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Por Que Sou Gorda, Mamãe?

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Por Que Sou Gorda, Mamãe?

Livro Ótimo - 1 opinião

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Autor: Cintia Moscovich

Editora: Record

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 251

Ano de edição: 2007

Peso: 365 g

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Ótimo
Marcio Mafra
13/01/2012 às 19:53
Brasília - DF

“Por que sou gorda mamãe?” é livro narrado na primeira pessoa – sinal de competência da autora? – que mistura ficção e não ficção e narra o início, ou reinício, de um rigoroso e definitivo regime. É também um mergulho nas memórias da autora para a investigação das causas de sua obesidade, sutilmente atribuídas aos seus antepassados judeus, lembrados nas histórias das avós, a Gorda e a Magra, e principalmente às dificuldades de relacionamento com a mãe. Melancolia, obesidade e tacadas de humor, assim como as crises de auto-estima e auto-imagem permeiam todo o livro, escrito no formato de carta que a personagem escreve e dirige para a mãe.

Um tema adiposo, antipático, incômodo e de certa forma sujeito à preconceitos, resultou num livro bom, bem escrito, de leitura fácil, leve ou pesado, mas encantador em muitas partes, mercê do talento da autora.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da menina redondinha que chega à mulher redondona, seus dramas, suas culpas, e a busca das razões pela qual engordou , que acaba por atribuir – tranquilamente – à sua mãe.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Voltamos do consultório médico com um calhamaço de prescrições. Os meninos, que estavam de fato em fase de crescimento, tinham algumas regalias, como iogurtes, pão e Nescau no café da manhã, e arroz no almoço e jantar - além de toneladas de verduras, frutas e carnes, das quais se deveria retirar toda a gordura. A mim, nada restou, a não ser bife no café da manhã, bife no almoço, bife no jantar, em porções que nunca podiam exceder cem gramas. Cem gramas eram um bifinho, a metade do que a senhora come habitualmente, mamãe, e um terço do que me satisfaria. Não enchiam nem uma cárie. E a única coisa que eu podia comer sem restrições era alface.

- Ou repolho ou couve ou acelga ou agrião - havia dito o médico, diante da minha ameaça de vomitar ao ouvir a palavra alface. - Como a senhorita vê, há muitas opções. E nem se preocupe, a senhorita não vai ficar verde como está ameaçando.

Como odiei aquele médico e como odiei aquele senhorita. Com meus renovados protestos, prescreveu Moderex, que ia me tirar a fome.

Em casa, papai achou tudo muito bom, mas resolveu implicar com o remédio. Drogas para tirar a fome não podiam fazer bem. Só havia um jeito de seguir aquela dieta:

- Força de vontade. Você quer, você consegue. Assim, aos treze anos de idade, papai me livrou de tomar anfetaminas e me colocou nas mãos meu próprio destino. Força de vontade. Força de vontade que papai e a senhora sempre tiveram, para dar e vender, embora eu ache que a senhora algumas vezes mirou as coisas erradas. Força de vontade que a senhora quis me enfiar goela abaixo com o argumento de que eu estava mesmo grober, papai tinha razão. E mais: se eu não tivesse força de vontade, o Fairlane, que ainda estava no conserto, voltaria a ser quebrado, eu estava ficando uma baleia - e dá-lhe gargalhadas.

A senhora, poucas vezes na vida, deu a papai essa alegria tão rara, a de concordar com ele. E foi concordar logo naquele assunto. Não tenho dúvidas, mamãe. Aquela dieta, a primeira da minha vida, marcou a enorme diferença entre nós, as duas. A partir dali, eu pertencia ao outro time. A senhora, privilegiada pela natureza, apesar de comer o que bem quisesse, era magra de dar raiva.

De que a senhora achava graça?

A mesa passou a ser frugal. Aliás, frugal passou a ser palavra muito usada lá em casa. Além disso, papai inventou nova moda: deveríamos nos servir e comer somente a metade do que havia no prato, que já não era grande coisa. Uma tristeza, e a metade que me tocava comer sempre era menor do que a metade que eu tinha de desprezar.

A única pessoa que não entendia o sentido desse comedimento era Vovó Magra. Alertada do tal regime, vovó fez o que lhe parecia mais sensato: continuava contrabandeando varenikes, beigales, mondales, knishes, strudels - além daquele creme de laranja, que era um passo no paraíso. Aproveitando a ausência de papai, chegava em casa carregada com pratos fundos de louça branca naquela sacola de crochê. Bem assim: o gato saía, os ratos tomavam conta.

Foi por isso que, durante muito tempo, por mais alface que eu comesse, o ponteiro da balança não se mexia. Olhando a senhora, olhando Vovó Magra, olhando vocês, duas mulheres que também tinham vindo dos ermos gelados, não me entrava na cabeça que o destino me tivesse reservado o outro lado. Injusto.

A proibição de comer, a dieta, o contrabando de comida, tudo isso me veio numa época em que eu estava me fazendo, se é que me explico direito. Começava a se afinar em mim algum interesse pelo sexo oposto e algum senso de estética. Eu me olhava no espelho, me olhava, até que eu me esvaziasse de me olhar, até que eu não me visse, até que eu pudesse me ver como me olhavam os outros que, ao menos me parecia, nunca me olhavam de frente. Então, eu fazia que estava indo embora e, de repente, virava o rosto e me olhava de lado, para pegar desprevenida minha imagem no espelho, coisa que nunca consegui. O fato de eu reconhecer em minhas tias umas baleias, o fato de elas representarem o meu futuro, o fato de eu descobrir em minha mãe uma mulher delgada e bonita de parar o trânsito nutriu desgostos que nem séculos seriam capazes de resolver.

A pele que me separava do mundo me causava desconforto. Então era assim que a vida me tratava?

Papai nunca chegou a saber do contrabando de comida de vovó. Ou, se chegou a desconfiar, disfarçou muito bem. Era um homem piedoso, afinal, embora tivesse seus momentos de maldade.

Eu só vim a emagrecer mais tarde, ali pelos dezesseis anos, em plena crise neurótica - e a gordura e o temor que se deve ter dela passaram a ser seu assunto preferido, mamãe. Emagreci depois que entrou em cena aquela médica amalucada que, além de uma tabela de calorias, impunha a seus pacientes remédios aviados, com calmanntes, excitantes, laxantes, diuréticos e hormônios. Quando desmaiei na cozinha por uma queda absurda na pressão arterial, eu havia perdido vinte e cinco quilos. Perdi e não queria encontrar por nada nesse mundo. Livre dos químicos, cresci ora bulímica, ora anoréxica, em tempos que bulimia e anorexia eram neologismos de uso alheio. Medo da comida, sempre, e sempre em pânico diante de tudo o que fosse branco ou de cor clara: massas, pães, arroz, batata, gordura. Por bem uns quinze anos, comi alface, agrião, rúcula, repolho, couve, acelga; carne, às vezes, porções pequenas, quase insossas, que eu engolia sem mastigar. Não era prazer, era um castigo, comida era prazer dos outros. E a senhora já havia adquirido o hábito de ver gordura em todo mundo, assunto que é uma espécie de bússola para seus dias. Lamento, mamãe, que a senhora nunca tenha tido uma filha bonita. Me tornei aquilo que eu pude, e bem pouco eu pude.

O máximo que eu sou é essa criatura que faz ranger de queixas a rede azul.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Cintia Moscovicth foi convidada da Flip, Paraty, em 2008, por isso comprei seu livro que estava nas estantes da livraria local.


 

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