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Ladrão de Cadáveres

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Ladrão de Cadáveres

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Autor: Patrícia de Melo

Editora: Rocco

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 205

Ano de edição: 2010

Peso: 205 g

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Ótimo
Marcio Mafra
27/04/2011 às 15:52
Brasília - DF


O sábio Guga não cansa de repetir: se a história é boa o livro é bom. Qualquer leitor sabe disso, mas sabe também que se a história é boa e o autor tem talento, então o livro é mais que bom. É ótimo. Ladrão de Cadáveres é assim: o ladrão viaja pelo texto de Patrícia, se lixando para a ética, para a moral e para os bons costumes. Ele não se sente culpado de nada. Se ainda tivesse arrancado o rapaz do avião e o carregado até a cidade, nada mudaria. Ele estava morto. E morto não fala, não reclama, nem fica com raiva. Todos vamos morrer um dia. Todos nós roubamos alguma coisa, em algum momento de nossa vida. Afinal o Brasil é cheio de gente escrota, de ladrões e pulhas. Essa é a verdade. Não comece a leitura se você tiver muitos compromissos para não precisar roubar tempo...



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de um gerente de telemarketing que precisou se mudar rapidamente de São Paulo, para Cuiabá porque tinha esbofeteado uma funcionária. Em Cuiabá se pesca. Ele foi pescar e se deparou com o cadáver de José Beraba Junior. Aí, na companhia de Sulamita, Rita, Carlão e outros personagens, passa a viver uma grande aventura, entremeada de ética, moral, amor, questionamentos, justificativas e distorções comportamentais.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Roubaram seu carro? Vá até Puerto Suárez e veja se ele não está por lá. Era isso o que eu lera sobre a cidade. Agora eu rodava pelas ruas enlameadas de Puerto Suárez, mas minha camionete não havia sido roubada. Estávamos lá, eu e Moacir, para negociar.

Desde que nosso suprimento acabou, Moacir não saía do meu pé. Parou de beber, tomou jeito e, enquanto martelava seus bagulhos velhos na sua oficina quente e suja, tentava me convencer a encontrar seu amigo Ramirez. O boliviano. Ou melhor: quase amigo. Sou amigo de um cara que trabalha para ele, dissera Moacir. Juan. Outro boliviano. O esquema deles não tem erro, você só tem que usar seu carro.

Quanto mais eu resistia, mais Moacir tentava me convencer. Com uma camionete dessas, eu já estaria cheio da grana, ele dizia. Sabe qual é meu plano?

Era até engraçado, aquelas bicicletas depenadas naquele moquiço fodido, e o índio falando em futuro. Meu plano é cair fora, eu disse. Projeto dar no pé. Vamos ganhar um dinheirão com Ramirez, ele garantia. Ramirez é como você: não quer problemas. Quer dinheiro. Você e o Ramirez têm muito a ver, sabe? Vão ser amigos, tenho certeza. Ramirez só se dá com gente como você. Se tudo der certo, se a gente entrar nessa, sabe o que eu quero fazer com minha parte? Uma oficina de verdade, uma oficina com macaco hidráulico gigante, sabe, macaco hidráulico? Que levanta o carro? Bem no centro de Corumbá. Contrato dois para trabalhar comigo. Todo mundo de uniforme. Se você for comigo a Puerto Suárez e conhecer o Ramirez, vai ver que é mole levantar uma grana.

Claro que eu não levava nada disso a sério. Na realidaade, foi a reação da Sulamita, no dia seguinte, ao descobrir a calcinha de Rita no meu quarto que me fez mudar de ideia. De quem é?, ela perguntou. Sei lá, respondi, me preparando para uma briga que não aconteceu. Na verdade, o que se deu entre nós foi um anticlímax. Primeiro um grande silêncio, e depois, um vazio, um buraco, Sulamita não dizia nada, comecei a inventar coisas, ela ficou sentada na ponta da cama, controlada, mordendo o lábio, ouvindo eu repetir que não sabia como aquela calcinha tinha ido parar lá, juro que não sei, eu repetia, deve ser coisa dos índios, aqueles pivetes são foda, eles entram nas casas, mexem em tudo, e, então, Sulamita me interrompeu e começou a dizer que, sempre que recebia um cadáver no necrotério, não conseguia deixar de pensar que, horas antes, aquele pedaço de carne estava respirando, o coração batendo, o sangue fluindo. Doía pensar, ela disse, que ele, o cadáver, tinha um projeto antes de morrer, uma viagem, uma casa, um filho, um perdão, qualquer coisa, você sempre acha que pode deixar seu sonho para amanhã, você pensa "amanhã eu cuido disso", mas então você leva uma bala na cabeça, ou morre atropelado por um caminhão, ou o coração explode, e pronto, tudo acabado. Não tem amanhã. Falou ainda que, naquele domingo em que conheci os pais dela, enquanto comíamos a peixada que sua mãe passara a manhã cozinhando, na mesa, todos juntos, ela mal conseeguia respirar de tanta felicidade.
Finalmente, ela disse, achei que havia encontrado o homem que iria ser o pai dos meus filhos. Que era eu. Projeto família, claro. Eu, o pai. Provedor. Cheio de responsabilidades. De repente, ela continuou, consegui ver um futuro legal para mim e para minha família. Meu sonho estava ali, bem na minha cara, e eu achei que daríamos conta dele. Do sonho. Eu e você. O fato de o pai, a mãe e a irmã terem gostado de mim só fez confirmar seu sonho. Juntaríamos dinheiro, ela disse, e compraríamos uma terra no Pantanal. Construiríamos uma casa. Criaríamos gado. E agora, ela disse, essa calcinha, essa calcinha fedida, de mulher vulgar, acabando com tudo.

Sulamita não foi ríspida nem acusadora. Estava triste, desamparada, e foi por isso mesmo que seu sonho me acertou em cheio naquela noite como uma porrada, quase pude sentir um gosto de sangue na minha boca. Criar gado no Pantanal, uma família, nos imaginei como a dona Lu e o José Beraba, sem o filho morto, claro, mas aquele tipo de casamento sólido, desses que só mesmo o dinheiro consegue erguer, negócios, gado, um futuro certo como uma fórmula matemática, e foi pensando nisso que me ajoelhei perto de Sulamita e queimei aquela calcinha com meu isqueiro, jurando nunca mais fazer nada que pudesse magoá-la, nada, eu disse, e pedi desculpas, falei que queria o mesmo que ela, casamento, terras, filhos, o que você decidir está bom para mim.

Um homem não pode passar o resto da vida transando com mulheres destrambelhadas como a Rita.

Eu e Sulamita fizemos amor naquela noite de um jeito diferente, sem fúria nem ânsia, como era com Rita, e muito menos da nossa maneira usual, entusiasmada e carinhosa, foi algo fundador, pulsante, eu a rasgava em impulsos, mergulhava, ia em direção a algo muito entranhável, uma toca, lá no fundo, uma gruta, e voltava à tona, gemendo, feliz, afundava e submergia, muito devagar e também com muito ímpeto, sempre com esse balanço, avançando e recuando, até gozar.

No outro dia, procurei o Moacir e falei, vamos tocar aquele projeto.

O lance, explicara Moacir, é ideal para nós, que não temos dinheiro. Ramirez não quer clientes. Quer sócios.

Deixei bem claro que aquela seria a primeira e a última vez que me metia em algo assim. Mas não vá dizer isso para o Juan, ele falou. Ganhamos a grana e caímos fora. Também não quero foder minha vida, respondeu Moacir. Vou montar uma oficina legal, é só isso que eu quero.

Falei também com Sulamita, menti, disse que possuía uma grana guardada. Vamos juntar nossas economias e comprar uma terra pequena. Começar, câmbio.

Agora, andando pelas ruas esburacadas de Puerto Suárez, procurávamos o bar onde Juan, amigo de Ramirez, estaria nos esperando. Eu havia ligado para Dalva e dito que não trabalharia naquele dia, estou com diarreia, falei. Dalva me ensinou uma receita com água e maisena, faça isso e amanhã você vai estar bom.

Como ela está?, perguntei.

A dona Lu? Muito mal, respondeu Dalva.

Desliguei o telefone com uma tristeza no peito, eu queria tanto que a dona Lu sarasse, também falei isso para Dalva, mas pense, ela respondeu, como é que a gente sara da morte de um filho?

Tomamos refrigerante; o dono do boteco mantinha o rádio sintonizado numa estação brasileira, ouvindo notícias do Brasil e propagandas de produtos brasileiros, fiquei esscutando e pensando que não devia haver no mundo castigo pior do que nascer em Puerto Suárez.

Dez minutos depois, Juan chegou no bar usando chapéu e uma camisa vermelha. Vamos no seu carro, ele falou.

Entramos na camionete, até aqui, eu disse para mim mesmo, tudo bem, câmbio. Juan era um sujeito simpático, gostava de falar português. Vire à esquerda e vai em frente, ele disse. Na verdade, o português dele era tão nojento quanto o meu espanhol, e se ele achava que estava falando português, eu também acreditava que estava me comunicando em espanhol. À esquerda novamente, ele falou. E depois perguntou se eu gostava de puerco. Respondi que si, mucho. Aqui se faz um puerco assado manífico, ele disse, apontando um bar que não tinha nada de magnífico. À direita e depois à esquerda, ele falou.

E então Juan começou a contar como aprendera português, com as telenovelas, ele falou, mais uma vez à esquerda, é assim que aprendi, à esquerda agora, mas eu também me arrisco, veja o caso do puerco, eu não sabia como se falava puerco em português, ele disse, mas deduzi que era como em espanhol: puerco.

Não é puerco é porco, eu disse.

No?, ele falou, rindo. Falo mal assim? A partir daí, ele começou a me chamar de Porco. Porco para cá, Porco para lá, o que eu podia fazer?

Moacir não participava da conversa, ficava olhando pela janela, absorto, como uma criança que é carregada pelos pais.

Estávamos saindo da cidade quando Juan me mandou estacionar, apontando uma casa sem reboco. O bairro era ainda mais pobre e desolado que o centro, e dali se tinha uma visão boa da área. Dois rapazes armados, sem camisa, faziam a segurança do local.

Fomos levados para o interior do imóvel, atravessamos a sala, onde um casal, sentado cerimoniosamente num sofá caindo aos pedaços, se intimidou com nossa aparição. Passamos pela cozinha, em direção aos fundos da casa até chegarmos num quintal amplo, cimentado, parcialmente coberto. Ramirez estava lá, ao lado de uma prensa artesanal, organizando o trabalho de compactar a pasta base. Fui apresentado como Porco, o amigo de Moacir. Agora era oficial, pensei. Porco. Vocês vão ter que esperar um pouco, disse Juan. Só preciso da chave do seu carro.

Não gostei daquilo, mas Moacir se adiantou, tirou a chave da minha mão e a entregou para um rapaz que acabara de chegar e que estava ao lado de Juan.

Vimos Ramirez embalar a droga com habilidade. Tiiras de papel filme transparente eram colocadas nos buraacos da prensa. Com uma colher, ele ajeitava a droga sobre o plástico e depois lacrava as cápsulas prontas com fio de nylon.

Enquanto observávamos, o portão lateral se abriu e minha camionete entrou, dirigida pelo rapaz que pegara a chave minutos antes.

Mais dois jovens saíram da casa e começaram a conversar com o motorista sobre o melhor local para camuflar a droga. Eu me sentia aflito, o que está rolando?, perguntei para Moacir. Calma, ele disse. Não tem erro.

Nesse momento, o casal que estava na sala quando chegamos, juntou-se a nós, cada um carregando uma garrafa d'água. Finalmente entendi o que aqueles dois pobres coitados, marinheiros de primeira viagem como nós, estavam fazendo ali. Ramirez deu as instruções e nos vinte minutos seguintes, o casal engoliu uma pacoteira de cápsulas, quase oitocentos gramas da droga. O entorpecente seria transporrtado dentro do corpo deles, naquele mesmo dia, para algum lugar do sul Brasil.

A moça parecia uma roedora assustada, prestes a ser caçada. Num determinado momento, achei que fosse desmaiar.

Juan saiu, levando o casal, e só então Ramirez começou a conversar conosco.

Nessa altura, já tinham arrancado o escapamento da minha camionete. Fiquei apavorado quando compreendi qual era o esquema: levaríamos dez quilos de coca, e não dois como eu havia combinado com Moacir. Cinco seriam coletados por outro agente de Ramirez no dia seguinte e o restante era nosso. Pelo trabalho, ganharíamos quarenta dias para saldar nossa dívida.

Puxei Moacir de lado. Você ficou louco?, perguntei. Não foi o que combinamos.

Fica frio, ele disse. Está tudo certo. Entrei em pânico.

Fui para o banheiro, minha vontade era largar o Moacir e a camionete naquela birosca, e então Moacir veio atrás de mim, você acha, ele falou, que eu vou colocar todo mundo, Eliana, meus filhos, minha mãe, em risco? Você acha que sou louco? Acredite em mim, ele falou. Vai dar certo.

Quando Ramirez nos explicou como seria a passagem na fronteira, achei que só podia ser uma piada. É isso mesmo, dissse Ramirez, quanto menos vocês souberem, melhor. Fiquem tranquilos. Passem pela fronteira como se não houvesse nada.

E se nos pararem? E se nos prenderem?

Não vai acontecer nada disso, disse Moacir. O Ramirez garante.

No caminho de volta, eu tremia dos pés à cabeça. Você não tem a mínima noção do que estamos fazendo, eu dizia para Moacir, você é um doido, um inconsequente, na sua tribo não existe nada disso, você se acha muito esperto, mas não passa de um índio tonto. Ele ria, tranquilo, olha ali o Juan, apontou, quando estávamos próximos de cruzar a fronteira. Ele vai nos ajudar, disse Moacir. Vi Juan estacionando o carrro, de onde desceram a roedora apavorada e o rapaz com os buchos cheios de droga. Juan se mandou.

Já íamos passar pelos guardas quando os dois infelizes praticamente entraram na nossa frente. E então, sete policiais, além dos que já estavam na guarita, apareceram e rodearam o casal, que foi algemado e carregado sei lá para onde.

Quanto a nós, nem nos revistaram. Passamos numa boa.

Vendo os dois se foderem.

Assim que tomamos uma distância segura, parei o carrro, seu índio burro, eu gritava, sentindo minhas pernas tremerem.

Estava tudo certo, desde o início, disse Moacir. Eu sabia. Sabia do quê?

Eles, Ramirez e Juan, os dois entregaram o casal. Eles fazem isso. É normal. Entregaram os dois para a gente poder passar.

Seu puto, eu disse. Você sabia disso?

Liguei o carro e saí. Índio de merda, eu falei. Você não vale nada.

No resto da viagem, nem olhei na cara do Moacir. Ele começou a contar uma história longa, que o Ramirez tinha cinco irmãos, e que ele conhecia o segundo, e que não sei quem foi preso, cala a boca, eu disse, você só está me deixando mais nervoso ainda.
 


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Patrícia Melo estava na mesa “De Frente para o Crime”, junto com Lionel Shiver, na Flip de Paraty, em agosto de 2010. Ela já tinha sido convidada da Flip de 2003. É assim: escritor que vai para a FLIP já é bom, ganha notoriedade e vende mais livro. Se acontece replay, então não tem erro. O leitor pode comprar seus livros porque o escritor é muito mais que bom. Por isso comprei Ladrão de Cadáveres.


 

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