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A Arte da Política

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A Arte da Política

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Autor: Fernando Henrique Cardoso

Editora: Civilização Brasileira

Assunto: Ciencia Politica

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 699

Ano de edição: 2006

Peso: 975 g

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Ótimo
Marcio Mafra
26/06/2011 às 16:56
Brasília - DF


FHC é autor de boa produção. Intelectual influente e importante na área acadêmica do Brasil e particularmente, da cidade de São Paulo. No entanto ele é conhecido dos brasileiros muito mais por sua vida política, onde foi Senador, Ministro das Relações Exteriores, Ministro da Fazenda e Presidente da Republica.

Como Ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, teve oportunidade de conduzir o processo de estabilização da moeda brasileira, criando o Real. O êxito do Plano Real o tornou conhecido e popularmente famoso, resultando em sua eleição para Presidente da Republica, pela primeira vez, em 1995, com mais de 31 milhões de votos.



Durante o seu mandato promoveu o crescimento econômico e manteve a estabilização da moeda até o início do seu segundo mandato, em 1999, para o qual foi reeleito com mais de 35 milhões de votos. Em janeiro de 1999 houve uma forte desvalorização do real, devido a crises financeiras internacionais (Rússia, México e Ásia) que levou o Brasil a maior crise financeira de sua história, além de aumentar os juros reais e aumentar a dívida interna brasileira.

Por tudo isto “Arte de Fazer Política”, mais parece a “Arte de Ser FHC”. Muito mais que um livro de memórias é um livro para reflexão sobre governança, liderança política, social econômica e cultural.



Se o leitor, como eu, não for do mesmo partido politico que FHC, ou mesmo tiver críticas bem fundamentadas sobre as falhas e defeitos de seu período de governo, não haverá como negar que nos anos FHC, o Brasil ficou melhor. Muito melhor. Afinal nos integramos ao mercado mundial, sem muitas improvisações econômicas, deixamos para trás o “estado pai” ou “estado empresa” e partimos para o “estado mercado”, iniciamos o combate final para extirpar a miséria absoluta, nos alinhamos tecnologicamente ao mundo atual. Sem contar com a importantíssima consolidação da democracia, como forma de governo e de cidadania. Ademais é a segunda vez que um ex-presidente brasileiro escreve um livro sobre o seu período de governo. É verdade, também que 700 páginas de acertos, vantagens e coisas boas acabam enjoando e esticando a leitura.  A Arte da Política, por ser arte de ilustre professor é demais para qualquer leitor, porque é muito detalhista e muito didático. É um exercício de paciência chinesa acompanhar composições ministeriais e acordos políticos durante oito anos. É certo que o livro teve a colaboração de muitas mãos, mas faltou profissional para tornar as histórias de acordos políticos partidários ou de planejamento das ações governamentais um pouco mais palatável para leitor que só conhece o Palácio do Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo Federal por fotografia. Mesmo assim, o livro tende a ser “obra de referência” politica, como de certa forma é “Meu Caminho Para Brasília” do Presidente Kubitschek. O livro de FHC mostra bem o funcionamento das instituições e os limites do poder presidencial. É leitura indispensável para compreender o Brasil de hoje.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história do dia-a-dia dos dois mandatos de Presidente da Republica, escritos pelo próprio Fernando Henrique Cardoso. O livro trata dos bastidores do poder durante – nada menos que oito anos - entre 1º de janeiro de 1995 até 1º de janeiro de 2003. Nele o próprio Presidente explica o Brasil, a América Latina, os EUA, a Europa e o resto do mundo, no estilo professoral do sociólogo e com a inteligência do político profissional.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Duas semanas antes do dia das eleições - realizadas a 15 de novembro de 1978 -, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou as decisões anteriores da Justiça Eleitoral contrárias ao registro de meu nome, e desta forma me tornei candidato efetivo.
Também como previsto, fiquei em segundo lugar na legenda do MDB, com o senador Montoro sendo reeleito. Mas, na sublegenda - recurso de que se valeu a legislação eleitoral do regime militar para abrigar, nos dois partidos permitidos, diferentes correntes internas, obtive número superior de votos aos do candidato do partido adversário, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). Pelas regras de então, o suplente de Montoro seria eu, e não quem se inscrevera na sublegenda dele, o saudoso José Roberto Magalhães Teixeira, na ocasião vice-prefeito e, no futuro, prefeito de Campinas (SP). O curioso é que, quando saí candidato, não sabia disso.

Daí por diante, ganhei um lugar ao sol na política. Passaram a me intitular "senador suplente" e galguei posições no MDB paulista. Cheguei a ser presidente do partido em São Paulo quando ele se reorganizou, por força de lei autoritária, mudando o nome para PMDB. O resto é história razoavelmente conhecida. Montoro se elegeu governador em 1982, e em 1983 assumi sua cadeira no Senado.
Tornei-me senador sem jamais haver tido este propósito seriamente.

Anos depois, em 1985, com a volta das eleições diretas para prefeitos nas cidades consideradas "área de segurança nacional", inclusive as capitais, concorri à Prefeitura de São Paulo. O candidato natural, Mário Covas, prefeito em exercício nomeado por Montoro, conforme as regras de então, fora impedido de disputar por uma manobra política no Congresso, que vedou aos titulares das prefeituras o direito de se candidatar. Favorecia-se assim a candidatura do ex-Presidente Jânio Quadros pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) em coligação com o Partido da Frente Liberal (PFL), com a eliminação do competidor mais forte da oposiição, Mário Covas. Resultado: o governador Montoro, nosso líder político, levou-me à disputa.

Perdi por poucos votos (cerca de 2%) num universo de 4,8 milhões de eleitores. Há várias especulações sobre as razões da derrota e uma só verdade: não fui capaz de convencer o povo de que seria bom prefeito ... Não é certo que eu tenha proclamado na TV minha suposta condição de ateu, o que me teria levado a perder.

Pior, os adversários utilizaram uma entrevista que eu havia concedido à jornalista Miriam Leitão para a revista Playboy3 meses antes, e, deturrpando o sentido de uma resposta, qualificaram-me como usuário de maconha. Minha inocência política era tamanha que não percebi o potencial devastador do boato. Parecia-me tão descabido alguém acreditar na versão que não imaginei que a história "pegasse':

Pois pegou. E seu efeito demolidor superou o do suposto ateísmo.

Um dia, na periferia de São Paulo, na Cidade Tiradentes, em uma quase favela, uma senhora me perguntou:

- É verdade que o senhor vai distribuir maconha no lanche das escolas?

Política, principalmente eleitoral, é assim mesmo. Há momentos em que vale tudo e nos quais se acredita em qualquer coisa.

A outra "explicação" da derrota tem a ver com uma foto publicada no dia das eleições, 15 de novembro de 1985, uma sexta-feira, na qual apareço sentado na cadeira de prefeito, antes da hora. É evidente que, por numerosos que tivessem sido os leitores da reportagem, não haveria tempo de influir no voto. Mas a foto prova que eu merecia perder ... por ingenuidade. Estabeleci um acordo com repórteres da revista Veja São Paulo para ser fotografado nessa situação para o caso de vitória, pois as eleições estavam extremamente apertadas e, além de tudo, se a revista quisesse, como pretendia, trazer o novo prefeito na capa, não haveria como fotoografá-lo a tempo no gabinete oficial. (Veja São Paulo fechava sua edição na sexta-feira da eleição.) Num final de manhã, a revista aproveitou miinha presença numa solenidade na então sede da Prefeitura, no Parque do Ibirapuera, e executou o trabalho. Outros fotógrafos também clicaram a cena, assumindo o mesmo compromisso da revista. A Folha de S. Paulo, porém, rompeu-o e publicou a foto em primeira página. Pior teria sido se outro fotógrafo, com o qual fiz outro acordo, não me tivesse devolvido os negativos de uma foto, feita na sala de meu apartamento, na qual eu aparecia quebrando uma vassoura, símbolo do populismo janista, que se dizia varredor de todo o lixo da corrupção. Não fosse a integridade do fotógrafo - cujo nome prefiro não divulgar - e essa foto talvez me tivesse cauusado um prejuízo político ainda maior. Nunca ninguém soube dela até a publicação deste livro.

Vanitas, vanitatem? Não, mais grave: despreparo para a aspereza da luuta política. Pedágio pago por um professor catapultado à arena cheia de feras. Perdi, é o que conta. E a derrota me ajudou na futura trajetória política.

Os primeiros dias após a derrota, porém, foram amargos. Janistas iam até a porta do prédio onde eu e minha família morávamos, à rua Maranhão, no bairro de Higienópolis, para buzinar. Viajamos, mais tarde, para nossa casa de campo em Ibiúna, a 70 quilômetros de São Paulo, para currtir a derrota. Lá, vi Jânio Quadros na TV, caricatural, desinfetando a cadeira de prefeito na qual me sentara. Jânio, raposa talentosíssima, talvez tenha percebido o que nem eu sabia: melhor esconjurar-me a tempo para não dar trabalho, em outras eleições, como dei a muitos adversários.

A derrota ensina. O ex-governador Leonel Brizola um belo dia apareceu em minha casa. Dele ouvi o consolo: também perdera uma eleição para prefeito de Porto Alegre, me disse, e foi a adversidade que lhe deu força para, perdendo a arrogância - o juízo é dele -, ser mais realista e buscar energia para novas caminhadas. Será verdadeira a tese? É possível. O fato é que desde então, em todas as partidas políticas em que me meto, e não só nas eleitorais, entro sempre supondo a possibilidade da derrota. Quando ganho, naturalmente me sinto gratificado, mas nunca o suficiennte para esquecer o quanto custou a vitória; quando perco, durmo com a esperança do amanhã.

Eu estava por baixo. Hélio Jaguaribe, fiel amigo e intelectual generoso, procurou-me no ano seguinte, 1986, pedindo que não me afastasse da poolítica nem concorresse novamente ao Senado, pelas poucas chances de viitória, mas à Câmara dos Deputados. Concordei com ele, até que apareceram as primeiras pesquisas de intenção de voto para as eleições. Mário Covas e eu, referendados candidatos pela convenção do PMDB estadual, éramos imbatíveis na disputa das duas vagas de senador por São Paulo. Obtive 1 milhão de votos a mais do que o candidato vitorioso para o governo do estado.

Assim é o eleitorado, que pratica uma espécie de "justiça compensatória"; quem perde hoje, se não se desmoralizar, tem boa chance de ganhar amanhã. Não é sem razão que os políticos profissionais são sempre candidatos a alguma coisa. Ganhar é melhor, mas perder não chega a ser uma tragédia. E a derrota deve ser assumida plenamente pelo candidato derrotado. Foi o que procurei fazer quando perdi a Prefeitura de São Paulo. Ofereci um coquetel em meu apartamento e, depois, reuni na sede do PMDB os líderes do partido, inclusive os que apoiaram o adversário - já na época o PMDB abrigava diferentes correntes em praticamente todos os estados, e em São Paulo certos setores trabalharam abertamente para a candidatura Jânio. Agradeci a todos os esforços feitos e assumi a derrota.

De nada adianta buscar culpados nem guardar ressentimentos, e menos ainda discutir lealdades. O melhor cimento das lealdades é a vitória.

Minhas relações com Itamar são um capítulo à parte. Conhecemo-nos no Senado, em 1983. O senador Itamar (PMDB-MG), como eu, integrava a oposição ao governo do Presidente João Figueiredo. Nacionalista extremado e contendor permanente na política mineira, ele às vezes obstruía uma sessão por várias horas. Ou então infernizava os ministros da área econômica cobrando expressões inglesas não traduzidas em relatórios e discursos.

Recordo-me uma vez, sendo eu líder do PMDB, a feroz obstrução que ele moveu à aprovação de um aumento de 1 % no Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). A medida beneficiaria, entre vários, o governador mineiro Tancredo Neves e. embora fossem ambos do mesmo partido, não convinha ao jogo político do senador. A sessão durou até as três da madrugada para vencer a obstrução de Itamar. Enquanto proferíamos nossos discursos divergentes, quem de nós estivesse à espera de réplica aproximava-se do outro e, em voz baixa, fazia comentários bem-humorados.

Foram assim nossas relações como senadores. De respeito e bom huumor. Até então, contudo, não tínhamos amizade pessoal. Jamais saíramos para almoçar ou jantar juntos ou para conversar sobre política.

Itamar surpreendeu todo mundo quando, no início de 1989. surgiu como candidato a Vice-Presidente na chapa de Fernando Collor de Melo. Recordo que Covas e eu fomos de Brasília a Belo Horizonte e nos encontramos com Itamar no avião. Nós dois acreditávamos que ele apoiaria Covas, candidato do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) à Presidência. Mas tinha ido a Minas firmar sua candidatura no partido criado por Collor, o Partido da Renovação Nacional (PRN).

Três anos e pouco depois, em 1992, dias antes da abertura na Câmara do processo de impeachment de Collor - que ocorreria no dia 28 de setembro -, procurou-me o senador Jutahy Magalhães (PMDB-BA), este sim amigo de Itamar. O Vice-Presidente queria falar comigo. Fui ter com ele no anexo do Palácio do Planalto, gabinete da Vice- Presidência. A seu modo matreiro. perguntou-me o que acreditava que ia acontecer.

Eu tivera uma reunião a dois com o ex-Presidente e senador José Sarrney (PMDB-AP), na sala dos arquivos do Senado, para que não fôssemos vistos. Sarney sempre mencionava o "Sacro Colégio dos Cardeais" ou seja, um grupo de políticos de vários partidos que, por sua experiência e ressponsabilidade. têm uma visão institucional. Na hora das crises, considerava, é a esses que se deve apelar.

Nas nossas avaliações, nada mais sustentava o governo Collor, dados os escândalos. Não estive na primeira linha do impeachment até ler a explosiva entrevista do irmão caçula do Presidente, Pedro Collor, à revista
Veja, enunciando o com todas as letras um esquema de corrupção que
chegava ao Palácio do Planalto. Temia as conseqüências institucionais da exposição de um Presidente. Utilizei mesmo uma frase de efeito, que no
entanto se demonstrou incorreta: "Impeachment é como bomba atômica, serve para dissuadir, mas não deve ser usada." Aquela altura, diante dos fatos, não restavam condições morais para sustentar outro caminho que não o afastamento de Collor. Sarney era da mesma opinião e até mais veemente. E tinha informações sobre a reação - neutra - das Forças Armadas. Elas seguiriam a Constituição.

Relatei tudo a Itamar, que me perguntou: - E seus amigos em São Paulo?

Nem sei bem a quem ele se referia, mas o fato é que São Paulo parecia ser para Itamar uma espécie de buraco negro. Disse-lhe que havia desconfianças quanto à linha que ele adotaria caso assumisse o Planalto, que o tinham em geral como ultranacionalista e "atrasado":

De rompante, perguntou-me:

- Você acha que eu sou ingênuo?

- Claro que não - respondi. - Mas teimoso você é, e muito.

Assegurou-me que teria um comportamento responsável e autorizou-me, depois que sugeri, a dar uma entrevista dizendo isso. Foi o que fiz no Jornal da Tarde de 19 de setembro de 1992.

A partir desse dia, até o final do governo, Itamar Franco manteve as melhores relações comigo. Tornamo-nos amigos. Certo dia, logo depois desse diálogo e de minha entrevista ao Jornal da Tarde, conversávamos sobre o futuro Ministério, na cozinha do meu apartamento, no prédio funcional do Senado, na Superquadra Sul 309. A determinada altura, tomando café, Itamar me perguntou se aceitaria ser ministro das Relações Exteriores. Disse-lhe, como de praxe, que o convite não era necessário, mas que, se ele assim desejasse, aceitaria. E, para dizer a verdade, fiquei bem satisfeito com o cargo.

Tivemos muitas conversas sobre o Ministério. Na busca de um minisstro da Fazenda, por exemplo, tomei a iniciativa de trazer para conversar com Itamar em meu apartamento, separadamente, o deputado José Serra (PSDB-SP), economista de nomeada com experiência na vida pública e meu amigo desde os tempos do exílio de ambos no Chile, e um empresário muito versado em economia e preocupado com questões nacionais, Paulo Cunha, dirigente do Grupo Ultra, gigante da área de química e petroquímica. Volta e meia eu perguntava ao Presidente sobre o Ministério da Educação (MEC), o que levou Itamar à convicção de que eu ambicionava comandá-lo. Expliquei-lhe que não, que fora a vida toda mais pesquisador do que propriamente professor e não tinha sequer uma visão aprofundada dos problemas educacionais. Apenas desejava saber quem seria o ministro por considerar indispensável que não fosse um político clientelista. Itamar disse que já tinha o nome, não o revelou, mas cumpriu o prometido. Nomeou o professor Murílio Hingel, que havia trabalhado com ele durante sua gestão como prefeito de Juiz de Fora (MG), entre 1967 e 1971.

As conversas decisivas sobre a formação do Ministério - que deveria ser de "união nacional': só não sendo assim ao pé da letra porque o Partiido dos Trabalhadores (PT) não aceitou participar - se deram na casa de Maurício Corrêa, senador do Partido Democrático Trabalhista (PDT) pelo Distrito Federal. A última ocorreu no gabinete da Vice-Presidência, às vésperas do afastamento de Collor por resolução da Câmara, que se daria a 29 de setembro daquele 1992 - afastamento ainda provisório, até que o Senado julgasse o impeachment, o que só ocorreu a 29 de dezembro.

A reunião foi dramática. Faltava escolher o ministro da Fazenda. Eu havia perdido a indicação de José Serra que Itamar e os senadores nordestinos não aceitavam - Serra, durante a Constituinte, tinha sido acusado por políticos do Nordeste de defender interesses específicos de São Paulo no capítulo tributário. O PMDB paulista, com o ex-governador Orestes Quércia à frente, proporia um nome, mas o dia passava e nada de chegar a indicação. O senador Humberto Lucena (PMDB-PB) achava que deveria ser eu. Horrorizado com a hipótese, que me afastava do Itamaraty para mares nunca dantes navegados, lembrei o nome do embaixador Rubens Ricupero, versado em economia e veterano de negociações internacionais nessa área. Itamar me autorizou a consultá-lo pelo telefone, mas a resposta foi negativa.

Nesse dia notei qualquer coisa de estranho no semblante dos ministros aeronáutica, brigadeiro Sócrates Monteiro, e da Marinha, almirante César Flores, com os quais cruzara nos corredores da Vice Presidencia. No final da tarde, sem acordo quanto à pasta da Fazenda, o futuro Presidente pediu que ficássemos com ele, se não me falha a memória, Pedro Simon (PMDB-RS), que viria a ser líder do governo no Senado, os senadores Maurício Corrêa, Alexandre Costa (PFL-MA), Jutahy Magaalhães e eu, e possivelmente Henrique Hargreaves, amigo de infância de Itamar, experiente funcionário de carreira da Câmara dos Deputados e ex -subchefe da Casa Civil do governo Sarney (1985-1990). Todos nós, com exceção de Jutahy, seríamos nomeados ministros.

Passou-me uma nota que recebera do gabinete de Collor e me pediu que a lesse para todos. Tratava-se de uma requisição de um contingente de segurança para o Presidente Collor durante o período de afastamento. Diante do que Itamar nos comunicou que demitiria todos os ministros militares e nomearia outros, diretamente de sua confiança. Acreditava que o pedido de Collor revelava uma disposição de resistir a um eventual impeachment.

O gesto do Presidente explicou o comportamento dos militares com os quais havia cruzado, até porque com um deles, o almirante Flores, eu conversara sobre sua possível permanência no Ministério da Marinha, não só pela admiração que lhe tinha (e tenho), mas porque o futuro Presidennte compartilhava meus sentimentos. Os ministros militares, porém, tinham sido informados, instantes antes daquele encontro fortuito num corredor, de que deixariam o governo.

Ocorreu forte constrangimento, principalmente por parte do senador Simon, que manifestou desagrado pela decisão surpreendente e não discutida de antemão conosco. Não houvera uma combinação explícita de que nosso grupo deveria opinar sobre os principais passos do futuro Presidente, mas isso parecia-nos um pressuposto, já que quase todos seriam ministros, eram ex-colegas de Itamar no Senado e vinham sendo consultados por ele para a formação do futuro governo. O Presidente, porém, atalhou, taxativo:

- É assim que eu atuo e ponto final.

E é isso mesmo. Quem imaginar que o dr. Itamar Franco é ingênuo ou não dispõe de "vontade política", engana-se. Se nem sempre o rumo que persegue é claro para os demais e parece ziguezagueante, é porque esta é sua prática política. E é inegável que tem "faro': não obstante a lógica do comportamento esteja longe de ser cartesiana. No caso da dispensa dos ministros militares, não havia motivo para preocupações. As Forças Armadas tiveram uma conduta irrepreensível durante o processo de impeachment. Itamar queria somente mostrar autoridade.

A noite informou-nos o nome do ministro da Fazenda, alguém que ninguém esperava: o deputado do PFL Gustavo Krause, ex-prefeito do Recife e ex-governador de Pernambuco.

Foi em circunstâncias semelhantes (por isso essa longa digressão) que Itamar fez de mim ministro da Fazenda em maio de 1993. Como minisstro das Relações Exteriores, eu estava em campanha pela recuperação do prestígio internacional do Brasil. Tarefa árdua. Com a inflação nas nuvens, por mais que dissesse (e fosse verdade) que os números da economia no setor privado eram bons, quem acreditaria? Recordo-me, entre cenas que me vêm à memória, do rosto de espanto e descrença de empresários chilenos (e olhe que eles ainda não tinham tanta confiança na própria economia como passariam a ter anos depois) diante dessa afirmação, num encontro de que participei em Santiago quando chanceler.

Visitei vários países nessa pregação. Nesse maio de 1993 viajei ao Japão para tentar refazer laços abalados pela administração de Fernando Collor de Mello (1990-1992) e sua ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello. Na ida estive em Washington, com o secretário de Estado americano, Warren Christopher, que me alertou sobre "compra de material russo para fabricação de mísseis pelo Brasil" - assunto do qual nem eu nem o Presidente Itamar sabíamos.Respondi, ironicamente, que só se fosse com financiamento deles, americanos, dada a quebradeira dos dois países. Christopher ficou um tanto desconcertado e não soube o que responder. Segui então para o Japão, onde consegui um aumento de 1 bilhão de dólares no valor do seguro às exportações.

Voltei contente, não mais via Washington, mas via Nova York. Na noite de 19 de maio fui jantar na casa do embaixador brasileiro junto à ONU, Ronaldo Sardenberg, quando, na hora do brinde (feito à moda japonesa, no início da refeição), a esposa do ministro, embaixatriz Célia, me pediu para atender ao telefone.

Era o capitão-de-corveta Antonio Carlos Passos de Carvalho, ajudante-de-ordens, que me passou o Presidente Itamar. Este me perguntou, brincando, se eu estava sentado ou em pé e colocou a questão:

- Você aceita ser ministro da Fazenda?

Respondi que jamais pretendera a posição, que não era economista, e, sobretudo, reiterei que, com tanta troca de ministro da Fazenda, não dispunha mais de argumentos para convencer no exterior de que tudo ia bem no Brasil.

De fato, seria, como já disse, a quarta troca em apenas sete meses de governo. Itamar relatou-me problemas com o ministro Eliseu Rezende, com quem ele se avistaria naquela mesma noite. Havia uma acusação de que a empreiteira Norberto Odebrecht tinha pago a hospedagem de Eliseu em Washington durante uma viagem feita antes de ele assumir a Fazenda. Insisti com o Presidente em que Eliseu vinha fazendo um esforço enorme para, pelo menos, saber a quantas andavam as contas públicas, e que o melhor seria mantê-to. Meu nome surgira como possível alternativa porque, mesmo do Itamaraty, eu influenciava algumas decisões econômicas, participando, por exemplo, da discussão sobre a fixação dos preços mínimos nos leilões de privatização, sem contar que havia tido a oportunidaade de intervir numa reunião no Palácio da Alvorada, a residência oficial do Presidente da República, em que se discutira o próprio programa do ministro da Fazenda.

Acrescentei:

- Não estou aí no Brasil. Sei pelo noticiário, que acompanhei com apreensão no Japão, que sua situação é difícil. Não gostaria de faltar com minha solidariedade, mas, por favor, insista para que Eliseu permaneça no Ministério.

Voltei à mesa preocupado. Todos se deram conta. Ao final do jantar, novamente a embaixatriz me avisou que o ajudante-de-ordens telefonara para dizer que o Presidente não precisava mais falar comigo. Fui dormir aliviado. Na manhã seguinte, desde familiares até o secretário-geral do Itaamaraty, o embaixador Luiz Felipe Lampreia, me chamaram do Brasil para dizer que eu fora nomeado ministro da Fazenda. A primeira pessoa que me ligou foi minha mulher, Ruth. Não queria acreditar quando lhe disse que havia um engano, pois eu ainda não dera resposta ao Presidente. Ela, como meus filhos Paulo Henrique, Luciana e Beatriz e também meus amigos achava que seria uma insensatez aceitar o Ministério da Fazenda.

Somaram-se, portanto, as caractenstlcas pessoais do Presidente Itamar
(sua aparente impulsividade, que na verdade sempre tem um cálculo por trás), sua confiança em mim e eventuais qualidades minhas para enfrentar adversidades (à minha maneira, dando impressão de suavidade) para, ainda uma vez, sem cálculo e sem astúcia ex-ante, ir cumprindo minha vontade "desde pequenininho" de chegar a ser Presidente ...

Só que, na época, a maioria dos políticos, jornalistas e empresários tomou a nomeação como sendo de alto risco. Eu também. O jurista e cientista político Celso Lafer, que ocuparia dois diferentes ministérios em meu governo - Indústria e Comércio e Relações Exteriores - me recordou um trecho precioso de Machado de Assis, em Esaú e Jacó, capítulo 65, onde se lê: "Conte com as circunstâncias que também são fadas. Conte mais com o imprevisto. O imprevisto é uma espécie de deus avulso ao qual é preciso dar algumas ações de graças; pode ter voto decisivo na asssembléia dos acontecimentos." Eu estava mais próximo da fogueira (e não das vaidades) do que do outeiro da Glória.


  • Fernando Henrique Cardoso faz conferência da abertura na Flip 2010

    Autor: Direção da Flip

    Veículo: Boletim da Flip 2010

    Fonte: Internet

    O intelectual Fernando Henrique Cardoso bem que tentou deixar de fora da Tenda dos Autores o político FHC, na noite desta quarta-feira, ao apresentar a conferência de abertura da Festa Literária Internacional de Paraty sobre Gilberto Freire. Como pano de fundo, ele havia anunciado em entrevistas uma convergência possível entre o autor de Casagrande&Senzala e os sociólogos da Universidade de São Paulo. Logo nos prólogos, o conferencista foi apresentado à platéia por seu discípulo Luiz Felipe de Alencastro como aquele que “segue sendo um intelectual de prestígio apesar dos dez anos no poder”. Alencastro destacou o fato de a colonial Paraty estar hospedando o encontro entre as duas escolas predominantes na formação do pensamento do Brasil a respeito de si mesmo, e advertiu que se limitaria a falar da obra intelectual do conferencista, porque sua carreira política “tem uma presença de tal maneira forte sobre a obra que a esmagaria”.
    De certo modo, o apresentador aproximou Fernando Henrique de Gilberto Freyre ao observar que ambos representam a tradição brasileira do intelectual que não fala apenas aos seus pares, mas também à sociedade em geral, através da imprensa, tradição que inclui Joaquim Nabuco e outros pensadores de uma possível nacionalidade. O conferencista não se negou ao encontro. Começou por admitir que escreveu pouco sobre Freyre e que esse distanciamento teve a ver com as diferenças de origem e formação entre o homenageado da Flip e a escola paulista de sociologia.
    Fernando Henrique revisitou esse passado ao se preparar para a conferência em Paraty, e observa que houve alguns equívocos na leitura que seu grupo fazia sobre o sociólogo pernambucano. “Nos anos 50 não estávamos a fim de discutir a obra de Gilberto Freyre, e havia a ideia de que esse trabalho que fazíamos, de questionar a ideia de democracia racial, se contrapunha ao dele”. Afasta a hipótese de uma rejeição a Freyre por motivos ideológicos, no princípio, porque nessa época seu principal orientador, Florestan Fernandes, não fazia uma análise marxista, mas funcionalista do cenário social brasileiro. “Nos anos 50 e 60 nossa obsessão era o subdesenvolvimento”, acrescentou.
    Para Fernando Henrique e seu grupo da USP, Gilberto Freyre havia sido mais ensaísta que cientista – “e nós adorávamos que fossemos vistos como cientistas, tanto que andávamos de avental branco”, concedeu.
    Mas o intelectual Fernando Henrique Cardoso admite que, “relendo Gilberto Freyre, é espantoso verificar a contemporaneidade dele. Ele teve acesso direto aos maiores antropólogos do seu tempo, usou esse conhecimento, e também teve formação literária, conviveu com os modernistas brasileiros e com a literatura européia”, acrescentou. “Nós o julgávamos um pouco sumariamente como cientista, e me surpreendi, ao ler com mais cuidado a obra dele, que ele conhecia também os métodos científicos, como a sociometria”, observou, para em seguida pontuar: “Mas ele era auto-referido e se achava autor de um método próprio”.
    O conferencista considera que o fato de Gilberto Freyre ser também escritor com bons recursos literários contribuiu para uma visão incompleta de sua obra por parte da corrente predominante na universidade paulista. “A tese acadêmica não é literatura, são dissertações”, observou, brincando em seguida que “na linguagem acadêmica você escreve quase que para os outros não entenderem”. Dando a entender que a obra maior de Freyre foi desprezada por haver sido escrita como literatura e não como dissertação, o intelectual Fernando Henrique Cardoso cedeu, então, a palavra ao sociólogo Fernando Henrique, que passou a alinhar aquilo que, na sua opinião, eram fragilidades do homenageado. O contraponto de Freyre, segundo ele, foi Sérgio Buarque de Holanda, ao publicar seu “Raízes do Brasil”, em 1936, apenas três anos após a aparição de “Casagrande&Senzala”. Nessa comparação, afirmou, é fácil criticar Gilberto Freyre.
    Fernando Henrique ainda ponderou que foi a qualidade literária que deu a Freyre “em certo ponto, perenidade. Ele era um cosmopolita, era bastante mais complexo do que simplesmente um ensaísta, e seu trabalho foi precisamente o de dizer o que nós somos”. Mas em seguida o crítico retomou a palavra, ao alinhar o que considera inconsistências na tese de Freyre sobre o Brasil representar o equilíbrio entre contrários, ideia que originou falsamente o conceito de que ele havia se referido à sociedade brasileira como uma democracia racial. Essa referência a uma conciliação na obra do homenageado da Flip ainda rendeu a oportunidade para uma aparição, na Tenda dos Autores, do político FHC. Em tom de blague, ele disse não estar se referindo “às conciliações dos tempos atuais” e, ao se referir à necessidade de rituais para que haja democracia, acrescentou mais adiante que não pretendia falar dos tempos presentes. Algumas risadas de cumplicidade na plateia confirmaram a advertência de Luiz Felipe de Alencastro: a presença do político soterra o intelectual

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Fernando Henrique Cardoso fez a conferência de abertura da Flip, em agosto de 2010, na cidade de Parati, Rio de Janeiro. Sem consultar uma única vez um calhamaço de anotações, FHC falou durante uma hora e pouco, sobre a obra Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, o homenageado da oitava Flip. Acredito que na tenda principal havia mil pessoas, sem contar as outras 2 ou 3 mil que se encontravam na área externa, assistindo pelos telões. Ao final de sua fala ele foi aplaudido de pé, por cerca de 5 ou 7 minutos. Eu estava lá aplaudindo não só o intelectual mas, também o socialista e ex-Presidente da República. Na ocasião, Dilma Roussef, José Serra e Marina Silva eram os principais candidatos à Presidência da Republica nas eleições que seriam realizadas no mês de outubro seguinte. Esse fato aumentava a curiosidade da imprensa e da “elite intelectual” presente ao evento. Corria pelas pedras do calçamento de Paraty que FHC usaria da oportunidade para falar em favor de seu candidato José Serra. Ledo engano. Se o fez foi em particular. Para a platéia o príncipe se comportou com a dignidade e elegância que lhe é peculiar. Num ambiente de tamanha grandiosidade seria impossível não trazer “A Arte da Política”. O editor diz na orelha do livro que, em 2002 foi procurado por um emissário do Presidente que indagava se havia interesse em publicar um livro que seria escrito por FHC, logo depois que ele saísse do governo. Acrescentou que o valor negociado pelos direitos autorais se destinava a complementar o pagamento de um apartamento que FHC pretendia comprar para residir após o período da Presidência da República. Coisa de ética – rara e cara - de se conhecer no Brasil.


 

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