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Deus Não É Grande

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Deus Não É Grande

Livro Excelente - 2 opiniões

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Autor: Christopher Hitchens

Editora: Ediouro

Assunto: Ateismo

Traduzido por: Alexandre Martins

Páginas: 284

Ano de edição: 2007

Peso: 390 g

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Excelente
Elias Marinho
11/09/2012 às 12:00
Santa Maria - DF


O teor deste comentário, inevitavelmente, refletirá meu atual estado de espírito que, após a leitura de dois livros que desmontaram as minhas bases religiosas, só poderia estar em frangalhos. Após a leitura de Deus, um delírio de Richard Dawkins, era necessário ler este livro que, embora tratem do mesmo assunto, gostei mais deste pois sua leitura é mais fácil. O fato se explica porque este autor era um jornalista enquanto que o primeiro é um cientista, o que faz toda a diferença.



Somente comecei a ser fisgado por este livro depois de algumas dezenas de páginas, pois o autor começa de maneira tímida me fazendo pensar que se tratava de alguém com pudores de falar mal da religião. Engano momentâneo, pois daí pra frente você recebe uma avalanche de críticas aguçadas e sarcásticas dos males da religião, todas muito bem colocadas de maneira lógicas e racionais, que inevitavelmente você é obrigado a concordar.



Assim como o livro do Dawkins, o leitor que já tiver uma conhecimento prévio de assuntos gerais, principalmente de religiões terá mais facilidade para compreender esta obra. Pois o autor, em diversas passagens, simplesmente dá uma "porrada" em alguém ou em algum assunto religioso e vai embora, sem se preocupar com muitas explicações, e o leitor que não tiver uma ideia do que ele está falando poderá ficar perdido. O autor deve ser chamado de, no mínimo, corajoso sem ser leviano, pois alguém falar mal de pessoas como Matin Luther King e Madre Tereza de Calcutá, eu nunca tinha visto. 



Destaco uma falha que, embora não comprometa a beleza da obra, que é a pontuação, que deixa muito a desejar principalmente quando se trata de vírgulas, certamente, essa falha deve ser fruto da tradução, porém, isso é coisa que somente as pessoas chatas (que nem eu) perceberão.



O leitor pós Deus Não é Grande certamente será um crítico mais esclarecido em relação às religiões, suas origens, importância e suas reais intenções.



É um livro excelente



Excelente
Marcio Mafra
30/01/2012 às 22:28
Brasília - DF


Não é fácil nem simples comentar o livro de Christopher Hitchens sobre – talvez - o mais conflitante dos temas, desde quando o mundo é mundo: ateísmo e deismo. Conflito total. O conflito se nota já no sub título do livro: " Como a religião envenena tudo". O autor, um inglês educado em Oxford, que morreu em dezembro de 2011 e trabalhou a vida inteira nos EUA era um jornalista muito famoso e elaborou um espetacular ataque a todos os aspectos da religião. A estrutura do livro é recheada de polêmicas que embasam - praticamente - toda sua argumentação. Ele cita muitas passagens bíblicas para demonstrar as inconsistências dos evangelhos e dar força aos argumentos a favor do ateísmo. Também coloca a sua versão sobre os “mal feitos” de papas católicos e também de autoridades eclesiásticas de outras religiões, que são passagens curiosas e divertidas. Hitchens não poupa sequer os mulçumanos e – sem cerimônia - desce o sarrafo no Alcorão. Fica a sensação de que o autor se posicionou na ala dos grandes escritores, mais ou menos contemporâneos, que com seus livros encorajam os ateus a sair “do armário”, entre eles: Nietzsche, Bertrand Russel, e mais recentemente Richard Dawkins. Certamente devido a formação jornalística do autor o livro é quase uma reportagem. Estilo leve, resumido, irônico e concludente. Como tema, vale mais do que pesa. Como livro é excelente, embora seja inevitável que o leitor compare “Deus não é grande” com “Deus um delírio”. Este de Richard Dawkins.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A narração demonstrativa de como a religião envenena tudo, além da negação sobre a existência, onisciência, onipotência e onipresença de Deus, passando pelos dogmas, as origens e liturgias das principais religiões monoteístas.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Se o pretenso leitor deste livro quiser ir além de sua discordância com seu autor e tentar identificar os pecados e as deformações que o levaram a escrevê-lo (e eu certamente percebi que aqueles que defendem publicamente a caridade, a compaixão e o perdão freqüentemente tendem a seguir esse caminho), estará não apenas discutindo com o criador desconhecido e inefável que - supostamente - escolheu me fazer assim. Também estará profanando a memória de uma mulher boa, sincera e simples, de fé sólida e decente, chamada Sra. Jean Watts.
A missão da sra. Watts, quando eu era um garoto de cerca de 9 anos e freqüentava a escola na periferia de Dartmoor, no sudoeste da Inglaterra, era me dar aulas sobre a natureza e também sobre as Escrituras. Ela levava meus colegas e a mim para caminhadas em uma região especialmente adorável de meu belo país natal e nos ensinava a distinguir os diferentes pássaros, árvores e plantas uns dos outros. A variedade impressionante encontrada em uma sebe; a maravilha de um punhado de ovos descoberto em um ninho intrincado; a forma como, quando as urtigas irritavam suas pernas (nós tínhamos de usar bermudas), havia à mão uma suavizante folha de labaça: tudo isso ficou na minha cabeça, assim como o "museu do guarda florestal", onde os camponeses expunham cadáveres de ratos, doninhas e outros animais nocivos e predadores, supostamente fornecidos por uma divindade menos gentil. Se você ler os eternos poemas rurais de John Clare, vai captar a idéia que eu estou tentando transmitir.

Em aulas posteriores nós recebíamos uma folha de papel impressa intitulada "Busque as Escrituras": que era enviada para a escola por qualquer que fosse a autoridade nacional que supervisionava o ensino de religião. (Isso, juntamente com as orações diárias, era obrigatório e cobrado pelo Estado.) A folha continha um único versículo do Velho ou do Novo Testamento, e a tarefa era olhar a folha e depois contar à turma ou à professora, oralmente ou por escrito, qual era a história e a moral. Eu costumava adorar o exercício, e era muito bom nele, de modo que (como Bertie Wooster) freqüentemente era o "melhor" da turma de Escrituras. Foi minha primeira experiência com crítica prática e literária. Eu lia todos os capítulos que levavam àquele versículo, e todos os que se seguiam a ele, para estar certo de que tinha chegado ao "ponto" do mistério original. Eu ainda consigo fazer isso, para grande aborrecimento de alguns de meus inimigos, e ainda tenho respeito por aqueles cujo estilo é algumas vezes desprezado como sendo "meramente" talmúdico, corânico ou "fundamentalista”. É um exercício mental e literário bom e necessário.

Mas chegou o dia em que a pobre sra. Watts se superou. Tentando ambiciosamente fundir seus dois papéis - de instrutora da natureza e professora da Bíblia -, ela disse: "Então vocês vêem, crianças, quão poderoso e generoso é Deus. Ele fez todas as árvores e a grama verdes, que é exatamente a cor mais repousante a nossos olhos. Imaginem se em vez disso toda a vegetação fosse roxa ou laranja, como seria horrível”
Agora, vejam o que aquela velha idiota devota tinha tentado. Eu gostava da sra. Watts: ela era uma afetuosa viúva sem filhos que tinha um velho sheepdog amistoso batizado de Rover e nos convidava para lanches depois da escola em sua velha casa meio arruinada perto da linha do trem. Se Satanás a escolheu para me levar ao erro, ele era muito mais inventivo do que a cobra insinuante do Jardim do Éden. Ela nunca ergueu a voz ou foi violenta - o que não pode ser dito de todos os meus professores - e, em geral, era uma daquelas pessoas cujo túmulo está em Middlemarch, * das quais se pode dizer que, se "as coisas não estão tão ruins entre mim e você como poderiam estar': isso "em parte se deve ao número dos que levaram fielmente uma vida oculta e repousam em túmulos não visitados”.
Contudo, fiquei sinceramente horrorizado com o que ela disse. Minhas pequenas sandálias presas nos tornozelos se contorceram de constrangimento por ela. Aos 9 anos de idade eu ainda não tinha uma concepção do conceito do projeto inteligente, ou da evolução darwiniana em oposição a ele, ou da relação entre fotossíntese e clorofila. Na época os segredos do genoma estavam tão escondidos de mim quanto de todos os outros. Eu ainda não tinha visitado cenas da natureza em que praticamente tudo era hediondamente indiferente ou hostil à vida humana, quando não à própria vida. Eu simplesmente sabia, quase como se tivesse acesso privilegiado a uma autoridade superior, que minha professora tinha conseguido estragar tudo com apenas duas frases. Os olhos dela estavam ajustados à natureza, não o contrário.
Não vou fingir que me lembro de tudo perfeitamente, ou em seqüência, depois dessa epifania, mas em um tempo relativamente curto eu também comecei a perceber outras esquisitices. Se Deus era o criador de todas as coisas, por que deveríamos "louvá-lo" de forma incessante por fazer o que para ele tinha sido tão natural? Isso, além de qualquer outra coisa, parecia servil. Se Jesus podia curar um cego que tinha conhecido, por que não podia curar a cegueira? O que havia de maravilhoso em expulsar demônios para que eles pudessem entrar em um rebanho de porcos? Aquilo parecia sinistro: parecia mais magia negra. Apesar de todas aquelas orações constantes, por que não havia resultados? Por que eu deveria continuar a dizer publicamente que era um miserável pecador? Por que o tema do sexo era considerado tão venenoso? Desde então eu descobri que essas objeções vacilantes e pueris eram extremamente comuns, em parte porque nenhuma religião consegue oferecer uma resposta satisfatória a elas. Mas também se apresentou uma outra, ainda maior. (Eu digo "se apresentou" em vez de "ocorreu a mim" porque essas objeções são, além de insuperáveis, inescapáveis.) O diretor, que conduzia os serviços religiosos e as orações diárias e tomava conta do Livro, era um sádico e um homossexual enrustido (que desde então eu perdoei porque ele despertou meu interesse por história e me emprestou meu primeiro exemplar de P. G. Wodehouse), e certa noite falou uma coisa absurda. "Talvez vocês não vejam sentido em toda essa fé hoje", disse ele, "mas verão um dia, quando começarem a perder entes queridos”.
Mais uma vez eu experimentei uma pontada de pura indignação, bem como de descrença. Isso era como dizer que a religião podia não ser verdade, mas não ligue, pois era possível contar com ela para conseguir consolo. Quão desprezível. Eu tinha então quase 13 anos e estava me tornando um intelectualzinho insuportável. Eu nunca tinha ouvido falar em Sigmund Freud - embora ele pudesse ter sido muito útil a mim para compreender o diretor -, mas eu tinha acabado de ter um vislumbre de seu ensaio “O futuro de uma ilusão”.
Estou infligindo tudo isso a vocês porque não sou daqueles cuja possibilidade de uma crença sólida foi destruída por abuso infantil ou doutrinação violenta. Eu sei que milhões de seres humanos tiveram de suportar essas coisas e não acho que as religiões possam ou devam ser absolvidas por terem imposto tais sofrimentos. (No passado recente nós vimos a Igreja de Roma desonrada por sua cumplicidade com o pecado imperdoável do estupro de crianças, ou, como poderia ser dito, "nenhuma retaguarda preservada”. Mas outras organizações não-religiosas cometeram crimes semelhantes, ou ainda piores.
Permanecem quatro objeções irredutíveis à fé religiosa: (1) ela representa de forma inteiramente equivocada a origem do homem e do cosmos; (2) por causa de seu erro original ela consegue combinar o máximo de servidão com o máximo de solipsismo; (3) ela é ao mesmo tempo resultado e causa de uma perigosa repressão sexual; (4) e ela, em suma, se baseia em pensamento positivo.
Não acho que seja arrogância minha dizer que já tinha descoberto essas quatro objeções (assim como percebido o fato mais vulgar e óbvio de que a religião é utilizada por aqueles em postos temporais para adquirir autoridade) antes de mudar de voz. Eu tenho a certeza moral de que milhões de outras pessoas chegaram a conclusões semelhantes basicamente da mesma forma, e em dezenas de países diferentes. Muitas delas nunca acreditaram, e muitas delas abandonaram a fé depois de uma luta difícil. Algumas delas tiveram ofuscantes momentos de falta de convicção que foram tão instantâneos, embora talvez menos epiléticos e apocalípticos (e posteriormente mais racional e moralmente justificados), quanto o de Saulo de Tarso na estrada para Damasco. E esse é o ponto - sobre mim e os que pensam como eu. Nossa crença não é uma crença. Nossos princípios não são uma fé. Nós não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque esses são fatores mais necessários que suficientes, mas desconfiamos de tudo o que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muitas coisas, mas respeitamos a livre investigação, a mente aberta e a busca do valor das idéias. Não sustentamos nossas convicções de forma dogmática: a divergência entre o professor Stephen Jay Gould e o professor Richard Dawkins acerca da "evolução pontual" e das lacunas na teoria pós-darwinista é bastante grande e igualmente profunda, mas iremos solucioná-la com base nas provas e no raciocínio, não por excomunhão mútua. (Minha própria irritação com os professores Dawkins e Daniel Dennett por causa de sua proposta aviltante de que os ateus deveriam afetadamente chamar a si mesmos de "brilhantes" é parte de uma longa discussão.) Não somos imunes à sedução do encanto, do mistério e do assombro: temos a música, a arte e a literatura, e achamos que os sérios dilemas éticos são mais bem abordados por Shakespeare, Tolstoi, Schiller, Dostoievski e George Eliot do que pelas histórias morais míticas dos livros sagrados. É a literatura, e não as Escrituras, que sustenta a mente e - como não há outra metáfora - também a alma. Não acreditamos em céu ou inferno, mas nenhuma estatística irá revelar que sem essas promessas e ameaças nós cometemos menos crimes de ganância e violência que os fiéis. (Na verdade, caso pudesse ser feita uma correta pesquisa estatística, tenho certeza de que ela indicaria o contrário.) Estamos resignados a viver apenas uma vez, a não ser por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar. Nós especulamos que seria pelo menos possível que, assim que as pessoas aceitassem o fato de que suas vidas são curtas e duras, se comportassem melhor com os outros, e não pior. Acrediitamos com grande dose de certeza que é possível levar uma vida ética sem religião. E acreditamos devido a um fato que o corolário demonstra ser verdade - que a religião fez com que incontáveis pessoas não apenas não se comportassem melhor do que outras, mas concedeu a elas a permissão de se comportarem de modos que fariam ruborizar um proxeneta ou um defensor da limpeza étnica.
Talvez ainda mais importante seja que nós, infiéis, não precisamos de qualquer mecanismo. Somos os que Blaise Pascallevou em conta quando escreveu àquele que diz: "Sou de tal forma que mal posso acreditar”:' Na aldeia de Montaillou, durannte as perseguições medievais, os inquisidores pediram que uma mulher dissesse de quem tinha tirado suas dúvidas heréticas sobre inferno e ressurreição. Ela deveria saber que corria o terrível perigo de uma morte lenta nas mãos dos devotos, mas respondeu que não as tinha tirado de ninguém, e sim chegado a elas por conta própria. (Você freqüentemente ouve os crentes louvarem a simplicidade de seu rebanho, mas não no caso dessas espontâneas e conscientes sanidade e lucidez, cujos autores foram reprimidos e queimados em número maior do que somos capazes de imaginar.)
Não temos a necessidade de nos reunir todos os dias, ou a cada sete dias, ou em qualquer dia elevado e auspicioso, para proclamar nossa retidão ou rastejar e chafurdar em nossa miséria. Nós, ateus, não precisamos de sacerdotes, ou de alguma hierarquia acima deles, para policiar nossa doutrina. Sacrifícios e cerimônias são abomináveis para nós, assim como relíquias e a adoração de qualquer imagem ou objeto (inclusive na forma de uma das mais úteis inovações do homem: o livro encadernado). Para nós, nenhum ponto da Terra é ou pode ser "mais sagrado" que outro: ao absurdo ostentatório da peregrinação ou ao absoluto horror de matar civis em nome de algum muro, gruta, templo ou pedra sagrados, contrapomos uma caminhada relaxada ou apressada de um lado da biblioteca ou da galeria ao outro, ou um almoço com um amigo agradável, em busca de verdade ou beleza. Algumas dessas excursões à prateleira, ao restaurante ou à galeria obviamente irão, se forem sérias, nos colocar em contato com crença e crentes, dos grandes pintores e compositores devocionais às obras de Agostinho, Aquino, Maimônides e Newman. Esses grandes estudiosos podem ter escrito muitas coisas maldosas ou muitas coisas tolas, e ter pateticamente ignorado a teoria dos germes para a doença ou a posição do globo terrestre no sistema solar, quanto mais no universo, e essa é a simples razão pela qual não há mais deles hoje, e por que não haverá mais deles amanhã. A religião disse suas últimas palavras inteligíveis, nobres ou inspiradoras há muito tempo: ou isso ou se transformou em um humanismo admirável mas nebuloso, como no caso, digamos, de Dietrich Bonhoeffer, um bravo pastor luterano enforcado pelos nazistas por se recusar a colaborar com eles. Não teremos mais os profetas ou os sábios do passado, e é por isso que as devoções hoje não passam de ecos de ontem, algumas vezes transformados em gritos para disfarçar o terrível vazio.
Embora alguma apologia religiosa seja magnífica em sua forma limitada - poder-se-ia citar Pascal- e alguma dela seja lúgubre e absurda - não podemos deixar de apontar C. S. Lewis -, os dois estilos têm algo em comum, especificamente a impressionante carga de tensão que precisam suportar. Quanto esforço é necessário para afirmar o inacreditável! Os astecas tinham de abrir uma cavidade peitoral humana todo dia simplesmente para garantir que o sol iria nascer. Monoteístas devem importunar sua divindade mais vezes que isso, pois talvez ela seja surda. Quanta vaidade precisa ser dissimulada - sem grande eficácia - de modo a fingir que alguém é o objeto pessoal de um plano divino? Quanto amor-próprio precisa ser sacrificado para que alguém possa sofrer continuamente na consciência do próprio pecado? Quantas suposições inúteis são precisas e quanta ginástica é necessária para receber cada nova descoberta da ciência e manipulá-la de modo que se "ajuste" às palavras reveladas de antigas divindades criadas pelo homem? Quantos santos, milagres, concílios e conclaves são necessários para que primeiramente seja possível estabelecer um dogma e depois - após infinita dor, perda, absurdo e crueldade - seja necessário abandoná-lo? Deus não criou o homem à sua imagem. Evidentemente foi o contrário, e essa é a explicação indolor para a profusão de deuses e religiões e o fratricídio entre religiões e no interior delas que vemos ao nosso redor e que tanto têm adiado o desenvolvimento da civilização.
Atrocidades religiosas passadas e presentes acontecerão não porque somos maus, mas pelo fato de a espécie humana ser, biologicamente, apenas parcialmente racional - o que é um fato da natureza. A evolução determinou que nossos lobos préfrontais sejam pequenos demais, nossas glândulas supra-renais grandes demais e nossos órgãos reprodutivos aparentemente projetados por uma comissão; uma receita que, isolada ou combinada, certamente leva a alguma infelicidade e desordem. Mas que diferença quando colocamos de lado os crentes esforçados e pegamos o trabalho não menos árduo de, digamos, um Darwin, um Hawking ou um Crick. Esses homens são mais iluminados quando estão errados, ou quando revelam suas inevitáveis tendenciosidades, que qualquer pessoa de fé falsamente modesta tentando em vão produzir a quadratura do círculo e explicar como ela, uma mera criatura do Criador, poderia saber o que o Criador pretende. Nem todos concordamos em questões estéticas, mas nós, humanistas seculares, ateus e agnósticos, não desejamos privar a humanidade de suas maravilhas e de seus consolos. De modo algum. Se você dedicar algum tempo para estudar as impressionantes fotografias tiradas pelo telescópio Hubble, estará investigando coisas que são muito mais espantosas, misteriosas e belas - e mais caóticas, esmagadoras e proibitivas - do que qualquer história da criação ou do "final dos tempos". Se você ler Hawking sobre o "horizonte de eventos", aquela teórica borda do "buraco negro" sobre a qual seria possível se debruçar e ver o passado e o futuro (a não ser pelo fato de que não se teria, lamentavelmente e por definição, "tempo" suficiente), ficarei surpreso se você ainda se interessar por Moisés e seu pouco interessante "arbusto em chamas”. Se você estudar a beleza e a simetria da dupla hélice e tiver seu próprio genoma completamente analisado, ficará impressionado de que tal fenômeno quase perfeito esteja no cerne do seu ser e verá reafirmado (espero) que você tem muito em comum com outras tribos da espécie humana - com "raça” tendo ido para a lixeira juntamente com a "criação" -, e ainda mais fascinado ao descobrir o quanto você também é parte do reino animal. Agora você pelo menos pode ser adequadamente humilde face a seu criador, que se revela não um "quem", e sim um processo de mutação com muito mais elementos aleatórios do que nossa vaidade gostaria. Isso já é mistério e maravilha suficientes para qualquer mamífero: a pessoa mais educada do mundo agora tem de admitir - eu não quero dizer confessar - que sabe cada vez menos, mas pelo menos sabe cada vez menos sobre cada vez mais.
Como consolo, já que as pessoas religiosas freqüentem ente insistem em que a fé atende a essa suposta necessidade, eu digo simplesmente que aqueles que oferecem falso consolo são falsos amigos. De qualquer modo, os críticos da religião não simplesmente negam que ela tenha um efeito analgésico. Em vez disso, eles fazem um alerta contra o placebo e a garrafa de água colorida. Provavelmente a mais popular citação equivocada dos tempos modernos - certamente a mais popular nesta discussão - é a afirmação de que Marx descartou a religião como sendo "o ópio do povo': Ao contrário, esse filho de uma linhagem rabínica levava muito a sério a crença, e escreveu assim em sua contribuição à Crítica da filosofia do direito de Hegel:

A inquietação religiosa é ao mesmo tempo expressão de inquietação real e o protesto contra a inquietação real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o alento de uma situação desalentada. É o ópio do povo.
A abolição da religião como felicidade ilusória do povo é necessária para sua felicidade real. A necessidade de abrir mão das ilusões sobre sua condição é a necessidade de abrir mão de uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião, portanto, está no cerne da crítica ao adeus aos sofrimentos, cujo halo é a religião. A crítica retirou as flores imaginárias da corrente não para que o homem use a corrente sem fantasia ou consolo, mas para que ele se livre da corrente e colha a flor viva.
Assim, a famosa citação equivocada não é tanto uma "citação equivocada”, e sim uma tentativa muito grosseira de distorcer o argumento filosófico contra a religião. Aqueles que acreditaram que os padres, os rabinos e os imãs contam a eles sobre o que os não crentes pensam e sobre como eles pensam terão outras dessas surpresas a partir de agora. Eles provavelmente passarão a desacreditar do que é dito a eles - ou passarão a não "ter fé” que é o problema inicial.
Marx e Freud, é preciso admitir, não eram médicos ou profissionais de ciências exatas. É melhor vê-los como grandes e falíveis ensaístas criativos. Em outras palavras, quando o universo intelectual se modifica, não sou suficientemente arrogante para me eximir de autocrítica. E fico contente em pensar que algumas contradições continuarão contraditórias, alguns problemas nunca serão solucionados pelo equipamento mamífero do córtex cerebral humano e algumas coisas são indefinidamente não passíveis de conhecimento. Se o universo se revelar finito ou infinito, qualquer das descobertas será igualmente paralisante e impenetrável para mim. E, embora tenha conhecido muitas pessoas mais sábias e mais inteligentes que eu, não conheço ninguém que seja sábio e inteligente o bastante para dizer o contrário.
Assim, a crítica mais suave à religião também é a mais radical e devastadora. A religião é criação do homem. Mesmo os homens que a criaram não conseguem concordar sobre o que seus profetas, seus redentores ou seus gurus realmente disseram ou fizeram. Muito menos podem esperar nos explicar o "significado" de descobertas e desenvolvimentos posteriores que foram, quando de seu surgimento, obstruídos por suas religiões ou denunciados por elas. E ainda assim os crentes insistem em alegar que sabem! Não apenas sabem, sabem tudo. Não apenas sabem que Deus existe e que criou e supervisionou toda a empreitada, mas também sabem o que "ele" exige de nós - de nossa dieta a nossas obrigações, passando por nossa moral sexual. Em outras palavras, em uma vasta e complicada discussão na qual sabemos cada vez mais sobre cada vez menos, mas ainda podemos esperar por alguma luz durante o processo, uma das facções - ela mesma composta de facções mutuamente rivais - tem a enorme arrogância de nos dizer que já temos todas as informações de que necessitamos. Tal estupidez, combinada com tal vaidade, deveria ser, por si, suficiente para excluir a "crença” do debate. A pessoa que tem certeza, e que alega mandato divino para sua certeza, pertence à infância de nossa espécie. Pode ser uma despedida demorada, mas ela começou e, como todas as despedidas, não deve ser adiada.

Eu acredito que se você me conhecesse não necessariamente saberia que este é o meu ponto de vista. Eu provavelmente passei mais tempo com amigos religiosos do que de outro tipo. Esses amigos freqüentemente me irritam dizendo que eu sou um "seeker", o que eu não sou, ou pelo menos não do modo como eles pensam. Se eu voltasse a Devon, onde fica o túmulo não visitado da Sra. Watts, certamente me veria sentado silenciosamente no fundo de alguma velha igreja celta ou saxônica. (O adorável poema de Philip Larkin, "Church-going': é um retrato perfeito de minha própria postura.) Escrevi um livro sobre George Orwell, que poderia ter sido meu herói se eu tivesse heróis, e fiquei incomodado com sua insensibilidade para com o incêndio de igrejas na Catalunha em 1936. Sófocles mostrou, muito antes da ascensão do monoteísmo, que Antígona falou pela humanidade em sua reação à dessacralização. Eu deixo a cargo dos fiéis queimar as igrejas, as mesquitas e as sinagogas uns dos outros, algo que sempre podemos confiar que eles farão. Quando eu vou à mesquita, tiro meus sapatos. Quando eu vou à sinagoga, cubro minha cabeça. Eu certa vez segui até mesmo a etiqueta de um ashram na Índia, embora tenha sido um suplício para mim. Meus pais não tentaram impor nenhuma religião: eu provavelmente fui feliz por ter um pai que não apreciava particularmente sua rígida criação batista/calvinista e uma mãe que preferia a assimilação - em parte para meu próprio bem - ao judaísmo de seus antepassados. Eu hoje conheço o suficiente sobre todas as religiões para saber que sempre seria um infiel em todas as épocas e em todos os lugares, mas meu ateísmo particular é um ateísmo protestante. É da esplêndida liturgia da Bíblia do rei James e do livro de orações de Cranmer liturgia que a tola Igreja da Inglaterra negligentemente descartou - que eu discordo em primeiro lugar. Quando meu pai morreu e foi enterrado em uma capela debruçada sobre Portsmouth - a mesma capela na qual o general Eisenhower rezou pelo sucesso na noite anterior ao Dia D, em 1944 -, eu falei do púlpito e escolhi como texto um versículo da Epístola de Saulo de Tarso (mais tarde chamado de "São Paulo") aos Filipenses (capítulo 4, versículo 8):
Finalmente, irmãos, ocupai-vos de tudo o que é verdadeiro, nobre, justo, puro, amável, honroso, virtuoso ou que de qualquer modo mereça louvor.
Eu o escolhi por causa de seu caráter obsessivo e ardiloso - que estará comigo na hora final -, por sua injunção essencialmente secular e porque ele se destacou na terra arrasada de conversa fiada, queixas, absurdo e intimidação que o cerca.
O questionamento da fé é a base e a origem de todos os questionamentos, porque é o começo - mas não o fim - de todas as discussões sobre filosofia, ciência, história e natureza humana. É também o começo - mas de modo algum o fim - de todos os debates sobre a vida boa e a cidade justa. A fé religiosa é, exatamente porque somos criaturas em evolução, não-erradicável. Ela nunca morrerá, ou pelo menos não enquanto não superarmos nosso medo da morte, do escuro, do desconhecido e dos outros. Por essa razão eu não a proibiria, mesmo se pudesse. Muita generosidade de minha parte, você poderia dizer. Mas os religiosos seriam tão indulgentes comigo? Pergunto isso porque há uma verdadeira e séria diferença entre mim e meus amigos religiosos, e os amigos reais e sérios são suficientemente honestos para admiti-la. Eu ficaria bastante contente de ir aos bnei mitzvah de seus filhos, de me encantar com suas catedrais góticas, de "respeitar" sua crença em que o Corão foi ditado, embora exclusivamente em árabe, a um profeta analfabeto, ou de me interessar por lenitivos wicca, hindu e jainistas. E continuaria a fazer isso sem insistir na educada condição recíproca - que é que eles por sua vez me deixem em paz. Mas isso a religião é absolutamente incapaz de fazer. Enquanto eu escrevo estas palavras e enquanto você as lê, pessoas de fé estão, de suas diferentes formas, planejando a sua e a minha destruição, e a destruição de todas as difíceis conquistas humanas que me cercam. A religião envenena tudo.


  • Morre Christopher Hitchens, autor de 'Deus não é grande'

    Autor: Globo G.1

    Veículo: G1.com.br - 16/12/2011 05h30 - Atualizado em 16/12/2011 14h57

    Fonte:

    Morre Christopher Hitchens, autor de 'Deus não é grande'
    Escritor e jornalista britânico foi vítima de um câncer no esôfago.
    Nos EUA desde 1981, ele morreu em Houston.
    Da G1, com agências internacionais 


    O  escritor e jornalista britânico Christopher Hitchens, autor do célebre livro "Deus não é grande", morreu em Houston (EUA) vítima de um câncer no esôfago, informou em sua edição digital a revista "Vanity Fair".
    Nascido em 1949 em Portsmouth (Reino Unido), ele morreu na noite de quinta-feira (15) no hospital MD Anderson Cancer Center, em Houston, da doença que levou seu pai.
    Em "Deus não é grande", fez uma crítica às principais religiões com seu ateísmo afiado. Ele argumentou que a religião era a fonte de toda a tirania e que muitas das perversidades no mundo haviam sido cometidas em nome da religião. Ele escreveu ainda obras sobre Thomas Paine e George Orwell - e inúmeros artigos e colunas, sem nunca perder seu humor aguçado. Os alvos preferidos iam de Deus e Madre Teresa até Henry Kissinger.
    A detecção da doença aconteceu quando o escritor promovia sua última obra, as memórias intituladas "Hitch-22". Considerado um dos intelectuais mais polêmicos e influentes do cenário internacional nos últimos 30 anos, Hitchens se mudou para os Estados Unidos em 1981 e colaborou com as publicações mais prestigiadas nos dois lados do Atlântico: "Vanity Fair", "Slate", "The Nation", "The New York Review of Books", "The Times" e "National Geographic", entre outras. Além de "Deus não é grande", Hitchens escreveu "Cartas a um jovem contestador", "A vitória de Orwell", "O julgamento de Kissinger" e "Amor, pobreza e guerra".
    "Christopher Hitchens - um crítico incomparável, um mestre da retórica com uma inteligência aguçada, e um bom vivant destemido - morreu hoje aos 62 anos", disse a Vanity Fair. Ele fumava e bebia muito, e encurtou uma turnê de divulgação de seu livro de memórias no ano passado para ser submetido à quimioterapia após ser diagnosticado com câncer.
    Jornalista, correspondente de guerra e crítico literário, Hitchens ganhou reputação por suas respostas engenhosas, críticas mordazes a personalidades públicas e uma inteligência aguçada. Filho de um oficial da Marinha britânica, Hitchens estudou na Universidade de Oxford e trabalhou como crítico literário para a revista New Statesman, em Londres, antes de se mudar para Nova York para trabalhar como jornalista em 1981.
    Graydon Carter, que contratou Hitchens depois de se tornar editor da "Vanity Fair", em 1992, afirmou que o britânico era um "homem de apetite insaciável - para cigarros, para scotch, para boa escrita, e acima de tudo, para conversas". "Você seria duramente pressionado para encontrar um escritor que juntasse o volume de colunas requintadamente trabalhadas, ensaios, artigos e livros que ele produziu nas últimas quatro décadas", escreveu Carter.
    O vice-primeiro-ministro britânico, Nick Clegg, que trabalhou para Hitchens como estagiário, afirmou que o escritor era "tudo o que um grande ensaísta deve ser: irritante, brilhante, altamente provocador e, ao mesmo tempo, intensamente sério". "Sua falta será muito sentida por todos os que valorizam fortes opiniões e ótima escrita", acrescentou Clegg.
    Mas em um lembrete de que Hitchens, um ateu declarado, ofendeu possivelmente tantas pessoas quanto encantou, a Ordem dos Missionários da Caridade da Índia afirmou que rezará por sua alma, apesar de sua postura agressiva contra sua fundadora e prêmio Nobel da Paz, Madre Teresa. Ele deixa uma esposa, a escritora americana Carol Blue, e três filhos, dois deles de um casamento anterior

  • Doze Provas da Inexistência de Deus

    Autor: Sebastien Faure

    Veículo: site www.ateus.net

    Fonte:

    Publicado no site www.ateus.net
    Doze provas da inexistência de Deus

    Sebastien Faure


    “A existência em Deus implica necessariamente a escravidão de tudo abaixo dele. Assim se Deus existisse, só haveria um meio de servir a liberdade humana: seria o de deixar de existir.”
    Mikhail Bakunin

    Há duas maneiras de estudar e procurar resolver o problema da existência de Deus.
    A primeiro consiste em eliminar a hipótese Deus do campo das conjecturas plausíveis ou necessárias, por meio de uma explicação clara e precisa, isto é, por meio de uma exposição de um sistema positivo do Universo, das suas origens, dos seus desenvolvimentos sucessivos, dos seus fins. Esta exposição inutilizaria a ideia de Deus e destruiria antecipadamente a base metafísica em que se apoiam os teólogos e os filósofos espiritualistas.
    Dado, porém, o estado atual dos conhecimentos humanos, em tudo o que tem sido demonstrado ou passa a demonstrar-se, verificado ou verificável, somos forçados a concluir que nos falta esta exposição e que não existe um sistema positivo do Cosmos. Existem, é certo, várias hipóteses engenhosas que não se chocam com o razão; sistemas mais ou menos aceitáveis que se apoiam numa série de investigações, que se baseiam na multiplicidade de observações contínuas e que dão um caráter de probabilidade impressionante. Também se pode afirmar, sem receio de ser desmentido, que esses sistemas, essas hipóteses, suportam vantajosamente as asserções deístas. Mas a falar a verdade, não há, sobre este posto, senão teses que não possuem ainda o valor da exatidão cientifica; — cada um, no fim das contas, tem a liberdade de preferir tal ou qual sistema a um outro que lhes é oposto; e a solução do problema assim apresentado afigura-nos, pelo menos na atualidade, cheio de reservas.
    Os adeptos de todas as religiões aproveitam assim as vantagens que lhes oferece o estudo deste problema, bem árduo e bem complexo, não para o resolver por meio de afirmações concretas ou de raciocínios admissíveis, mas tão-somente para perpetuar a dúvida no espírito de seus correligionários, que é, para eles, o ponto de capital importância.
    E nesta luta titânica entre o materialismo e o deísmo, luta em que as duas teses opostas se empenham e se reforçam para conseguir o triunfo, os deístas recebem rudes golpes; e, conquanto se encontrem numa postura de vencidos, ainda tem a petulância de se apresentar à multidão ignara como dignos cantores da vitória! Uma prova concludente do seu procedimento baixíssimo encontramo-la na maneira como se exprimem nos jornais da sua devoção; e é com essa comédia que procuram manter, com cajado de pastor, a imensa maioria do rebanho.
    Também é isto que desejam ardentemente esses maus pastores.
    Apresentação do Problema em Termos Precisos
    Todavia, há uma segunda maneira de estudar e de tentar a resolução da inexistência de Deus: consiste em examinar a existência de Deus que as religiões apresentam à adoração dos crentes.
    Suponhamos que se nos depara um indivíduo sensato e refletido, que admite a existência de Deus — um Deus que não está envolto em nenhum mistério, um Deus que não se ignora nenhuma particularidade, um Deus que lhe confiou todo o seu pensamento e lhe transmitiu todas as suas confidências, e que nos diz:
    — Ele fez isto e aquilo, e ainda isto e aquilo. Ele tem precedido e falado com tal fim e com tal razão. Ele quer tal coisa, mas também quer tal outra coisa. Ele recompensará tais ações, mas punirá tais outras. Ele fez isto e quer aquilo, porque é infinitamente sábio, infinitamente justo, infinitamente poderoso, infinitamente bom!
    Ah! Que felicidade! Ora aqui está um Deus que se faz conhecer. Abandona o império do inacessível, dissipa as nuvens que o rodeiam, desce das alturas, conversa com os mortais, expõe-lhes o seu pensamento, revela-lhes a sua vontade e confia a alguns privilegiados a missão de espalharem a sua Doutrina, de propagarem a sua Lei, de a representarem enfim, cá em baixo, com plenos poderes para mandarem no Céu e na Terra.
    Este Deus não é, com certeza, o Deus Força, Inteligência, Vontade, Energia, que, como tudo o que é Energia, Vontade, Inteligência, Força, pode ser alternadamente, segundo as circunstancias e, por consequência, indiferentemente, bom ou mau, útil ou inútil, justo ou iníquo, misericordioso ou cruel. Este Deus é o Deus em que tudo é perfeição e cuja existência não é nem pode ser compatível — visto que ele é perfeitamente sábio, justo, bom, misericordioso — senão com um estado de coisas criado por ele e no qual se afirmariam a sua infinita justiça, a sua infinita sabedoria, o seu infinito poder, a sua infinita bondade e a sua infinita misericórdia.
    Este Deus é o Deus que, por meio de catecismo, nos insuflam no cérebro quando somos crianças; é o Deus vivo e pessoal, em honra do qual se erguem templos, a quem se rezam orações em borda, por quem se fazem sacrifícios estéreis e a quem pretendem representar, na Terra, todos os clérigos, todas as castas sacerdotais.
    Este Deus não é o “desconhecido”, essa força enigmática, essa potência impenetrável, essa inteligência incompreensível, essa energia incognoscível, esse princípio misterioso: hipótese, enfim, que no meio da impotência para explicar o “como” e o “porquê” das coisas, o espírito do homem aceita complacente. Este Deus também não é o Deus especulativo dos metafísicos: é o Deus que os seus representantes nos tem descrito abundantemente e luminosamente detalhado. É o Deus das religiões, e como estamos na França, é o Deus dessa religião que a quinze séculos domina o nossa história: a religião católica ou cristã. É o Deus que nego e que vou discutir. É o Deus que estudaremos, se quisermos obter, desta exposição filosófica, algum proveito e algum resultado prático.
    Quem é Deus?
    Visto que os encarregados de seus negócios no Terno tiveram a amabilidade de no-lo descrever com toda a pompa e luzimento, aproveitemos a fineza e examinemo-lo de perto, detidamente: para discutir uma coisa, é preciso, igualmente, conhecê-la bem.
    Com um gesto potente e fecundo, este Deus fez todas as coisas do nada: o ser do não-ser. E, por sua própria vontade, substituiu o movimento pela inércia, a vida universal pela morte universal. É um Deus Criador!
    Este Deus é o Deus que, terminada a obra da criação, em vez de volver à inatividade secular, ficando indiferente à coisa criada, ocupa-se de sua obra, interessando-se por ela, intervém nela quando o julga necessário, rege-a, administra-a, governa-a: é um Deus Governador ou Providência.
    Este Deus é o Deus arvorado em Tribunal Supremo, obriga, depois da morte, a comparecer à sua presença todos os indivíduos. Uma vez aí, julga-as segundo os atos de suas vidas; pesa, na balança, as suas boas e más ações e pronuncia, em último extremo — sem apelo nem agravo — a sentença que fará do réu, pelos séculos dos séculos, o mais feliz ou o mais desgraçado dos seres: É um Deus Justiceiro ou Magistrado.
    Logo, este Deus possui todos os atributos; e não é somente bom: é a Bondade Infinita; não é somente misericordioso: é o Misericórdia Infinita; não é somente poderoso: é o Poder Infinito; não é somente sábio: é a Sabedoria Infinita.
    Em conclusão: tal é o Deus que eu nego e que por doze provas diferentes (em rigor bastaria uma só), vou demonstrar a inexistência.
    Divisão do Problema
    Dividi os meus argumentos em três séries: a primeira trataria particularmente do Deus-Criador e compor-se-á de seis argumentos; o segundo ocupar-se-á do Deus-Governador ou Providência, e contém quatro argumentos; a terceira apresentará o Deus-Justiceiro ou Magistrado, em dois argumentos. Em suma, seis argumentos contra o Deus-Criador, quatro contra o Deus-Governador e dois argumentos contra o Deus-Justiceiro. Estes doze argumentos constituem doze provas da inexistência de Deus.
    Com este plano das minhas demonstrações será mais fácil seguir o curso do meu trabalho.
    Primeira série de argumentos: contra o Deus criador
    1º argumento: O gesto criador é inadmissível
    Que se entende por criar?
    É tomar materiais diferentes, separados, mas que existem, e, valendo-se de princípios experimentados e aplicando-lhes certas regras conhecidas, aproximá-los, agrupá-los, associá-los, ajustá-los, para fazer qualquer coisa deles?
    Não! Isso não é criar. Exemplos: podemos dizer que uma casa foi criada? Não, foi construída; podemos dizer que um móvel foi criado? Não, foi fabricado; podemos dizer que um livro foi criado? Não, foi composto e depois impresso.
    Assim, pegar materiais que já existem e fazer qualquer coisa com eles não é criar.
    Que é, pois, criar?
    Criar… com franqueza, encontro-me indeciso para poder explicar o inexplicável, definir o indefinível. Procurei, contudo, fazer-me compreender.
    Criar é tirar qualquer coisa do nada; é, com nada, fazer qualquer coisa do todo; é formar o existente do não-existente.
    Ora, eu imagino que é impossível encontrar-se uma única pessoa dotada de razão que conceba e admita que do nada se possa tirar e fazer qualquer coisa. Suponhamos um matemático. Procurai o calculador mais autorizado; colocai-o diante de uma lousa e pedi-lhe que escreva zero sobre zeros. Terminada a operação, solicitai-lhe que os multiplique da forma que entender, que os divida até se cansar, que faça enfim toda a sorte de operações matemáticas, e haveis de ver como ele não extrairá, desta acumulação de zeros, uma única unidade.
    Com nada, nada se pode fazer; de nada, nada se obtém. É por isso que o famoso aforismo de Lucrécio ex nihilo nihil é de uma certeza e de uma evidência manifesta. O gesto criador é um gesto impossível de admitir, é um absurdo.
    Criar é, pois, uma expressão místico-religiosa, que pode ter algum valor aos olhos das pessoas a que agrada crer naquilo que não compreendem e a quem a fé que se impõe tanto mais quanto menos o percebem. Mas devemos convir que a palavra criar é uma expressão vazia de sentido para todos os homens cultos e sensatos, para quem uma palavra só tem valor quando representa uma realidade ou uma possibilidade.
    Consequentemente, a hipótese de um ser verdadeiramente criador é uma hipótese que a razão repudia.
    O ser criador não existe, não pode existir.
    2º argumento: O “puro espírito” não podia determinar o Universo
    Aos crentes que, a despeito de todo o raciocínio, se obstinam em admitir a possibilidade da criação, direi que, em todo o caso, é impossível atribuir esta criação ao seu Deus. O Deus deles é puro espírito. Portanto, é inteiramente impossível sustentar-se que o puro espírito, o imaterial, tenha podido determinar o Universo, o Material.
    Eis o porquê:
    O puro espírito não está separado do universo por uma diferença de grau, de quantidade, mas sim por uma diferença de natureza, de qualidade. De maneira que o puro espírito não é, nem pode ser, uma ampliação do Universo, assim como o Universo não é, nem pode ser, uma redução do puro espírito. Aqui a diferença não é somente uma distinção; é uma oposição: oposição de natureza — essencial, fundamental, irredutível, absoluta.
    Entre o puro espírito e o Universo não há somente um fosso mais ou menos largo e profundo, fosso que possa, a rigor, encher-se ou franquear-se. Não. Entre o puro espírito e o Universo há um verdadeiro abismo, duma profundidade e de uma extensão tão imensos, que por colossais que sejam os esforços que se empreguem, não há nada nem ninguém que consiga enchê-lo ou franqueá-lo.
    Reportando-me ao meu raciocínio, desafio o filósofo mais sutil, bem como o matemático mais consumado, a estabelecer uma relação, qualquer que ela seja (e, com a mais forte razão, uma relação tão direta quanto estreita, como a que liga a causa ao efeito) entre o puro espírito e o universo.
    O puro espírito não suporta nenhuma aliança material. O puro espírito não tem forma nem corpo, nem linha, nem matéria, nem proporções, nem extensão, nem dureza, nem profundidade, nem superfície, nem volume, nem cor, nem som, nem densidade. Ora, no Universo, tudo é forma, corpo, linho, matéria, proporção, extensão, dureza, profundidade, superfície, volume, cor, som, densidade.
    Como admitir que isto tenha sido determinado por aquilo? Impossível.
    Chegando a este ponto da minha demonstração, a conclusão seguinte:
    Vimos que a hipótese de um Deus verdadeiramente criador é inadmissível; que persistindo mesmo na crença desse poder, não pode admitir-se que o Universo, essencialmente material, tenha sido determinado por um puro espírito, essencialmente imaterial.
    Mas se os crentes se obstinam em afirmar que foi o seu Deus o criador do Universo, nos impõe-se o dever de lhes fazer esta pergunta: segundo a hipótese Deus, onde se encontrava a Matéria, na sua origem, no seu princípio?
    De duas, uma: ou a matéria estava fora de Deus, ou era o próprio Deus (a não ser que lhe queiram dar um terceiro lugar). No primeiro caso, se a matéria estava fora de Deus, Deus não teve necessidade de criá-la, visto que ela já existia; e, se ela coexistia com Deus, estava concomitantemente com ele, do que se depreende que Deus não é o criador.
    No segundo caso, se a matéria não estava fora de Deus, encontrava-se no próprio Deus.
    E, daqui, tiro a conclusão seguinte:
    1º Que Deus não era puro espírito, porque encerrava em si uma partícula de matéria — e que partícula! A totalidade dos mundos materiais!
    2º Que Deus, encerrando em si próprio a matéria, não teve a necessidade de criá-la, porque ela já existia. Assim, existindo a matéria, Deus não fez mais do que retirá-la de onde estava; e, neste caso, a criação deixa de ser um ato de verdadeira criação para se reduzir a um ato de exteriorização.
    Nos dois casos não existe, pois, criação.
    3º argumento: O perfeito não pode produzir o imperfeito
    Estou plenamente convencido de que se eu fizer a um religioso a pergunta: “Pode o imperfeito produzir o perfeito?”, ele responderia sem vacilar: — Não, o imperfeito não pode produzir o perfeito!
    Pelas mesmas razões, e com a mesma força de exatidão, eu posso afirmar — O perfeito não pode produzir o imperfeito!
    Mais: entre o perfeito e o imperfeito não há somente uma diferença de grau, de quantidade, mas uma diferença de qualidade, de natureza, uma oposição essencial, fundamental, irredutível, absoluta.
    E mais ainda: entre o perfeito e o imperfeito não há somente um fosso, mais ou menos largo e profundo, mas um abismo tão vasto e tão estonteante, que ninguém o pode franquear ou entulhar. O perfeito é o absoluto, o imperfeito o relativo. Em presença do perfeito que é tudo, o relativo, o contingente não é nada; em presença do perfeito, o relativo não tem valor, não existe. E nem o talento de um matemático e nem o gênio de um filósofo serão capazes de estabelecer uma relação entre o relativo e o absoluto: a fortiori sustentamos a impossibilidade de evidenciar, neste caso, a rigorosa concomitância que deve necessariamente unir a Causa ao Efeito.
    É, portanto, impossível que o perfeito haja determinando o imperfeito.
    Além disso, há uma relação direta, fatal e até matemática entre uma obra e seu autor: tanto vale a obra quanto vale o autor, tanto vale o autor quanto vale a obra. E pela obra que se conhece o autor, como é pelo fruto que se conhece a árvore.
    Se eu examino um texto mal redigido, em que se abundam os erros de ortografa e as frases são mal construídas, o estilo é pobre e frouxo, as ideias raras e banais, e os conhecimentos inexatos, eu sou incapaz de atribuir este péssimo escrito a um burilador de frases, a um dos mestres da literatura.
    Se observo um desenho malfeito, em que as linhas estão mal traçadas, violadas as regras do perspectiva e da proporção, jamais me acudirá o pensamento de atribuir este esboço rudimentar a um professor, a um grande mestre, a um grande artista. Bem à menor hesitação direi: isto é obra de um aprendiz, de uma criança, certo de que pela obra se conhece o artista.
    Ora, a natureza é bela, o Universo é grandioso. E eu admiro apaixonadamente — tanto o que mais admiro — os esplendores e as magnificências que nos oferecem estes espetáculos incessantes. Mas, por muito entusiasmado que eu seja das belezas naturais, e por grande que seja a homenagem que eu lhes tribute, não me atrevo o afirmar que o Universo é uma obra sem defeitos, irrepreensível, perfeita. E não acredito que haja alguém que me desminta.
    Sim, o Universo é uma obra imperfeita.
    Consequentemente, digo: há sempre, entre uma obra e seu autor, uma relação rigorosa, íntima, matemática. Ora, se o Universo é uma obra imperfeita, o autor desta obra não pode ser senão imperfeito.
    Esse silogismo leva-me a admitir a imperfeição de Deus, e por consequência a negá-lo.
    Mas eu posso ainda raciocinar assim: ou não é Deus o autor do Universo (exprimo desta forma a minha convicção), ou o é, na suposição dos religiosos. Neste caso, sendo o universo uma obra imperfeita, vosso Deus, ó crente, é também imperfeito.
    Silogismo ou dilema, a conclusão do raciocínio é esta: o perfeito não pode determinar o imperfeito.
    4º argumento: O ser eterno, ativo, necessário, não pode, em nenhum momento, ter estado inativo ou ter estado inútil
    Se Deus existe é eterno, ativo e necessário.
    Eterno? — É-o por definição. É a sua razão de ser. Não se pode conceber que ele esteja enclausurado nos limites do tempo. Não se pode imaginar como tendo tido começo e venha a ter fim. Não pode haver aparição e desaparição. É de sempre.
    Ativo? — É, e não pode deixar de ser. Segundo os religiosos, foi sua atividade que engendrou tudo quanto existe, como foi a sua atividade que se afirmou pelo gesto mais colossal e majestoso que imaginar se pode: a criação dos mundos.
    Necessário? — É-o e não pode deixar de ser, visto que sem a sua vontade, nada existiria: ele é o autor de todas as coisas, o ponto inicial de onde saiu tudo, a fonte única e primeira de onde tudo emanou. Bastando-se a si próprio, dependeu de sua vontade que tudo fosse tudo ou que fosse nada.
    Ele é, portanto: eterno, ativo e necessário.
    Mas eu pretendo e vou demonstrar que se Deus é eterno, ativo e necessário, também deve ser eternamente ativo, e eternamente necessário. E que, por consequência, ele não pôde, em nenhum momento, ter sido inativo ou inútil, e que enfim, ele jamais criou.
    Negar que Deus seja eternamente ativo equivale o dizer que nem sempre o foi, que chegou a sê-lo, que começou a ser ativo, que antes de o ser não o era. Dizer que foi pela criação que ele manifestou a sua atividade é admitir, ao mesmo tempo, que por milhares e milhares de séculos que antecederam a ação criadora, Deus esteve inativo.
    Negar que Deus seja eternamente necessário equivale a admitir que ele nem sempre o foi, que chegou a sê-lo, que começou o ser necessário e que antes de o ser não o era. Dizer que a criação proclama e testemunha a necessidade de Deus equivale a admitir, ao mesmo tempo, que, durante milhares e milhares de séculos, que seguramente precedeu a ação criadora, Deus era inútil.
    Deus ocioso e preguiçoso! Deus inútil e supérfluo! Que triste postura para um ser essencialmente necessário.
    É preciso, pois, confessar que Deus é de todo o tempo ativo e de todo o tempo necessário.
    Mas então Deus não pôde criar, porque a ideia de criação implica, de maneira absoluta, a ideia de começo, de origem. Uma coisa que começou é porque nem sempre existiu. Existiu necessariamente num tempo em que, antes de o ser, não o era. E, curto ou longo, este tempo foi que precedeu a coisa criada; é impossível suprimi-lo, visto que, de todos os modos, ele existe.
    Assim, temos de concluir:
    a) Ou Deus foi eternamente ativo e eternamente necessário, e só chegou a sê-lo por causa da criação (e, se é assim, antes da criação faltavam a este Deus dois atributos: a atividade e a necessidade; este Deus era um Deus incompleto; era só um pedaço de Deus e mais nada, que teve necessidade de criar para chegar a ser ativo e necessário, e completar-se).
    b) Ou Deus é eternamente ativo e eternamente necessário, e neste caso tem criado eternamente. A criação é eterna, e o Universo jamais começou — existiu em todos os tempos, é eterno como Deus, é o próprio Deus, com o qual se confunde. E, sendo assim, o Universo não teve princípio — não foi criado.
    Em conclusão: No primeiro caso, Deus antes da criação não era ativo nem era necessário: era um Deus incompleto, quer dizer, imperfeito, e, portanto, não existia. No segundo caso, sendo Deus eternamente ativo e eternamente necessário, não pôde chegar a sê-lo, como não pôde criar.
    É impossível sair daqui.
    5º argumento: O ser imutável não criou
    Se Deus existe, é imutável, não se desfigura e nem se pode desfigurar. Enquanto que, na natureza, tudo se modifica, se metamorfoseia, se transforma; que nada é definitivo, mas que chega a sê-lo Deus, ponto fixo, imóvel no tempo e no espaço, não está sujeito a nenhuma modificação, não se transforma, nem pode transformar-se. É hoje o que era ontem, será amanhã o que é hoje. E tanto faz procurá-lo nos séculos passados, como nos séculos futuros: ele é, e será constantemente idêntico em si. Deus é imutável.
    No entanto, eu sustento que, se ele criou, não é imutável, porque, neste caso, transmudou-se duas vezes.
    Determinar-se a querer é mudar de posição. Ora, é evidente que há mudança entre o ser que quer uma coisa e o que, querendo-a, a põe em execução.
    Se eu desejo e quero o que eu não desejava e nem queria a quarenta e oito horas, é porque se produziu em mim, ou a minha volta, uma ou várias circunstâncias que me levaram a querê-lo. Este novo desejo ou querer constitui uma modificação que não se pode por em dúvida, que é indiscutível.
    Paralelamente: agir, ou determinar-se a agir, é modificar-se.
    Esta dupla modificação — querer e agir — é tanto mais considerável e saliente quando é certo que se trata de uma resolução grave, de uma ação importante.
    Deus criou, dizeis vós, crentes. Então modificou-se duas vezes: a primeiro, quando se determinou a criar; a segunda, quando resolveu por em prática sua determinação, completando o gesto criador.
    Se ele se modificou duas vezes, não é imutável. E, se não é imutável, não é Deus — não existe.
    O ser imutável não criou.
    6º argumento: Deus não criou sem motivo; mas é impossível encontrar um único motivo que o levasse a criar
    De qualquer forma que se pretende examiná-la, a criação é inexplicável, enigmática, falha de sentido.
    Há uma coisa que salta à vista de todos: se Deus criou, como vós dizeis, não pôde ter realizado este ato grandioso — cujas consequências deviam ser, fatalmente, proporcionais ao próprio ato, e por conseguinte incalculáveis — sem que fossem determinado por uma razão de primeiro ordem.
    Pois muito bem. Qual foi esta razão? Porque motivo tomou Deus a resolução de criar? Que móbil o impulsionaria a isto? Que desejo germinaria em seu cérebro? Qual seria o seu intuito? Que ideia o perseguiria? Que fim perseguiria ele?
    Multiplicais, nesta ordem de ideias, as perguntas; gravito, conforme quiserdes, em torno deste problema; examinai-o em todos os seus aspectos e em todos os sentidos, e eu desafio seja quem for a que o resolve em outro sentido que não seja o das incoerências.
    Por exemplo: Eis uma criança educada na religião cristã. O seu catecismo afirmou-lhe, e os seus mestres confirmam, que foi Deus que a criou e a colocou no mundo. Suponhamos que a criança faz a si própria a pergunta: porque é que Deus me criou e me lançou no mundo?, e que quer obter uma resposta judiciosa, racional. Nunca obterá.
    Suponhamos ainda que a criança, confiando na experiência e no saber de seus educadores, persuadida do caráter sagrado de que eles — padres ou pastores — estão revestidos, possuindo luzes especiais e graças particulares; convencido de que, pela sua santidade, estão mais próximos de Deus e, portanto, melhores iniciados que elas nas verdades reveladas; suponhamos que esta criança tem a curiosidade de perguntar aos seus mestres por que e para que Deus a criou e a pôs no mundo, e eu afirmo que os mestres são incapazes de contestar a essa simples interrogação com uma resposta plausível, sensata. Não lhe poderão dar, porque, em verdade, ela não existe.
    Mas, rodeemos bem a questão e aprofundemos o problema. Com o pensamento, examinaremos Deus antes da criação. Tomemo-lo mesmo no seu sentido absoluto. Está completamente só; bastando-se a si próprio. E perfeitamente sábio, perfeitamente feliz, perfeitamente poderoso. Ninguém lhe pode acrescentar sabedoria, ninguém lhe pode aumentar a felicidade, ninguém lhe pode fortificar o poderio.
    Este Deus não experimenta nenhum desejo, visto que a sua felicidade é infinita. Não pode perseguir nenhum fim, visto que nada falta à sua perfeição. Não pode ter nenhum intuito, visto que nada falta ao seu poder. Não pode determinar-se a fazer seja o que for, visto que não tem nenhuma necessidade.
    Eia! Filósofos profundos, pensadores sutis, teólogos prestigiosos, respondei a esta criança que vos interroga e dizei-lhe por que é que Deus a criou e lançou no mundo!
    Eu estou tranquilo. Vós não lhe podeis responder, a não ser que lhe digais: “Os mistérios de Deus são impenetráveis”! — e aceitais esta resposta como suficiente. E fareis bem, abstendo-vos de lhes dar outra resposta, porque esta outra resposta — previno-vos caritativamente — cava a ruína de vosso sistema e o derribamento de vosso Deus. A conclusão impõe-se, lógica, impiedosa: Deus, se criou, criou sem motivos, sem saber por que, sem ideal.
    Sabeis onde nos conduzem as consequências de tal conclusão? Vamos vê-las.
    O que diferencia os atos de um homem dotado de razão dos atos de um louco, o que determina que um seja responsável e o outro irresponsável, é que um homem dotado de razão sabe sempre — ou pode chegar o sabê-lo — quando procede, quais são os móbiles que o impulsionam, quais são os motivos que o levam a praticar aquilo que pensava. Quando se trata de uma ação importante, cujas consequências podem hipotecar gravemente as suas responsabilidades, é preciso que o homem entre na posse de sua razão, se concentre, se entregue a um sério exame de consciência, persistente e imparcial, exame que, pelas suas recordações, reconstitua o quadro dos acontecimentos de que ele foi agente. Em resumo, é preciso que ele procure reviver as horas passadas para que possa discernir quais foram as causas e o mecanismo dos movimentos que o determinaram a obrar. Frequentemente, não pode vangloriar-se das causas que o impulsionaram, e que, amiúde, o levam a corar de vergonha. Mas, quaisquer que sejam os motivos, nobres ou vis, generosos ou grosseiros, ele chega sempre o descobri-los.
    Um louco, pelo contrário, precede sem saber por que; e, uma vez realizado o ato, por grandes que sejam as responsabilidades que dele possam deriva-se, interrogai-o, encerrai-o, se quiserdes, numa prisão, e apertai-o com perguntas: o pobre demente não vos balbuciará senão coisas vagas, verdadeiras incoerências.
    Portanto, o que diferencia os atos de um homem sensato de um homem insensato, é que os atos dos primeiros podem explicar-se, tem uma razão de ser, distinguem-se neles a causa e o efeito, a origem e o fim, enquanto que os atos do segundo não se podem explicar, porque um louco é incapaz de discernir a causa e o que o levam a realizá-los.
    Pois bem! Se Deus criou sem motivo, sem fim, procedeu como um louco. E, neste caso, a criação aparece-nos como um ato de demência.
    Duas objeções capitais
    Para terminar com o Deus da criação, parece-me indispensável examinar duas objeções.
    Os leitores sabem muito bem, sobre este assunto, abundam objeções. Por isso quando falo em duas objeções, refiro-me a duas objeções capitais clássicas.
    Estas duas objeções têm tanto mais importância quanto é certo que, com a beldade da discussão, se podem englobar todas as outras nestas duas.
    1ª objeção: “Deus escapa-vos!”
    Dizem-me:
    “O senhor não tem o direito de falar de Deus segundo a forma que o faz. O senhor não nos apresenta senão um Deus caricaturado, sistematicamente reduzido a proporções que seu cérebro abarca. Esse Deus não é nosso Deus. O nosso Deus não o pode o senhor concebê-lo, visto que lhe é superior, escapando por isso à suas faculdades intelectuais. Fique sabendo que o que é fabuloso, gigantesco para o homem mais forte e mais inteligente, é para Deus um simples jogo de crianças. Não se esqueça que a Humanidade não pode mover-se no mesmo plano que a Divindade. Não perca de vista que é tão impossível ao homem compreender a maneira como Deus procede, como os minerais imaginar como vivem os vegetais, como os vegetais conceber o desenvolvimento dos animais, e como os animais saber como vivem e operam os homens.
    Deus paira a umas alturas que o senhor é incapaz de atingir ocupa montanhas inacessíveis ao senhor. Qualquer que seja o grau de desenvolvimento de uma inteligência humana; por muito importante que seja o esforço realizado por essa inteligência; seja qual for a persistência deste esforço, jamais poderá elevar-se até Deus. Lembre-se, enfim, que, por muito vasto que seja o cérebro do homem, ele é finito, não podendo, por consequência, conceber Deus, que é infinito.
    Tenha pois a lealdade e a modéstia de confessar que não lhe é possível compreender nem explicar, não o cabe o direito de negar”.
    Eu respondo aos deístas:
    Dais-me conselhos de humildade que estou disposto a aceitar. Fazeis me lembrar que sou um simples mortal, o que legitimamente reconheço e não procuro olvidar-me.
    Dizeis-me que Deus me ultrapassa e que o desconheço. Seja. Consinto em reconhecê-lo; afirmo mesmo que o finito não pode compreender o infinito, porque é uma verdade tão certa e tão evidente, que não está em meu ânimo fazer-lhe qualquer oposição. Vede, pois, até aqui estamos de acordo, com o que espero, ficareis muito contentes.
    Somente, senhores deístas, permiti que, por meu turno, eu vos dê os mesmos conselhos de humildade, para terdes o franqueza de me responder estas perguntas: Vós não sois homens como a mim? A vós, Deus não se depara como para a mim? Esse Deus não vos escapa como a mim? Tereis vós a pretensão de moverdes no mesmo plano da divindade? Tereis igualmente a mania de pensar e a loucura de crer que, de um voo, podereis chegar às alturas que Deus ocupa? Sereis presunçosos ao extremo de afirmar que o vosso cérebro, o vosso pensamento que é finito, possa compreender o infinito?
    Não vos faço a injuria, senhores deístas, de acreditar que sustentais uma extravagância venal. Assim, pois, tende a modéstia e a lealdade de confessar que, se me é impossível compreender e explicar Deus, vós tropeçais no mesmo obstáculo. Tende, enfim, a probidade de reconhecer que, se eu não posso conceber nem explicar Deus, não o podendo, portanto, negar, a vós, como a mim, não vos é permitido concebê-lo e não tendes, por consequência, o direito de afirmá-lo.
    Não julgueis, no entanto, que, por causa disto, ficamos na mesma situação que antes. Foste vós que, primeiramente, afirmastes a existência de Deus; deveis, pois, ser os primeiros a pôr de parte vossas afirmações. Sonharia eu, alguma vez, com negar a existência de Deus, se vós não tivésseis começado a afirmá-la? E se, quando eu era criança, não me tivessem imposto a necessidade de acreditar nele? E se, quando adulto, não tivesse ouvido afirmações nesse sentido? E se, quando homem, os meus olhos não tivessem constantemente contemplado os templos elevados a esse Deus? Foram as vossas afirmações que provocaram as minhas negações.
    Cessai de afirmar que eu cessarei de negar.
    2ª objeção: “Não há efeito sem causa”
    A segunda objeção parece-nos mais invulnerável. Muitos indivíduos consideram-na ainda sem réplica. Esta objeção provém dos filósofos espiritualistas: Não há efeito sem causa. Ora, o Universo é um efeito; e, como não há efeito sem causa, esta causa é Deus.
    O argumento é bem apresentado; parece, mesmo, bem construído e bem carpintejado. O que resto saber é se tudo quanto ele encerra é verdadeiro.
    Em boa lógica, este raciocínio chama-se silogismo. Um silogismo é um argumento composto por três proposições: a maior, a menor e a consequência, e compreende duas partes: as premissas, constituídas pelas duas primeiras proposições e a conclusão, representada pela terceira. Para que um silogismo seja inatacável, é preciso:
    1º que a maior e a menor sejam exatas;
    2º que a terceira proposição dimane logicamente as duas primeiras.
    Se o silogismo dos filósofos espiritualistas reúne estas duas condições, é irrefutável e nada mais me resta senão aceitá-lo; mas, se lhe falta uma só dessas condições, então o silogismo é nulo, sem valor, e o argumento destrói-se por si mesmo.
    A fim de conhecer o seu valor, examinemos as três proposições que o compõe.
    1ª proposição (maior): “Não há efeito sem causa”.
    Filósofos, tendes razão. Não há efeito sem causa: nada mais exato. Não há, não pode haver, efeito sem causa. O efeito não é mais do que a continuação, o prolongamento, o limite da causa. Quem diz efeito diz causa. A ideia de efeito provoca, necessariamente e imediatamente a ideia de causa. Se, ao contrário, se concebe um efeito sem causa, isto seria o efeito do nada, o que equivaleria a crer no absurdo.
    Sobre esta primeira proposição, estamos, pois, de acordo.
    2ª proposição (menor): “Ora, o Universo é um efeito”.
    Antes de continuar, peço explicações:
    Sobre o que se apoia esta afirmação tão franca e tão categórica? Qual o fenômeno, ou conjunto de fenômenos, na qual a verificação, ou conjunto de verificações, que permitem uma afirmação tão rotunda?
    Em primeiro lugar, comecemos suficientemente o Universo? Temo-lo estudado profundamente, temo-lo examinado, investigado, compreendido, para que nos seja permitido fazer afirmações desta natureza? Temos penetrado nas suas entranhas e explorado os seus espaços incomensuráveis? Já descemos a profundeza do oceano? Conhecemos todos os domínios do Universo? O Universo já nos declarou todos os seus segredos? Já lhe arrancamos todos os véus, penetramos todos os seus mistérios, descobrimos todos os seus enigmas? Já vimos tudo, apalpamos tudo, sentimos tudo, entendemos tudo, observamos tudo, afrontamos tudo? Não temos nada mais que aprender? Não nos resta nada mais que descobrir? Em resumo, estamos em condições de fazer uma apreciação formal do Universo?
    Supomos que ninguém ousará responder afirmativamente a todas estas questões; e seria digno de lástima todo aquele que tivesse a tenebridade e a insensatez de afirmar que conhece o Universo.
    O Universo! — quer dizer não somente este ínfimo planeta que habitamos e sobre o qual se arrastam as nossas carcaças; não somente os milhões de astros que conhecemos e que fazem parte do nosso sistema solar, ou que descobrimos com o decorrer dos tempos, mas ainda, esses mundos, aos quais, com conjectura, conhecemos a existência, mas cuja distancia e o número restam incalculáveis!
    Se eu dissesse “o universo é uma causa”, tenho a certeza que desencadeariam imediatamente contra mim as vaias e os protestos de todos os religiosos; e, todavia, a minha afirmação não era mais descabelada que a deles. Eis tudo.
    Se me inclino sobre o Universo, se o observo quanto me permitir o homem contemporâneo, os conhecimentos adquiridos, verificarei que é um conjunto inacreditavelmente complexo e denso, uma confusão impenetrável e colossal de causas e de efeitos que se determinam, se encadeiam, se sucedem, se repetem e se interpenetram. Observarei que o todo leva uma cadeia sem fim, cujos elos estão indissoluvelmente ligados.
    Certificar-me-ei de que cada um destes elos é, por sua vez, causa e efeito: efeito da causa que o determinou, causa do efeito que se lhe segue.
    Quem poderá dizer: “Eis aqui o primeiro elo — o elo causa”? Quem poderá afirmar: “Eis o último elo — elo efeito”? E quem poderá ainda dizer: “Há necessariamente uma causa número um e um efeito número… último”?
    À segunda proposição, “ora, o Universo é um efeito”, falta-lhe uma condição indispensável: a exatidão. Por consequência, o famoso silogismo não vale nada.
    Acrescento mesmo que, no caso em que esta segunda proposição fosse exata, faltaria estabelecer, para que a conclusão fosse aceitável, se o Universo é o próprio efeito de uma Causa única, de uma Causa primeira, da Causa das Causas, de uma Causa sem Causa, da Causa eterna.
    Espero, sem me inquietar, esta demonstração, porque é uma demonstração que se tem desejado muitas vezes, sem que ninguém no-la desse; é também uma demonstração, da qual se pode afirmar, sem receio de desmentido, que jamais poderá se estabelecer de uma forma séria, positiva e científica.
    Por último: admitindo que o silogismo fosse irrepreensível, ele poderia voltar-se facilmente contra a tese do Deus-Criador, colocando-se a favor da minha demonstração.
    Expliquemos: “não há efeito sem causa!” — Seja! — “o Universo é um efeito!” — De acordo! — “Logo este efeito tem uma causa e é esta causa que chamamos Deus! — Pois seja!
    Mas não vos entusiasmeis, deístas; escutai-me, porque ainda não triunfastes.
    Se é evidente que não há efeito sem causa, é também rigorosamente exato que não há causa sem efeito. Não há, não pode haver, causa sem efeito. Que diz causa, diz efeito. A ideia de causa implica necessariamente e chama a ideia de efeito. Porque uma causa sem efeito seria uma causa do nada, o que seria tão absurdo quanto o efeito do nada. Que fique, pois, bem entendido: não há causa sem efeito.
    Vós, deístas, afirmais, enfim, que o Deus-Causa é eterno. Desta afirmação concluo que o Universo-Efeito é igualmente eterno, visto que a uma causa eterna, corresponde, indubitavelmente, a um efeito eterno. Se pudesse ser de outro modo, quer dizer, se o Universo tivesse começado, durante os milhares e milhares de séculos que, talvez, precederam a criação do Universo, Deus teria sido uma causa sem efeito, o que é impossível; uma causa de nada, o que seria absurdo.
    Em conclusão: se Deus é eterno, o Universo também o é: e, se o Universo também é eterno, é porque ele nunca principiou, é que jamais foi criado.
    É clara a demonstração?
    Segunda série de argumentos: Contra o Deus-governador
    7º argumento: O governador nega o criador
    São muitíssimos — formam legiões — os indivíduos que, apesar de tudo, se obstinam em crer. Concebo que, a rigor, se possa crer na existência de um criador perfeito, como também concebo que se possa crer na existência de um governador necessário. Mas, o que me parece impossível é que, ao mesmo tempo, se possa crer racionalmente num e noutro, porque estes dois seres perfeitos se excluem categoricamente: afirmar um é negar o outro; proclamar a perfeição do primeiro é confessar a inutilidade do segundo; sustentar a necessidade do segundo é negar a perfeição do primeiro.
    Por outras palavras: pode-se crer na perfeição ou na necessidade do outro; mas o que não tem a menor sombra de lógica é crer na perfeição dos dois. É preciso, pois, escolher qualquer deles.
    Se o Universo criado por Deus tivesse sido uma obra perfeita; se, no seu conjunto, como nos seus pormenores, esta obra não apresentasse nenhum defeito; se o mecanismo desta criação gigantesca fosse irrepreensível; se a sua perfeição fosse de modo que a ninguém despertasse a menor suspeita de qualquer desarranjo ou de qualquer avaria; se, enfim, a obra fosse digna deste operário genial, deste artista incomparável, desse construtor fantástico a que chamam Deus, a necessidade de um governador nunca se teria sentido.
    É que é lógico supor que, uma vez a formidável máquina fosse posta em movimento, nada mais haveria a fazer do que abandoná-la a si própria, visto que os acidentes seriam impossíveis. Não seria preciso este engenheiro, este mecânico, para vigiar a máquina, para a dirigir, para a reparar, para a afinar, enfim. Não, este engenheiro seria inútil, este mecânico não teria razão de ser.
    E, neste caso, o Deus-Governador era também inútil. Se o Governador existe, é porque a sua intervenção, a sua vigilância são indispensáveis. A necessidade do Governador é como que um insulto, como um desafio lançado ao Criador; a sua intervenção corrobora o desconhecimento, a incapacidade, a impotência desse criador.
    O Deus-Governador nega a perfeição do Deus-Criador.
    8º argumento: A multiplicidade dos deuses prova que não existe nenhum deles
    O Deus-Governador é, e não pode deixar de ser, poderoso e justo, infinitamente poderoso e infinitamente justo.
    Ora, eu afirmo que a multiplicidade das religiões atesta que falta a este Deus poder ou justiça, se não, ambas as coisas.
    Não falemos dos deuses mortos, dos cultos abolidos, das religiões esquecidas, que se contam por milhares e milhares. Falemos somente das religiões de nossos dias. Segundo os cálculos mais bem fundados, há, presentemente, oitocentas religiões, que se disputam o império das mil e seiscentas milhões de consciências que povoam o nosso planeta. Ninguém pode duvidar que cada uma destas religiões reclama para si privilégio de que só o seu Deus é que é o verdadeiro, autêntico, o indiscutível, o único, e que todos os outros Deuses são Deuses risíveis, Deuses falsos, Deuses de contrabando e de pacotilha, e que, portanto, é uma obra piedosa combatê-los e pulverizá-los.
    A isto, ajunta: Se em vez de oitocentas religiões, não houvesse senão cem ou dez, ou duas, o meu argumento teria o mesmo valor.
    Pois bem, afirmo novamente que a multiplicidade destes Deuses atesta que não existe nenhum, certificando, ao mesmo tempo, que Deus não é todo-poderoso nem sumamente justo.
    Se fosse poderoso teria podido falar a todos os indivíduos com a mesma facilidade com que falou isoladamente a alguns. Ter-se-ia mostrado, ter-se-ia revelado a todos sem empregar mais esforços do que o que empregou para se apresentar a poucos.
    Um homem — qualquer que seja — não pode mostrar-se nem falar senão a um número reduzido de indivíduos: os seus órgãos vocais têm uma persistência que não pode exceder certos limites. Mas Deus… Deus pode falar a todos os indivíduos — por muito grande que seja o número — com a mesma facilidade que falaria a uns poucos. Quando se eleva, a voz de Deus pode e deve perpetuar-se nos quatro pontos cardeais! O verbo divino não conhece distâncias nem obstáculos. Atravessa os oceanos, escala as alturas, franqueia os espaços, sem a menor dificuldade.
    E visto que ele quis — é a religião que o afirma — falar com os homens, revelar-se-lhes, confiar-lhes os seus desejos, indicar-lhes a sua vontade, fazer-lhes conhecer a sua lei, bem teria podido fazê-lo a todos e não a um punhado de privilegiados.
    Mas Deus não fez assim, visto que uns o negam, outros o ignoram, e outros, enfim, opõe tal Deus a tal outro Deus dos seus concorrentes.
    Nestas condições não será mais sensato pensar que ele não falou a ninguém, e que as múltiplas revelações que me atribuem, não são, senão, múltiplas imposturas, ou arma que, se ele falou a uns poucos, é porque era incapaz de falar com todos?
    Sendo assim, eu acuso-o de impotência. E se não quiserdes que o acuse de impotência, acuso-o de injustiça. Que pensar, com efeito, de um Deus que se mostra a um reduzido número e que se esconde das outras? Que pensar de um Deus que fala para uns e que, para outros, guarda o mais profundo silêncio?
    Não esqueçais que os representantes desse Deus afirmam que ele é o pai de todos: e que todos, qualquer que seja o seu título ou grau, são os filhos bem amados desse Pai que reina lá no céu! Pois, muito bem, que pensais desse pai que, exuberante da ternura para alguns privilegiados, os desperta, revelando-se-lhes evitando-se as angustias da dúvida, arrancando-o das torturas da hesitação, enquanto que, violentamente, condena a maioria de seus filhos aos tormentos da incerteza? Que pensais desse pai que, no meio de seu esplendor de Majestade, se mostra a uma parte de seus filhos, enquanto que, para a outra, fica envolto nas mais profundas trevas? Que pensais desse pai que, exigindo de seus filhos a prática de um culto, com o seu contingente de respeitos e adorações, chama só alguns deles para escutarem a sua palavra de Verdade, enquanto que, com um propósito deliberado, nega aos demais esta distinção, este insigne favor?
    Se julgais que este pai é justo e bom, não vos surpreendas com a minha apreciação, que é muito diferente:
    A multiplicidade de religiões proclama que a Deus faltou poder ou justiça. Ora, Deus deve ser infinitamente poderoso e infinitamente justo — são os religiosos que o afirmam. E se lhe falta um destes dois atributos — poder ou justiça — não é perfeito: não sendo perfeito, não tem razão de ser, não existe.
    A multiplicidade dos Deuses e das religiões demonstra que não existe nenhum deles.
    9º argumento: Deus não é infinitamente bom: é o inferno que o prova
    O Deus-Governador ou Providência é, deve ser, infinitamente bom, infinitamente misericordioso. Mas a existência do Inferno demonstra-nos que não é assim.
    Atentai bem ao meu raciocínio: Deus podia — porque é livre — não nos ter criado; mas criou-nos. Deus podia — porque é todo poderoso — ter-nos criado todos bons; mas criou-nos bons e maus. Deus podia — porque é bom — admitir-nos todos, após a morte, no seu Paraíso, contentando-se, como castigo, com o tempo de sofrimento e atribulações que passamos na Terra. Deus podia, em suma — porque é justo — não admitir em seu Paraíso senão os bons, recusando ali lugar aos perversos; mas, neste caso, deveria destruir totalmente os maus com a morte, e jamais condená-lo aos sofrimentos do Inferno. E isto porque quem pode criar, pode destruir; quem tem poder para dar a vida, também tem o poder para tirá-la, para aniquilá-la.
    Vejamos: vós não sois deuses. Vós não sois infinitamente bons, nem infinitamente misericordiosos. Sem vos atribuir qualidades que não possuís, eu tenho a certeza de que, se estivesse em vossas mãos — sem que isso vos exigisse um grande esforço, e sem que, de aí, resultasse para nós algum prejuízo moral ou material — evitar a um ser humano uma lágrima, uma dor, um sofrimento, eu tenho a certeza, repito, que o faríeis imediatamente, sem vacilar nem titubear. E, todavia, vós não sois infinitamente misericordiosos.
    Sereis, por acaso, melhores e mais misericordiosos que o Deus dos cristãos?
    Porque, enfim, o Inferno existe. A Igreja faz alarde dele: é a horrível visão, com a ajuda da qual semeia o pavor no cérebro das crianças e dos velhos, e entre os pobres de espírito e os medrosos; é o espectro que se estala na cabeceira dos moribundos, na hora em que a morte os arrebata toda a coragem, toda a energia, toda a lucidez.
    Pois bem, o Deus dos cristãos, esse Deus que dizem cheio de piedade, de perdão, de indulgência, de bondade e de misericórdia, precipita para todo o sempre, uma parte dos seus filhos, num antro de torturas as mais cruéis, e de suplicias as mais horrendas.
    Oh! Como ele é bom! Como ele é misericordioso!
    Vós conheceis certamente estas palavras das escrituras: “Muitos serão os chamados, mas poucos os eleitos”. Bem abusos do seu valor, estas palavras significam que o número de salvos será ínfimo, enquanto que o número de condenados há de ser considerável. Esta afirmação é de uma crueldade tão monstruosa que os deístas têm procurado dar-lhe um outro sentido.
    Mas pouco importa: o Inferno existe, e é evidente que os condenados — muitos ou poucos — aí sofrerão os mais dolorosos tormentos.
    Agora, pergunto eu: a quem podem beneficiar os tormentos dos condenados? Aos eleitos? — Evidente que não. Por definição, os eleitos serão os justos, os virtuosos, os fraternais, os compassivos: e seria absurdo supor que a sua felicidade, já incomparável, pudesse ser aumentada com o espetáculo de seus irmãos torturados. Aos próprios condenados? — também não, porque a igreja afirma que o suplicio desses desgraçados jamais acabará; e que, pelos séculos dos séculos, os seus sofrimentos serão tão horripilantes como no primeiro dia.
    Então?… Então, aparte os eleitos e aparte os condenados, não há senão Deus, não pode haver senão ele. É, pois, Deus, quem obtém benefícios aos sofrimentos dos condenados? É, pois, ele, esse pai infinitamente bom, infinitamente misericordioso, que se regozija sadicamente com as dores e que voluntariamente condena os seus filhos?
    Ah! Se isto é assim, esse Deus aparece-nos como carrasco mais feroz, como o inquisidor mais implacável que imaginar se pode.
    O inferno prova que Deus não é bom nem misericordioso — a existência de um Deus de bondade é incompatível com a existência do inferno.
    E de duas uma: ou o inferno não existe, ou Deus não é infinitamente bom.
    10º argumento: O problema do mal
    É o problema do mal que me fornece material para o meu último argumento contra o Deus-Governador, e, simultaneamente, para o meu primeiro argumento contra o Deus-justiceiro.
    Eu não digo que a existência do mal — mal físico e mal moral — seja incompatível com a existência de Deus; o que digo é que é incompatível com o mal a existência de um Deus infinitamente poderoso e infinitamente bom.
    O argumento é conhecido, ainda que o não seja senão pelas múltiplas refutações — sempre impotentes — que se lhes tem apresentado. Remontam-no a Epicuro. Tem, portanto, mais de vinte séculos de existência: mas, por velho que seja, conserva ainda todo o seu vigor. Esse argumento é o seguinte:
    O mal existe. Todos os seres sensíveis conhecem o sofrimento. Deus, que tudo sabe, não pode ignorá-lo. Pois bem, de duas, uma: Ou Deus quer suprimir o mal e não pode; ou Deus pode suprimir o mal e não quer.
    No primeiro caso, Deus pretendia suprimir o mal, porque era bom, porque compartilhava das dores que nos aniquilam, porque participava dos sofrimentos que suportamos. Ah! Se isso dependesse dele! O mal seria suprimido e a felicidade reinaria sobre a Terra…
    Mais uma vez Deus é bom, mas não pode suprimir o mal — não é todo poderoso.
    No segundo caso, Deus podia suprimir o mal. Bastava que o quisesse para que o mal fosse abolido. Ele é todo poderoso e não quer suprimir o mal; portanto, não é infinitamente bom.
    Aqui, Deus é todo poderoso, mas não é bom; acolá, Deus é bom mas não é todo poderoso. Para admitir a existência de Deus, não basta que ele possua uma destas perfeições: poder ou bondade. É indispensável que possua as duas.
    Este argumento nunca foi refutado. Entendamo-nos: ao dizer nunca foi refutado quero dizer que, racionalmente, ninguém a pode ainda refutar, embora tenham ensaiado isso muitas vezes. O ensaio de refutação mais conhecido é este:
    Vós apresentais em termos errôneos o problema do mal. É um equivoco atirar para cima de Deus toda a responsabilidade. Bem, é certo que o mal existe — é inegável; mas só o homem é responsável por ele. Deus não quis que o homem fosse um autômato, uma máquina, que obedece cega e fatalmente. Ao criá-lo, Deus deu-lhe completa liberdade — fez dele um ser inteiramente livre; e, conforme com essa liberdade, que generosamente lhe outorgou, concedeu-lhe a faculdade de fazer dela, em todas as circunstâncias, o uso que quisesse. E se o homem, em vez de fazer uso nobre e justiceiro deste bem inestimável, faz dele um uso criminoso, porque seria injusto: devemos acusar mais é o homem, o que é razoável.
    Eis a clássica objeção. Que é que ela vale? Nada!
    Eu explico-me: façamos distinção entre o mal físico e o mal moral. O mal físico é a doença, o sofrimento, o acidente, a velhice, com o seu cortejo de vícios e enfermidades; é a morte, que implica perda de seres que amamos. Há crianças que nascem e que morrem, dias depois de seu nascimento, e cuja vida foi um sofrimento permanente. Há uma enorme multidão de seres humanos para quem a vida não é mais do que uma longa série de dores e aflições: seria preferível que não tivessem nascido. E, na ordem natural, as epidemias, os cataclismos, os incêndios, as secas, as inundações, as tempestades, a fome, constituem uma soma de trágicas fatalidades que originam a dor e a morte.
    Quem ousará dizer que o homem é o responsável por este mal físico? Quem não compreende que se Deus criou o Universo, dotando-o com as formidáveis leis que o regem, o mal físico não é senão uma destas fatalidades que resultam de um jogo normal das forças da natureza? Quem não compreende que o autor responsável destas calamidades é, com toda a certeza, quem criou o Universo e quem o governa?
    Suponho que, sobre este ponto, não há contestação possível. Deus

  • Christopher Hitchens, Jornalista

    Autor: Felipe Moraes

    Veículo:

    Fonte: Correio Brasiliense, 16 dezembro 2011

    Obtuário Christopher Hitchens, jornalista O polêmico escritor e jornalista inglês Christopher Hitchens morreu de pneumonia na noite da última quinta-feira, aos 62 anos, num hospital de Houston, Texas (EUA), depois de complicações de um câncer no esôfago. A doença foi diagnosticada em junho de 2010, logo após o lançamento de seu livro de memórias, Hitch-22 (Nova Fronteira). Grayydon Carter, editor da revista Vaanity Pair, que tinha Hitchens como colaborador desde 1992, o descreveu como um homem "ferozmente inteligente, que era tão vibrante no papel quanto no bar". Em declaração irônica à CNN, em agosto de 2010, Hitchens disse que o consumo excessivo de bebida e cigarro o tornava forte candidato ao câncer. Autor de Deus não é Grande e Como a Religião Envenena Tudo (Ediouro) e O Julgamento de Kissinger (Boitempo Editorial) e mais 15 livros, Hitchens, natural de Portsmouth, litoral sul da Inglaterra, era casado com Carol Blue, com quem teve Antonia, e deixou outros dois filhos de um casamento anterior, Alexander e Sophia. Eric Emest Hitchens, seu pai, ex-marinheiro, também faleceu devido a um câncer no esôfago, em 1978, aos 79 anos. Christopher Hitchens tinha língua afiada para a política e foi um crítico voraz da religião. Chegou a ser expulso do Labour Party (partido de centro-esquerda do Reino Unido) por suas manifestações contra a Guerra do Vietnã. Mudou-se para os Estados Unidos em 1981, época em que se tomou colaborador de importantes veículos americanos e ingleses. Polemista, atacava desde o ex-presidente Bill Clinton ("um bandido cínico, egoísta e ambicioso") até Madre Teresa de Calcutá, para ele uma fraude. Mais tarde, porém, quando apoiou a invasão do Iraque e a reeleição de George W. Bush, em 2004, foi acusado de traição e oportunismo. Como escritor, alcançou status de "ateu mais popular nos Estados Unidos" com Deus não é grande, em 2007. A firme posição de crítico do cristianismo inspirou reconhecimento de outro ateu influente, Richard Dawkins (Deus Um delírio), que o definiu como "melhor orador do nosso tempo" e um "valioso guerreiro contra todos os tiranos, incluindo Deus". O escritor Salman Rushdie - que teve o apoio de Hitchens quando lançou o polêmico Os versos satânicos (1988) - escreveu no Twitter: "Uma grande voz ficou em silêncio. Um grande coração parou de bater". Em artigo veiculado pela Vanity Fair logo depois do diagnóstico (do câncer), Hitchens demonstrava, a seu modo, a sua angústia: "Não viverei o suficiente para ver o casamento dos meus filhos? Para ver o World Trade Center erguer-se outra vez? Para ler - ou escrever - os obituários de vilões mais velhos como Henry Kissinger e Joseph Ratzinger (papa Bento 16)?".
Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Em dezembro de 2011 e no início de janeiro de 2012 a mídia “babou” no livro “Deus não é grande – como a religião envenena tudo”. Em toda livraria o livro estava esgotado. Não sei se porque o autor morreu, vitima de câncer no esôfago no mês de dezembro de 2011, ou porque se tratava de um polemista juramentado e “ateu até o fundo da alma”. Comprei o livro num sebo virtual, contendo na folha de rosto um carimbo: “Cortesia do Editor”.


 

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