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Ironweed

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Ironweed

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: William Kennedy

Editora: Cosac Naify

Assunto: Romance

Traduzido por: Sergio Flaksman

Páginas: 269

Ano de edição: 2010

Peso: 425 g

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Bom
Marcio Mafra
23/06/2011 às 23:45
Brasília - DF

Ironweed é palavra que não consta de dicionário. Talvez em tradução livre possa significar “erva de ferro”, ou “erva daninha”. Na verdade é um nome que designa uma planta da família do girassol, típica da região de Nova York. Ela tem um caule alto e reto e uma flor grande, formadas de pequenas pétalas arroxeadas. Willian Kennedy adotou Ironweed como titulo para o seu livro porque a história dos personagens Francis, Helen, Rudy, Pee Wee e Billy também é simples, miserável, comum e vigorosa como a planta. A leitura é cansativa – por vezes, nojenta - não por falta ou pobreza de estilo, mas, sobretudo, porque não tem qualquer brilho a vida pobre, miserável, agressiva e sórdida dos personagens do livro. Na verdade cansa e não tem nenhum encanto o dia-a-dia de criaturas que ficaram completamente à margem do “american dream of life” (o sonho americano). É muita desolação e miséria para um livro que não trata de sociologia, nem de serviço social. Este livro deu origem ao filme de mesmo nome, do Hector Babenco. Talvez essa miséria possa encantar pela música, ambiente, cenografia e artistas. Mas aleitura do livro mal chega no mediano.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A saga dos Phelan, gente da classe média baixa de Nova York, personagens errantes que circulam pela cidade de Albany, sem destino certo, sem lugar de partida ou de chegada, exatamente como gente sem eira, nem beira.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Francis a viu assim que entrou, viu sua boina cinzenta inclinada para a esquerda, reconheceu seu velho sobretudo preto. Ela não tinha um hinário nas mãos como os outros, mas estava sentada com os braços cruzados, numa postura de resistência e desafio à possibilidade de redenção por um simples metodista como Chester; pois Helen era católica. E qualquer redenção que quisesse chegar até ela precisava passar pela sua igreja, a igreja verdadeira, a única igreja.

"Jesus", cantavam o pastor e seus seguidores fiéis em manngas de camisa, "é o nome que afugenta o nosso medo, Que faz cessar de todo a nossa dor, Que é música aos ouvidos de todo pecador, Que é vida, Que é paz, saúde e amor ... "

Os demais sete oitavos da congregação, homens refugiados em seus sobretudos, com o chapéu no colo quando tinham chapéu, os rostos cobertos de fuligem, barba por fazer e desolação, permaneciam mudos, ou só faziam de conta que murmuravam a letra, ou balançavam a cabeça, já adormecidos. O hino prossseguia: " ... Ele anula o poder do pecado, Liberta o prisioneiro acorrentado; Seu sangue purifica o mais manchado, Seu sangue que me foi ofertado':

Bem, não a mim, pensou Francis, que não fora contemplado, e tornou a sentir seu próprio mau cheiro sem comedimento, percebendo que tinha piorado ainda mais desde aquela manhã. O suor de um dia de trabalho braçal, o azedume da terra ressecada nas suas mãos e roupas, o aroma pútrido do ar do cemitério com sua pretensão a uma pureza varrida pelo vento, tudo aquilo se depositara em crostas malsãs por sobre a pestilência já intensa da sua vida. Quando ele se atirou na sepultura de Gerald, as emanações de uma vida poluída quase o tinham asfixiado.

"Que os surdos escutem Suas palavras de amor; Que os mudos libertados entoem Seu louvor; Que os cegos possam ver chegar seu Salvador; Pulai de alegria, entrevados, na presença do Senhor.

Os coxos e os entrevados pousaram seus hinários sem a menor alegria, e o reverendo Chester apoiou-se no púlpito para examinar o rebanho reunido naquela noite. Entre eles, como sempre, havia homens bons e honestos, homens simplesmennte desempregados, vítimas de uma sociedade devastada pela ganância, pela preguiça, pela estupidez e por um Deus encoleriizado perante tantos excessos babilônicos. Eram homens que só estavam de passagem na missão, e a eles o pastor só podia desejar boa sorte, dedicar uma oração e fornecer uma refeição para ajudá-los a enfrentar a longa jornada. Os verdadeiros alvos do pastor eram os outros: os dipsômanos, os ociosos, os ébrios e os lunáticos, que não precisavam apenas de sorte. Faltava-lhes um caminho estruturado, um mentor para guiá-los através dos infernos e purgatórios dos seus dias. Trazer-lhes a palavra, a luz, era uma luta, pois o declínio da fé triunfava e o Anticristo já se erguia. Em Mateus e no Apocalipse foi profetizado que a reverência pela Bíblia ficaria cada vez menor, com mais desrespeito às leis, mais depravação e entrega aos prazeres mundanos. A palavra, a luz, os hinos, tudo aquilo logo haveria de desaparecer, pois era certo que assistíamos à chegada do fim dos tempos.

"Perdidos" disse o pastor, e esperou que a palavra ecoasse no mais íntimo dos seus cérebros prejudicados. ''Ah, perdidos, perdidos para sempre. Homens e mulheres perdidos, sem esperança. Quem há de salvar vocês da sua preguiça? Quem poderá dar-lhes uma carona na encruzilhada da salvação? Só Jesus! Jesus liberta!"

O pastor gritou a palavra liberta, despertando metade da conngregação. Rudy, que começara a cochilar, despertou bruscamente, com uma resposta automática do braço esquerdo que derrubou o hinário das mãos de Francis. O livro caiu no chão com um barulho que fez o reverendo Chester fitar Francis bem nos olhos. Francis fez um aceno de cabeça, e o pastor lhe respondeu com um sorriso firme de sílex.

Nesse momento, o pastor escolheu a bem-aventurança como tema. Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus. Bem-aventurados os humildes, pois herdarão a terra. Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados.

''Ah, sim, homens do baixo mundo, irmãos das ruas pobres da cidade una e eterna em que todos vivemos, não lamentem a triste situação dos seus espíritos. Não tenham medo do mundo por serem pessoas de natureza humilde e gentil. Não pensem que suas lágrimas lastimosas são em vão, pois são essas as chaves do reino do Senhor"

Os homens voltaram rapidamente a adormecer e Francis resolveu que precisava remover o fedor dos mortos do rosto e das mãos, além de conseguir um par de meias com Chester. Os momentos mais felizes de Chester eram quando ele arranjava um par de meias para um beberrão em abstinência. Alimentar os famintos, vestir os sóbrios.

"Vocês estão prontos para a paz de espírito e do coração?", perguntou o pastor. "Algum homem entre os que estão aqui quer levar uma vida diferente? Deus diz: Vinde a mim. Quem vai aceiitar a sua palavra? Alguém aqui vai se levantar? Que venha até a frente, que se ajoelhe, e vamos conversar. Quem fizer isso agora será salvo. Agora. Agora. Agora!"

Ninguém se mexeu.

"Então, amém, irmãos" disse o pastor em tom impaciente e deixou o púlpito.

"Maldição" disse Francis a Rudy. "Agora vamos à sopa".

Os homens começaram a correr para a mesa, o café a ser distribuído, a sopa a ser servida às conchas, o pão a ser cortado pelos zelosos voluntários da missão. Francis procurou por Pee Wee, uma boa alma que administrava a missão para Chester, e pediu-lhe uma xícara de sopa para Sandra.

"Deviam deixar ela entrar", disse Francis. "Ela vai congelar lá fora"

"Ela esteve aqui antes", respondeu Pee Wee. "Mas ele não deixou ela ficar. Ela estava chumbada de verdade, e você sabe como ele é. Ele não vai se incomodar se eu der a sopa, mas por via das dúvidas nem diga para quem é"

''A sopa misteriosa", disse Francis.

Saiu pela porta dos fundos com a sopa, puxando Rudy pelo braço, e enveredou pelo terreno baldio até o lugar onde Sandra continuava estendida como antes. Rudy a virou de barriga para cima e obrigou-a a sentar-se, enquanto Francis punha a sopa debaixo do seu nariz.

"Sopa", disse ele. "Gazopa", disse Sandra.

"Tome". Francis levou a xícara aos lábios dela. A sopa escorreu pelo queixo da mulher. Ela não engoliu nada.

"Ela não quer", disse Rudy.

"Quer sim" disse Francis. "Só está contrariada porque não é vinho"

Tentou novamente, e dessa vez Sandra engoliu um pouco. "Quando eu estava dormindo lá dentro agora mesmo", disse Rudy, "lembrei que Sandra quis ser enfermeira. Ou foi enfermeiira. Não é mesmo, Sandra?"

"Não", respondeu Sandra.

"Não o quê? Não quis ser enfermeira ou não foi enfermeira?" "Médico", disse Sandra.

"Ela queria ser médica", disse Francis, fazendo-a tomar mais sopa.

"Não", disse Sandra, afastando a sopa com a mão. Francis pôs a sopa no chão e enfiou o sapato surrado no pé esquerdo da mulher. Ele a ergueu no colo, uma pluma, carregou-a até junto da parede da missão e a pôs sentada, com as costas apoiadas na casa, um pouco mais protegida do vento. Com a mão livre, limpou a terra que cobria o rosto dela. Tornou a pegar a sopa e fez com que tomasse mais um gole.

"Um médico queria que eu fosse enfermeira", disse ela. "Mas você não quis", disse Francis.

"Quis. Só que ele morreu"

"Ah", disse Francis. "O amor?"

"O amor", confirmou Sandra.

Dentro da missão, Francis devolveu a xícara a Pee Wee, que derramou o resto da sopa na pia.

"Ela está bem?", perguntou Pee Wee. "Está ótima", disse Francis.

"Ela não pode nem ser recolhida pela ambulância, que não aceita mais vir buscar disse Pee Wee. "Só se ela estivesse sangrando até morrer"

Francis assentiu com a cabeça e foi até o banheiro, onde limpou a terra de Sandra e seu próprio mau cheiro das mãos. Em seguida, lavou o rosto, o pescoço e as orelhas; e depois que acabou lavou tudo de novo. Encheu a boca de água e escovou os dentes com o indicador da mão esquerda. Umedeceu o cabelo, que penteou com nove dedos, e enxugou-se com a toalha úmida pendurada na parede. Alguns dos presentes já estavam indo embora quando ele pegou sua sopa e seu pão e sentou-se ao lado de Helen.

"Onde você se meteu?", perguntou.

"Até parece que você quer mesmo saber aonde as pessoas vão ou deixam de ir. Eu podia ter morrido na rua, três vezes seguidas, que você nem ia saber de nada"


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

William Kennedy era um dos autores estrangeiros convidados da Flip, em 2010. Ele e Collum McCann faziam a Mesa: Albany, New York e outras aldeias. Eram, por assim dizer, os grandes romancistas da vida miserável dos arredores de N. York, por isso comprei Ironweed.


 

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