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No Teu Deserto - Quase Romance

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No Teu Deserto - Quase Romance

Livro Ótimo - 2 comentários

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Autor: Miguel Sousa Tavares

Editora: Oficina do Livro

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português (de Portugal)

Páginas: 125

Ano de edição: 2009

Peso: 220 g

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Excelente
Simone Artifon
28/04/2017 às 00:28
Nova Bassano - RS
Leitura maravilhosa, daquelas que te fazem entranhar na história e viajar junto...

Ótimo
Marcio Mafra
21/11/2011 às 17:11
Brasília - DF

Já não há ninguém para atravessar o deserto...Assim começa o “No Teu Deserto”, história de amor – sem calda de açúcar, nem nenhum outro lugar-comum. Tudo acontece entre Cláudia e o fotógrafo durante viagem ao deserto do Sahara. É também um livro sobre o silêncio e a solidão. Com passagens que só o talento de Miguel Tavares consegue transformar em imagens mágicas: “viagens sem regresso nem repetição”, “paisagem pertence a quem a sabe olhar”, “não precisarmos de falar só porque vamos calados”, “partilhar o silêncio”, “ a beleza é tão devastadora que magoa", “nada dura para sempre – só as montanhas e os rios”. Livro ótimo. Leitura que voa. Linguagem com forte sotaque de Portugal.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de um fotógrafo e Cláudia, sua única companhia durante seis ou sete dias, numa viagem de jipe, espécie de rally, pelo deserto do Sahara.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A maior parte do tempo, porém, o que nós partilhávamos era o silêncio. E isso eu aprendi contigo, porque não sabia. Para mim, o silêncio era sinal de distância, de mal-estar, de desentendimento. Ao princípio, quando ficávamos calados muito tempo, eu sentia-me inquieta, desconfortável, e começava a falar só para afastar esse anjo mau que estava a passar entre nós.
Um dia tu disseste-me:
- Cláudia, não precisas de falar só porque vamos calados. A coisa mais difícil e mais bonita de partilhar entre duas pessoas é o silêncio.
Não respondi nada, mas lembrei-me disso quando, entre Djanet e Tamanrasset, navegámos em direção a um poço assinalado nos mapas e onde havia água. Pensei para comigo que coisa estranha era essa de um poço de água no meio de um mar de areia e calhaus, sem fim à vista. Quem, como, é que tinha descoberto que ali debaixo podia haver água, e quem é que tinha escavado o poço e construído a sua chaminé subterrânea feita de pedras até alcançar essa prodigiosa mina de água, que ali nos aparecia como um verdadeiro milagre inexplicável? Mas os mapas assinalavam o poço e para lá nos dirigimos, toda uma manhã. Ao chegarmos, descobrimos que o poço estava ocupado por uma caravana de camelos, conduzida por uma dúzia de tuaregues. Eles estavam a dar de beber aos camelos e a atestar de água aqueles alforges de pele de cabra que traziam presos às selas e que dizem que mantém a água fresca o dia todo. E nós - era esta a lei do deserto - teríamos de esperar até que eles estivessem saciados e abastecidos para avançarmos para o poço.
Foi uma excitação em toda a nossa caravana! Toda a gente queria filmar e fotografar uma verdadeira caravana de sal de verdadeiros tuaregues. Tu, então, ficaste num estado quase de hipnose. Há dias que vinhas murmurando em voz baixa, como se te preparasses para a desilusão:
- O que eu gostava de encontrar uma azalai!
Agora, andavas numa roda-viva, de câmara ao ombro, gritando para que te fosse ajudar, para fazer um plano assim e outro assado:
- Segura aí, que tenho de fazer ali uma panorâmica a começar no poço, da esquerda para a direita, e depois um zoom à cara deste gajo!
Cansada, acabei por me afastar e ficar a ver toda a cena à distância. E, à distância, havia qualquer coisa de desconfortável, quase vampírico, na ganância com que vocês os filmavam, perante a indiferença deles.
Quando tudo aquilo acabou, depois de enchermos os nossos jerricans de água até acima, quando retomámos a pista, tu estavas meio defraudado porque só encontraras um tuaregue que falava francês e esse tinha respondido por monossílabos às tuas perguntas. Contei-te então que tinha reparado que o nosso guia, o Ali, conhecia um dos tuaregues da caravana e que se haviam sentado os dois no chão, de mãos dadas e numa estranha lengalenga: um fazia uma série de perguntas breves a que o outro dava respostas igualmente breves; e, depois, invertiam os papéis - o que tinha estado a responder passava a perguntar e o outro passava a responder. E, quando o estranho diálogo acabou, ficaram os dois em silêncio, sempre de mãos dadas e a olhar em frente.
- O que é que eles perguntam um ao outro?
- Como tens passado? Como está a tua mulher? E os teus pais? E os teus filhos? E os teus irmãos? E o teu rebanho? E as tuas pastagens? E por aí fora ...
- E porque é que ficam calados depois?
- Porque já não têm mais nada de importante para dizer.
Fiquei a pensar na tua resposta: "Ficam calados porque já não têm mais nada de importante para dizer." E fiquei a pensar no que me tinhas dito antes, sobre os sahraoui: "Como não têm nada, absolutamente nada, poupam tudo. Poupam a água, a comida, poupam as energias viajando de noite para evitar o calor. Até poupam nas palavras."
- Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno ...
- Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.

Anos mais tarde, já estava doente, voltei a lembrar-me dessa nossa conversa. Tinha acabado de te escrever uma carta - mais uma, talvez a terceira - que nunca te cheguei a mandar e que destruí depois. E, escrevendo, poupei as coisas que gostaria de te ter dito e que gostaria que tivessses ouvido. Cheguei quase a convencer-me de que bastava
escrever-te para tu me ouvires, mesmo que nunca tenha chegado a pôr a carta no correio. Porque era tão sentido e tão magoado, tão distante, o que te dizia nessas cartas, que quase acreditei que tu não podias deixar de me ouvir. Não é verdade, pois não? Devia ter falado contigo, mas, se calhar, já era tarde, então. Já tantas coisas tinham passado pela minha vida, entretanto! A meada era já demasiado grande e longa para poder retomar o fio, onde quer que fosse. Queria que me ouvisses e que falasses comigo. Mas não te queria ver, não queria que me visses. Assim.


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