carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Código da Vida

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Este livro está disponível
para Doações
Clique aqui
para solicitar
Código da Vida

Livro Ótimo - 1 comentário

  • Leram
    1
  • Vão ler
    0
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    1

Autor: Saulo Ramos

Editora: Planeta

Assunto: Biografia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 467

Ano de edição: 2007

Peso: 595 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Ótimo
Marcio Mafra
18/11/2011 às 17:53
Brasília - DF


O autor narra a sua autobiografia inserida dentro de um polêmico caso judicial que ele viveu como advogado. Ele afirma que foi caso verídico. Geralmente a estrutura de biografias contemplam fatos em datas seqüenciais. Saulo Ramos fez diferente. Conta sua história de vida desobedecendo a estrutura tradicional, nem datas, nem fatos, utilizando-se dos recursos literários como fazem os grandes mestres da ficção. Desfila bom humor, inteligência, poder e elegância em todos os capítulos. Leitura encantadora. Livro e autor excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Autobiografia de Saulo Ramos, jurista conhecido, famoso, rico e inteligente, que sai de Cravinhos, interior de São Paulo, chegando ao posto de Procurador Geral da Republica, atuando na política desde o primeiro mandato do Prefeito Jânio da Silva Quadros, nos anos 1953 à 1955, até chegar em Brasília, onde exerceu os cargos de Consultor da Republica e Ministro da Justiça, nos anos 1989/1990.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Jânio Quadros era candidato a Presidente da República e me telefonou, dizendo que faria uma viagem a Cuba, cuja revolução vitoriosa fascinara a nossa geração. E me convidou. Muita gente boa na comitiva: Rubem Braga, Fernando Sabino e, entre outros, Carlão Mesquita, a alegria da turma tanto nos vôos, como nos hotéis e nas repetidas reuniões com os políticos cubanos. Todos americanistas convictos, desde o dia em que Fidel Castro desfilara triunfante em Nova York, sob chuva de papel picado, até porque a revolução contra Fulgêncio Batista fora consentida (e financiada) por Washington. Nessa viagem, conheci Paulo de Tarso Santos.

Em Havana, o embaixador brasileiro, Vasco Leitão da Cunha (aquele que viria a ser Ministro das Relações Exteriores do Governo Médici), ofereceu um jantar para a caravana e em homenagem a Fidel Castro e a Che Guevara, nossos heróis. Quando chegaram as duas ilustres figuras, uma depois da outra, os brasileiros cercaram Che, muito mais carismático, embora de uma simplicidade comovente. Fidel era posudo, falava pelos cotovelos, ostentando a farda militar, e, ao chegar (bem depois do Che), deixou o revólver no banheiro de entrada da Embaixada, como nos tempos de baile do faroeste americano. Da reunião, dois fatos ficaram registrados na minha memória: a inveja sem disfarce que Fidel tinha de Guevara, inveja ostensivamente aristotélica, e um susto geral: roubaram o revólver do Fidel, que saiu furioso e xingando os brasileiros, sob as desculpas do embaixador e os tapinhas nas costas dados pelo Jânio.

Era evidentemente um ato de gozação, e, por isso, todos nós, quando voltamos para o Hotel Rivera, caímos em cima do Carlão. Só podia ser ele. Jurou inocência. Alguns levantaram a hipótese de ter sido o repórter Tico-Tico. E ninguém ficou sabendo quem foi, a não ser Eduardo Lago, hoje diplomata aposentado, que se nega a contar o fim da história. Tenho certeza de que ele sabe. Quando Fidel gritava tratar-se de uma relíquia de Sierra Maestra, alguém informou ser mentira: a arma era um parabélum russo 9 mm, presente recente do embaixador soviético Anastas Mikoyan, que estava iniciando seu processo de sedução do enrustido ditador. Uma plaqueta no cabo da arma comprovava a origem: a dedicatória do diplomata soviético. E ficamos sabendo disso porque o "ladrão" do revólver devolveu-o ao Embaixador Vasco Leitão da Cunha, que fez um embrulho para presente e mandou entregar a Fidel a relíquia "de La Sierra Maestra", relíquia soviética.

O tempo passou. Jânio foi eleito Presidente da República e renunciou.
Rubem Braga e Carlão Mesquita morreram, deixando-nos com saudades
imensas. Cuba tornou-se comunista e baluarte do antiamericanismo da América Latina, antes de Hugo Chaves na Venezuela. Fernando Sabino ficou rico, publicando um livro sobre Zélia Cardoso de Mello no Governo Collor. Depois também morreu. As saudades aumentam e torturam.
Jamais deixei de acompanhar com atenção a política de Cuba, sobreetudo as relações entre Fidel e Guevara. Che era um comunista romântico e sonhador, certo de que poderia repetir a proeza de Sierra Maestra em outros países, mesmo sem o consentimento dos americanos ... Depois de uma incursão malograda na África, teve a idéia de fazer guerrilha na Bolívia. Planejou tudo em Havana, até o treinamento dos guerrilheiros que o acompanhariam, entre eles Juan Pablo Chang Navarro e Julio Dagmino Pacheco. Fidel Castro conhecia os planos em todos os detalhes, inclusive locais de ação e alternativas de deslocamento.

Na Bolívia, era Ministro de Estado um tal Dr. Antônio Arguedas, temível e violento perseguidor de esquerdistas, o Bush dos pobres, e, tal como o Bush rico, também apaixonado por dinheiro.

Coordenou a caçada a Che Guevara, com assessoria da CIA, por ele especialmente convidada. E foi direto ao lugar onde Che estava escondido na selva, sem errar um milímetro, mais certeiro que os mísseis modernos guiados por satélite. O "míssil" parece ter sido uma guerrilheira de origem alemã, mas de nacionalidade argentina, que vivia em Cuba desde 1961 e se chamava Tânia. Tânia Bunke, nome de guerrilha. Ela chegou a La Paz, alugou um jipe e foi direto ao esconderijo de Che.

Em filme de espionagem, nada pode haver de mais óbvio. Intrigante é o fato de que Guevara, em sua ingenuidade, registrou em seu diário essa "im
prudência" de Tânia. E a observação consta apenas da primeira edição do livro. Nas demais edições, desapareceu. Mistérios que compõem os indecifráveis códigos da vida. Houve quem sustentasse a versão de que o artista plástico argentino Ciro Bustos teria sido responsável pela traição a Guevara. Não se sabe bem se isso é verdade. Mas, se for, a localização de Guevara na selva boliviana era conhecida apenas por Fidel Castro. Isso é verdade indiscutível.

E Ciro Bustos teria que ter trabalhado com Tânia, a enviada pelo ditador cubano e que fez várias viagens para a Bolívia, via Buenos Aires. A última foi a viagem da delação. Nem ela sabia que estava sendo esperada e pagou com sua própria vida pela imprudência registrada por Che Guevara.

No dia 9 de outubro de 1967, Guevara, depois de ferido na perna, foi amarrado a uma cadeira. Ali permaneceu até vir a ordem de execução dada pelo próprio presidente da Bolívia, um sargentão, o General René Barrientos, colega de Fidel Castro. O assassinato, com um tiro no peito, foi executado por um suboficial chamado Mario Terán.

Guevara teve as mãos cirurgicamente extraídas e guardadas em formol.

O tal Arguedas ficou com elas. No ano seguinte, esse mesmo Arguedas abandonou a Bolívia e foi viver, adivinhem onde? Em Cuba! Levou as mãos de Guevara, dizendo que as entregaria à viúva, um gesto macabro e repulsivo que ninguém entendeu. Mais parece a prova de que se serviam os pistoleiros do nosso Nordeste para receber recompensa pelos contratos executados. Não mereceu a menor censura de Fidel e, em Cuba, passou a viver com regalias, a tal ponto que se desconfiou ter sido ele um agente do ditador cubano na Bolívia. Confiram os jornais de Lisboa, julho de 1968, e O Estado de S. Paulo, de 28 de novembro de 1995.

Na aventura boliviana, ao lado de Guevara, lutou o francês Régis Debray, preso e depois libertado. Na França, em 1996, Debray publicou um livro (Loués soient nos seigneurs - Louvados sejam nossos senhores), criticando Fidel Castro e suscitando dúvidas sobre como o esconderijo de Guevara foi encontrado pelos militares bolivianos.

Quatro meses depois, uma senhorita chamada Aleida, que se proclama filha de Guevara, em entrevista ao jornal Clarín, de Buenos Aires, acusou Debray de haver delatado a localização de Guevara na Bolívia (Folha de S. Paulo, 3 de setembro de 1996). Em carta ao Le Monde, jornal de Paris, Debray fez uma revelação curiosa: a versão foi encomendada por Cuba, e a senhorita Aleida é (Barrientos morreu carbonizado dois anos depois, quando seu helicóptero explodiu ao bater em fios telegráficos) fortemente ligada a Fidel Castro. Che está morto. Não pode desmentir ninguém mais. Segundo a revista Farbes, o ditador cubano hoje é dono de quinhentos milhões de dólares. Não sei o que fará com tanto dinheiro. Não tem privacidade para gastá-lo. Compra consciências e versões. Faz remessas a movimentos políticos da América Latina. Contudo, acabou num hospital, com cirurgia no intestino, depois de 47 anos de ditadura em defesa da liberdade. Fidel nasceu no dia 13 de agosto. Não é definitivamente um dia de sorte.

No mês de abril de 2003, Fidel Castro mandou fuzilar três cubanos que pretendiam fugir de Cuba e tomaram um barco de passageiros, cuja gasolina acabou e, como a própria ilha, ficou à deriva no mar do Caribe. Acusados de terrorismo, foram (los três negritos, como disse Fidel) assassinados rapidamente, sem direito a processo judicial. No outro lado da ilha, numa base miilitar chamada Guantánamo, que pertence aos Estados Unidos, atualmente sob a direção de Bush, estão presos homens do Afeganistão, acusados de terrrorismo e em condições subumanas, sem direito a qualquer medida judicial, por não estar tal base em território norte-americano. Que ilha infeliz!

Qual a diferença entre Bush e Fidel Castro no uso do pretexto de terrorismo para justificar atos de banditismo? Creio que Bush é melhor (vejam que tristeza!), porque sobre ele não paira nenhuma suspeita de haver contribuído para a morte de um amigo que, talvez, pudesse evitar sua perpetuação no poder, embora Sadam Hussein tenha sido amigo do Bush pai e cria dos Estados Unidos, os quais, apesar dos pesares, mantêm eleições mal apuradas e bem pagas, mas democráticas, com alguns assassinatos sempre inexplicáveis. Aliás, são inexplicáveis os assassinatos que eliminam alvos temidos pelos políticos, como também aconteceu no Brasil anos depois com os preefeitos petistas de Campinas e de Santo André. Não há Sherlock Holmes que desvende as óbvias responsabilidades criminais.

Bush tem mais charme para cultivar as coisas do mal. Proclama-se Presidente da Guerra, manda matar mais de cem mil pessoas no Iraque e se posiciona contra a eutanásia de uma mulher que, há quinze anos, tinha vida apenas vegetativa. Vai à Igreja. Canta música gospel. É verdade que estarreceu a humanidade ao autorizar a CIA a cometer um crime novo. Seqüestrar pesssoas e levá-ias a outros países para serem torturadas e interrogadas. Ainda não se sabe como isso vai acabar. Mas nomeada já foi: operação "rendição extraordinária", com envolvimento de várias empresas aéreas que alugavam seus aviões para transporte clandestino das vítimas do seqüestro secreto. Não satisfeito, Bush declarou a supremacia dos Estados Unidos sobre o espaço siideral. É o dono do Universo. Deus que se cuide, sobretudo por ser brasileiro.

Bush veio ao Brasil para desmentir essa antiga crença nossa. Aqui, negociou com Lula a produção de etanol, álcool para substituir o petróleo como combustível de carro. De álcool ambos entendem bastante. Lula ficou tão embriagado com a possibilidade de o Brasil se transformar em maior produtor de álcool combustível no mundo, que declarou: "os usineiros, antes bandidos (na opinião dele), passaram a heróis nacionais e mundiais".

Quanto a Fidel Castro, até Saramago, escritor português comunista, que, por isso mesmo, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura (eu preferia Jorge Amado, muito melhor, e que com ele concorreu no mesmo ano), declarou não mais querer saber de Fidel Castro, a quem apoiava como ídolo. Vamos repetir Debray: Louvados sejam nossos senhores! E louvado seja aquele que furtou o revólver de Fidel na Embaixada do Brasil em Havana, gesto simbólico de desarmamento de um perigoso e irrecuperável ditador, e também mentiroso, mas que, infelizmente, continua no poder há meio século. Ao internar-se no hospital, passou o poder ao seu irmão Raúl Castro. Na ditadura cubana, a sucessão é consangüínea: dá-se entre irmãos germanos.

Aqui estou eu divagando sobre coisas da política, mas é inevitável, porque, de certa forma e em certa época, as pessoas desse teatro esbarraram em mim ou trombaram comigo na surpreendente trajetória que a vida me reservou, nesses mundos de muitos acontecidos e destinos que se cruzaram com o meu, um menino do interior, pescador de bagre e com alguma capacidade de sonhar.


  • Fantasticas Lições de Mestre

    Autor: Carlos Chagas

    Veículo: Tribuna da Imprensa

    Fonte: Internet

    Carlos Chagas, Tribuna 12/13 /14 Jul

    Fantásticas lições de mestre (1)
    BRASÍLIA - Os bons livros são como as bebidas finas. É preciso que depois de consumidas estas, e lidos aqueles, decorra certo tempo para a certeza de terem beneficiado o nosso espírito. Pelo paladar, as bebidas. Pelas lições, os livros. Faz dois meses do lançamento do "Código da vida", de mestre Saulo Ramos. Uma obra fantástica, não pela modéstia do autor, que apenas classifica assim o litígio judicial de uma família da qual foi patrono. Está errado, porque fantásticos são todos os capítulos, entremeados com a descrição do processo que serve de fio condutor de suas narrativas.

    Um retrato da política nacional, com ênfase para o período que vai dos governos militares aos tempos atuais. Duro como pedra, amargo como vinagre, profundo como uma perfuradora de petróleo em alto mar. Pleno de análises capazes de destruir pessoas e personalidades, tanto quanto de exaltar outras pelas observações opostas. Acima de tudo, um relato dos anos de chumbo e das décadas de esperança, mesclados de ironia só encontrada nas obras de Voltaire.

    O "Código da vida" terá despertado iras e idiossincrasias. Ao contrário de outras biografias, não procura o auto-elogio nem se preocupa em ficar bem como a Humanidade. A serra elétrica derruba jequitibás e caules moles pela contundência das observações postas. Vamos, assim, ao conteúdo, para aguçar a curiosidade de uns, despertar a surpresa de outros e a irritação de terceiros.

    Um Gervásio chamado Saulo
    Um personagem freqüenta as páginas, do começo ao fim, apresentado como amigo fiel que opina sobre tudo e sobre todos. Trata-se do "Gervásio", meio filósofo, meio paranormal, que não existe se o formos procurar na lista telefônica ou no cemitério. "Gervásio" parece o próprio Saulo, mais do que o conjunto de seus múltiplos companheiros em permanentes e candentes diagnósticos sobre o Brasil e seus governantes.

    Certas observações do "amigo fiel", percebe-se, são do próprio autor. Outras, de outros, acabam por ele absorvidas, numa simbiose de emoções incontidas. Não deixa de ser singular a entrada no palco do "Gervásio", quando Saulo era quase um menino, e sua permanência através das décadas com o hoje advogado setentão. Se existisse, "Gervásio" teria no mínimo uns 150 anos.

    O "Gervásio-Saulo" chega aos dias atuais, defendendo o esforço do governo brasileiro em difundir o etanol, mas não poupa as duas figuras principais, afirmando que tanto Bush quanto Lula "entendem bastante de álcool"... O americano, em outra passagem, é mostrado como "o mal em putrefação". Hugo Chávez vê-se rotulado de imbecil. E Fidel Castro, nas linhas e entrelinhas, surge como tão cheio de ciúmes de Che Guevara ao ponto de ter revelado à CIA e aos bolivianos o local onde o amigo se encontrava, na selva, para ser preso e assassinado.

    Em matéria de traições, "Gervásio" investe até sobre Luís Carlos Prestes, que em troca de caminho livre para fugir dos horrores de 1964 teria combinado com o Dops paulista deixar para trás seus cadernos com endereço de companheiros comunistas. E chegou a voltar ao aparelho que a polícia visitaria depois, para pegar o casacão da mulher, esquecida do longo exílio que enfrentariam na União Soviética. Ninguém precisa acreditar no "Gervásio", mas suas revelações, se verdadeiras, são de estarrecer, ou seja, Saulo Ramos não as afasta. Ao contrário, as endossa, ao divulgá-las.

    O sociólogo no pelourinho
    Uma das figuras mais fulminadas no "Código da vida" é o ex-presidente Fernando Henrique, que "Gervásio" acusa de ter plantado as sementes das impunidades colhidas e multiplicadas pelo MST: "(...) Pediu expressamente que os brasileiros esquecessem tudo o que havia escrito, e sua palavra passou a ser, para sempre, um risco na água. Hoje está por aí, falando mal do governo, querendo voltar ao poder, confessando desejá-lo para comandar o atraso. No caso da freira Dorothy, parece que ele calou o bico.

    Por quê? Porque ele, indiretamente, permitiu as circunstâncias para matarem a freira. (...) Um dos maiores males que o Fernando Henrique fez ao Brasil foi ter criado a reeleição e eleito o Lula, que se reelegeu graças ao grande sociólogo. Ele foi o maior eleitor desse espetáculo de vacuidade".

    Em outro capítulo, Fernando Henrique é chamado de culto, inteligente, mas esperto, "que tapeia todo mundo e queria uma Constituição (em 1988) cozida no caldo das espertezas", porque na Constituinte tentou o golpe parlamentarista, mas, depois de eleito duas vezes presidente, jamais tocou no assunto. FHC também é acusado de montar um grupo de espionagem sobre Roseana Sarney, responsável pela explosão da candidatura presidencial da então governadora do Maranhão.

    Mais ainda, Fernando Henrique convenceu José Serra, "homem bom, quase ingênuo", a aceitar a maquinação, ainda que o plano fosse também contra o próprio Serra, já que o sociólogo não queria nenhum companheiro para sucedê-lo e já havia queimado Paulo Renato e Tasso Jereissati. Pretendia ver Lula eleito e voltar em 2006... A "maquinação" é plena de detalhes. Do grupo para deletar Roseana faziam parte agentes da Abin, delegados, procuradores federais, técnicos em inteligência política e especialistas com curso na CIA.

    Aluísio Nunes Ferreira, então ministro da Justiça, mandou instalar em São Luís uma sofisticada e poderosa estação de escuta, a pretexto de combater o narcotráfico, ainda que a capital do Maranhão nunca estivesse na rota da cocaína. O autor escreve que FHC deu início ao mais cínico plano de degradação da moralidade política, a serviço da ambição de um homem fascinado pelo poder e inconformado em ter que deixá-lo.

    13 Jul

    Fantásticas lições de mestre (2)
    BRASÍLIA - O "Código da vida", de Saulo Ramos, é cheio de revelações. Uma delas de que, já eleito Fernando Collor, o então presidente Sarney reuniu alguns ministros, como ele, Saulo Ramos, da Justiça, Mailson da Nóbrega, da Fazenda, João Batista Abreu, do Planejamento, Leônidas Pires Gonçalves, do Exército, Otávio Moreira Lima, da Aeronáutica, Henrique Sabóia, da Marinha, Ronaldo Costa Couto, do Gabinete Civil, e Ivan de Souza Mendes, do SNI.

    Ninguém sabia o objetivo da reunião, o diagnóstico sombrio da área econômica, no sentido de que a inflação iria disparar em janeiro, e por isso Maílson da Nóbrega recomendava que Sarney renunciasse imediatamente. O ministro da Fazenda teve o apoio do ministro do Planejamento, que, para o autor, "era um pouco delicado demais, tinha uns trejeitos de mãos e falava afetado". Saulo conta ter ficado irritadíssimo e indagou se o dr. Ulysses estava de acordo, pois a ele caberia substituir Sarney.

    João Batista respondeu que estava e o ministro da Justiça explodiu, dizendo que os ministros da Fazenda e do Planejamento estavam propondo uma traição. Mailson retrucou dizendo não aceitar a expressão, mas o ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, deu um murro na mesa e exclamou: "Vai aceitar, sim senhor!" A hipótese foi logo afastada, a reunião terminou, Sarney completou o mandato sem renunciar e o relato do episódio é encerrado com um estranho adendo: "O general Ivan de Souza Mendes votou com os ministros da área econômica...".

    Collor pagaria dez milhões
    Outra revelação do livro é que, tendo voltado para sua banca de advogado em São Paulo, depois do governo Sarney, estava uma noite no aeroporto de Cumbica, embarcando para a Europa, quando foi chamado pelos alto-falantes. Era o telefonema de um amigo, pessoa muito ligada ao presidente Collor.

    Sem meias palavras, ouviu que Collor mandava convidá-lo para assumir outra vez o Ministério da Justiça. Já andava alta a crise gerada pelas acusações a PC Farias e o interlocutor foi direto ao assunto: o presidente queria um ministro, mas, também, um eficiente advogado que o livrasse do processo de impeachment já iniciado. E estava oferecendo, junto com a nomeação, US$ 5 milhões!

    Recusou, é claro, enfatizando que nem pelo dobro daquela quantia aceitaria. Do outro lado do telefone, ouviu que não estava autorizado a tanto, mas que daria notícias. Em Paris, na embaixada brasileira, com o embaixador Leite Barbosa e o ex-presidente José Sarney, foi contatado outra vez, com a notícia de que os US$ 10 milhões estavam aceitos. O embaixador lembrou que aquela quantia o deixaria sem problemas até o fim da vida, mas Sarney foi veemente na necessidade da recusa, de resto já decidida desde a primeira vez.

    Por ironia, quando o Senado insistiu em processar Collor, que já tinha renunciado, Saulo Ramos foi contratado como advogado dos senadores, para levar o processo até o fim, o que acabou acontecendo com a suspensão dos direitos políticos do ex-presidente por oito anos.

    Pau no Lula
    O "Código da vida" não poupa o presidente Lula. Saulo Ramos começa pegando leve, mas vai aumentando o diapasão, depois de escrever que o presidente conseguiu imensa popularidade com o Bolsa-Família e com a política financeira, mas passou a ser o pai dos pobres e a mãe dos ricos. Acabou com Fernando Henrique, o "sátrapa de Higienópolis", e seu plano quixotesco de voltar ao poder, "uma das boas obras do Lula".

    Lembra que na campanha eleitoral de 2006, desesperado, o ex-presidente e ex-sociólogo promulgou um manifesto contra o seu próprio partido e ousou criticar a desonestidade dos outros, inclusive a de Lula. "O gambá falando da raposa em defesa do galinheiro". Para as mais veementes críticas ao presidente da República, o autor vale-se outra vez do amigo fiel, o "Gervásio", que reaparece inconformado com as imagens de um diretor dos Correios recebendo propina em nome do PTB:

    "(...) Aquela cena, transmitida pela TV, deu origem a um dos maiores escândalos da história do Brasil em matéria de corrupção, bandalheira, suborno de deputados, negociatas denunciadas pelo então deputado Roberto Jefferson. Quem diria? Justo o governo Lula, que pregava a ética, `não roubo e não deixo roubar', acabou trocando os valores morais por `valérios' imorais. (...) Não pretendo chamar ninguém de burro ou de analfabeto. Aliás, nessas histórias, ninguém comeu capim. Lula é inteligente. Iletrado, sem cultura, mas inteligente e muito esperto. Ele nunca sabe de nada. (...)

    Estou falando do governo Lula e da imoralidade que nele se instalou com a distribuição de cargos nas empresas estatais, de contratos de obras, de publicidade, de superfaturamentos, de Valério distribuindo dinheiro para deputados e partidos políticos, de depósito no exterior de milhões de dólares na conta do publicitário de Lula, Duda Mendonça. Comércio descarado de compra de consciências para assegurar votações no Congresso. (...) Sabia (Lula) de tudo ou quase tudo. Em Paris, ele concedeu entrevista dizendo que o caixa dois é costumeiro nos partidos políticos. Deu a entender que não reprovava. O ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse que caixa dois é coisa de bandido. Logo, o presidente aprova coisa de bandido."

    O trator passa, também, sobre a administração:

    "Com o Bolsa-Família, está resolvido. Não há atividade produtiva, que geraria empregos. Não há infra-estrutura, que geraria atividade produtiva, salvo a indústria da tapioca. Com a família no bolso, nem precisa dessas coisas. Muitos não vão querer trabalhar para não serem privados da mensalidade embolsada e, no futuro, perder o emprego que por acaso surgir."

    É citada a jornalista Maria Sylvia Carvalho Frenco, para quem "Lula escolheu a via tortuosa da esperteza, minando as instituições, atingindo o calcanhar de adversários e aliados: o dinheiro, num mundo de mercado e escassez, foi seu astucioso aparato destrutivo; desmoralizou a soberania e a representação do povo, catalizou a desonra de pessoas, admitiu a corrupção de consciências, relegou velhos aliados ao haraquiri para salvar-se, expandiu a desigualdade, pôs à venda, por pratos de lentilhas, a altivez e a dignidade dos pobres." 


    Fantásticas lições de mestre (final)
    BRASÍLIA - É bom parar, neste terceiro artigo de comentários sobre o recente livro de Saulo Ramos, o "Código da vida". O risco seria de revelar ao leitor mais do que os fascinantes, poucos e simples detalhes aqui apresentados, de uma obra destinada a gerar uma das maiores polêmicas dos tempos atuais.

    Porque o autor, sem papas na língua, nem no computador, conta episódios por ele testemunhados que fariam corar um frade de pedra. Isso se ainda existissem frades de pedra entre nós. Julgamentos de valor são feitos a respeito de pessoas e de situações, transformando o célebre advogado em férreo promotor público, mas sem perder a ironia e, no fundo, a esperança de sair vitorioso em mais uma causa, desta vez, a causa da moralidade e da ética. Porque denunciar bandalheiras, mesquinharias, escândalos e espertezas consiste no primeiro passo para vê-los corrigidos, senão punidos.

    A metralhadora giratória de Saulo Ramos parece daquelas que não têm fim, ou melhor, são automaticamente remuniciadas assim que descarregadas. E com humor. Montes de outros personagens não referidos nos dois primeiros artigos aqui apresentados também sofrem. Numa referência simples e incompleta:

    Bernardo Cabral (relator da Assembléia Nacional Constituinte e senador pelo Amazonas) - "Jamais leu um livro de Direito Constitucional, levava pão fresco todas as manhãs na minha casa, insinuando-se para o café da manhã e para receber lições. Não entendia nada do que deveria fazer. Não sabia o que era Poder Constituinte Derivado. Não tinha alfabetização suficiente para distinguir uma redação má de uma redação boa".

    Mailson da Nóbrega (ministro da Fazenda do governo Sarney) - "Deveria usar babador".

    Ivan de Souza Mendes (chefe do SNI no governo Sarney) - "Desistiu de brigar quando respondeu que tratava o então presidente da República de `Vossa Excelência' e o ministro da Justiça tratava de `Zé'..."

    José Dirceu (ex-chefe da Casa Civil de Lula) - "Quer a anistia e eleger-se presidente da República".
    Celso Amorim (ministro de Relações Exteriores do governo Lula) - "Um estoque de ingenuidades".

    Fernando Collor (ex-presidente da República e senador por Alagoas) - "Consegue falar sem mexer os músculos da face, enrijecidos por óleo de peroba".

    José Celso de Mello (ministro do Supremo Tribunal Federal) - "Ingrato, votou contra o presidente que o nomeara (Sarney) e, no nosso último telefonema, eu lhe disse, antes de desligar: `Você é um juiz de merda!'"

    Celso Daniel
    Uma catilinária especial do livro de Saulo Ramos, ainda sob a aparência de "Gervásio", refere-se ao levantamento pormenorizado das circunstâncias e dos personagens envolvidos no assassinato do prefeito Celso Daniel. São apresentados os nomes de nove testemunhas também assassinadas, numa espécie de queima de arquivo para esconder a corrupção que cercava a administração petista de Santo André, contra a qual Celso Daniel se teria insurgido.

    Até o apagão aéreo
    O "Código da vida" é tão atual que chega ao caos nos aeroportos, abordando o apagão aéreo: "O presidente Lula é criticado por dizer uma coisa na sexta-feira e no sábado, para desdizer tudo na segunda-feira. O primeiro de abril caiu no domingo..."

    As últimas referências ao governo Lula são duras: "(...) Está, realmente, difícil acreditar que teremos, a curto prazo, dias melhores na ética e na moralidade. (...) Não me importam as últimas eleições, as reeleições de Lula e seus mensaleiros. Nem sequer fui votar. Tenho mais de 70 anos. A Constituição me poupa o dilema de falta de escolha. Sei apenas que a ausência de decência, a ausência de hombridade e de vergonha passaram a conviver no dia-a-dia do meu país..."

    Para não dizer que não falei de erros
    Para concluir e não continuar tomando o tempo do leitor, bem mais interessado no livro, vale alinhar uns poucos erros cometidos por Saulo Ramos nas 467 páginas do "Código da vida":

    O ministro de Relações Exteriores do governo Garrastazu Médici não foi Vasco Leitão da Cunha, mas Mário Gibson Barbosa. Leitão foi o primeiro chanceler do governo Castello Branco.

    O ministro Luís Octávio Galloti, José Aparecido e Carlos Castello Branco não moravam, em Brasília, no "Hotel do Lago", mas no Brasília Palace Hotel. Os jovens não saíram às ruas pintados de verde e amarelo, para pedir o impeachment de Fernando Collor, mas pintados de preto. Os governos militares não implantaram a rodovia Belém-Brasília. Foi Juscelino Kubitschek.

    O comandante Júlio de Sá Bierrembach não prendia todo mundo no navio-prisão "Raul Soares", que comandou. Pelo contrário, o depoimento dos presos era de que procurava tratá-los com respeito. Mais tarde, promovido a almirante, foi ministro do Superior Tribunal Militar e responsável pela reabertura do processo do Riocentro.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Fredinho, Frederico Monteiro Filho, meu amigo de bom tempo, de quando em vez – sem nenhum motivo aparente – me presenteia com um ótimo livro. Código da Vida, ele me trouxe em janeiro de 2010.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2019
Todos os direitos reservados.