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Absurdistão

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Absurdistão

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Autor: Gary Shteyngart

Editora: Rocco

Assunto: Romance

Traduzido por: Daniel Frazão

Páginas: 331

Ano de edição: 2008

Peso: 400 g

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Ótimo
Marcio Mafra
12/07/2012 às 22:27
Brasília - DF


Absurdistão é muito mais que uma história esculachada que beira o ridículo. Gary Shteyngart criou bem elaborada ficção, baseada no tema da transição do comunismo total para o capitalismo maluco, quando os Russos em 1985, comeram o pão que o diabo amassou na época de Glasnot e Perestroika, tempos de Mikhail Gorbachev . O personagem principal é Misha Vainberg, gordão, destemperado de corpo e de alma, corrupto, bonachão, mau caráter e herdeiro de fortuna sem carimbo de origem. Sexo e bebida comandavam sua vida. Seu pai, já falecido, quando vivia em Oklahoma, EUA, assassinou o empresário americano Roger Daltrey e por causa disso Misha não conseguia um novo visto para retornar a Nova York.  O Absurdistão fica entre a Russia e o Irã. É neste lugar que Misha acaba sendo Ministro de Assuntos Multiculturais, quando eclode uma guerra civil entre dois grupos étnicos deixando o filho do 1.238º homem mais rico da Rússia, em maus lençois. Leitura ótima. Se o leitor já esteve ou conhece San Petersburgo  ou um pouco da história russa, compreenderá com mais facilidade todas as nuances e figuras literárias que o autor coloca em seu livro. Ótimo.Xорошее чтение (boa leitura)



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A absurda história de Misha Vainberg, filho do 1.238º homem mais rico da Rússia. Misha estudava nos EUA e havia retornado a São Petersburgo para uma breve visita. Porém nunca mais conseguiu visto para os EUA porque o seu pai, já falecido, tinha assassinado Roger Daltrey, conhecido empresário de Oklahoma.  Misha herdou muito dinheiro, era um desocupado inteligente que amava comida, bebida e sexo mas tinha muitos problemas existenciais. Seu maior desejo é voltar para os EUA mas não consegue sair do Absurdistão, ainda que tenha comprado a cidadania belga.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Nas duas semanas que se seguiram à partida de Rouenna eu fiquei deitado no meu divã Mies van der Rohe, sem nada mais para fazer senão esperar pela volta do dr. Levine de sua conferência no Rio de Janeiro. Certa tarde, como se planejando minha vingança pelo possível amour  fou de Rouenna pelo maléfico Jerry Shteynfarb, eu deixei que duas estudantes universitárias asiáticas que faziam um censo me cavalgassem por cerca de cinco minutos cada. Eram de alguma província esquimó esquecida por Deus, mas tinham um perfeito cheiro russo de endro e suor. Que multiculturalismo! Até as nossas asiáticas são russas. O formulário do censo era mais chocante ainda. Ao que parece, agora vivemos num país chamado "Federação Russa".
Julho chegou e me dei conta de que seria o aniversário de dois anos de meu internamento na Rússia. Dois anos? Como passou esse tempo? Cheguei em julho de 1999, aparentemente para uma visita de verão ao meu pai, completamente alheio ao fato de que ele estava prestes a matar um empresário de Oklahoma para levar dez por cento de uma criação de nútrias. Mas isso não é toda a verdade. Quando comprei minha passagem, tive o pressentimento de que levaria muito tempo para voltar a Nova York.
Isso costuma acontecer com os russos. A União Soviética acabou e as fronteiras estão tão livres e abertas para a passagem quanto sempre estiveram. E mesmo assim, quando um russo se desloca entre os dois universos, continua a sensação de imutabilidade, a impossibilidade lógica de um lugar como a Rússia existir às margens do mundo civilizado, de Ann Arbor, em Michigan, dividir a mesma atmosfera com Vladivostok, digamos assim. É como os conceitos matemáticos que nunca entendi na escola: se, então. Se a Rússia existe, então o Ocidente é uma miragem; por outro lado, se a Rússia não existe, então e só então o Ocidente é real e tangível. Não é de espantar que os jovens falem em "atravessar o cordão" quando se referem a emigrar, como se a Rússia fosse cercada por um vasto cordão sanitário. Ou você fica na colônia de leprosos ou sai para o grande mundo e talvez espalhe suas doenças para outros.
Lembro de quando voltei. Um dia chuvoso de verão. O avião da Austrian Airlines inclinou a asa esquerda e pela janelinha tive o primeiro vislumbre da minha terra natal depois de ter vivido quase dez anos nos Estados Unidos.
Sejamos precisos: a Guerra Fria teve um lado vencedor e um perdedor. E o lado perdedor, como qualquer outro da história, teve suas terras arrasadas, seu ouro espoliado, seus homens forçados a cavar valas em grandes cidades longínquas, suas mulheres recrutadas para servir ao exército vitorioso. Da janela do avião eu vi a derrota lá embaixo. Subúrbios desertos e cobertos de vento. A superfície cinzenta de uma fábrica cortada em duas por alguma força inominável, suas chaminés precariamente curvadas. Um círculo de prédios dos anos 1970, cada qual afundando no átrio circular que os separava, como um bando de velhos conversando.
A derrota era visível no semblante dos rapazes de AK-47 que guardavam o terminal internacional dilapidado, aparentemente para os ricos passageiros de nosso vôo da Austrian Airlines. Derrota no Controle de Passaportes. Derrota na alfândega. Nos homens tristonhos do meio-fio com seus Ladas amassados que imploravam para nos levar até a cidade por alguns trocados, derrota. Mesmo assim, no rosto do Amado Papai, seco como ameixa, estranhamente sóbrio, com um brilho vil familiar, havia algo assim como uma incumbência de vitória. Ele fez cócegas na minha barriga e deu um safanão viril no meu khui. Apontou com orgulho para o comboio de Mercedes pronto para nos levar até o seu kottedzh de quatro andares no golfo da Finlândia.
- Nada mal esses novos tempos - ele disse. - Como uma história de Isaac Babei, mas não tão engraçada.
Por suas atividades sionistas dissidentes em meados dos anos 1980 (principalmente por ter seqüestrado e depois urinado no cachorro anti-semita do nosso vizinho na frente do prédio da KGB de Leningrado), meu pai foi sentenciado a dois anos de prisão. Era o melhor presente que as autoridades puderam lhe dar. Os meses que papai passou na cadeia foram os mais importantes de sua vida. Como todo judeu-soviético, ele estudou para ser engenheiro mecânico em uma das universidades de segunda da cidade e ainda assim era um proletário ardiloso por natureza, não muito diferente dos seus novos companheiros de cela de pescoço oleoso e nariz cabeludo. Em seu elemento, papai assumiu o discurso de bandido. Maquinou tudo quanto é tipo de trambique que envolvia cigarros na prisão. Transformou migalhas de pão em sapato engraxado e sapato engraxado em vinho. Contrabandeou exemplares da Penthouse, grudou as páginas centrais nas costas de um presidiário com quadris femininos e o alugou à hora. Quando o Amado Papai saiu da prisão, aconteceram duas coisas:
Gorbatchov acabou com grande parte daquele incômodo e infrutífero comunismo com lingeries e televisores vagabundos, e o Amado Papai conheceu todo tipo de gente que precisava conhecer em sua reencarnação como oligarca russo. Todos os georgianos, tártaros e ucranianos com aquele espírito empreendedor tão venerado pelo consulado americano. Todos os inguchétios, ossetianos e chechenos indiferentes à violência pública que gerou a conhecida e explosiva Rússia de hoje. Esses homens eram capazes de distribuir porrada, estrangular prostitutas, falsificar formulários da alfândega, roubar caminhões, explodir restaurantes, abrir fábricas de armamentos, comprar canais de Tv, concorrer ao Parlamento. Ah, eles eram kapitalists, sem dúvida. Quanto a papai, ele também tinha coisas a oferecer. Uma boa cabeça de judeu e as habilidades sociais de um alcoólatra.
E mamãe estava morta. Ninguém mais para bater na cabeça dele com uma frigideira. Sem mamãe, sem poder soviético, sem nada pelo que lutar - ele podia fazer o que quisesse. Do lado de fora dos portões da prisão, um chofer com um sedã Volga o aguardava, daquele tipo que costumava transportar os aparatchiks soviéticos. E parado à sombra do Volga, com as mãos nos bolsos da calça e lágrimas gordas e adoráveis nos olhos, o seu gigantesco filho circuncidado.
O aniversário de dois anos do meu próprio aprisionamento na Rússia passou sem cerimônia. Julho passou em questão de dias; as Noites Brancas não eram mais brancas, o descolorido céu noturno deu lugar a uma paleta de genuíno azul, a loucura sazonal dos meus empregados - seus gritos luxuriosos e freqüentes acasalamentos - se reduziu. E eu ainda não tinha saído da cama. Esperava pelo meu analista.
No dia em que finalmente o dr. Levine voltou do Rio, a viúva Vainberg ligou para mim, pedindo uma audiência, sua voz uma harmonia de tristezas e pavores:
- O que faço, Misha? - choramingou Liuba. - Me ensine a fazer  o shivá para os mortos. Como é o costume judaico?
- Você está sentada numa caixa de papelão? - perguntei.
- Estou sentada numa torradeira quebrada.
- Serve. Agora cubra todos os espelhos. E é melhor não comer carne de porco por alguns dias.
- Estou completamente sozinha - ela disse com uma voz enfraquecida e automática. - Seu pai se foi. Preciso de uma mão masculina para me guiar.
Esse tipo de conversa antediluviana me deixava ansioso. Mão masculina? Jesus Cristo. Mas aí lembrei de Liuba no enterro do meu Amado Papai tentando avançar em cima de Oleg, o Alce. Fiquei triste por ela.
- Onde você está, Liuba?
- No kottedzh. Os malditos mosquitos estão me matando. Ai, Misha, tudo me lembra o seu pai. Como esse candelabro judaico de sete velas e as caixinhas pretas que ele usava enroladas em volta dos braços. O judaísmo é tão complicado.
- É complicado, sim. Perdi metade do meu khui por causa dele.
- Você pode me visitar? - ela perguntou. - Comprei umas toalhas laranja.
- Tenho que descansar um pouco, sladkaia - eu disse. - Talvez daqui a uma semana ou duas.
Ah, Liuba. O que seria dela? Tinha 21 anos. O auge de sua beleza já passara. E como a chamei? Sladkaia? Minha querida?
Timofey chegou se arrastando, com um débil sorriso servil suspenso em sua fisionomia carrancuda.
- Eu lhe trouxe outro vidro de Ativan da clínica americana, batyushka - ele disse, brandindo uma grande sacola de remédios. Sabe, o patrão do Priborkhin também estava deprimido e não saía da cama, mas depois de tomar um pouco de Zoloftushka e Prozakchik, ele foi correr com os touros na Espanha!
- Não entendo nada desses inibidores de serotonina seletiva retruquei. - Acho que por enquanto vou me limitar aos ansiolíticos. - Só quero ver batyushka sorrindo e atirando o sapato em mim com vontade - disse Timofey, arqueando o máximo que sua frágil coluna permitia.
Liguei para o dr. Levine do meu mobilnik. Nossas consultas começavam às cinco da tarde, horário de São Leninsburgo, o que significava manhã na Park Avenue, com seus vigorosos gramados americanos circundando a paisagem, a procissão de carros escuros levando os bem-sucedidos até o centro da cidade, todos elegantemente vestidos e sem sangue nas mãos. Ou pelo menos não muito sangue.
Imaginei o dr. Levine - o rosto semita bronzeado pela praia de Ipanema, a barriga perfeitamente arredondada pelo consumo criterioso de churrasco e feijão-preto - olhando por cima do divã de couro à sua frente; o viva-voz ligado, o consultório cercado pelas fotografias das coloridas tendas sioux, talvez sugerindo um atalho para um "self" melhor, essa barraquinha apertada dentro do meu coração.
- Estou me sentindo pés-si-mo, doutor - uivei pelo meu mobilnik.
- Um monte de sonhos com o meu pai e eu remando num barco pelo Mississippi, e depois damos no Volga e em um rio africano. Outras vezes sonho que estou comendo pierogi e o meu falecido papai está dentro dele. Como se eu fosse um canibal.
- O que vem à sua mente em relação a isso? - perguntou o dr. Levine.
- Sei lá. Meu criado diz que eu devia começar a tomar uns tranqüilizantes.
- Vamos esperar mais ou menos uma semana antes de pensar na sua receita. - A voz humana do dr. Levine estalava em meus ouvidos pela distância incompreensível entre o aqui e o lá. Eu queria me aproximar e abraçá-lo através do espaço, mas isso é papo de transferência. A verdade é que tínhamos uma rígida Regra de Sem Abraços em nossos encontros. - Como estão as crises de pânico? - ele perguntou. - Você está tomando o Ativan?
- Estou, doutor, mas andei mal! Misturei com álcool, e não devia ter feito isso, não é?
- Não devia mesmo. Você não pode misturar Ativan com álcool.
- Pois é, fiz mal!
Silêncio. Eu quase podia ouvi-lo limpando o seu delicado e protuberante nariz. O pobre coitado tem alergia no verão - sua única fraqueza. O dr. Levine está com cinqüenta e poucos anos, mas, como muitos americanos da mesma classe social, ele tem o peito definido de um jovem atlético de 25 anos e um traseiro firme, talvez até ligeiramente feminino. Não sou homossexual, ainda assim sonhei várias vezes que comia apaixonadamente a bunda dele; meu corpanzil em cima daquele corpinho, minhas mãos acariciando aquele rosto de barba grisalha.
- Seu desejo é que eu diga que você está mal? - disse o dr. Levine com toda calma pelo telefone. - Seu desejo é que eu afirme que você é responsável pela morte do seu pai?
- Caramba, não é isso - rebati. - Quer dizer, de certa maneira sempre torci pra que ele morresse ... Claro, entendi o que você disse. Claro, merda, é isso ... sou um mau filho, muito mau.
- Você não é um mau filho - replicou dr. Levine. - Acho que parte do seu problema nos últimos dois anos é que você realmente não faz nada do seu tempo. Você não tem sido produtivo como era em Nova York. E obviamente a morte do seu pai não ajuda em nada.
- É - eu disse. - Pareço o Oblomov, aquele personagem que nunca sai da cama. Que tristeza.
- Eu sei que você não quer ficar na Rússia - disse o dr. Levine -, mas até que descubra um modo de sair, é preciso aprender a lidar com a situação.
- Hã-hã - murmurei enquanto abria o outro vidro de Ativan.
- Tente se lembrar de como você ficava me dizendo que Moscou é bonita quando estava aqui em Nova York ... - Na verdade é São Petersburgo.
- Isso - disse o dr. Levine. - São Petersburgo. Por que então você não começa a sair para uma caminhada? Admire um pouco toda essa beleza que você ama. Tire um tempo para relaxar e se distrair com outra coisa que não sejam os seus problemas.
Pensei em passar um dia nos agradáveis Jardins de Verão, chupando picolé debaixo da estátua beligerante de Minerva. Eu devia ter comprado muito mais sorvetes quando Rouenna estava aqui, embora consumíssemos pelo menos cinco por dia. Se ao menos a tivesse tratado melhor, talvez ela não tivesse dormido com aquele desgraçado do Jerry Shteynfarb, talvez ela tivesse ficado comigo na Rússia.
- É isso mesmo - eu disse. - É isso que tenho que fazer ... Exatamente isso. Vou vestir minha roupa de caminhada agora mesmo. - E então, antes que viesse a reprimir a transferência, eu extravasei: - Eu te amo de verdade, doutor ...
E depois comecei a chorar.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Em maio de 2012 fui até a Livraria da Vila, em São Paulo, para comprar alguns livros dos autores convidados da FLIP, porque neste ano não poderei comparacer ao evento. Absurdistão foi um deles


 

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