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Pescar Truta na América

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Pescar Truta na América

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Richard Brautigan

Editora: Marco Zero

Assunto: Diversos

Traduzido por: José J. Veiga

Páginas: 177

Ano de edição: 1991

Peso: 270 g

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Bom
Marcio Mafra
13/12/2011 às 21:29
Brasília - DF

Pescar Truta na América faz o leitor se perguntar se é um daqueles livros de experimentalismo sobre o nada, ou se é literatura de vanguarda, sobre tema que ninguém consegue definir.

Estilo absolutamente surreal, que só pode ter sido escrito quando o autor se encontrasse completamente chapado. Como todos os demais livros da geração “beat generation”.

“Pescar Truta na América” parece e, com absoluta certeza é coisa de hippie, sem compromisso com nada, que escreve sobre o nada, num “nihilismo” cômico que de tão maluco, acaba virando sucesso de livraria.

Mas, como todo livro de pescaria o leitor corre o risco de ser fisgado pelo encanto de uma frase, de um gesto, de um “não entendi”. Se isso acontecer, faça como o mais sábio dos leitores: se entregue com tranqüilidade, não resista e não tente se soltar, apenas leia.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história surreal de como não pescar truta na América, nem em lugar nenhum. Uma aventura intelectual rara, sem que se saiba o que acontecerá na virada de cada página, nem onde o autor pretende pescar, ou melhor, chegar.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Não foi uma privada suspensa sobre a imaginação.
Foi realidade.
Uma truta arco-íris de vinte e cinco centímetros morreu.
Sua vida foi tirada para sempre das águas terrenas com um gole de vinho do porto que lhe deram.
É contrário à ordem natural da morte uma truta morrer com um gole de vinho do porto.
Está certo que uma truta morra por ter o pescoço quebrado por um pescador e seja jogada no cesto, ou que uma truta morra por causa de um fungo que se arrastou como formiga cor-de-açúcar por seu corpo até que ela, a truta, acabasse no açucareiro da morte.
Está certo que uma truta fique presa em um poço que seca no fim do verão ou seja apanhada pelas garras de uma ave ou pelas patas de um animal.
Está certo até que uma truta morra de poluição em um rio de sufocante excremento humano.
Tem trutas que morrem de velhas e suas barbas brancas são levadas para o mar.
Tudo isso está na ordem natural da morte; mas uma truta morrer de um gole de vinho do porto, isso é outra conversa.

Nada existe sobre isso no ''Tratado de Halieutica" do Boke of St. Albans, publicado em 1496. Nada no Táticas Testadas para Águas Turvas, de H. C. Cutcliffe, publicado em 1910. Nenhuma referência em Tretas contra a Truta, de Beatrice Cook, publicado em 1955. Nenhuma referência em Memórias Ribeirinhas, de Richard Franck, publicado em 1694. Nem uma palavra em De Vara na Mão, de W. C. Prime, de 1873. Nada em Dando Tratos à Truta, de Jim Quick, de 1957. Nada a respeito em Experiência com Peixes e Frutas, de John Taverner, publicado em 1600. Nada em Os Rios Nunca Dormem, de Roderick L. Haig Brown, publicado em 1946. Nada em Até que o Peixe nos Separe, de Beatrice Cook, de 1949. Nada em O que Pensa a Truta do Engodo do coronel E. W. Harding, publicado em 1931. Nada em Estudos Ripuários, de Charles Kingsley, de 1859. Nada em Trutamania, de Robert Traver, de 1960.

Nenhuma referência em O Sol e o Engodo, de J. W. Dunne, de 1924. Nada em Pescar é Fácil, de Ray Bergman, publicado em 1932. Nada em A Pesca Intramuros, de Ernest G. Schviebert Jr., publicado em 1955. Nada em A Arte de Pescar na Enxurrada, de H. C. Cutcliffe, publicado em 1853. Nem uma palavra em Iscas Velhas em Roupagem Nova, de C. E. Walker, de 1898. Nada em Pescando na Enchente, de Roderick L. Haig Brown, de 1951. Nada em O Pescador Teimoso e a Truta de Encosta, de Charles Bradford, publicado em 1916. Nada em Lições de Pesca para Mulheres, de Chisie Farrington, publicado em 1951. Nada em Lendas de Beira-Rio do Eldorado em Nova Zelândia, de Zane Grey, de 1926. Nada em Vade-Mecum do Pescador, de G. C. Bainbridge, publicado em 1816.

Não há registro no mundo de uma truta que tivesse morrido por beber vinho do porto.

Vamos ver quem foi o Carrasco-Mor. Levantamos cedo, escuro ainda. Ele entrou a bem dizer sorrindo na cozinha e tomamos o café.
Batata frita, ovos e café.
- Ó putoreba, me passe o sal- ele disse.

Os apetrechos já estavam no carro. Entramos e nos mandamos. Ao alvorecer já estávamos na estrada do pé da serra, e por ela entramos na aurora.

A luz atrás das árvores era como entrar numa gradativa e muito esquisita loja de departamentos.

- Moça bonita aquela de ontem - ele disse.
- Muito. Você fez bem - eu disse.
- Deu entrada, não mando pro bispo - ele disse.

O riacho era um merdinha de poucos quilômetros mas valente em trutas. Deixamos o carro e caminhamos menos de um quilômetro ladeira abaixo até o riacho. Preparei meus apetrechos. Ele tirou da jaqueta uma garrafa de vinho do porto e disse: - Vai?

- Não, obrigado.
Ele deu uma boa bicada e sacudiu a cabeça. - Sabe o quê este riachinho me lembra? - perguntou.

- Não faço idéia - respondi, prendendo na linha uma isca pintada de cinzento e amarelo.

- A vagina de Evangelina, sonho constante de minha infância e guia da minha juventude.
- É isso aí - respondi.
- Longfellow foi o Henry Miller de minha infância.
- Que bom.

Lancei o anzol em um poço que ficava no meio de uma coroa de cipós de espinho. Os espinhos giravam e giravam. Não era possível que tivessem caído de árvores. Eles pareciam muito satisfeitos e naturais no poço, como se o poço os tivesse criado em galhos de água. No terceiro lanço senti uma fisgada. Puxei, o anzol veio limpo.

- Cara, vou ficar olhando você pescar - disse ele. - A tela roubada está na casa ao lado.
Fui pescando riacho acima, chegando cada vez mais perto dos estreitos degraus da grota. Entrei nela como se entrasse numa grande loja. Peguei três trutas no departamento de achados e perdidos. Ele nem chegou a armar o seu equipamento. Só fez me acompanhar, bebendo porto e cutucando o mundo com um graveto.

- É um belo riacho - disse ele. - Me lembra o aparelho de escuta de Evangelina.

Chegamos a um poço grande formado pelo riacho caindo na seção de brinquedos. No começo do poço a água era como creme, depois virava espelho e refletia a sombra de uma árvore enorme. O sol já estava alto. Podia-se vê-lo descendo a montanha.

Lancei o anzol no creme e deixei a linha ir descendo até passar debaixo de um galho comprido da árvore, no qual pousava um passarinho.

Agora!
Dei o arranco e a truta apareceu se debatendo.
- Corrida de girafa no Kilimanjaro! - gritou ele, e a cada salto da truta ele saltava também.
- Corrida de abelhas no Everest! - gritou.
Não tendo levado rede, batalhei com a truta até a margem do riacho e a puxei para terra.

A truta tinha uma grande listra vermelha de um lado. Era uma bela arco-íris.
- Maravilha - disse ele.

Ele pegou-a, ela se debatendo nas mãos dele.
- Quebre a espinha dela - mandei.
- Tenho uma idéia melhor - ele disse. - Antes de matá-la, me deixe ao menos aliviar a entrada dela na morte. Esta truta precisa de um drinque.
- Tirou do bolso a garrafa de vinho, desarrolhou e despejou uma dose-família na boca da truta.

A truta entrou em espasmo.

Ela tremia maluca como telescópio em terremoto. A boca se escancarava e fechava estralando como se tivesse dentes de gente.

Ele pousou a truta numa pedra branca, de cabeça para baixo.

Um filete de vinho escorreu da boca da truta, deixando mancha na pedra.

Ela parou de se mexer.

- Morreu feliz - disse ele.

- É minha ode aos Alcoólicos Anônimos.

- Olhe só!


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Sempre que falei ou ouvi sobre a “beat generation”, surgiam os nomes sagrados de Jack Kerouac e Allen Ginsberg entre outros menos votados. Já Richard Brautigan, às vezes era tido como “estranho no ninho beat”e, noutras, era citado como sagrado. Todos os “beat” tiveram duas coisas em comum: (a) morreram jovens e muito drogados, e (b) escreveram um livro de sucesso. O badalado sucesso de Brautigan foi “Pescar Truta na América” que vendeu mais de 2 milhões de exemplares. Por isso o comprei em fevereiro de 2008. Passados quase quatro anos da compra, não me arrependi, mas estou convicto de que poderia morrer sem tê-lo lido.


 

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