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Dentes Negros

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Dentes Negros

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Autor: André de Leones

Editora: Rocco

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 143

Ano de edição: 2011

Peso: 170 g

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Ótimo
Marcio Mafra
08/08/2012 às 10:52
Brasília - DF


André de Leones, goiano de trinta e poucos anos é um escritor. Tenha certeza. Este nome tem talento. Dentes Negros é o quarto ou quinto livro do autor. O titulo que adotou para seu livro, logo de cara, remete o leitor à "Peste" de Albert Camus e também à "Ensaio Sobre a Cegueira" de José Saramago, embora a parecença não passe do titulo. O romance conta a historia de Hugo e Renata, numa paisagem vazia. Vazia de vida, vazia de gente, vazia de tudo. Uma doença misteriosa mata em poucas horas. Deixa os cadáveres com os dentes negros. A calamidade, como o governo passa a chamar o fenômeno, transforma as pequenas e grandes cidades em fantasmas tantro no nordeste, como no centro-oeste. Parece que o fim do mundo começa aqui pelo interior do Brasil. A vida dos personagens perde o sentido e o amor, os afetos, o sexo, os objetivos se banalizam, porque a morte é coisa banal, embora triste. O final da história é muito interessante, embora melancólico. Leitura boa, rápida, simples e gostosa como arroz com pequi, iguaria que os goianos tanto amam.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A historia de Hugo e Renata, sobreviventes de uma misteriosa peste que arrazou as populações nos estados do norte, nordeste e centro-oeste do Brasil. A misteriosa doença matava as pessoas em pouco tempo, cujos cadáveres ficavam com os dentes negros. Poucos são os sobreviventes que acabam se tornando melancólicos, angustiados que e banalizam seus amores, afetos e vidas, na dificil tarefa redescobrir novos ideiais para o simples viver.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Tomou um banho, bebeu bastante água e agora sai para comprar um jornal. O presidente anunciando que as estradas para as áreas afetadas estão finalmente liberadas. Os poucos sobreviventes que ainda estão por lá (cerca de 8% da população original), desde que cumpram com todas as exigências do governo (quarentena, exames, escaneamento total, mais exames), podem fazer como os outros e emigrar para as áreas livres. E alguns dos moradores das áreas livres podem finalmente visitar as áreas afetadas, desde que atendam aos dois pré-requisitos: tenham nascido em alguma cidade afetada; tivessem parentes vivos morando na região quando do início da Calamidade. Hugo atende aos dois pré-requisitos.

Ele volta à primeira página do jornal e observa a foto do presidente. Um homem assustado, por certo. Ele e boa parte dos deputados e senadores e ministros escaparam com vida porque não estavam em Brasília quando os primeiros sinais apareceram. Sobreviveram por acidente. Porque não estavam onde deveriam estar. Por acaso. Ao que parece.
A campainha do telefone vem encontrá-lo agora, onze e pouco da manhã, lendo o jornal à mesa da sala.
Eu tive um sonho esquisito, é a primeira coisa que Renata diz.
Eu também. Com o que foi que você sonhou? Meu pai. Mas eu não quero falar sobre isso. Quero? Não. Não quer. Acho que não.
Mas eu acordei tão bem.
Eu passei mal.
O porteiro me disse alguma coisa quando eu desci para comprar pão. E tinha um belo serviço na calçada. Obra sua?
Obra minha.
O que é que se passa?
Não posso beber. Mas eu vivo me esquecendo disso. Você é doente?
Todo mundo é. Não é o que você vive dizendo? Mais ou menos. Você melhorou?
Melhor agora, sim.
Quer almoçar comigo? Eu sempre almoço aqui perto de casa.
O restaurante não tem nome. Uma pequena porta aberta para uma espécie de alpendre tomado por mesas e cadeiras de metal, ventiladores afixados nas paredes, ligados e girando, e uns poucos fregueses solitários, cada qual a uma mesa, alheios a tudo. Não chega a ser uma sala comercial, mas algo como a varanda da casa de alguém improvisada para se tornar um restaurante.
Hugo e Renata sentam-se a uma mesa próxima do caixa e um garçom se aproxima. É um rapaz albino.
Boa-tarde, diz. O que vão querer?
Eu quero uma macarronada. E uma Coca-Cola em lata.
E o senhor?
Peito de frango grelhado e salada, por favor. E para beber, senhor?
Água sem gás.
Estamos sem água, senhor. Refrigerante, então. Coca-Cola. Sim, senhor.
Assim que o garçom sai para providenciar os pedidos, Renata comenta:
A água está acabando. De novo. Acho que só acabou aqui.
Não sei. Espere sempre pelo pior. Você parece conhecer o garçom. Por que diz isso?
Sei lá. Tive essa impressão.
Eu almoço aqui pelo menos uma vez por semana.
Ele é filho adotivo do dono. Meu pai jogava futebol com o dono daqui todo sábado de manhã. Formavam um time de viúvos e jogavam contra o time dos casados, o time dos solteiros e o time dos divorciados.
Uma liga, pelo jeito.
O que vai fazer amanhã? Escrever seu quadro de humor?
Estou de férias. Estão passando reprises. O programa só volta em maio.
Você quase nunca fala dele.
Do programa?
Do cara com quem você mora. É. Eu quase nunca falo dele.
Vocês moram juntos.
Quase não nos vemos.
Isso não é mais um casamento.
Não, não é. Foi, no começo. Depois foi mudando até se transformar nisso. Eu sofri um pouco, gostava dele. Depois passou. Acho que não vai demorar muito para ele dar o fora.
Mas ontem você fez questão de dizer que mora com um cara.
É porque eu moro com um cara.
Mais ou menos, pelo jeito. Vocês ainda transam? Não. Faz um bom tempo que não.
Ele deve ter outra pessoa.
Pode ser. Eu não sei.
Por que não conversa com ele e resolve isso logo de uma vez?
Ele é um bom sujeito.
O que isso quer dizer?
Que não vai ser fácil conversar com ele e resolver isso logo de uma vez.
Também não é fácil não conversar com ele e não resolver isso logo de uma vez.
Acho que tem razão.
O que você vai fazer?
Não sei. Acho que ele vai dar o fora mais cedo ou mais tarde. Acho que eu vou chegar em casa um dia e ele vai ter evaporado. Ele e as coisas dele. Eu não sei.
Você vai esperar isso acontecer? Ele é como você.
Como eu?
Passadista. Curte maconha, LSD, essas coisas.
E o que mais ele usa?
Acho que heroína, também. Mas não é sempre. Um amigo me disse que a heroína brasileira é uma das piores do mundo. Que os laboratórios são todos sujos. Subornam as agências reguladoras e sintetizam a droga de qualquer jeito. Não têm controle nenhum.
E a maconha? Não são os mesmos laboratórios?
É diferente. Muita gente usa maconha. Heroína é a droga dos novos retirantes, dos miseráveis, dos desempregados. Ela é barata. Você sabe, é um troço muito forte e muito fácil de ser sintetizado. A maior parte das pessoas que usam não tem como reclamar da qualidade. Os nossos conterrâneos se esbaldam. Ou ex-conterrâneos.
Por que "ex"?
Porque os lugares de onde viemos e de onde eles vieram não existem mais. Já falamos sobre isso.
É verdade. Já falamos sobre isso.
Um deserto no coração do país. O garçom traz o almoço.
Você se lembra do meu pai?, ela pergunta.
Sim. Ele vinha sempre, você com ele.
Eu não me lembro o que ele costumava comer. Você se lembra? Digo, quando a gente vinha aqui. O que ele comia? Você se lembra?
O garçom pensa ou finge pensar um pouco e responde:
Não. Querem mais alguma coisa? Não. Obrigada.
Enquanto come, Hugo olha para fora, para a nesga de rua que a porta estreita do restaurante lhe permite entrever. O trânsito parado outra vez. Como se tivessem combinado, ficam em silêncio durante toda a refeição. Apenas quando terminam é que ele diz:
Conheço a sua cidade.
Minha cidade?
Ibotirama. Você nasceu lá, não foi?
Foi. Vim para São Paulo com treze anos.
Eu passei por lá, por Ibotirama. Tinha uns dez anos.
Estava indo para Salvador com os meus pais, de carro. Passamos a noite em Ibotirama, em uma pensão.
Qual era o nome da pensão?
Eu não me lembro. Era bem simples e pequena, mas confortável. Eu fiquei em um quarto, sozinho, e meus pais em outro. Não tinha televisão no quarto. Passei boa parte da noite lendo.
O que você leu?
Quadrinhos.
Que quadrinhos?
Batman. As dez noites da Besta.
Vocês estavam indo para o litoral?
Era. Barra Grande. Você conhece Barra Grande?
Não.
Foi quando eu beijei uma menina pela primeira vez.
Nessas férias em Barra Grande.
Qual era o nome dela?
Fabiana. Ela era daqui de São Paulo, acho. Foi horrível quando fomos embora. Eu estava apaixonado.
Ela também?
Não sei. Acho que não.
Renata acende um cigarro. O garçom se aproxima e pergunta se pode recolher os pratos.
Pode, sim, ela diz. A falta de água é geral?
Estão racionando.
Estão sempre racionando.
Pois é. O que eu sei é que no mercado a gente só encontra engradados com a data de validade estourada.
Quando afinal deixam o restaurante e saem caminhando sem rumo pela calçada, contemplando a interminável fila de carros parados em todas as ruas da vizinhança, Hugo pensa no sonho que teve, no qual sobrevoava São Paulo e não havia sinal daquela confusão. A cidade deserta e silenciosa. Depois de nós, pensa. Depois de tudo.
Eu estava pensando, diz Renata, que a gente podia visitar o Museu da Calamidade amanhã. Você já foi lá?
Não. Nem sei onde fica.
Nos Jardins, na Lorena. Eles têm vídeos e fotos e documentos das vítimas, coisas que os sobreviventes trouxeram das áreas afetadas. Tem algumas fotos de Ibotirama lá, acredita? Deve ter alguma coisa da sua cidade, também.
Silvânia.
Silvânia? Era assim que se chamava a sua cidade? Era. Era assim.
E como era Silvânia?
Saí de lá com dezessete anos. Não foi isso que eu perguntei. Eu sei que não.
Como era Silvânia?
Feia. Pequena. Mas estava crescendo, acho. Ou não. Meus pais gostavam de lá. E meus amigos. Eu nunca gostei.

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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Em maio de 2012 estive na Livraria da Vila, em São Paulo para comprar os livros de autores que foram convidados para a FLIP. Dentes Negros de André de Leones foi um deles.


 

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