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Cidadania no Brasil - O Longo Caminho

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Cidadania no Brasil - O Longo Caminho

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: José Murilo de Carvalho

Editora: Civilização Brasileira

Assunto: Sociologia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 236

Ano de edição: 2011

Peso: 290 g

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Excelente
Marcio Mafra
06/09/2011 às 10:15
Brasília - DF

O subtítulo do livro do Mestre José Murilo Carvalho, é a síntese da cidadania no Brasil, ou seja: um longo caminho. Como bem disse o autor, foi após a abertura política da malfadada ditadura militar 1964-1985 que a questão da cidadania passou ao primeiro plano na imprensa, na justiça, nas universidades, nos governos e nas ruas. Tanto é que Ulisses Guimarães, ao proclamá-la em 5 de outubro de 1988 a chamou de Constituição Cidadã. Longo é, foi e ainda será o caminho da cidadania, talvez porque nem saibamos quem estava ou está menos preparado para exercê-la, o homem comum, os governos, os políticos ou as elites. Convive-se até hoje, na rotina do dia-a-dia com o desrespeito aos direitos do cidadão, que não são efetivos de fato, bastando olhar as intermináveis filas nos hospitais e postos de saúde, a centenária morosidade da justiça, o descaso da polícia, a insegurança pessoal em todos os lugares públicos ou privados, o desatino do transporte publico coletivo, a inqualificável escola publica, a miserabilidade de parte significativa da população que mora precariamente e não tem o que comer, e por aí vai... Para tudo se faz um longo discurso e se cria uma lei. Fazemos assim desde há muito, como em 1827, para cumprir a exigência de proibição do tráfico de escravos, feita pela Inglaterra, que seria uma condição para o reconhecimento da independência do Brasil. Imediatamente se fez uma lei em 1831 que não teve nenhum efeito prático. Daí uma de nossas primeiras piadas: “a lei para inglês ver”. O Brasil foi o último país do mundo ocidental e cristão a extinguir a escravidão em 1888. Padre, bispo, freira todos tinham escravos. Se a cidadania é exercício de direitos, nós ainda somos cidadãos de segunda classe.



A cidadania se caracteriza pela obtenção de três direitos bem distintos: civis, políticos e sociais ensina o autor. “Direitos civis são os direitos fundamentais à vida, à liberdade, à propriedade, à igualdade perante a lei. São eles que garantem as relações civilizadas entre as pessoas e a própria existência da sociedade civil surgida com o desenvolvimento do capitalismo. É possível haver direitos civis sem direitos políticos.” Os direitos políticos referem-se à participação política do cidadão. “Em geral, quando se fala em direitos políticos, é do direito do voto que se está falando” Porém, não é possível haver direitos políticos sem direitos civis. Os direitos sociais referem-se à educação, ao trabalho, ao salário justo, à saúde, à aposentadoria. Estes permitem reduzir o excesso de desigualdade econômica gerado pelo capitalismo.

O livro é imperdível em qualquer dos quatro capítulos:



1. “Primeiros Passos”, que vai de 1822 até o golpe getulista de1930.



2. “Marcha Acelerada”, que inicia em 1930 e deságua em 1964, que foi o ano da vingança dos tenentes que tinham perdido o jogo do poder para Getulio Vargas, 34 anos atrás.



3. “Passo Atrás, Passo Adiante”, capítulo que relata o período nefasto que vai de 1964 a 1985, quando os militares tinham a cara de pau de chamar de Revolução Redentora..



4. O último capítulo trata da “Cidadania, Após a Redemocratização em 1985”.



Ainda praticamos a política do privilégio em detrimento dos direitos, até mesmo a nossa legislação trabalhista é um vetusto entulho imposto durante a ditadura de Getulio Vargas, uma verdadeira cópia da Carta de Lavoro ,do facista Mussolini que a utilizou de 1922 até 1945.



Ainda somos usuários do populismo, clientelismo, patrimonialismo, da demagogia e corrupção política e empresarial.



Cidadania no Brasil é isso. É livro sensacional, bom de ser lido, fácil de ser entendido.José Murilo de Carvalho é o fodão, como disse o blog “Na pratica a Teoria é Outra” http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6784, que está transcrito no “saiu da mídia”


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A historia do longo processo de cidadania brasileira, na visão do Ph.D José Murilo de Carvalho, centrada nos direitos civis, sociais e políticos que começa com a Independência em 1822, e termina no final dos anos FHC em 2002. São 180 anos de obstáculos para a vivência plena e absoluta da cidadania,

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Direitos Civis Retardatários.

Os direitos civis estabelecidos antes do regime militar foram recuperados após 1985. Entre eles cabe salientar a liberdade de expressão, de imprensa e de organização. A Constituição de 1988 ainda inovou criando o direito de habeas data, em virtude do qual qualquer pessoa pode exigir do governo acesso às informações existentes sobre ela nos registros públicos, mesmo as de caráter confidencial. Criou ainda o "mandado de injunção", pelo qual se pode recorrer à justiça para exigir o cumprimento de dispositivos constitucionais ainda não regulamentados. Definiu também o racismo como crime inafiançável e imprescritível e a tortura como crime inafiançável e não anistiável. Uma lei ordinária de 1989 definiu os crimes resultantes de preconceito de cor ou raça. A Constituição ordenou também que o Estado protegesse o consumidor, dispositivo que foi regulamentado na Lei de Defesa do Consumidor, de 1990. Fora do âmbito constitucional, foi criado em 1996 o Programa Nacional dos Direitos Humanos, que prevê várias medidas práticas destinadas a proteger esses diireitos. Cabe ainda mencionar como relevante a criação dos Juizados Especiais de Pequenas Causas Cíveis e Criminais, em 1995. Esses juizados pretendem simplificar, agilizar e baratear a prestação de justiça em causas cíveis de pequena complexidade e em infrações penais menores. 
Essas inovações legais e institucionais foram importantes, e algumas já dão resultado. Os juizados, por exemplo, têm tido algum efeito em tornar a justiça mais acessível. No entanto, pode-se dizer que, dos direitos que compõem a cidadania, no Brasil são ainda os civis que apresentam as maiores deficiências em termos de seu conhecimento, extensão e garantias. A precariedade do conhecimento dos direitos civis, e também dos políticos e sociais, é demonstrada por pesquisa feita na região metropolitana do Rio de Janeiro em 1997. A pesquisa mostrou que 57% dos pesquisados não sabiam mencionar um só direito e só 12% mencionaram algum direito civil. Quase a metade achava que era legal a prisão por simples suspeita. A pesquisa mostrou que o fator mais importante no que se refere ao conhecimento dos direitos é a educação. O desconhecimento dos direitos caía de 64% entre os entrevistados que tinham até a 4a série para 30% entre os que tinham o terceiro grau, mesmo que incompleto. Os dados revelam ainda que educação é o fator que mais bem explica o comportamento das pessoas no que se refere ao exercício dos direitos civis e políticos. Os mais educados se filiam mais a sindicatos, a órgãos de classe, a partidos políticos. 
 
A falta de garantia dos direitos civis pode ser medida por pesquisas feitas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao ano de 1988. Segundo o IBGE, nesse ano 4,7 milhões de pessoas de 18 anos ou mais envolveram-se em conflitos. Dessas, apenas 62% recorreeram à justiça para resolvê-los. A maioria preferiu não fazer 
nada ou tentou resolvê-los por conta própria. Especificanndo-se o conflito e as razões da falta de recurso à justiça, os dados são ainda mais reveladores. Assim, nos conflitos referentes a roubo e furto; entre os motivos alegados para não recorrer à justiça, três tinham diretamente a ver com a precariedade das garantias legais: 28% alegaram não acreditar na justiça, 4% temiam represálias, 9% não queriam envolvimeno com a polícia. Ao todo, 41 % das pessoas não recorreram por não crer na justiça ou por temê-la. Os dados referentes aos conflitos que envolviam agressão física revelam que 45 % não recorreram à justiça pelas mesmas razões. É importante notar que também nessa pesquisa o grau de escolaridade tem grande importância. Entre as pesssoas sem instrução ou com menos de um ano de instrução, foram 74%  as que não recorreram. A porcentagem cai para 57% entre as pessoas com 12 ou mais anos de instrução. A pesquisa na região metropolitana do Rio de Janeiro, já mencionada, mostra que a situação não se alterou nos últimos dez anos. Os resultados mostram que só 20% das pesssoas que sofrem alguma violação de seus direitos - furto, roubo, agressão etc. - recorrem à polícia para dar queixa. Os outros 80% não o fazem por temor da polícia ou por não acreditarem nos resultados. 
 
A falta de garantia dos direitos civis se verifica sobretudo no que se refere à segurança individual, à integridade física, ao acesso à justiça. O rápido crescimento das cidades transformou o Brasil em país predominantemente urbano em poucos anos. Em 1960, a população rural ainda superava a urbana. Em 2000, 81 % da população já era urbana. Junto com a urbanização, surgiram as grandes metrópoles. Nelas, a combinação de desemprego, trabalho informal e tráfico de drogas criou um campo fértil para a proliferação da violência, sobretudo na forma de homicídios dolosos. Os índices de homicídio têm crescido sistematicamente. Na América Latina o Brasil só perde para a Colômbia, país em guerra civil. A taxa nacional de homicídios por 100 mil habitantes passsou de 13 em 1980 para 23 em 1995, quando é de 8,2 nos Estados Unidos. Nas capitais e outras grandes cidades, ela é muito mais alta: 56 no Rio de Janeiro, 59 em São Paulo, 70 em Vitória. Roubos, assaltos, balas perdidas, sequestros, asssassinatos, massacres passaram a fazer parte do cotidiano das grandes cidades, trazendo a sensação de insegurança à população, sobretudo nas favelas e bairros pobres. 
 
O problema é agravado pela inadequação dos órgãos encarregados da segurança pública para o cumprimento de sua função. As polícias militares estaduais cresceram durante a Primeira República, com a implantação do federalismo. Os grandes estados, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, fizeram delas pequenos exércitos locais, instrumentos de poder na disputa pela presidência da República. Uma das exigências do Exército após 1930 foi estabelecer o controle sobre as polícias militares. 
No Estado Novo, elas foram postas sob a jurisdição do Ministério da Guerra (como era então chamado o Ministério do Exército), que lhes vetou o uso de armamento pesado. A Constituição demoocrática de 1946 manteve parte do controle, declarando as polícias estaduais forças auxiliares e reservas do Exército. Durante o governo militar, as polícias militares foram postas sob o comando de oficiais do Exército e completou-se o processo de militarização de seu treinamento. Elas tinham seus órgãos de inteligência e repressão política que atuavam em conjunto com os seus correspondentes nas forças armadas. 
 
A Constituição de 1988 apenas tirou do Exército o controle direto das polícias militares, transferindo-o para os governadores dos estados. Elas permaneceram como forças auxiliares e reservas do Exército e mantiveram as características militares. Tornaram-se novamente pequenos exércitos que às vezes escapam ao controle dos governadores. Essa organizaação militarizada tem-se revelado inadequada para garantir a segurança dos cidadãos. O soldado da polícia é treinado dentro do espírito militar e com métodos militares. Ele é preparado para combater e destruir inimigos e não para proteger cidadãos. Ele é aquartelado, responde a seus superiores hierárquicos, não convive com os cidadãos que deve proteger, não os conhece, não se vê como garantidor de seus direitos. Nem no combate ao crime as polícias militares têm-se revelado eficientes. Pelo contrário, nas grandes cidades e mesmo em certos estados da federação, policiais militares e civis têm-se envolvido com criminosos e participado de um número crescente de crimes. Os que são expulsos da corporação se torrnam criminosos potenciais, organizam grupos de extermínio e participam de quadrilhas. 
 
Mesmo a polícia civil, que não tem treinamento militarizado, se vem mostrando incapaz de agir dentro das normas de uma sociedade democrática. Continuam a surgir denúncias de prática de tortura de suspeitos dentro das delegacias, apesar das promessas de mudança feiitas pelos governos estaduais. São também abundantes as denúncias de extorsão, corrupção, abuso de autoridade feitas contra policiais civis. 
 
Alguns casos de violência policial ficaram tristemente célebres no país, com repercussão constrangedora no exterior. 
 
Em 1992, a polícia militar paulista invadiu a Casa de Detenção do Carandiru para interromper um conflito e matou 111 presos. Em 1992, policiais mascarados massacraram 21 pesssoas em Vigário Geral, no Rio de Janeiro. Em 1996, em pleno Centro do Rio de Janeiro, em frente à Igreja da Candelária, sete menores que dormiam na rua foram fuzilados por policiais militares. No mesmo ano, em Eldorado do Carajás, policiais militares do Pará atiraram contra trabalhadores sem-terra, matando 19 deles. Exceto pelo massacre da Candelária, os culpados dos outros crimes não foram até hoje condenados. No caso de Eldorado do Carajás, o primeiro julgamento absolveu os policiais. Posteriormente anulado, ainda não houve segundo julgamento. A população ou teme o policial, ou não lhe tem confiança. Nos grandes centros, as empresas e a classe alta cercam-se de milhares de guardas particulares para fazer o trabalho da polícia, fora do controle do poder público. A alta classe média entrincheira-se em condomínios protegidos por muros e guaritas. As favelas, com menos recursos, ficam à mercê de quadrilhas organizadas que, por ironia, se encarregam da única segurança disponível. Quando a polícia aparece na favela é para trocar tiros com as quadrilhas, invadir casas e eventualmente ferir ou matar inocentes. 
 
O Judiciário também não cumpre seu papel. O acesso à justiça é limitado a pequena parcela da população. A maioria ou desconhece seus direitos, ou, se os conhece, não tem condições de os fazer valer. Os poucos que dão queixa à polícia têm que enfrentar depois os custos e a demora do processo judicial. Os custos dos serviços de um bom advogado estão além da capacidade da grande maioria da população. Apesar de ser dever constitucional do Estado prestar assistência jurídica gratuita aos pobres, os defensores públicos são em número insuficiente para atender à demanda. Uma vez instaurado o processo, há o problema da demora. Os tribunais estão sempre sobrecarregados de processos, tanto nas varas cíveis como nas criminais. Uma causa leva anos para ser decidida. O único setor do Judiciário que funciona um pouco melhor é o da justiça do trabalho. No entanto, essa justiça só funciona para os trabalhadores do mercado formal, possuidores de carteira de trabalho. Os outros, que são cada vez mais numerosos, ficam excluídos. Entende-se, então, a descrença da população na justiça e o sentimento de que ela funciona apenas para os ricos, ou antes, de que ela não funciona, pois os ricos não são punidos e os pobres não são protegidos. 
 
A parcela da população que pode contar com a proteção da lei é pequena, mesmo nos grandes centros. Do ponto de vista da garantia dos direitos civis, os cidadãos brasileiros podem ser divididos em classes. Há os de primeira classe, os privilegiados, os "doutores", que estão acima da lei, que sempre conseguem defender seus interesses pelo poder do dinheiro e do prestígio social. Os "doutores" são invariavelmente brancos, ricos, bem-vestidos, com formação universiitária. São empresários, banqueiros, grandes proprietários rurais e urbanos, políticos, profissionais liberais, altos funncionários. Frequentemente, mantêm vínculos importantes nos negócios, no governo, no próprio Judiciário. Esses vínculos permitem que a lei só funcione em seu benefício. Em um cálculo aproximado, poderiam ser considerados "doutores" os 8% das famílias que, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 1996, recebiam mais de 20 salários mínimos. Para eles, as leis ou não existem ou podem ser dobradas. 
 
Ao lado dessa elite privilegiada, existe uma grande massa de "cidadãos simples", de segunda classe, que estão sujeitos aos rigores e benefícios da lei. São a classe média modesta, os trabalhadores assalariados com carteira de trabalho assinada, os pequenos funcionários, os pequenos proprietários urbanos e rurais. Podem ser brancos, pardos ou negros, têm educação fundamental completa e o segundo grau, em parte ou todo. Essas pessoas nem sempre têm noção exata de seus direitos, e quando a têm carecem dos meios necessários para os fazer valer, como o acesso aos órgãos e autoridades competentes, e os recursos para custear demandas judiciais. Frequentemennte, ficam à mercê da polícia e de outros agentes da lei que definem na prática que direitos serão ou não respeitados. Os "cidadãos simples" poderiam ser localizados nos 63% das famíílias que recebem entre acima de dois a 20 salários mínimos. Para eles, existem os códigos civil e penal, mas aplicados de maneira parcial e incerta. 
 
Finalmente, há os "elementos" do jargão policial, cidadãos de terceira classe. São a grande população marginal das grandes cidades, trabalhadores urbanos e rurais sem carteira assinada, posseiros, empregadas domésticas, biscateiros, camelôs, menores abandonados, mendigos. São quase invariavelmente pardos ou negros, analfabetos, ou com educação fundamental incompleta. Esses "elementos" são parte da comunidade política nacional apenas nominalmente. Na prática, ignoram seus direitos civis ou os têm sistematicamennte desrespeitados por outros cidadãos, pelo governo, pela polícia. Não se sentem protegidos pela sociedade e pelas leis. Receiam o contato com agentes da lei, pois a experiência lhes ensinou que ele quase sempre resulta em prejuízo próprio. Alguns optam abertamente pelo desafio à lei e pela criminalidade. Para quantificá-los, os "elementos" estariam entre os 23% de famílias que recebem até dois salários mínimos. Para eles vale apenas o Código Penal. 
 

  • Entrevista José Murilo de Carvalho, Jornal Valor Econômico

    Autor: Blog Na Pratica a Teoria É Outra

    Veículo: Blog http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6784

    Fonte: http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=6784 22/8/2010

    O sempre alerta Sérgio Lamucci, do Valor mandou bem entrevistando o José Murilo de Carvalho, famoso historiador e fodão, na edição de ontem. O José Murilo é autor de um dos livros que mais faziam sucesso quando eu estava na faculdade, Os Bestializados, mas eu gosto mesmo é do Teatro das Sombras, sobre a política nos tempos do Império (o brasileiro, não esse aí do Negri, nem o do Guerra nas Estrelas), um dos melhores livros de história que eu já li. É, sem dúvida, um dos grandes intelectuais brasileiros.

    Realmente recomendo a leitura. Deixando de lado as coisas com as quais eu obviamente concordo, e as coisas com as quais eu obviamente discordo, vamos discutir coisas bacanas.

    Começando com boa pergunta, boa resposta:

    Valor: Como ocorre desde 1994, a eleição está polarizada entre PT e PSDB, os partidos que, segundo disse uma vez Fernando Henrique Cardoso, disputam ” quem é que comanda o atraso ” . Esse arranjo político tem sido benéfico para o país?

    Carvalho: A frase é justa. Tanto Fernando Henrique quanto Lula pagaram o preço de suas alianças com o atraso. Isso foi cobrado de Fernando Henrique, agora é cobrado de Lula. Por mais que essas alianças frustrem e irritem os que sonham com uma democracia moderna, sem elas, em nossas circunstâncias, não teria havido a estabilidade necessária para o exercício do governo dentro de um sistema representativo. Os impasses entre o Executivo e o Legislativo teriam causado paralisia do governo, pois, como já percebera Celso Furtado, entre nós o Executivo tende a ser mais reformista do que o Congresso. É verdade que essas alianças têm causado grandes danos à República. Está aí o exemplo do mensalão. Mas é preferível lutar contra a corrupção dentro da liberdade do que nem poder detectá-la em regime de exceção.

    É isso aí. Tem que pensar nas duas coisas ao mesmo tempo: não se pode simplesmente ignorar a necessidade de conquistar apoio parlamentar, mas não se pode minimizar o estrago à nossa cultura política que as alianças com corruptos proporcionam. Eu acho que precisávamos de mais reflexão a esse respeito, à direita e à esquerda. Uma consequência disso seria que poderíamos parar e, bipartidariamente, bolar algum arranjo institucional que diminua a corrupção. Outra, como vimos em nesse texto aqui, que os partidos parariam de fazer campanha só dizendo que o outro é corrupto, e começariam a ter que mostrar propostas.

    E agora vamos encarar de frente o problema, como será um governo em aliança com o PMDB, sem Lula:

    Valor: O PMDB ganhou força ao longo do governo Lula. Para ter o apoio do partido à Dilma, Lula fez o PT apoiar o PMDB em Minas e no Maranhão. Esse avanço do PMDB é preocupante?

    Carvalho: Como disse, essas alianças, apesar de constrangedoras, são indispensáveis para a governança. O que preocupa é a natureza da convivência do PT com o PMDB em eventual governo Dilma. Pela força de sua liderança, Lula foi capaz de enquadrar o PT e controlar o PMDB. Dilma terá maior dificuldade em fazer isso. Ela poderá se ver diante do dilema de ter que recorrer à ajuda de Lula, enfraquecendo a própria autoridade, ou enfrentar crises desgastantes em sua aliança.

    Não há como negar o risco do PMDB encarar essa chegada ao poder como um passe livre para fazer a festa. Mas há outras possibilidades. Eu acho que o PMDB está cavando já sua nova identidade, a de ser o moderador do PT. Se o PMDB virar isso, e deixar de ser um partido forte mas irresponsável, só por isso já vai ter valido a pena o governo Dilma. Note-se que, agora, ao contrário dos períodos anteriores, o PMDB vai estar na frente, exposto a críticas por ser governo, como o PFL estava durante o governo FHC. Vai ser interessante saber se o PMDB vai saber se renovar como o PFL não soube.

    Aqui está uma coisa para manter em mente:

    Valor: O Brasil ganhou peso no cenário internacional nos últimos anos, tornando-se uma economia com potencial de crescimento forte num momento em que os países desenvolvidos lutam para sair da crise, beneficiado ainda pela descoberta das reservas de petróleo no pré-sal. O país está sabendo aproveitar esse momento? Pode ir além da vocação de potência regional?

    Carvalho: É um momento certamente positivo. Mas, há riscos. Tendemos a oscilar entre os complexos de vira-lata e o oba-oba, ambos funestos. Receio que estejamos caindo no segundo complexo. Os indicadores são bons e auspiciosos, mas há um imenso trabalho a ser feito e os resultados não são garantidos. O país está caindo na participação no comércio internacional, depende muito de commodities, tem grandes desvantagens devidas à má qualidade da educação, à falta de qualificação da mão de obra, ao excesso de burocracia (como é possível que seja quatro vezes mais barato criar uma empresa na China?), à baixa taxa de investimento. O petróleo como fonte de energia está sob forte suspeita, tendo em vista os riscos que cria ao meio ambiente tragicamente demonstrados no vazamento do Golfo do México. Diria que, mais que o petróleo, o combustível mais importante para que as promessas não se frustrem é o suor do trabalho.

    Pois é, a gente comemora que a misérie extrema caiu pela metade, e tem que comemorar, mesmo, mas, porra, ainda tem miséria extrema? O JMdC dá aí em cima uma lista muito boa de problemas a serem enfrentados. Entreguem essa entrevista para a Dilma.

    E dois momentos interessantes pelo cara ser historiador. O primeiro:

    Valor: O que explica esse conservadorismo num país tão desigual?

    Carvalho: A Independência não tocou na estrutura social do país, a abolição se fez sem guerras, a República só mudou a escolha do chefe de Estado e fortaleceu as oligarquias regionais, a Revolução de 1930 nada teve de revolução, a Revolução de 1964 foi uma contra-revolução, 1985 foi uma negociação. A razão para isso é que o povo político no Brasil nunca teve capacidade revolucionária em nível nacional e só começou a ganhar força eleitoral a partir de 1945. Até hoje ele ainda é vulnerável a políticas de cooptação. Pela capacidade de coerção ou cooptação, temos as elites mais competentes do mundo, inclusive a que está no poder hoje.

    A competência das nossas elites é mesmo impressionante, mas: em geral, no intervalo entre essas conciliações, teve muita briga (se teve contra-revolução, é porque alguma agitação estava tendo, ainda que não propriamente uma revolução; antes de 30 já tinha muito anarquista fazendo greve por aí, e por aí vai). E talvez cabesse mais ênfase na mudança desde 1945.

    E, finalmente:

    Valor: O governo Lula está entre os melhores que o Brasil já teve ou ainda é cedo para o julgamento?

    Carvalho: Ainda falta a distância necessária para colocar seu governo em perspectiva histórica. Para ficar só na República, Lula terá que competir com o quase imbatível Getúlio Vargas e suas leis sociais e trabalhistas, com JK e seu desenvolvimentismo democrático, e com o próprio Fernando Henrique Cardoso e sua estabilização da economia, enxugamento do Estado e reinício das políticas sociais. Pode-se dizer, no entanto, que Lula seguramente estará nesse time.

    Pessoalmente, o que não sei é se JK e Vargas merecem estar nesse time. Mas isso sou eu (e, suspeito, só eu). Leiam aí a entrevista, é sempre bacana ver sujeito inteligente pensando.

    PS: estava pensando aqui, como é dura a vida do cara que edita caderno cultural no Brasil atual. O Valor já entrevistou, recentemente, o Alencastro, o Fausto, e agora o Zé Murilo. Não falta muita gente pra entrevistar no estilo “não apenas academicamente brilhante, mas tem algo a dizer sobre as grandes questões”, falta? O Giannotti, eu acho. O FHC depois de umas cachaças que o façam esquecer que foi presidente e o façam falar o que realmente acha sobre as coisas. O Weffort quando resolver interromper seus 16 anos de criogenia. Mais alguns críticos literários, alguns economistas. Contando que não dá pra repetir o mesmo cara toda hora, e que tem vezes em que eles não vão querer dar entrevista, de vez em quando deve ser difícil editar esses negócios. É capaz de chegar, daqui a alguns anos, uma nova leva de sujeitos feras, que, por enquanto, ainda estão no estágio “só academicamente brilhantes”, mas está demorando

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Rafael me presenteou no dia dos pais, e assinou em 14/8/2011 que “papai lê pra caralho”.


 

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