela, e sua pele nua estava fresca. Quando seus rostos se aproximaram, ele não sabia se ela iria se afastar de um salto, ou lhe dar um tapa cinematográfico no rosto, com a mão aberta. Sua boca tinha gosto de batom e sal. Afastaram-se por um segundo, ele a abraçou e beijaram-se outra vez, com mais confiança. Ousados, deixaram que as pontas das línguas se tocassem, e foi então que ela emitiu o som débil, como um suspiro, O qual - ele se deu conta depois - assinalou uma transformação. Até então havia algo de ridículo em estar um rosto conhecido tão próximo do seu. Sentiam-se observados por suas próprias infâncias. Mas com o contato das línguas, daqueles músculos vivos e escorregadios, carne úmida tocando carne, e o som estranho que o contato provocou nela, tudo mudou. Aquele som pareceu penetrá-lo, percorrer seu corpo de alto a baixo, abrindo-o por inteiro, permitindo-lhe sair de si próprio e beijá-la livremente. O que antes era constrangido agora era impessoal, quase abstrato. Aquela espécie de suspiro que ela emitia era uma expressão de avidez, e tinha o efeito de torná-lo ávido também. Ele empurrou-a com força contra o canto, entre os livros. Enquanto se beijavam, com gestos lânguidos ela repuxava-lhe a camisa, o cinto. Suas cabeças rolavam uma sobre a outra, e os beijos se transformavam em mordidas. Ela o mordeu no rosto, não de todo de brincadeira. Ele afastou o rosto, depois se reaproximou, e ela o mordeu com força no lábio inferior. Ele beijou-a no pescoço, forçando-a a encostar a cabeça nas lombadas dos livros; ela puxou-lhe o cabelo e apertou o rosto dele contra seus seios. Ele procurou um pouco, sem jeito, até encontrar o mamilo, pequeno e duro, e abocanhá-lo. Todo o corpo dela enrijeceu, depois estremeceu com força. Por um momento Robbie achou que ela havia desmaiado. Os braços dela envolviam sua cabeça, e quando ela começou a apertar com força, quase a ponto de sufocá-lo, ele aprumou-se e abraçou-a, comprimindo-lhe a cabeça contra o peito. Ela mordeu-o outra vez e puxou-lhe a camisa. Quando ouviram um botão cair no chão de tábua corrida, foram obrigados a conter os sorrisos contrafeitos e desviar a vista. Uma cena de comédia os teria destruído. Ela tomou-lhe o mamilo entre os dentes. A sensação era insuportável. Robbie virou o rosto dela para cima e, prendendo-a contra suas costelas, beijou-lhe os olhos e abriu os lábios dela com sua língua. Indefesa, ela emitiu outra vez um som que parecia um suspiro de decepção.
Por fim tornaram-se estranhos, seus passados foram esquecidos. Eram também estranhos para si próprios, pois já não lembravam quem eram nem onde estavam. A porta da biblioteca era espessa e barrava todos os sons comuns que poderiam tê-los lembrado, tê-los contido. Estavam além do presente, fora do tempo, sem lembranças e sem futuro. Só existiam as sensações que tudo obliteravam, mais e mais intensas, e o som de pano sobre pano e pele sobre pano, e braços e pernas deslizando uns contra os outros naquele corpo a corpo sensual.
A experiência dele era limitada; sabia apenas, de segunda mão, que não era necessário que se deitassem. Quanto a ela, além de todos os filmes que tinha visto e dos romances e poemas líricos que tinha lido, não tinha experiência nenhuma. Apesar dessas limitações, não se surpreenderam de ver que sabiam muito bem de que necessitavam. Beijaram-se outra vez, os braços dela enlaçados atrás da cabeça dele. Ela lambeu-lhe a orelha, depois mordeu o lóbulo. Aos poucos essas mordidas iam-no excitando e irritando, instigando-o a seguir em frente. Ele tateou sob o vestido e encontrou as nádegas, apertou-as com força, virou-a para dar-lhe uma palmada em retaliação, mas não havia espaço para isso. Mantendo os olhos fixos nos dele, ela abaixou-se para descalçar os sapatos. Houve mais movimentos hesitantes, envolvendo botões e reposicionamentos de pernas e braços. Ela não tinha nenhuma experiência. Sem dizer uma palavra, ele foi guiando o pé dela até a prateleira mais baixa. Eram desajeitados, porém estavam despojados de suas individualidades a ponto de não mais sentirem vergonha. Quando ela levantou o vestido justo de seda outra vez, ele pensou que a expressão de incerteza no rosto dela espelhava a que estava estampada no seu. Mas só havia um fim inevitável, e não havia nada que pudessem fazer senão seguir naquela direção.
Apoiada contra o canto pelo peso dele, ela mais uma vez pôs as mãos entrelaçadas atrás do pescoço de Robbie, apoiou os cotovelos em seus ombros e continuou a beijar-lhe o rosto. O momento em si foi fácil. Eles prenderam a respiração antes de partir-se a membrana, e, quando a coisa aconteceu, ela desviou a vista rapidamente, porém não emitiu nenhum som - isso parecia ser uma questão de orgulho para ela. Apertaram-se um contra o outro, indo mais fundo, e então, por segundos infindáveis, tudo parou. Em vez de um frenesi de êxtase, fez-se a imobilidade. O que os imobilizava não era o fato espantoso da chegada, e sim a consciência assustadora do retorno - estavam face a face na penumbra, vendo o pouco que se podia ver nos olhos um do outro, e então foi a impessoalidade que desapareceu. Naturalmente, não havia nada de abstrato naqueles rostos. O filho de Grace e Ernest Turner, a filha de Emily e Jack Tallis, amigos de infância, colegas de faculdade, num estado de júbilo expansivo e tranquilo, confrontaram a mudança extraordinária que haviam realizado. A proximidade de um rosto familiar não era ridícula, era maravilhosa. Robbie contemplava a mulher, a moça que conhecia desde pequeno, pensando que a mudança se dera inteiramente nele, e que era tão fundamental, tão fundamentalmente biológica, quanto o nascimento. Nada de tão singular, de tão importante jamais lhe havia acontecido desde o dia em que nascera. Ela retribuiu seu olhar, deslumbrada com a consciência de sua própria transformação e maravilhada com a beleza de um rosto que o hábito de uma existência a ensinara a ignorar. Cochichou o nome dele como uma criança que experimenta os diferentes sons. Quando ele respondeu com o nome dela, parecia ser uma palavra nova - as sílabas permaneciam iguais, o significado era diferente. Ele pronunciou as três palavras simples que nem toda a arte barata e toda a má-fé do mundo conseguem trivializar de todo. Ela as repetiu, com exatamente a mesma ênfase sutil no verbo, como se fosse a primeira pessoa a pronunciá-las na história. Ele não tinha crenças religiosas, porém era impossível não imaginar uma presença ou testemunha invisível ali, não acreditar que essas palavras pronunciadas em voz alta eram como assinaturas num contrato invisível.
Estavam imóveis havia cerca de meio minuto, talvez. Para continuar assim por mais tempo, teria sido necessário que dominassem alguma arte tântrica extraordinária. Começaram a fazer amor encostados nas estantes da biblioteca, que rangiam com seus movimentos. É comum, em tais situações, a fantasia de que se está chegando em algum lugar remoto e elevado. Ele se imaginou caminhando no pico de uma montanha, um terreno liso e arredondado, entre dois picos mais altos ainda. Caminhava sem pressa, examinando os arredores, tendo tempo para se aproximar de um abismo rochoso e olhar de relance para o despenhadeiro quase vertical no qual em breve teria de se lançar. Era uma tentação saltar para o espaço vazio agora, mas ele era um homem do mundo e podia dar um passo atrás e esperar. Não era fácil, pois ele estava sendo atraído e tinha de resistir. Desde que não pensasse no abismo, não se aproximaria dele e não seria tentado. Obrigou-se a pensar nas coisas mais desinteressantes que conhecia - graxa de sapato, um formulário, uma toalha molhada no chão do quarto. E também uma tampa de lata de lixo virada para cima com dois centímetros de água de chuva dentro, e o círculo incompleto deixado na capa de sua edição dos poemas de Housman por uma xícara de chá. Esse inventário precioso foi interrompido pela voz dela. Ela o estava chamando, convidando, murmurando em seu ouvido. Exatamente. Eles pulariam juntos. Ele estava com ela agora, contemplando o despenhadeiro, e juntos viam as nuvens lá embaixo. De mãos dadas, eles cairiam para trás. Ela repetiu, murmurando em seu ouvido, e dessa vez ele a ouviu com clareza.
"Alguém entrou."
Robbie abriu os olhos. Estava numa biblioteca, numa casa, imersa num silêncio completo. Trajava seu melhor terno. Sim, tudo lhe voltou à mente com relativa facilidade. Forçou a vista, olhando por cima do ombro de Cecilia, e viu apenas a escrivaninha fracamente iluminada, tal como antes, como se a tivesse visto num sonho. De onde estavam, naquele canto, não era possível ver a porta. Mas não se ouvia nada, absolutamente nada. Ela se enganara, ele desejava desesperadamente que ela estivesse enganada; estava, sim. Virou-se para ela e ia dizer-lhe isso quando sentiu um aperto mais forte em seu braço, que o fez olhar para trás mais uma vez. Briony lentamente entrou em seu campo de visão, parou ao lado da escrivaninha e os viu. Ficou parada, apatetada, olhando para eles, os braços caídos ao longo do corpo, como um pistoleiro numa cena de duelo num western. Naquele instante de desencantamento ele se deu conta de que jamais odiara Uma pessoa até aquele momento. Era um sentimento tão puro quanto o amor, porém desapaixonado e friamente racional. Não havia nada de pessoal nele, pois teria odiado qualquer pessoa que entrasse. Estavam servindo bebidas na sala de estar e no terraço, e era lá que Briony deveria estar - com a mãe, o irmão que ela adorava e os priminhos. Não havia nenhum motivo razoável para ela estar na biblioteca, senão o propósito de encontrá-lo e negar-lhe o que era seu. Ele entendeu esse fato com clareza, sabia como havia acontecido: ela abrira um envelope fechado, lera seu bilhete e ficara enojada, e de algum modo obscuro sentira-se traída. Viera procurando pela irmã - sem dúvida movida por uma ideia grandiosa de protegê-la, ou de admoestá-la, e ouvira um ruído vindo de dentro da biblioteca fechada. Impelida pela profundeza de sua própria ignorância, imaginação pueril e retidão de menina, entrara para interrompê-lo. E nem foi preciso fazer nada - espontaneamente, eles dois já haviam se separado e virado cada um para um lado, e agora ajeitavam discretamente suas roupas. Terminara.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ian McEwan é um dos convidados da FLIP 2012, por isso estive em S.Paulo, na livraria da Vila, para comprar titulos de convidados da FLIP. Repoaração foi um deles.


 

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