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Ronaldo Glória e Drama no Futebol Globalizado

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Ronaldo Glória e Drama no Futebol Globalizado

Livro Ruim - 1 comentário

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Autor: Jorge Caldeira

Editora: Editora 34

Assunto: Biografia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 318

Ano de edição: 2002

Peso: 550 g

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Ruim
Marcio Mafra
20/12/2011 às 21:29
Brasília - DF

Este é um bom livro, principalmente, se o leitor não for um desses fanáticos que conhecem tudo sobre futebol. Para futebolistas medianos ou medíocres é um excelente livro. Para os profissionais, talvez, seja um livro mediano ou ruim. Mesmo assim dá para perceber com facilidade que Jorge Caldeira o escreveu como torcedor, admirador, fã, seguidor ou mais um dos áulicos interessados na fantástica grana de Ronaldo Fenômeno. O autor só tem elogios, acertos e coisas boas para falar de Ronaldo. Parece livro para promover sua imagem, onde a vida – pessoal e profissional - do jogador é narrada com tantas explicações, interpretações e teorias que só o favorecem. Fica parecendo que ele sempre esteve com a razão nos problemas e atritos com empresários, dirigentes, técnicos e demais jogadores. Dá, ainda, a impressão que as críticas, envolvimentos problemáticos e posturas desfavoráveis ao Fenômeno eram fruto de inveja, despeito, conflito de interesses, amadorismo ou incompreensão das pessoas que as fizeram. Será que Ronaldo não tinha defeito? No livro não aparece nenhum, tal como a velha e boa “ação entre amigos”. Neste diapasão são decepcionantes as explicações sobre o episódio que aconteceu no dia da final da Copa de 1998 - certamente uma parte muito importante do livro - as explicações são risíveis e nada acrescentam às versões que existem para o caso. O livro não é uma biografia imparcial, nem isenta. Jorge Caldeira é um craque, seu livro é muito bem escrito, leve e gostoso de ler, mas a vida de Ronaldo Luiz Nazário de Lima não foi vida de santo, nem sua carreira profissional se parecia com um domingo alegre da bondade.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Biografia não autorizada de Ronaldo Fenômeno, desde seu nascimento até julho de 2002, no pentacampeonato do Brasil contra a Alemanha.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ronaldo começou a jogar no São Cristóvão em plena Era Collor, um presidente que prometia mudar tudo. No futebol isso queria dizer uma reforma radical, sob o comando de Zico, indicado para ocupar a Secretaria de Esportes do governo. As primeiras idéias demoraram um pouco para aparecer, até porque 1990 era um ano de Copa do Mundo, a primeira sob o comando de Ricardo Teixeira, recentemente eleito presidente da CBF. Seu primeiro gesto foi típico de quem coloca posições pessoais acima de um planejamento. Para qualquer pessoa que entende minimamente de futebol, uma troca de técnico no time no ano da competição não era um bom presságio. Mas isto foi feito, e a escolha de Teixeira recaiu sobre Sebastião Lazaroni, um mais que sofrível jogador de futevôlei do Leme, conhecido por suas preleções num linguajar estranho - mas não tão estranho como as fórmulas econômicas do tempo. O resultado do time da era do congelamento de bens foi muito modesto: eliminado pela Argentina no primeiro jogo do mata-mata, depois de uma passagem dolorosa pela primeira fase.

A quinta decepção seguida desde 1970 mostrava uma clara tendência ao declínio do futebol brasileiro. Ele ficou entre os quatro semifinalistas em 74 e 78, caiu antes das semifinais em 82, parou nas quartas-de-final em 86, foi embora nas oitavas em 90. Zico tinha um diagnóstico da situação bastante preciso, e compartilhado por aqueles que acompanhavam minimamente o assunto: o problema era de estrutura. Mas tal palavra era, a rigor, muito modesta para descrever a realidade. Obsolescência talvez fosse um termo melhor.

Ao contrário das empresas lucrativas por trás dos esportes profissionais nos Estados Unidos, ou mesmo das empresas com lucros limitados nos países da Europa, os brasileiros haviam interpretado de maneira bastante arcaica uma frase que servia de dístico para a Federação Inglesa nos tempos anteriores ao profissionalismo, e que fora colocada - para não ser muito levada a sério - nos estatutos da Fifa quando esta foi fundada, no distante ano de 1904: "O time não deve ser usado como uma fonte de lucro para seus diretores". Ela poderia ser adequada no Brasil durante os momentos pioneiros, quando o futebol brasileiro buscava ser um esporte para a elite negros e mulatos eram barrados sumariamente em muitos times. Mas certamente já não teria muito sentido a partir do momento em que o jogo foi profissionalizado, num processo que começou em São Paulo e no Rio de Janeiro na primeira metade da década de 1930.

Se a decisão era cobrar dos torcedores e pagar aos jogadores, nada melhor que organizar tudo isso transformando times em empresas. Mas antes que esta idéia pudesse começar a ser discutida, alguém muito poderoso se intrometeu no assunto. Getúlio Vargas era um ditador com uma mania muito peculiar. Fez sua formação política no Rio Grande do Sul, onde havia uma estranha constituição: ela garantia por lei uma ditadura. Acostumado com a idéia, sempre confundiu qualquer sinal de vida própria para além dos tentáculos estatais como desordem. No poder desde 1930, ele foi muito além da cartilha moderna do tempo (que previa uma maior intervenção do Estado na economia). É certo que estatizou a economia também, mas sua cartilha gaúcha era bem mais ampla que o receituário apenas econômico de intervenção. Botou o Estado no controle de tudo que a vista alcançava: rádios, sindicatos, associações de empresários.

Em 1941, entrou em campo. Com um decreto criou o Conselho Nacional de Desportos, em teoria para cumprir objetivos nobres: "orientar, financiar e encorajar a prática de esportes no Brasil". Na prática, subordinou todas as decisões envolvendo esportes no país a um órgão do Ministério da Educação. E, subordinado a este, havia a Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que dirigia o destino de 16 esportes, da esgrima ao futebol profissional. Era uma entidade "privada", mas o CND podia intervir nela quando quisesse para fazer o que bem entendesse.

Para garantir a obediência, o governo fez duas coisas na lei que criou o CND. Em primeiro lugar, garantiu um monopólio legal para a CBD: pela lei, a sociedade não poderia criar outras federações além da existente. E regalou este monopólio com uma renda para gastar com festa. A CBD ganhou o direito de ficar com 5% da renda de todos os jogos interestaduais e internacionais. Este dinheiro, que vinha do futebol, sustentava outros 15 esportes; assim a entidade tirava dinheiro dos pobres que pagavam entrada no futebol para distribuir entre os ricos que praticavam esporte amador. Para melhor rapar os cofres dos clubes, o governo resolveu organizá-los: uma das primeiras decisões da CBD foi a de enquadrar legalmente os clubes como "entidades sem fins lucrativos". Assim amadores ganharam o monopólio da direção dos clubes com jogadores profissionais. Somando-se tudo, o golpe do ditador congelou não apenas o arcaísmo da era amadora, como ainda impôs uma situação onde os próprios dirigentes do futebol eram considerados incapazes para estabelecer as regras da vida fora de campo - nobre atividade que ficou reservada para os políticos.

Esta estranha estrutura funcionava bem por um único motivo: embora disseminado por todo o país, o futebol não tinha de fato uma organização nacional. Tudo nele era regional. O regionalismo não se limitava aos campeonatos. Todo o mundo simbólico que envolvia o futebol-identidade entre torcedores de um clube, rivalidade entre times, assuntos para discutir - era inteiramente montado pela imprensa local. Boa parte do sucesso do futebol no Brasil se devia à imprensa esportiva. Desde a primeira década do século:XX, donos de jornal descobriram a importância das notícias sobre futebol no resultado de vendas. Não demorou para que muita gente boa passasse a escrever sobre futebol. Criaram ídolos, alimentaram rivalidades, trabalharam sobre símbolos. Cada clássico merecia uma exploração completa de todas as potencialidades de rivalidade dos times, alimentando as vendas de jornais e ingressos para torcedores dos dois lados. Os próprios times tiveram sua mística trabalhada. Assim, não havia clube de segunda divisão que não tivesse todos os apetrechos simbólicos, já nos anos 1940: uniforme, hino, mascote, apelido. Com as duas primeiras Copas conquistadas, tudo isto cresceu. O futebol era o orgulho dos brasileiros. A coisa chegou ao máximo no início dos anos 1970, com uma onda de construção de grandes estádios por todo o país.

A criação de um campeonato nacional, na estrutura existente, gerou um grande desvio. O ganho da CBD vinha de uma porcentagem alta da renda dos jogos interestaduais, que eram raros. Assim, ela custava relativamente pouco para os clubes. O Campeonato Nacional mudaria isto - com um aumento desproporcional das rendas da CBD feito à custa dos clubes. Neste momento, o futebol brasileiro foi ficando ainda mais para trás em relação ao resto do mundo. Para se entender por quê, é preciso conhecer a curiosa natureza econômica desse esporte. Como dizem os economistas, o produto pelo qual se vende o futebol é um jogo. Para haver tal produto, dois times são necessários. A eficiência econômica básica está em atrair o público dos dois times para o estádio. Um jogo com 30 mil pessoas gera duas vezes mais renda que outro com 15 mil. Assim, a eficiência econômica depende da cooperação dos times para trazer público. Dois times grandes enchem um estádio, dois pequenos jogam com a casa a meia boca - e por isso os grandes são economicamente mais eficientes.
Esta situação em que os competidores colaboram para gerar receita exige uma organização que coloque os times frente a frente - e ela tem seu custo. No esporte empresarial, quanto menor o custo da organização, mais dinheiro sobra para os clubes. Parte essencial do sucesso da receita econômica do esporte nos Estados Unidos teve a ver com a forma como se juntaram os elementos, pensada para produzir a maior eficiência econômica possível. Primeiro, os clubes se organizaram numa liga, paga por eles e dirigida por profissionais; com a liga, todos conseguiam a organização de um campeonato pelo menor preço possível. Assim levavam o máximo de público com o mínimo de custos, cumprindo o objetivo de serem eficientes. A televisão aberta aumentou esta eficiência. Para os clubes profissionais, tratasse de conseguir um acréscimo de receita, sem perder as existentes, que vinham das bilheterias. Isso significava manter a atração para o torcedor, a casa cheia. Por causa deste objetivo é que se chegou a um tempo de bonança, com a junção de maiores receitas de bilheteria e direitos de televisão.

A estrutura brasileira tinha uma racionalidade econômica completamente diferente. A organização tinha preço tabelado (os tais 5% da renda) e um monopólio. Assim, no lugar dos clubes, o centro econômico do sistema, a partir do momento em que houve um campeonato nacional, era a CBD: ela ditava a regra. E, pela regra que ditava, sua eficiência econômica máxima estava em cobrar 5%. Por esta racionalidade, 11 jogos com 5 mil pessoas eram mais "eficientes" do que um com 50 mil. Isto era assim porque o Estado garantia o monopólio legal da organização (e portanto os clubes não podiam fazer um campeonato gastando pouco com uma liga). Nesta lógica, os clubes se tornavam simples instrumentos para garantir as receitas de intermediação: como entidades "sem fins lucrativos", não tinham o direito legal de pleitear aquilo que os favorecia, isto é, poucos jogos com boas rendas.

Aqui ainda é preciso lembrar uma outra faceta dos negócios esportivos: as ligas norte-americanas têm seus custos reduzidos ao mínimo simplesmente porque não correm nenhum risco econômico; todo ele fica para os times. A organização central do futebol brasileiro era explicitamente montada para tirar dinheiro do futebol e empregar em outras finalidades. Daí a realidade peculiar do futebol brasileiro: cobrar 5% do faturamento global do negócio sem correr nenhum risco é uma possibilidade tão boa que não pode ser garantida pelo mercado - só mesmo o governo para montar uma estrutura destas. Com esta estrutura, a única maneira que os clubes tinham de aproximar-se de alguma eficiência econômica - já que eram obrigados a correr riscos e tinham contas a pagar - era burlar a lei. Passaram a promover evasão de renda: sempre declaravam um público menor que o presente nos estádios.

Fazer benefício com o bolso alheio é a alma do negócio do futebol brasileiro. A partir de 1970, essas possibilidades foram imensamente ampliadas. Todas as inovações surgidas na época tinham o sentido de espoliar ainda mais os clubes. Foi criada uma loteria esportiva, que beneficiava "obras sociais" do governo e deixava uma migalha para os clubes. Em 1977 veio o negócio das placas nos estádios - mas as receitas eram divididas entre os estádios e as federações. A maior de todas as generosidades foi feita com as televisões: o Brasil era um dos únicos países do mundo onde elas não pagavam nada pelo direito de transmitir jogos. A conseqüência inevitável foi que a televisão aberta entrou no negócio associada aos dirigentes, com as quais negociavam o favor de ganhar de graça algo que cobravam de anunciantes para exibir. Em vez de associação para melhores resultados, como na lógica econômica capitalista, houve competição pelo mesmo público entre televisão e clubes, com vantagem para a primeira.

O resultado inexorável da estrutura foi o esvaziamento dos estádios.

Para os torcedores que insistiam no hábito, os velhos gigantes de concreto cada vez mais carcomidos, com instalações mais próprias para gado que pessoas, era a parte que lhes cabia do novo latifúndio. Assim o Brasil perdeu o bonde do tempo. O futebol passou a ser como tudo no Brasil de uma ditadura que inaugurava uma empresa estatal por semana: um mecanismo de concentração de renda. Como nos Estados Unidos, todo o faturamento do negócio dependia dos jogos. Mas, ao contrário deste país, o faturamento era distribuído de maneira completamente diferente. A parte do leão ficava com intermediários que tinham a proteção de um monopólio legal de organização e não corriam riscos, além das emissoras de televisão que capturavam o público amante do esporte, em detrimento dos clubes. Era inevitável com esta organização. O controle central do negócio por intermediários cujo poder se assentava na intervenção estatal, e não na eficiência econômica, criava um estranho objetivo econômico. Para estes intermediários a maior "eficiência" estava em aumentar ao máximo a diferença entre o que pagavam para os clubes e suas próprias rendas; em outras palavras, o negócio era tão melhor quanto mais prejudicassem os clubes e torcedores.

Este peculiar sentido do negócio das federações e da CBD funcionou porque era refletido no interior da organização dos clubes. Num clube organizado como empresa, o objetivo central é conseguir a maior receita possível, ter as menores despesas - e isto se espelha como lucro nas contas finais. No clube amador que faz um negócio profissional, as coisas são outras. Como há dinheiro e não deve haver lucro, a saída é gastar muito. Até os anos 1970, parte deste gasto era feito com patrimônio: construção de estádios, sedes sociais etc. Tudo isto se justificava porque havia uma demanda crescente de público. A partir dos anos 1970, com a queda de público, não havia mais nenhum motivo para isto. Assim, como eram proibidos por lei de lucrar, embora atuando num negócio, a saída "racional" passou a ser a de desviar dinheiro para os dirigentes. Em outras palavras, a alma do negócio de um clube era queimar eventuais lucros com os "amadores" que os dirigiam - a única forma de cumprir os objetivos da lei. Por isso os clubes afundavam uns atrás dos outros.

O grande comandante da derrocada do futebol brasileiro foi o mesmo homem que globalizou a Fifa. João Havelange chegou a dirigir o futebol brasileiro através da nomeação política para a antiga CBD. Quando passou para a Fifa, começou uma carreira de dupla face, típica da elite brasileira. No exterior era "moderno", construindo a globalização do futebol. Mas, dentro de casa, detestava quando qualquer coisa parecia estar mudando. Em se tratando do futebol brasileiro, sempre foi um típico coronel. Sustentava com raiva canina seus aliados, a maioria gente de sua idade. Considerava uma completa traição qualquer novidade que se apresentasse. Mas num âmbito em que o governo ditava as coisas, perdeu o poder para um almirante indicado pela ditadura, no momento em que se criou a CBF, que cuidava apenas de futebol. Tornou-se então o maior opositor do Brasil na Fifa. E se opunha com denodo, fazendo questão de mostrar seu rancor. Nunca foi de ajudar a seleção brasileira nem o país nesse tempo. Pelo contrário, vetou a proposta brasileira de sediar a Copa de 1986, quando a Colômbia desistiu nas vésperas da competição.

Só mudou de atitude em 1989, quando conseguiu eleger seu genro como um velho coronel - para o cargo. O programa do genro era simples: manter as coisas como estavam. Mas elas estavam tão ruins que até mesmo o governo tinha chegado à conclusão de que precisavam mudar. Assim o futebol brasileiro vivia, no ano de 1990 em que Ronaldo entrava para o São Cristóvão, o curioso confronto entre um ministro do governo tentando dar menos poder ao governo, e a estrutura de poder do futebol brasileiro, que não era governo, mas não queria o governo fora da proteção de seu monopólio legal. E havia briga porque havia dirigentes de clubes e jornalistas que percebiam uma situação insustentável. Esta disputa tinha sua história.

A partir de 1970 apareceram diretores de clubes que não gostavam da estrutura do futebol brasileiro. Mas os dirigentes que queriam andar na mesma direção do resto do mundo sempre foram minoria no país - e aqueles que queriam manter as coisas como estavam eram amigos do governo. Quando os murmúrios de mudança se tornaram um pouco maiores, a reação veio forte. Em 1975, o Congresso aprovou uma lei "democrática": tornava o voto dos clubes amadores igual ao dos profissionais na escolha de dirigentes das federações. Com a nova lei, a imensa maioria dos votos - e o controle do poder - ficou para os muitos clubes que não produziam dinheiro, mas recebiam migalhas das federações. Em outras palavras, os eleitos passaram a ser pessoas que encontrassem formas de arrancar ainda mais dinheiro dos "ricos" para dar aos "pobres". Reforçava-se o objetivo de diminuir ainda mais a eficiência econômica do sistema. Surgiram os "eficientes" em prometer redistribuição para dirigir as federações: políticos profissionais treinados para fazer promessas de gastar o dinheiro dos outros. Eles se tornaram donos das federações, em geral a partir de um cargo num clube de nona categoria. Logo o campeonato nacional foi aumentado, para acentuar o botim dos pequenos, em detrimento dos que geravam efetivamente o dinheiro. Chegou a ter 96 clubes, muitos indicados diretamente por políticos.

A reação inicial a esta situação veio dos clubes maiores, os mais prejudicados pela estrutura. Em 1987, eles organizaram o Clube dos 13. Encontraram sua força associando-se à televisão, mas tiveram de pagar um preço: aceitar a transmissão de jogos ao vivo. Para clubes "capitalistas", aquilo era um anátema: a televisão passa a corroer a receita de bilheteria. Para os desesperados brasileiros, era a única saída - possível apenas porque a lógica econômica da televisão é igual à dos clubes: um jogo entre dois grandes dá mais audiência que outro entre dois pequenos. A coisa estava tão ruim que nem de graça os jogos existentes interessavam à televisão. Mas a coisa parou por aí: simplesmente, os clubes não tinham por onde andar sem nenhum poder legal para organizar campeonatos.

Para resumir: realmente profissionais, no futebol brasileiro, eram apenas os jogadores. Não à toa, a idéia de mudar veio de um deles. Zico conhecia na carne os "resultados" deste modelo. Maior craque do futebol brasileiro, ídolo que lotava o Maracanã, era o maior produtor de receitas do futebol brasileiro dos anos 1980. No entanto, foi vendido para o pífio Udinese, um timinho italiano do rebolo entre a primeira e a segunda divisão, que conheceu seu momento de glória com a presença do Galinho: um quarto lugar no Campeonato Italiano, com a casa sempre lotada. Depois, voltou à realidade e foi rebaixado. A lição da história? Bem, um jogador brasileiro produzia renda em qualquer lugar do mundo - e recebia mais renda onde o dinheiro ficava para quem a gerava. A venda de jogadores para o exterior foi a conseqüência inexorável de uma estrutura arcaica, que premiava intermediários e punia os produtores da mercadoria, os clubes. Os campeonatos montados na lógica dos intermediários eram feitos para gerar o máximo de jogos para a televisão, com fórmulas que lembravam catedrais barrrocas. Ninguém mais ia ao estádio para ver jogos que não valiam nada mas o objetivo era mesmo tirar gente do estádio. Assim o país com a melhor tecnologia do mundo para produzir jogadores de futebol, com clubes tradicionais e adeptos apaixonados, não foi capaz de produzir campeonatos nacionais atraentes para além de suas fronteiras.

A baixa produtividade econômica do futebol brasileiro tornou impossível a competição na televisão com os similares estrangeiros, quando ela veio. Com a abertura do mercado europeu para jogadores estrangeiros, na década de 1980, o Brasil viu o quão secundário era seu negócio. O Campeonato Brasileiro tinha fórmulas tão complicadas e jogos tão extravagantes que nenhuma emissora fora do Brasil perdeu tempo em analisar a possibilidade de transmiti-lo. Enquanto isso, os europeus usaram os jogadores estrangeiros que contratavam para vender campeonatos pela televisão para o mundo (e o campeonato era o produto acabado, com o valor agregado do público nos estádios, televisão e publicidade). O Brasil ficou de fora deste ramo no mercado internacional e passou a vender a tecnologia de ponta dos jogadores a preço de matéria-prima. Os clubes brasileiros passaram a competir com aqueles das ligas inferiores européias, como fornecedores para os grandes. O país se tornou importador de campeonatos bem organizados vendidos para a televisão. O torcedor brasileiro passou a pagar parte do salário de seus craques no exterior via cotas das empresas de televisão pelos direitos de transmiti-los, e ficou impedido de vê-los em casa - num prêmio para a organização mais eficiente.

Era esta a situação que Zico queria mudar. Como ex-jogador, era até compreensível que quisesse começar por onde começou: acabando com o passe. Esta era a instituição que marcava a diferença entre o esporte empresarial norte-americano do esporte profissional europeu. Nos Estados Unidos, o vínculo entre atleta e time era contratual: valia pelo tempo de duração dos contratos; quando estes acabassem, ambos estavam livres para fazer o que quisessem. Na Europa e no futebol, as coisas eram diferentes. Havia contratos, mas os clubes eram senhores do registro federativo que permitia ao jogador entrar nos campeonatos. Este registro, conhecido como passe, era liberado apenas se o clube quisesse. Assim, havia a situação de jogadores sem contrato com um clube, mas que não podiam jogar em outro, pois o clube não liberava o registro. Era, claramente, uma forma de pressão extra-econômica para rebaixar os salários dos jogadores, uma ameaça sempre presente na hora das negociações do contrato.

Nenhum jogador gostava disso, com toda razão. Acabar com o passe, imaginava Zico, era uma forma de trazer o futebol brasileiro para o mundo dos negócios normais, obrigar a uma maior profissionalização. Para João Havelange, no entanto, a tentativa soou como uma blasfêmia. Assim que viu o projeto de mudança, ameaçou simplesmente desfiliar o Brasil da Fifa. Era uma forma de proteger o genro, Ricardo Teixeira, e seu precioso negócio de intermediário-mór do futebol brasileiro. Ganhou apoio dos cartolas de clubes, também intermediários na venda de jogadores. Para eles, aliás, os negócios de venda para o exterior eram muito eficientes para o objetivo de desviar o dinheiro dos clubes (eram comuns as acusações de que parte do dinheiro da venda ficava no exterior, na conta de algum dirigente) e cumprir o objetivo legal de não produzir lucro.

Se a situação do Brasil era ruim, a do São Cristóvão nem se fala. O clube era, naquele momento, pouco eficiente até para os padrões nacionais: havia pouco dinheiro para ser "administrado sem fins lucrativos" por um cartola. Assim, Ronaldo foi jogar num time secundário, dirigido por gente secundária. Mas descobriu ali tudo o que precisava para se tornar o mais global jogador do planeta.

Primeiro, claro, descobriu os segredos do futebol de campo. Seu primeiro treinador não ficou muito no clube, e a alegre concentração se acabou. Para o lugar dele veio Alfredo Sampaio, um veterano bem mais exigente. Encantou-se com as capacidades (bom controle de bola, chute igualmente forte com os dois pés, disposição para buscar o gol), mas não deixou de notar uma lista de problemas a corrigir (dificuldades no cabeceio, pouca propensão a passar, falta de disposição para marcar). Quando tentou começar o trabalho de lapidação, descobriu mais defeitos: a eterna indisposição de jogadores para treinar se aliava a uma quase incapacidade de obedecer instruções. Ronaldo não entendia patavinas de tática, e mal sabia distinguir um zagueiro central de um quarto zagueiro.

Na hora dos treinos, trabalhar com ele era um tormento. Mantinha seu ar simpático ouvindo instruções, mas respondia a elas como um lunático. Esta atitude era um teste constante para a paciência de Alfredo. Nos jogos ele também mantinha o mesmo ar distante - mas aí esta atitude adquiria um outro significado. Na hora do aperto, ele estava sempre com a cabeça fria. Como o time mais perdia que ganhava, havia muitos destes momentos - e aí Alfredo Sampaio saía do sério, mas de um modo diferente. Ficava gritando do banco: "Mete no Ronaldo! Mete no Ronaldo!". E isso resolvia o problema do time, na maior parte das vezes. Desde sempre, a frieza de Ronaldo se estendia ao momento de comemorar o feito - o que provocou outra surpresa para seu emotivo técnico. No dia em que ele fez um gol especialmente importante e reagiu como sempre, Alfredo não agüentou. No vestiário, perguntou: "Por que você não comemora?". Resposta: "Eu não estou aqui para fazer gol?".


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Sempre fui muito ruim de futebol. Não me recordo de ter jogado nenhuma pelada em toda a minha vida. Não me lembro de ter usado uma camisa de qualquer time. Adotei o Botafogo como meu time porque era o time que meu pai torcia. Até hoje não sei direito quando acontece o tal do impedimento, embora sempre exista alguém de plantão para me explicar como ocorre. Até consigo entender a razão da regra, mas não sei enxergar quando acontece o tal impedimento. Em 1970 fui à Copa do México, por conta da Turismo Bradesco, empresa onde trabalhei. Assisti a todos os jogos, gostei muito do espetáculo e das comemorações, mas saí de Guadalajara sem ter acrescido absolutamente nada ao meu conhecimento do esporte. Mesmo assim, durante toda a vida ouvi falar de Guarrincha, Pelé, Romário, Zico, Ronaldo, Ronaldinho Gaucho, Neimar e outros menos votados. Claro que assisti pela TV a todos os jogos da seleção brasileira durante os campeonatos mundiais. Mesmo assim não sei quem foi a seleção que ganhou o último campeonato, nem o ano em que ocorreu. Por isso, em fevereiro de 2008 comprei o Ronaldo Gloria e Drama no Futebol Globalizado, buscando um autor consagrado para tentar entender – o mínimo – dessa mania doida, louca e tosca que são os jogos de futebol pelo Brasil e também pelo mundo, que arrastam multidões ensandecidas, clubes, cidades, países, continentes, televisão, cinema, jornais, revistas e centenas e centenas de milhões de dólares. Assim como as religiões, futebol também é dinheiro. Muito.


 

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