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Memorial do Convento

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Memorial do Convento

Livro Excelente - 2 comentários

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Autor: José Saramago

Editora: Bertrand Brasil

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português (de Portugal)

Páginas: 347

Ano de edição: 2006

Peso: 400 g

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Excelente
Marcio Mafra
28/07/2011 às 16:17
Brasília - DF

Don João V, monarca absoluto de Portugal casou com Dona Maria Ana Josefa, da corte da Áustria e decorridos três anos, esta não lhe dava herdeiros. Imaginem-se quantas mandingas, rezas, tratamentos e promessas não tenham sido feitas para que a gravidez acontecesse.



Sobre o fato, muito se comentou no reino, que o confessor da Rainha, ao desconfiar que ela tivesse engravidado, imediatamente providenciou um velho frade de seu convento, que foi levado até o Rei e disse algo como: “Deus me falou que se Vossa Majestade prometer levantar um Convento na Vila de Mafra, ele lhe dará um herdeiro...”



Foi o que bastou para o magistral Saramago misturar esta história, com a história verdadeira da Construção do Convento, mesclando-a com os personagens da Corte, mais os personagens dos operários que trabalharam na construção, além de manifestações políticas, econômicas, culturais e – sobretudo – religiosas, eis que a Igreja Católica vivia os tempos áureos e poderosos da inquisição, através do Tribunal do Santo Ofício.



O reino era alimentado pelas “commodities” da época, que era o ouro e o pau-brasil, extraídos da riquíssima colônia do além-mar: Brasil.



Noutra ponta, o padre Bartolomeu de Gusmão, que construiu o voou numa máquina que Saramago chamou de passarola, entrelaça sua genialíssima história com Blimunda, a legítima filha da puta, cuja mãe Sebastiana Maria de Jesus foi condenada pela inquisição para morrer na fogueira. Blimunda vive um tórrido e fiel amor com o Sete-Sois, um maneta chamado Baltasar, que perdeu a mão, numa das batalhas do exército real.



Do realismo fantástico de Saramago, resta, hoje, na Vila de Mafra, pouco além de 30 quilômetros de Lisboa, um palácio construído entre os anos de 1711 e 1730, com quase 38 mil metros quadrados de construção, 237 metros de frente, mais de 880 quartos, 4.500 portas e janelas, além de uma biblioteca com 90 metros de comprimento, com centenas de prateleiras onde os 40 mil livros – ainda hoje – estão dispostos da maneira original. Entre o acervo destacam-se os livros impressos nos séculos 16, 17 e 18 com obras completas de Teologia, Direito Canônico, Escrituras Sagradas, Literatura, Geografia e Filosofia. Mais de mil manuscritos sobre a Ordem Franciscana. Cartas geográficas e pergaminhos também fazem parte das coleções.



Memorial do Convento é uma excelente história do Palácio Nacional de Mafra. Eu estive lá em 2009. Imperdível.



Excelente
Rafael Mafra
15/07/2011 às 16:17
Brasília - DF

 Às vezes parece que a obra de Saramago se presta apenas ao seu ateísmo, a esculachar a igreja, coisa que ele faz com brilhantismo. Mas na verdade ele está sempre a falar do homem e a religião é só uma parte do que o homem faz.


Neste livro, Saramago não poupa a igreja das críticas, mas a história não está voltada para este aspecto. É sobre amor e simplicidade, no microcosmo, e da ambição desmedida, no macrocosmo.


A melhor coisa do livro é que ao descrever uma cena de um homem sendo esmagado por uma pedra ou uma senhora seguindo um caminho, o autor utiliza a mesma narrativa rápida, porém detalhada. Junto à pontuação peculiar de Saramago, muitas vezes se deixa a impressão de que se está lendo poesia, como no trecho abaixo.


"Mas este caminho é pedestre, Blimunda menos bela, até o burro deixou cair os lírios, murchos mortos de sede, vamos sentar-nos aqui a comer o duro pão do mundo, comemos e seguimos logo, que ainda temos muito que andar. Vai Blimunda tomando nota do caminho na sua memória, aquele monte, aquela mata, quatro pedras alinhadas, seis colinas em redondo, as vilas como se chamam, foi Codeçal e Gradil, Cadriceira e Furadouro, Merceana e Pena Firme, tanto andamos que chegamos, Monte Junto, Passarola."


Saramago é foda e este livro é nada menos que excelente.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

 A história do maneta Baltasar Mateus, também conhecido por Sete-Sóis e Blimunda, apelidada de Sete-Luas e o Padre que voou numa passarola, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, durante a construção do Convento de Mafra.  No tempo da Santa Inquisição, entre os anos 1711 e 1750 o Rei de Portugal, João V, estava casado com casado com D.Maria Ana Josefa há três anos e não tinha herdeiros. Então prometeu aos monges beneditinos que se a Rainha engravidasse, ele construiria um mosteiro, para abrigar mais de trezentos monges. Com o nascimento da princesa Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara a palavra de Rei não voltou atrás e foi erguido o que hoje se chama Palácio Nacional de Mafra

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

D. Maria Ana não irá hoje ao auto-de-fé. Está de luto por seu irmão José, o imperador da Áustria, que em pouquísssimos dias o tomaram as bexigas, verdadeiras, e morreu delas, tendo somente trinta e três anos, mas a razão por que ficará no resguardo dos aposentos não é essa, muito mal andariam os Estados quando uma rainha afracasse por esse pouco, se para tão grandes e maiores golpes são educadas. Apesar de já ir no quinto mês, ainda sofre dos enjoas naturais, que, no entanto, também não bastariam a desviar-lhe a devoção e os sentidos de vista, ouvido e cheiro da solene cerimónia, tão levantadeira das almas, acto tão de fé, a procissão compassada, a descansada leitura das sentenças, as descaídas figuras dos condenados, as lastimosas vozes, o cheiro da carne estalando quando lhe chegam as labaredas e vai pingando para as brasas a pouca gordura que sobejou dos cárceres. D. Maria Ana não estará no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, em acréscimo dos afrontamentos de que vinha padecendo há muitos meses. Demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham demorado a notícia da morte do irmão, que queriam os médicos segurá-la mais, sendo de tão pouco tempo a gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como ainda agora se averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão e logo lha deram, pelo bem que sempre faz à alma, mas terão sido imaginações suas, que tudo se desatou num bom sucesso quando o purgaram, afinal era só a tripa empedernida. Está o palácio triste, sobre a tristeza em que de costume está, com o luto que el-rei mandou dar a toda a sua casa, e ordem para que os títulos e oficiais dela o pusessem, como ele pôs, fechando-se oito dias e tomando seis meses de nojo, três de capa comprida e três de capa curta, por demonstração do grande sentimento da morte do imperador seu cunhado.

Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro as pessoas que hoje saem, as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes e impiedades, sendo cinquenta e um os homens e cinquenta e três as mulheres. Destas, duas serão relaxadas ao braço secular, em carne, por relapsas, e isto quer dizer reincidentes na heresia, por convictas e negativas, e isto quer dizer teimosas apesar de todos os testemunhos, por contumazes, e isto quer dizer persistentes nos erros que são suas verdades, só desacertadas no tempo e no lugar. E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa, está o Rossio cheio de povo, duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé, nunca se chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas, mesmo quando só estas se usarem. Nas janelas que dão para a praça estão as mulheres, vestidas e toucadas a primor, à alemoa, por graça da rainha, com o seu vermelhão nas faces e no colo, fazendo trejeitos com a boca em modo de a fazer pequena e espremida, visagens várias e todas viradas para a rua, a si próprias se interrogando as damas se estarão seguros os sinaizinhos do rosto, no canto da boca o beijocador, na borbulhinha o encobridor, debaixo do olho o desatinado, enquanto o pretendente confirmado ou suspirante em baixo se passeia, de lenço na mão e circulando a capa. E sendo o calor tanto, vão-se refrescando os assistentes, com a conhecida limonada, o geral púcaro de água, a talhada de melancia, que não seria por irem morrer aqueles que se consumiriam estes. E se o estômago pede recheio mais substancial, não faltam aí os tremoços e os pinhões, as queijadas e as tâmaras. El-rei, com os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de terminado o acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do inquisidor, soberbíssima de tigelas de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhana com tudo quanto lhe compete, e açafroado, de manjar-branco, e enfim doces fritos e frutas do tempo. Mas é tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque a melhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não.

Outro exemplo, mais do proveito da alma, se o corpo tão repleto está, será dado hoje aqui. Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos à frente, trazendo a bandeira de S. Domingos, e os inquisidores depois, todos em comprida fila, até aparecerem os sentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazem círios na mão, ao lado os acompanhantes, e tudo são rezas e murmúrios, por diferenças de gorro e sambenito se conhece quem vai morrer e quem não, embora um outro sinal haja que não mente, que é ir o alçado crucifixo de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira, pelo contrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que desta escaparão com vida, maneiras simbólicas de se entenderem todos quanto àquilo que os espera, se não reparassem no que trazem vestido, e isso sim, é tradução visual da sentença, o sambenito amarelo com a cruz de Santo André a vermelho para os que não mereceram a morte, o outro com as chamas viradas para baixo, dito fogo revolto, se confessando as culpas a evitaram, e a samarra cinzenta, lúgubre cor, com o retrato do condenado cercado de diabos e labaredas, o que, passado a linguagem, significa que aquelas duas mulheres vão arder não tarda. Pregou frei João dos Mártires, provincial dos arrábidos, e certamente ninguém o estaria merecendo mais, se nos lembrarmos de que arrábido foi o frade cuja virtude Deus corou engravidando a rainha, assim aproveite a prédica à salvação das almas como aproveitarão a dinastia e a ordem franciscana em sucessão assegurada e prometido convento.


Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, e para ser ela maior tanto se chamava padre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel da Conceição, ou frei Manuel da Graça, ou ainda Belchior Carneiro, ou Manuel Lencastre, quem sabe que outros nomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser um direito do homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes ao dia, um nome não é nada, e aquele é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portei, que fingia visões para ser tido por santo, e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições, imagine-se, como se tivesse sido ele o primeiro, e aquele é o padre António Teixeira de Sousa, da ilha de S. Jorge, por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fomicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto recato da sacristia, enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles, poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.


Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queria morrer na fé cristã, outra assada viva por perseverannça contumaz até na hora de morrer, diante das fogueiras arrmou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, el-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela sua guarda, a tarde desce depressa, mas o calor sufoca ainda, sol de garrote, sobre o Rossio caem as grandes sombras do convento do Carmo, as mulheres mortas são descidas sobre os tições para se acabarem de consumir, e quando já for noite serão as cinzas espalhadas, nem o Juízo Final as saberá juntar, e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé, levando agarrada à sola dos sapatos alguma fuligem, pegajosa poeira de carnes negras, sangue acaso ainda viscoso se nas brasas não se evaporou. Domingo é o dia do Senhor, verdade trivial, porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se em nome do mesmo Senhor não nos gastaram mais depressa as labaredas, por duplicada violência, que é a de me queimarem quando por minha razão e vontade recusei ao dito Senhor ossos e carne, e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mim e de mim, cópula directa de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre o rosto esscondido, igual ao mostrado e por isso ignorado. No entanto, é preciso morrer.


Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse, as palavras ditas por Blimunda, Ali vai minha mãe, nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rosto compadecido, que ainda assim não faltam estes no meio do povo apesar de tanto ódio, de tanto insulto e escárnio, e esta que é filha, e amada como se viu pelo modo como a olhava a mãe, não teve mais dizer senão, Ali vai, e depois voltou-se para um homem a quem nunca vira e perguntou, Que nome é o seu, como se contasse mais sabê-lo que o tormento dos açoites depois do tormento do cárcere e dos tratos, e que a certa certeza de ir Sebastiana Maria de Jesus, nem o nome a salvou, degredada para Angola e lá ficar, quem sabe se consolada espiritual e corporalmente pelo padre António Teixeira de Sousa, que muita prática leva de cá, e ainda bem, para não ser tão infeliz o mundo, mesmo quando já tem garantida a condenação. Porém, agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água, se tomar a ver sua mãe será no embarque, mas de longe, mais fácil é largar um capitão inglês mulheres de má vida que beijar uma filha sua mãe condenada, encostar a uma face outra face, a pele macia, a pele frouxa, tão perto, tão distante, onde estamos, quem somos, e o padre Bartolomeu Lourenço diz, Não somos nada perante os desígnios do Senhor, se ele sabe quem somos, conforma-te Blimunda, deixemos a Deus o campo de Deus, não atravessemos as suas fronteiras, adoremos deste lado de cá, e façamos o nosso campo, o campo dos homens, que estando feito há-de querer Deus visitar-nos, e então, sim, será o mundo criado. Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele responndera, não era necessária melhor razão. Terminado o auto-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.


Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tomara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta, Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tomando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.


Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o moerão da candeia que estava comendo a luz e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.


Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.


Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deiitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro. 


  • Roteiro da Construção do Palácio Nacional de Mafra

    Autor: Luis Felipe C. Marques da Gama

    Veículo: Livro

    Fonte:

     



    BREVE DESCRIÇÃO DO MONUMENTO

     


    O Monumento de Mafra é constituído pela Basílica, pelo extinto Convento e pelo antigo Paço Real, conjunto este que se traduz num único edifício de dimensões verdadeiramente invulgares, razão por que é considerado um dos monumentos históricos de maior envergadura da Europa.


    Esta imensa mole de pedra, que soube resistir ao célebre terramoto de 1755, é composta por dois corpos de secção rectangular, contíguos e de grandeza diferente, ocupando uma área total de quase quatro hectares (37.790m2).


    No corpo maior do edifício, localizam-se: a Basílica, a sacristia, as duas torres sineiras, o Palácio Real, incluindo os dois torreões, as casas da Fazenda, as enfermarias, a casa do Capítulo, a sala dos Actos, o refeitório dos frades, a casa de Profundis, a capela do Campo Santo e os dois claustros.


    O corpo menor comprende, por sua vez, a maior parte do Convento, as cozinhas, a Biblioteca, o jardim do Buxo e ainda uma pequena parcela do Palácio, ao nível do último piso.


    A fachada principal do Monumento, virada a poente, é limitada por dois soberbos torreões e tem em toda a sua extensão 232 m de comprimento. Quanto às restantes, as fachadas norte e sul medem ambas, respectivamente 209 m de comprido e a virada a nascente, 171m.


    Ao todo, o edifício tem 880 salas e quartos, 300 celas, 4.500 portas e janelas, 154 escadarias e 29 pátios, números que, só por si, são bem elucidativos da sua ordem de grandeza.


    Dado que o Palácio Nacional de Mafra, apenas corresponde a um pouco menos de metade da globalidade do Monumento, abrangendo todo o antigo Paço Real, a Basilica e uma pequena parcela do Convento, na qual está incluída a Biblioteca, limitar-nos-emos a descrever exclusivamente este conjunto, já de si muito vasto.

     

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

 Quem consta essa história é o Rafael Mafra:

"Na minha primeira viagem internacional a trabalho passei meu cartão de visitas a um senhor cavalheiresco de sotaque lusitano, mas que trabalhava para o governo brasileiro, Sr. Manoel Lousada. Ele me perguntou se eu conhecia a história da construção do convento de Mafra narrada pelo Saramago. Fiquei supreso pois nunca ouvira falar, mas fiquei curioso.

Comentei a história algumas vezes com meu pai, mas nunca decidimos comprar o livro, por desleixo. Até que li as Intermitências da Morte e fiquei muito impressionado com a narrativa sagaz do Saramago e decidi que, se ele havia escrito um livro sobre a construção de um Convento em uma cidade com o meu nome, que eu devia ler e logo.

Meu pai se dispôs a comprar o livro. Fomos pesquisar e descobrimos o nome real, até então eu achava que se chamava "O Convento de Mafra". Seria muito mais legal, mas "A Construção do Convento" era ok. Apesar da psicose de enfiar um número em todos os livros que entravam em casa, meu pai gentilmente me emprestou o livro antes de cadastrá-lo.

Li o livro devagar, saboreando e decidi só devolvê-lo quando tivesse um comentário decente a fazer. Por isso, esse livro chega à Bibliomafrateca - na virtualidade, Livronautas - uns dois anos depois de sua aquisição. Felizmente, não é uma decepção. A obra do fantástico escritor que se passa em boa parte na cidade que batiza minha família não decepciona e me enche de orgulho."


 

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