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Memória de Elefante

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Memória de Elefante

Livro Ruim - 1 comentário

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Autor: Antonio Lobo Antunes

Editora: Objetiva

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português (de Portugal)

Páginas: 198

Ano de edição: 2006

Peso: 285 g

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Ruim
Marcio Mafra
05/12/2011 às 23:33
Brasília - DF


Lobo Antunes, o português médico especialista em psiquiatria, trabalhou em Angola e Lisboa, publicou Memória de Elefante em 1980, que foi o marco de seu sucesso. Naquela ocasião abandonou a medicina e passou a viver exclusivamente da literatura. Neste livro o autor usa seu “alter ego” para narrar uma crise existencial, advinda da separação da mulher, desarvorando a família e causando sérios problemas emocionais nas filhas que ele tanto adorava. A separação acaba em solidão, tristeza, neurastenia, mágoa, agressividade, esquizofrenia e ausência. Ausência de tudo: da vida, da rotina, do amor, do carinho, da boa cumplicidade. A linguagem do livro é a que se fala em Portugal, com muita coisa escrita em português barroco. Isso causa bastante dificuldade de leitura ao leitor brasileiro, o que compromete o “gostar do livro” ainda que seja uma história terna, dramática e irreverente. Historia boa, livro ruim.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de uma crise existencial, vivida num dia e numa noite, pelo psiquiatra que retorna de Angola para Lisboa, cujo personagem (e as vezes narrador) parece o próprio autor, numa demonstração clara de “alter ego”. Em Angola o personagem vive o término de seu casamento, longe da mulher e das filhas. Tristeza. Dúvidas. Angustias.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Na urgência os internados de pijama dir-se-iam flutuarem na claridade das janelas como viajantes submarinos entre duas águas, de gestos lentificados pelo peso de toneladas dos remédios. Uma velha em camisa, parecida com os auto-retratos finais de Rembrandt, vogava dez centímetros acima do seu banco idêntica a um pássaro trôpego que fosse perdendo a espuma de vento dos ossos. Bêbedos ensanados que o bagaço transformara em serafins rotos tropeçavam no ar: todas as noites a polícia, os bombeiros ou a indignação da família vinham ali abandonar, como num vazadouro derradeiro, os que tentavam em vão emperrar as engrenagens do mundo escaqueirando o quinane do quarto, descobrindo estranhos bichos invisíveis alapados nas paredes, ameaçando os vizinhos com a faca do pão ou escutando o imperceptível assobio dos marcianos que a pouco e pouco se vestem de colegas de escritório para revelarem às restantes galáxias a chegada iminente do Anti-Cristo. Havia também os que se apresentavam sozinhos, baços de fome, a oferecerem a nádega à seringa a troco de uma cama onde dormir, clientes habituais que o porteiro reenviava, de imperioso braço estendido à estátua de Marechal Saldanha, para as árvores do Campo de Santana que o escuro confundia numa névoa de corpos abraçados. Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que em nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direcção de uma "normalidade" que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida. Quando se diz, considerou ele de mãos nos bolsos a observar os serafins do bagaço, que os psiquiatras são malucos, está-se tocando sem saber o centro da verdade: em nenhuma especialidade como nesta se topam seres de crânio tão em sacarolhas, tratando-se a si mesmos através das curas de sono impingidas por persuasão ou à força aos que os procuram para se procurarem e arrastam de consultório em consultório a ansiedade da sua tristeza, como um coxo transporta a perna manca de endireita em endireita, em busca de um milagre impossível. Vestir as pessoas de diagnósticos, ouvi-las sem as escutar, ficar de fora delas como à beira de um rio de que se desconhecem as correntes, os peixes e o côncavo de rocha de que nasce, assistir ao torvelinho da enchente sem molhar os pés, recomendar um comprimido depois de cada refeição e uma pílula à noite e ficar saciado com esse feito de escureiro: o que me faz pertencer a este clube sinistro, meditou, e sofrer quotidianamente remorsos pela debilidade dos meus protestos e pelo meu inconformismo conformado, e até que ponto a certeza de que a revolução se faz do interior não funciona em mim como desculpa, auto-viático para prosseguir cedendo? Tratava-se de perguntas a que não sabia responder claramente e o deixavam confuso e aflito consigo, eriçado de interrogações, de dúvidas, de escrúpulos: quando ali entrara no início do internato e o levaram a visitar o decrépito edifício medonho do hospital de que apenas conhecia até então o pátio e a fachada, cuidara-se num casarão de província habitado pelos fantasmas de Fellini: escorados por muros que escorrriam de humidade pegajosa, débeis mentais quase nus masturbavam-se em movimentos de balanço voltando para ele o espanto desdentado das bocas; homens de cabeça rapada estendiam-se ao sol, mendigavam ou acendiam cigarros cujas mortalhas eram pedaços de jornal escurecidos de cuspo; velhos apodreciam nos colchões podres, vazios de palavras, ocos de ideias, vegetais trémulos durando apenas; e havia o redondel da 8ª enfermaria e as pessoas contidas pelos ferrros, símios vagarosos moendo frases desconexas, a encalharem ao acaso nos buracos de curro em que dormiam. E aqui estou eu, disse-se o médico, a colaborar não colaborando com a continuação disto, com a pavorosa máquina doente da Saúde Mental trituradora no ovo dos germenzinhos de liberdade que em nós nascem sob a forma canhestra de um protesto inquieto, pactuando mediante o meu silêncio, o ordenado que recebo, a carreira que me oferecem: como resistir de dentro, quase sem ajuda, à inérrcia eficaz e mole da psiquiatria institucional, inventora da grande linha branca de separar a "normalidade" da "loucura" através de uma complexa e postiça rede de sintomas, da psiquiatria como grosseira alienação, como vingança dos castrados contra o pénis que não têm, como arma real da burguesia a que por nascença pertenço e que se torna tão difícil renegar, hesitando como hesito entre o imobilismo cómodo e a revolta penosa, cujo preço se paga caro porque se não tiver pais quem virá querer, à Roda, perfilhar-me? O Partido propõe-me a substituição de uma fé por outra fé, de uma mitologia por outra mitologia, e chegado a este ponto lembro-me sempre da frase da mãe do Blondin, "Não tenho a Fé mas tenho tanto a Esperança", e guino no último instante para a esquerda na expectativa ansiosa de encontrar irmãos que me valham e a quem possa valer, por eles, por mim e pelo resto.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Convidado da FLIP em 2009, Antônio Lobo Antunes era um dos mais festejados pela crítica. Comprei todos os livros de sua autoria que encontrei em sebos.


 

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