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Peixe Dourado

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Peixe Dourado

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Autor: J M G Le Clézio

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Maria Helena Rodrigues de Souza

Páginas: 210

Ano de edição: 2008

Peso: 275 g

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Ótimo
Marcio Mafra
29/08/2012 às 13:51
Brasília - DF


Peixe Dourado é o titulo do livro do J.M. Le Clézio e tem diversos significados. Peixinho dourado é um enfeite precioso que não se presta para alimentação. Mas também é um animalzinho que fica preso dentro de um pequeno espaço, não reclama, não faz barulho, passa quase despercebido. Assim foi a vida de Laila. Ela fugiu do aquário. Primeiro foi sequestrada e colocada dentro de um saco de aniagem, ocasião que apanhou muito, porque, mesmo criança tentava não ser roubada. Ficou neste saco - prá lá e prá cá - tantos dias que perdeu a noção das coisas. Naquele instante perdeu suas origens: pai, mãe, lugar de nascimento e todas as demais raízes que uma criança de 6 aninhos pode perceber. Laila, uma judia velha, a salvou quando a encontrou, num lugar qualquer, na cidade de Marrocos. Recomeçou sua vida, quando aos 14 ou 15 anos a mãe adotiva morreu. Começa então outra etapa da vida para Laila, fugindo através do mundo, sempre carregada de aventuras que só o talento extraordinário do grande escritor Le Clézio poderia contar sobre os preconceitos e violências vividos por uma menina muito bonita, fraca, negra e por ser mulher decidida e amorosa. Vale a leitura, vale o livro. Vale mais do que pesa.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da garotinha Laila que foi sequestrada, num lugar qualquer da África, quando tinha seis anos de idade. Uma velha judia, de nome Laila, a encontrou, dentro de um saco de aniagem. Ela estava aterrorizada, muda, morta de fome, num estado físico deplorável. Quando a sequestraram e a colocaram dentro do saco, ela apanhou muito, como se fora um animal capturado vivo e por isso ficou quase surda. Laila, que ao ser encontrada havia esquecido até seu nome, foi criada com carinho e atenção pela judia, de quem adotou o nome. Quando tinha 14 ou 15 anos, sua mãe dotiva morreu. Então, Laila resolve fugir e se lança no mundo, numa jornada que passa por Marrocos, Espanha, França, EUA , sendo vítima de assédios, preconceitos e violências.

 

 

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Como se passou o resto da viagem até Paris é coisa que eu não saberia lhes contar. Poder-se-ia dizer que nunca antes eu saíra de meu canto, pois passei toda a infância no pátio de Lalla Asma, e o final de uma avenida no Océan era o ponto mais distante a que eu fora até então, se excluirmos a barca para Salé e o douar Tabriket. Pois eis que agora eu viajava num grande barco veloz, atravessava a Espanha de ônibus até o Valle de Aran (um nome que jamais conseguirei esquecer) e depois seguia a pé pela montanha coberta de neve, levando a ofegante Houriya pela mão.
Sem saber aonde estávamos indo, titubeando na trilha através da montanha junto com os outros, sem nem mesmo saber seus nomes. Era cada um por si. O guia era um rapaz de jeans e tênis, tão moreno quanto as pessoas que guiava. Apesar do combinado, algumas traziam bagagem, malas ou um saco de viagem a tiracolo.
Passamos pelo desfiladeiro ao cair da tarde. A profundeza dos vales estava escondida por um tapete de bruma leitosa, uma fumaça sem fogo. Eu disse a Houriya: "Olhe, é a França. É bonito ... ".
Ela estava muito pálida. Sentia dores na barriga. O guia veio até nós. Ele a olhou. Perguntou em espanhol: "Ela está esperando bebê?". Respondi: "Não sei. Está cansada". Ele deu de ombros. Houriya os deixou partir, eu fiquei vendo o pequeno grupo descer em ziguezague pela trilha. Não falavam, não faziam barulho nenhum. Era tão bonito, esse vale aberto, o rio de bruma. Pensei que, mesmo se morrêssemos naquele momento, isso não teria a menor importância, pois teríamos estado ali, no alto daquela montanha, teríamos visto esse vale imenso, tal qual uma porta.
Não sei por quê, pela primeira vez pensei verdadeiramente em minha terra, como se ela fosse assim, como esse vale, e eu partia para longe, deixava tudo para trás. Fiquei parada, atrasei-me. A tranqüilidade tomou conta de mim, por causa da bruma, da noite que chegava. Houriya se impacientou: "Ande, ande. Vamos nos perder".
Lá em baixo o grupo esperava, à beira de um pequeno bosque.
Ouvia-se o rumor de um rio que a noite já escondia. Quando me aproximei, o espanhol se dirigiu a mim, como se me tivesse esperado para que eu traduzisse para os outros.
"Vamos dormir aqui. Vocês não podem fazer barulho, acender fogo, nem fumar, OK?" Repeti em árabe o que o espanhol dissera, e ele acrescentou: "Amanhã um caminhão levará vocês a Toulouse, até o trem". Partiu sem esperar por respostas. Ficamos sozinhos na floresta.
Lembro-me daquela noite. Após o calor do dia, quando subíamos a montanha, caiu um frio horrível, úmido, que nos transpassava até os ossos. Tentamos, Houriya e eu, nos deitar nas agulhas caídas entre os pinheiros. Mas o frio que vinha da terra me fazia bater os dentes. Não tínhamos nada, nem uma coberta sequer. Depois de alguns minutos, resolvemos nos sentar uma contra a outra, para não sentir o frio da terra. A fim de não adormecermos, contamos histórias, qualquer uma, recordações do funduq, ou então papo furado, calúnias, inventamos casos, anedotas. Eu não conseguiria me lembrar do que dissemos, só que falávamos o tempo todo, sussurrando, rindo, e às vezes nos esquecíamos e os outros se inquietavam: "Skout! Skout!".
Eles também não dormiam. À luz tênue do céu estrelado eu via que alguns se levantavam e se recostavam nas árvores. De vez em quando, ouvíamos barulho de passos sobre as agulhas dos pinheiros, alguém que se agachava para urinar.
Conseguimos dormir na caminhonete que nos levou a Toulouse. Ao romper do dia, lá estava ela na estrada, na beira do bosque, e o espanhol nos fez entrar bem depressa. Depois seguiu para a montanha, sem nem sequer um olhar ou um gesto de adeus. a caminhonete, adormeci no ombro de um jovem argelino, Abdel. Eu poderia dormir andando, tal era meu cansaço. A estrada dava voltas e voltas. Através de uma abertura no toldo, vi por instantes os altos pinheiros negros, as ruas das aldeias, uma ponte ... Depois foi a estação de Toulouse, o grande vão com o pé-direito tão alto, as plataformas onde as pessoas esperavam o trem para Paris. O motorista nos entregara as passagens, com as instruções: "Não fiquem juntos. Vão cada um para um lado, não chamem atenção". Peguei Houriya pela mão, levei-a até quase o final da plataforma, lá onde a cobertura de vidro acaba e deixa passar o sol. Só de ver o céu azul, já me senti melhor. Comemos o que sobrara do pão de Tagadirt, com as tâmaras, sentadas num banco. Fazíamos todo o possível para não chamar a atenção, mas as pessoas nos olhavam assim mesmo. Devo dizer que não tínhamos ar de gente comum, Houriya com seu longo vestido azul e seu fonara branco, e eu com minha pele negra e meu cabelo desgrenhado depois do sono. Duas verdadeiras selvagens.
Um menininho até veio se plantar diante de nós, para melhor nos inspecionar, com ar insolente. Houriya baixou a cabeça, mas fiquei com raiva e disse: "O que você quer?", e, como não se mexeu, fiz cara de quem ia partir para cima, e ele fugiu. Na plataforma, viam-se pessoas tão estranhas quanto nós. Homens e mulheres de pele escura, cabelo negro como azeviche. Mal vestidos, falando uma língua estranha, com palavras em espanhol. Houriya cochichou: "São ciganos. Viajam o tempo todo, não têm casa". Eu nunca vira ciganos antes. Eram pobres, com certa arrogância no olhar. Um deles, um jovem de rosto afilado, fixou seus olhos em mim como se não conseguisse desviá-los, e, pela primeira vez depois de muito tempo, senti meu coração bater, de medo, apreensão ou qualquer coisa parecida. Houriya me puxou pelo braço: "Não olhe, ele vai nos causar aborrecimentos". O cigano se aproximou. "Vocês vêm de onde? Estão indo para Paris?" Seus dentes brancos brilhavam no rosto escuro. Tinha uma pose desengonçada, igual à de um malandro. Houriya me levou para o outro lado da plataforma. Ela repetia: "Você é louca, Laila, você é louca! Ele é perigoso". Logo o trem chegou, e fomos empurradas por um monte de pessoas perto das portas. Encontramos lugar numa cabine vazia, e o trem começou a rodar, lentamente, deixando a estação. Eu olhava as casas que desfilavam ante meus olhos e pensava em tudo que largara, as ruas barulhentas, as casinhas amontoadas do Tabriket ou o pátio de Lalla Asma, ou ainda o funduq, com os ambulantes que antes enchiam os quartos, as arcadas, com seus fardos e suas sacas de frutas secas. Pensei que talvez um dia retornasse e que não sobraria nada de minhas lembranças, mais ninguém. O coração estava apertado, com vontade de chorar, parecia que ao partir eu perdera a última pessoa de minha família. Houriya adormecera no banco defronte a mim, apoiada em sua bolsa. De vez em quando, a luz do sol iluminava seu rosto, os olhos com os cílios tão longos fechados, a boca onde brilhavam os incisivos brancos.
Fui até o corredor fumar um cigarro. Começara a fumar no barco, porque em Melila os cigarros americanos eram vendidos sem imposto. Gostava muito de fumar do lado de fora da cabine vendo a fumaça turbilhonar com o vento. Teria vergonha se Houriya me visse e dissesse: "Você agora fuma, é?".
O trem era comprido. Não havia muitas pessoas nos vagões. Comecei a andar para a frente, de vagão em vagão, e, de repente, vi o cigano. Com certeza me seguia, pois estava sozinho, no fim do corredor. Fingi não reconhecê-la e quis voltar para minha cabina. Ele me barrou a passagem. Era alto, de pele escura e sobrancelhas bem pretas, que se juntavam no meio da testa. Sorria. Se bem me recordo, perguntou: "Como é que você se chama?". Falava francês com sotaque estranho, como um sul-americano. Depois acrescentou: "Você tem medo de mim?". Jamais gostei de presunçosos. Respondi: "E posso saber por que eu teria medo do senhor?". Ao mesmo tempo escapei, quer dizer, passei sob seu braço, abaixando-me como uma criança. Ele me seguiu. Não queria que o cigano soubesse onde estava Houriya. Parei no corredor, perto dos toaletes, e acendi outro cigarro. O cigano ficou a meu lado, olhando pela janela da porta. Os solavancos por pouco não nos derrubavam, e o barulho do trem naquele pequeno espaço era ensurdecedor. Quase gritando, ele me disse: "Eu me chamo Albonico. E você?", O vento sacudira seu cabelo e uma mecha preta, longa, escondia-lhe o rosto. De uma só olhada, percebi que tinha um dente de ouro e que usava argolinhas também de ouro nas orelhas.
Não me pareceu perigoso. Dei-lhe um nome inventado, Daisy, acho, e começamos a conversar um pouco. Ora, estávamos no mesmo trem, íamos para Paris, e, para matar o tempo, tanto servia olhar pela janela ou ler uma revista quanto conversar com ele. E eu não estava com sono. Ao contrário, sentia-me impaciente, elétrica. Ele falava de música, pois era seu trabalho. Tocava, cantava. Em certo momento, disse-me: "Espere aqui". Foi lá na frente e voltou com um violão. Colocou um pé na saliência da porta e começou a tocar. Era uma música estranha, que soava como uma corrida misturada ao barulho do trem, intercalada por notas agudas, que retiniam por segundos. Nunca ouvira nada parecido, nem em meu velho radinho. Tocava e, ao mesmo tempo, falava, cantava. Mais que isso: murmurava palavras em sua língua, ou então resmungava, com humm, ahummm, hein, assim. De repente, parou. "Isso lhe agrada, você gosta de minha música?" Eu devia estar com os olhos brilhando, pois ele recomeçou. Pessoas se aproximavam para ver, crianças vinham da outra ponta do vagão. Até um condutor, de boné e uniforme azul-escuro, parou um instante; depois seguiu em frente. Albonico se interrompeu por um segundo e disse muito rápido, entre dois acordes: "Você reparou? Quando eu toco, eles não me pedem o bilhete", como se fosse para isso que me trouxera seu violão. E eu estava com vontade de dançar, recordando-me de quando, ainda nos primeiros dias no funduq, eu dançava para as princesas, descalça nos ladrilhos frios dos quartos, enquanto elas cantavam e marcavam o ritmo com as mãos. A música do cigano era assim, insinuava-se em mim, dava-me novas forças.
Houriya apareceu. Como vocês bem podem imaginar, não ficou contente ao me encontrar em tal companhia. Disse-me em árabe, os dentes cerrados: "Venha! Você não deve ficar com esse homem". Saíra de nosso compartimento com as bolsas e meu radinho, de medo de que fôssemos roubadas. Com seu suéter marrom e o vestido azul muito comprido, parecia mesmo grávida, e aquele seu ar mal jeitoso me comoveu. Era realmente minha única família, minha irmã. Puxou-me pela mão, e o cigano, rindo, nos olhou partir. Eu o detestei por zombar de mim, de Houriya. Era tão vaidoso! Houriya não estava com medo de que eu me perdesse. Acordara sozinha em nossa cabine, e por isso teve medo. Era ela quem podia se perder sem mim. Eu a abracei apertado, sentadas em nossos assentos, para tranqüilizá-la. "Você sabe, agora estamos na França, não há nenhum risco. Ninguém vai nos achar."
Estávamos na mesma situação, ela procurada pelo marido, eu pela nora de minha mestra. Mas, a cada solavanco das rodas sobre as junções dos trilhos, mais nos afastávamos de nossos carrascos mais se alargava o mar que deles nos separava.
Eu dormia profundamente quando o trem chegou a Paris.
Era Houriya quem velava então, e ela me falou com doçura:
"Acorde, Laila, chegamos". Já era noite, vi através do vidro clarões bruxuleantes, enquanto o trem sacudia e rangia ao passar sobre as junções dos trilhos. Chovia. Eu olhava fixamente para as gotas que escorriam sobre o vidro, sem poder reagir. Devia estar com ar tão cansado que Houriya teve medo e ficou zangada: "Mas o que você tem? Acorde, precisamos desembarcar". Eu não conseguia acreditar que terminara, que aquele era o fim da viagem. A despeito de meu cansaço, teria dado tudo para que o trem tornasse a partir, para bem longe, e para que eu pudesse voltar a dormir tranqüilamente.
Pronto, estávamos em Paris, caminhando na chuva, curvadas sob o guarda-chuva dobrável de Houriya, com nossas bolsas, uma sacola de laranjas e o famoso radinho Realistic. Percorrendo os arredores da estação, procurando pousada para a noite, rue Jean-Bouton, num dos quartos mobiliados da srta. Mayer, hoje tenho a impressão de que ele nem existe mais.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Maio. Estive em S.Paulo, na Livraria da Vila onde comprei livros de autoires convidados da FLIP 2012 porque, nesta ano, não poderei ir a FLIP.

Do autor J M G Le Clézio, Nobel de Literatura 2008, trouxe dois: Peixe Dourado e Pawana.


 

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