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Passageiro do Fim do Dia

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Passageiro do Fim do Dia

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Autor: Rubens Figueiredo

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 197

Ano de edição: 2010

Peso: 270 g

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Bom
Marcio Mafra
14/07/2012 às 22:15
Brasília - DF


“Passageiro do fim do dia”, o título que Rubens Figueiredo adotou para seu livro, conta – no sentido físico, rodoviário, romântico e filosófico - a história de Pedro, que faz uma viagem de ônibus, desde o centro da cidade, onde trabalha, até o subúrbio de Tirol, onde mora Rosane, mulher quase interessante, com quem mantem um relacionamento quase amoroso. Durante a viagem, quando o tráfego e o trajeto permitem a leitura, Pedro saca da mochila o livro de Charles Darwin, naturalista britânico, pai da teoria da evolução, um livro significativo em sua vida. A viagem ou o trajeto possui todas as características de um transporte de ônibus típico de qualquer cidade do Brasil: pobre, sujo, cansativo, lotado, longo e desconfortável. A viagem começa numa parada da cidade e só termina ao chegar no bairro Tirol. O livro também é assim: um capítulo que só termina no ponto final. Ponto gramatical e ponto físico. A narrativa segue o mesmo modelo: viagem comprida e quase interminável, onde seu principal personagem vai desfiando os acertos, desacertos, alegrias e prazeres da vida dele e dos outros. Romance bem escrito, bem arquitetado, bem imaginoso, com cortes inteligentes e instigantes, mas tão enfadonho como enfadonhos são os ônibus e os trajetos que ligam as cidades e os subúrbios.   



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Pedro que no final de semana, toma um ônibus, para ir à casa de Rosane, com quem mantem um relacionamento. Ele termina a sua jornada de trabalho num sebo, no centro da cidade, onde comercializa livros usados e vai para o bairro Tirol, um subúrbio distante de sua cidade.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Onde Pedro morava e sempre havia morado, e também onde Júlio morava e lá onde trabalhava, no centro da cidade, por exemplo, não havia essas fogueiras. Ninguém, muito menos crianças, acendia fogo assim à toa na rua, para ficar olhando - chamas altas, alaranjadas - um olho sempre aceso e aberto, e voltado para eles, um olho que cresce no meio do caminho, no meio da rua, um olho que quer e exige ser olhado de frente.
Rosane, numa noite de sexta-feira, ao voltar do pequeno supermercado para casa junto com Pedro, explicou que um dos meninos que eles viram perto de uma fogueira não sabia contar os dedos da mão. Não sabia nem quantos anos tinha. É sim, não acredita? Pergunte para ele você mesmo, você vai ver. Já falei Com um que nem sabia dizer direito os dias da semana.
Sem camisa, descalços, só de bermuda, cabeça raspada, alguns meninos não sabiam distinguir o valor das notas e das moedas nem pelas figuras estampadas e, para fazer os negócios perigosos que os adultos ou os adolescentes confiavam a eles nas ruas e nos becos, às vezes vinham perguntar a Rosane, pedir sua ajuda. Desembolavam as cédulas diante dela, sobre a pele rosada da palma da mão pequena, entre os dedos abertos. O papel das notas sempre cheio de rugas, a tinta de impressão às vezes chegava a estar quase gasta nas marcas onde a nota tinha sido espremida com força entre os dedos suados. E, uma vez aberta, desdobrada a nota, dali de dentro daquela espécie de planta murcha quase sempre exalava um odor azedo, curtido, parecido com um fedor de carniça, um cheiro chupado de muitas mãos, de muitos poros, um cheiro que só o dinheiro tinha e bafejava no ar o tempo todo.
Pistola, revólver, até um fuzil Rosane já tinha visto nas mãos de alguns daqueles meninos - ela contava. Não era comum, não era todo dia nem toda hora, mas numa noite de sexta-feira, enquanto Pedro vinha com ela e puxava o carrinho de duas rodas, feito de arames de alumínio e cheio de compras quase até em cima, Rosane viu sentado na beira da rua, a uns cinco passos de uma fogueira, um menino de uns dez anos. Tinha a mão enrolada por uma atadura meio suja de terra, com a ponta vermelha e uma parte da gaze branca já começando a soltar fiapos. Tinha uma testa estranha, muito saliente, o que deixava os seus olhos um pouco escondidos embaixo das sobrancelhas. Por meio de palavras que Pedro nem sempre conseguia entender e que Rosane depois traduziu, o menino contou que tinha fugido do hospital naquele dia.
Contou que uns dias antes - cinco, dez, ele não sabia - ele estava sentado ali mesmo, na beira da calçada, com uma espécie de fuzil pequeno, fabricado na oficina improvisada de um armeiro com pedaços de outras armas e até peças adaptadas de outros objetos. Estava com a arma em pé, apontada para cima, entre as pernas meio abertas - assim, olha - e para mostrar, ergueu, no espaço entre as pernas miúdas, a mão livre e também a mão enrolada na atadura, segurando o vazio, o ar, na posição em que, dias antes, tinha segurado a arma. Aconteceu naquele dia de ele querer mostrar a um outro garoto como se carregava o pente de balas naquele fuzil engraçado, meio diferente.
O menino até agora não entendia ou não conseguia explicar o que tinha ocorrido. Só sabia dizer que de repente o fuzil disparou e, depois da explosão, depois de um calor na cara que chamuscou suas pestanas e suas sobrancelhas e depois de alguns segundos às cegas e entontecido, ele sentiu um cheiro ardido comer seu nariz por dentro e, por último, viu que tinha perdido três dedos da mão direita. Ergueu a mão enfaixada e mostrou para Rosane.
Pedro, escorando na coxa o carrinho de compras de duas rodas para ele não inclinar e tombar por causa de um buraco na calçada, notou que naquele relato feito às pressas, sem susto, sem ênfase, havia uma coisa estranha. Havia algo que chamou sua atenção com mais força do que o tiro, com mais urgência do que o ferimento e que os dedos. Pelo rosto, pela respiração, pela voz, Pedro entendeu que, para o menino, o que havia ocorrido três ou cinco dias antes parecia não ser nada: ele não tinha sido atingido pelo tiro, não houve tiro nenhum e ele não tinha perdido nada - os dedos não eram nada, aqueles dez dias não eram nada, assim como a rua toda não era nada, assim como as casas em volta - e o que mais?
Os cantos dos olhos do garoto estavam vermelhos, pareciam inflamados. Pela narina, começava escorrer a ponta de uma secreção esbranquiçada. O clarão da fogueira de vez em quando rebatia com mais força no rosto e no peito do garoto. Por um instante a pele nua brilhava cor de brasa, depois escurecia de novo. O menino falava e olhava para eles rápido, meio por alto, n1as ainda com uma espécie de apelo, de brandura, como quem espera e pede aprovação, aplauso. Não acham isso bom? E Pedro via muito bem: o menino não ia parar, não ia sossegar. Ele ia bater e sacudir para todos os lados tudo aquilo que, por acaso, estivesse ao seu alcance.
O bom mesmo, explicou o garoto, foi ter fugido do hospital, onde queriam que ele ficasse parado numa cama e viviam lhe dando broncas e injeções por dentro de um tubo enfiado no braço. Pelo menos serviram bastante comida. Só que não queriam deixar que ele comesse com a mão e que catasse a comida no prato com os dedos, como ele preferia fazer. E agora, então, com a mão direita toda enfaixada ... Doía no braço, por dentro, havia ali uma dor, está certo, o menino sabia, tinha de admitir - de vez em quando contraía o nariz, franzia os olhos, fazia uma careta rápida. Alguma dúvida, então, passava por ele. Mas, num esforço, logo se refazia e, com o nariz levantado, as narinas abertas, deixava claro: nem para isso ele ligava. Não era da sua conta. Se doía, doía à toa: não era nada.
Muito rápido, uns dois minutos, três no máximo - Rosane sabia que não convinha ficar ali na rua conversando com o menino mais tempo. Meteu a mão no carrinho de compras, pegou um pacote de biscoito e deu para ele. Mesmo assim, bastaram aqueles minutos para Pedro. Depois, na sua memória, o intervalo pareceu mais longo. Quando entrou com o carrinho de compras na casa de Rosane e o puxou com as duas mãos firmes para as rodas subirem devagar os dois degraus de concreto cheios de rachaduras, na porta de entrada, Pedro tinha no pensamento a figura bem desenhada do menino: uns vinte e sete, trinta quilos, no máximo, as costelas visíveis embaixo da pele esticada do tórax, músculos redondos nos ombros estreitos, pulsos finos, de aspecto quase quebradiço, e uns movimentos que queriam ser largos, uns gestos sedentos de chegar longe, uma voz que se esticava aos saltos, voz e gestos que não sabiam a que se prender.
Por um segundo, Pedro desconfiou que pensava e realçava tudo isso para não pensar no acidente. Por um segundo, chegou a admitir que empurrava para longe a lembrança do ferimento e a previsão de suas conseqüências para o garoto. Reconheceu que sua vontade era isolar, neutralizar de algum modo aquela notícia, aquela idéia, que no entanto continuava na sua frente. Pedro parecia ter medo de que pensar nos dedos do menino terminasse por ser o mesmo que arrancá-los mais uma vez - pensar no tiro seria dar mais um tiro - e ele previa e temia o estampido, a explosão, as sobrancelhas chamuscadas.
Pedro estacionou o carrinho de compras junto à porta da cozinha e começou a retirar os sacos plásticos cheios de mercadorias. Remexidos nas suas mãos, os sacos teimavam em emitir um barulho estridente, um chiado semelhante ao de água e de uma chuva forte, um som tão alto que enchia a cozinha inteira, ressoava nas paredes ladrilhadas e em certos momentos encobria as vozes dos dois - dele e de Rosane. Um a um, retirou todos os produtos dos sacos e entregou para Rosane.
Ela guardou alguns nas duas prateleiras do armário sem portas que ficava embaixo da pia, pôs outros dentro da geladeira que, toda vez que era aberta, lançava uma luz amarela no chão e na parede da cozinha - pôs outras mercadorias em cima da geladeira e as últimas numa prateleira feita de azulejos velhos, junto ao tanque, na área minúscula onde lavava a roupa. Rosane separou também o papel higiênico para depois guardar no banheiro. Havia bananas, laranjas, havia leite numa garrafa de plástico com a palavra "saúde" estampada. Havia repelente de mosquito, uma ratoeira e pregadores de roupa. Um pacote de biscoito, em cores brilhantes demais e com um nome em inglês, tinha a foto da cara de uma mulher sorrindo, com imensos dentes de louça.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Rubens Figueredo foi convidado para a FLIP de 2012, em Parati RJ. Como nesse ano eu não poderia comparecer, me antecipei a visitei a Livraria da Vila, em São Paulo no dia 24 de maio e adquiri Passageiro do Fim do Dia, livro que mereceu o Prêmio São Paulo de Literatura de 2011.


 

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