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O Mundo Pós-Aniversário

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O Mundo Pós-Aniversário

Livro Bom - 1 opinião

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Autor: Lionel Shriver

Editora: Intrínseca

Assunto: Romance

Traduzido por: Vera Ribeiro

Páginas: 542

Ano de edição: 2009

Peso: 730 g

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Bom
Marcio Mafra
25/06/2011 às 00:25
Brasília - DF

Mundo pós aniversário é o livro da dúvida, do fazer ou não fazer, do mergulhar ou não mergulhar. A personagem principal Irina, sente o maior tesão em beijar Ramsey, amigo de seu marido. Desde o começo da história, Lionel vai desenvolvendo a narrativa, de uma forma razoavelmente inteligente, porém no mesmo diapasão. Sempre balançando para um e outro lado, como se escrevesse duas histórias onde só a dúvida sobressai: romper ou não romper o casamento, trair ou não trair o marido. Uma mulher envolvida com dois homens radicalmente diferentes e as motivações mais íntimas de uma escolha. Lionel Shriver escreve quase no estilo jornalista, como se fora um tipo de reportagem, com duas possibilidades de enredo, ou com duas versões para o mesmo capítulo. A leitura, embora muito encompridada, por vezes é interessante, mas o desenvolvimento da história é monótono, repetitivo, senão chato. O final não emociona


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história do casal Irina McGoven e Lawrence Treiner, americanos que moravam em Londres, levavam uma vida confortável e de laços muitos sólidos até que aparece Ramsey, um dos mais famosos jogadores de sinuca da europa, por quem Irina se apaixona perdidamente.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O braço pareceu-lhe uma tábua pesada. Talvez a proximidade do parceiro nem sempre tivesse despertado uma lascívia voraz, mas encostar as costas na curva aconchegante do peito dele sempre dera a Irina um conforto carnal profundo e uma sensação de segurança. Nesse momento, fez com que ela se sentisse aprisionada. Quando a pelve dele se encostou suavemente em seu cócix ( justamente no ponto atritado na mesa de sinuca), a ereção de Lawrence causou-lhe a sensação incômoda de um dedo a cutucá-la.

Aquilo era terrível! Que é que ela havia feito? Se algum dia Lawrence tivesse deitado a seu lado e achado que os membros do corpo dela eram meros pedaços de madeira, se tivesse encarado a pressão de sua carne apenas como uma "armadilha", e sua batidinha cortês na porta sexual como uma chatice incômoda, ela teria murchado por dentro, até virar uma passa preta, seca e crispada.

Com a destreza da experiência e a cooperação entorpecida de Irina, Lawrennce a penetrou por trás. Era um bom ângulo, os dois tinham concordado. Mas Lawrence bem que poderia ter tido um ângulo da relação sexual em mais de um sentido, uma outra perspectiva. Antes de se instalar esse protocolo, eles haviam experimentado o sortimento habitual de posições. Mas ocorreu a Irina nesse momento - que coisa horrível ter sido precisamente a noite anterior, justamente ela, para levá-la a essa observação - que, dentre as diversas opções disponíveis, nada os havia obrigado a escolher essa postura específica e a ficar com ela. Além disso, a escolha da configuração de um de costas para o outro como a única em que eles fariam amor, numa estimativa do futuro, por uns cinquenta e tantos anos, tinha sido obra de Lawrence, e não fora uma escolha acidental, não fora arbitrária - não fora só o modo como os dois tinham acabado fazendo amor, querendo ou não, do mesmo jeito que Irina acabara usando a saia azul-marinho e a blusa branca esfarrapada no jantar da véspera, por ter estado experimentando essa roupa na hora que a campainha tocou. Fazia quase nove anos que eles vinham transando assim, e ela nunca deveria ter permitido essa posição por mais de uma ou duas vezes, e agora era tarde demais para fazer objeção, e isso era trágico. Irina havia capitulado passivamente à fraqueza de Lawrence, à verdadeira fraqueza dele, e não ao tipo de fraqueza que ele temia: a dos músculos peitorais atrofiados ou a de desistir de uma discussão sobre a pacificação do IRA.

Tinha sido essa a opção do covarde que havia em Lawrence: que eles nunca se beijassem. Que nunca olhassem um para o outro. Que ele visse apenas o perfil embotado da cabeça da mulher, e que ela sempre olhasse para a parede. Que Irina nunca tivesse permissão para deparar com aqueles olhos castanhos suplicantes e vê-los receber o que imploravam. Embora, nos tempos da rua 104 Oeste, eles houvessem acendido velas na mesa de cabeceira, agora, de quebra, estava sempre escuro - como se ficar de cara para a parede branca não fosse impessoal o bastante. O irônico era que Lawrence a amava. Mas a amava demais. Amava-a tanto que isso chegava a dar medo, e ele tinha tão pouca disposição de fitá-la nos olhos quando os dois transavam quanto de olhar de frente para o sol.

Como de costume, passados alguns minutos, Lawrence buscou em silêncio as partes inferiores de Irina, desenhando círculos e pondo o dedo no comando central. Suas manipulações sóbrias nunca eram propriamente exatas, é claro nunca acertavam exatamente na mosca. Mas, para ser imparcial, havia algo de imperscrutável naquela contorção recessiva de carne, nem que fosse pelo fato de o clitóris ser construido numa escala exasperantemente miniaturizada. Fazer uma mulher gozar com a ponta do dedo exigia do homem a mesma habilidade especial daqueles ambulantes espantosos do centro de Las Vegas que eram capazes de escrever o nome da pessoa num grão de arroz.

É que um milimetro para a esquerda ou para a direita equivalia, em termos geográficos, à distância entre o Zimbábue e o polo norte. Não era de admirar que muitos amantes da juventude de Irina, imaginando-se próximos da torrente abundante das Cataratas de Vitória, houvessem remado, sem culpa alguma, para o Ártico gelado de sua indiferença glacial. Para piorar as coisas (e, mais uma vez, a distinção tinha a espessura de um fio de cabelo), aquele apendicezinho desgraçado era capaz de induzir não apenas ao êxtase, mas a uma dor atroz - uma dor que era um corta-tesão absoluto, do tipo que faz voltar à estaca zero -, e como é que alguém podia transpor com confiança um nodo tão perigoso, se não tinha um igual? Em certos momentos, Irina dava graças pela sorte de não ser homem e não ter que se confrontar com esse órgão atordoante e trêmulo, cujo pedacinho importante não chegava a medir meio centímetro, quando havia uma probabiilidade de que a própria mulher não soubesse dizer como ele funcionava. Seria irracional, portanto, reclamar da decepção de um tantinho para cá ou para lá, e, dado que o projeto todo era fundamentalmente impossível, Lawrence era de uma competência surpreendente nisso.

Nessa noite, porém, Irina não conseguiu entrar no embalo. Um excesso de atenção estava concentrado na tentativa de não chorar. E a verdade era que lutava contra seu próprio prazer. Para quebrar a monotonia, o desencontro não tinha a ver com o fato de o dedo médio dele estar um tiquinho baixo demais. Aquilo era errado; dava a sensação de estar errado, errado inclusive num sentido moral. Mas, se ela não gozasse, Lawrence saberia que não tinha gozado e, o que era mais pertinente, saberia que, enquanto ele estivera em Sarajevo, alguma coisa havia acontecido.

Ainda mais errado foi o que ela fez para chegar aonde tinha que ir; foi diabólico.

Irina já se entregara a seu quinhão de fantasias. Já imaginara "um" homem fazendo isto ou aquilo, ou até, embora nunca o houvesse admitido para mais ninguém, "uma" mulher; afinal, só existiam dois sexos e, para continuar a se divertir, a pessoa tinha que usar todas as combinações a seu dispor. Mas essas figuras descartáveis eram sempre sem rosto, como manequins com a cabeça cortada. Irina nunca havia imaginado um determinado homem, um homem real, um homem com endereço e telefone para o qual pudesse ligar, com uma preferência por saquê quente em vez de frio, de rosto comprido e camisa de seda preta. Um homem alto e esguio, de lábios finos e olhos graves, e uma boca de profundeza tão infinita, com um conjunto tão inesgotável de recessos, que beijá-lo era como fazer turismo pelas catacumbas de Notre Dame. Na noite anterior, fora não apenas como se ela tivesse enfiado a língua nessa boca, mas como se seu corpo inteiro tivesse entrado goela abaixo. Aquela boca era um mundo, um mundo inteiro e insuspeito, e beijar aquele homem provocara a mesma sensação de descoberta de quando se coloca uma gota transparente de simples água da torneira sob um microscópio, e se divisa cardumes inteiros de fantásticas criaturas fibrilosas, ou de quando se aponta um telescópio para uma nesga de céu, negra como piche a olho nu, e eis que ela está coalhada de estrelas.

Ela só o havia beijado. Então, por que a modéstia de sua transgressão era um consolo tão desprezível? A saia tinha saído do lugar, mas Irina continuara vestida. A blusa havia rasgado um tantinho mais, porém em momento algum ela o deixara levantá-la.

 


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Lionel Shriver estava entre os convidados estrangeiros da Flip 2010 e compunha a mesa “De Frente Para o Crime” fazendo par com a brasileira Patricia Melo. Lionel foi muito festejada pelo livro “Precisamos Falar Sobre Kevin” que lhe deu o prêmio Orange em 2005, na Inglaterra, e espalhou sua fama pelo mundo. Escritora que se faz notar entre seus pares, jovem, loura, bonita e elegante, autografou o livro que estava sendo lançado na própria Flip, Mundo Pós Aniversário, onde escreveu: “To Marcio e assinou”.


 

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