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A Sombra do Que Fomos

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A Sombra do Que Fomos

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Autor: Luiz Sepúlveda

Editora: Porto

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português (de Portugal)

Páginas: 160

Ano de edição: 2010

Peso: 195 g

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Bom
Marcio Mafra
18/11/2011 às 18:53
Brasília - DF

Luis Sepúlveda com a Sombra do Que Fomos faz um livro da saudade, escrito com o coração, numa ficção bem montada, com lances de graça, humor quase negro e outras coisas patéticas. Este exemplar é uma tradução para o portugues de Portugal.



Os personagens Cacho Salinas, Lolo Garmedia e Lucho Arencibia interpretam um papel menos sinistro, enquanto Pedro Nolasco faz um papel ridículo, quase inverossímil, como se fora um trapalhão. O leitor é forçado a exclamar aquele lugar comum: “seria cômico se não fosse trágico.” Será que os ideais, os sonhos, os moinhos que movem o vento e os propósitos dos militantes políticos se resumiriam em conversas, num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, onde três sexagenários esperavam impacientes pela chegada do seu líder?



Lamento que o autor tenha segregado a história, praticamente, ao ambiente do galpão, onde velhos - quase decrépitos - narram as passagens de suas vidas, dentro e fora da militância política. Isso resultou num quadro, ou numa pintura, de coisas pequenas. Pequenas e pobres. Ficou parecendo conversa de esquerdistas, frustrados e derrotados pelo golpe de estado de Pinochet, que voltam a se reunir trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada ação revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local do encontro morre atingido por um aparelho de toca-discos que é lançado por uma janela, na seqüência de uma desavença conjugal. Coisa de filme pastelão. O livro, embora escrito em português de Portugal, também parece uma homenagem que o autor quis prestar ao idealismo dos perdedores. Decididamente uma história mediana, talvez ruim.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de velhos companheiros de luta – Nolasco, Salinas, Garmedia e Lucho - que se juntam para executar, no Chile, uma ousada ação, de grande significado para os militantes políticos de esquerda. Porém, Nolasco, que chefiava a missão, quando se dirige para o local do encontro sofre um grave e patético acidente. Ele morre. Os demais ficam esperando....

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Concepción García olhava incrédula para o cônjuge. Tinham-se encontrado à porta do prédio quando ela saía carregando um saco com três mudas de roupa, produtos de higiene e um exemplar de Berlin Alexanderplatz. Antes de deixar Berlim prometera a si própria ler o romance de Alfred Dõblin em alemão, aquele livro grosso mantê-ia perto da sua cidade perdida, longe da cadeia a que, sem dúvida, seria condenada por muitos anos.
- Concha, aonde vais tão cedo? - perguntou, cummprimentando-a.
- Entregar-me. A polícia já sabe de tudo e eu dei-me como culpada.
- Culpada? Conchita, volta para casa, vamos converrsar, decidir juntos o que dizer.
- Não, Coco. Não quero mais histórias nem filmes.
Não quero mais clássicos de nada.
Nesse momento teve a primeira surpresa porque o cônjuge a abraçou, a beijou nos lábios, nos olhos e disse umas palavras totalmente alheias ao Coco Aravena de toda a vida.
- Vamos juntos, Conchita. E juntos diremos toda a verdade.
O inspector Crespo coçou a barba, perguntando a si próprio por que razão esta cresceria mais nas noites em branco que enquanto dormia.
- Adelita, deixas-nos sozinhos durante uns minutos, por favor?
A detective saiu e o inspector amaldiçoou a hora em que deixou de fumar.
- Muito bem, senhor Aravena. Já esclarecemos que, depois de uma apaixonada troca de opiniões resultante da sua indolência, depressão, desengano, falta de ilusões, escasso amor pelo trabalho e possivelmente falta de pudor, a sua mulher enfureceu-se, atirou certas coisas pela janela sem ver que pela rua passava, infelizmente, uma pessoa que recebeu o impacto de um gira-discos, falecendo de forma súbita. Também esclarecemos que, fruto do desespero, você pensou num ardil um pouco
grotesco para a proteger, chegando assim a essa falsa participação de roubo, com a intenção de culpabilizar terceiros.
- Sim, senhor. E mais uma vez insisto que a culpa é toda minha. Eu e a minha conduta somos os únicos responsáveis pelo que aconteceu. Peço-lhe pois que me enncaminhe para o tribunal para cumprir a pena que me for imposta.
- Não tão depressa. Você também garante desconhecer totalmente a identidade do defunto.
- Nunca o tinha visto na minha vida. Ofereço-me voluntariamente para ser submetido ao detector de mentiras ou a injecções de pentotal.
- Você é, sem dúvida, um apaixonado pelo cinema.
Vejamos, novamente: porque se apoderou da arma do defunto, a ocultou e mais tarde foi armado para a rua?
- Não sei porque me apoderei dela. Foi um impulso.
Pensei em vendê-la.
O inspector disse para consigo que essa possibilidade era coerente, toda a gente tem no íntimo um pequeno larápio. As pessoas roubam nos supermercados só pela aventura de o fazerem.
- E na rua, armado? O que pensava fazer?
- Também não sei. Reconheço que me ocorreu a ideia de fazer alguma coisa, assaltar uma loja, um banco, um posto de gasolina. Mas não o fiz.
«Agora», disse o inspector para os seus botões, «vou fazer-te a pergunta decisiva e se fizeres alusão à cobardia na tua resposta, lixo-te, pequeno imbecil.»
- E porque não o fez? No fim de contas estava armado.
- Porque não sei corno se faz. Nos filmes nunca chove desta maneira, os assaltantes não estão ensopados e mortos de frio. E como se não bastasse, não sei usar urna arma, nunca disparei urna pistola. Sentei-me num parque a pensar e nem sequer isso fiz. Por favor, deixe a minha mulher ir embora e faça comigo o que quiser. Vim entregar-me.
«A pior coisa deste ofício é a necessidade de ver a linha fina que separa o delinquente da vítima do acaso. Não nos ensinam isso na escola de polícia. Se este tipo tivesse aparecido sem o revólver, argumentando que o tinha atirado para o rio ou para um contentor de lixo, mesmo arriscando enganar-me não teria acreditado.»
O inspector agarrou no revólver, verificou que estava muito bem lubrificado, cheirou o tambor, ao seu nariz chegou o cheiro a amêndoas inconfundível do óleo Remington que deixou de ser vendido nos anos setenta e que foi substituído por soluções de silicone. A seguir afastou o tambor para o lado e espreitou o cano. As estrias mostravam imperfeições provocadas possivelmente pelo roçar de balas de má qualidade, balas artesanais feitas por armeiros clandestinos, como as que tinha retirado do tambor. Chumbo puro, balas antigas que, sendo disparadas, deixariam rastos de escória nas amolgadelas minúsculas que descobriu a olho nu nas estrias, inutilizando a arma com risco para quem disparasse.
- Senhor e senhora Aravena, podem ir embora. Concepción García fez uma expressão de espanto, o cônjuge fez tenções de abrir a boca, mas o inspector indicou-lhes a porta com um dedo.
Viu-os sair de mão dada. Bocejou e chamou a detective.
- Adelita, dás-me a honra de tomar o pequeno-almoço comigo? Vamos a La Selecta.
Percorreram em silêncio os três quarteirões que os separavam da enorme padaria e confeitaria que ficava em frente ao mercado central. Aí ocuparam uma mesa do primeiro andar, o inspector pediu dois pequenos-almoços completos, com ovos estrelados, sumo de papaia e hallullas acabadas de sair do forno.
- Tem alguma coisa para me dizer, inspector? - perrguntou a detective.
- Adelita, tu e eu sabemos de coisas que não se podem dizer em voz alta: investigações arquivadas por ordens vindas de cima; criminosos soltos porque as provas incriminatórias se extraviaram; assassinos, violadores de todos os direitos e da dignidade das pessoas libertados e premiados com cargos em grandes empresas ou no corpo diplomático. Aqueles dois, se cometeram algum delito, foi terem regressado ao Chile. O que aconteceu foi um acaso trágico, um acidente, nada mais. Ambos sabemos como funciona a justiça no nosso país. Passariam meses, mesmo anos, na cadeia até um juiz os condenar a pagar uma multa ridícula.
- O seu procedimento não é muito ortodoxo.
- Não é. Tens toda a razão. Mas tento ser justo, embora um chui deva limitar-se a deter suspeitos. Enquanto falava com eles estive a examinar o revólver de Pedrito. Uma arma velha, com as estrias do cano visivelmente danificadas. Penso que, involuntariamente, lhe fizeram um favor. Se Pedrito pensava utilizar aquele revólver, ao segundo disparo ter-lhe-ia explodido nas mãos e os estilhaços procuram sempre os olhos. Imaginas um anarquista cego?
- Sabe, inspector, quando estava prestes a obter o meu diploma de detective, a escola levou-nos à Villa Grimaldi para um exercício de reconhecimento num local cheio de marcas. Eu ignorava a existência daquele casarão, daquilo que foi, das pessoas que aí foram torturadas, assassinadas ou feitas desaparecer. Não acredito em fantasmas nem em auras, mas respirava-se ali qualquer coisa de terrível e senti-me mal. A dada altura afastei-me do meu grupo e, sem querer, ouvi uma mulher dizer a outras pessoas que tinha lá estado. Era uma mulher bonita, frágil, mais tarde soube que se tratava de uma escritora, e falava do horror que sofreu juntamente com muitas outras prisioneiras. O mais estranho é que não havia rancor na sua voz; dor sim, mas uma dor livre de ódio, uma dor cheia de dignidade, bonita para mim, que cresci durante a ditadura a ouvir mensagens de ódio todos os dias. Aproximei-me dela e disse-lhe: «Sou detective, em meu nome e no da instituição que represento quero pedir-lhe perdão por tudo o que sofreu. E juro-lhe que isso nunca mais voltará a repetir-se.» Ela olhou para mim de uma forma doce, quis saber a minha idade e quando lhe disse que tinha nascido em 1973 abraçou-me e disse: «Tu não tens culpa nenhuma, tens as mãos limpas.» Estou consigo, inspector.
- É paradoxal, Adelita. És da primeira geração de chuis capazes de dignificar o que fazemos e, possivellmente, da última. Depressa irão anunciar a privatização da polícia e tudo aquilo em que acreditas será colocado nas mãos de mercenários.
O velho inspector e a jovem detective olharam-se nos olhos. Neles viram o que os cronistas de notícias policiais e os distribuidores de medalhas chamam satisfação do dever cumprido mas que na realidade se chama orgulho de dizer «arrisco-me», e cumprir.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Não consigo lembrar quando e onde comprei este livro. Terá sido numa viagem a Lisboa? A Santiago? Terá sido um presente de algum amigo ou leitor, que a minha indelicadeza sequer lembra para agradecer? Será que o Alzheimer se aproxima?


 

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