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Deixe o Grande Mundo Girar

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Deixe o Grande Mundo Girar

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Colum McCann

Editora: Record

Assunto: Romance

Traduzido por: Maria José Silveira

Páginas: 372

Ano de edição: 2010

Peso: 575 g

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Excelente
Marcio Mafra
04/04/2011 às 14:48
Brasília - DF


Deixe o mundo girar é uma extraordinária historia de muitos personagens, na qual o autor descreve as vidas deles, algumas baseadas em fatos reais, ou mais ou menos reais. Como o de Philippe Petit um equilibrista francês que assombrou Nova York pela sua caminhada – sobre um cabo de aço - entre as torres do World Trade Center (aqueles edifícios que foram derrubados pelo Osana Bin Laden). O sábio Gustavo diz que se a história é boa, o livro é bom. Esta afirmação só é um axioma, quando o autor tem talento. Colum McCann tem. Nestes casos o livro ultrapassa suas páginas. A história – ou o livro – dá forma e consistência para outras interpretações, alusões, significados e intenções. O leitor consegue enxergar variados “panos de fundo” como se fora o clamor, as lutas, as derrotas, as vitórias, as lições de vida e as alegrias daqueles cidadãos onde a historia se desenvolve. Assim é este livro. Mais que ótimo.É excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Uma historia entrelaçada e vibrante entre um monge que trabalha com prostitutas, um equilibrista que atravessa o espaço entre as torres gêmeas em um cabo de aço, e outras vidas que se unem – talvez – pela esperança, pelo bom e pelo mal feito.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O que ele viu muitas vezes no prado: um ninho de três fallcões-de-rabo-vermelho, filhotinhos, na saliência de um ramo de árvore, em um espesso entrelaçamento de galhos. Os filhotes saíam quando a mãe estava voltando, mesmo de muito longe. Começavam a grasnir, uma alegria antecipada. Abriam os bicos como tesouras, e um momento mais tarde ela abaixava as asas em direção a eles, um pombo em um dos pés, seguro pelas garras. Ela pairava e descia, uma asa ainda estendida, protegendo metade do ninho da visão. Rasgava pedaços vermelhos de carne e jogava dentro das bocas abertas dos filhotes. Tudo isso feito com o tipo de desenvoltura para a qual não havia vocabulário. O equilíbrio entre garra e asa. A queda perfeita da carne vermelha dentro das bocas.
Eram momentos como esse que mantinham seu treinamento nos trilhos.
Seis anos em tantos lugares diferentes. O prado apenas um deles. A grama estendida por quase um quilômetro, embora o arame cobrisse apenas 75 metros no meio do prado, onde havia o máximo de vento. O arame era estabilizado com outros arames amarrados nos cavaletes bem retesados. Às vezes, afrouxava-os para que o arame pudesse balançar. Ele ia até o meio do arame, onde era mais difícil. Tentava saltar de um pé para outro. Carregava uma vara de equilíbrio que era muito pesada, só para acostumar seu corpo com mudanças. Se algum amigo estivesse de visita ele o fazia balançar o arame com um caibro para aprender a oscilar de um lado a outro. Fazia até o amigo pular no arame para ver se conseguia derrubá-lo.
Seu momento favorito era correr pelo arame sem a vara de equilíbrio - era o mais puro exercício de entrega ao corpo que podia ter. O que ele compreendia, mesmo quando treinava, era isto: não podia estar no alto e embaixo ao mesmo tempo. Não havia uma coisa chamada tentativa. Ele podia se controlar com as mãos, ou passando os pés em volta da corda, mas isso era um fracasso. Procurava novos exercícios incessantemente: o giro completo, o andar nas pontas dos pés, a queda falsa, fazer estrela, quicar uma bola de futebol na cabeça, andar pulando, com os tornozelos amarrados juntos. Mas eram exercícios, não movimentos que consideraria em uma caminhada no cabo.
Uma vez, durante uma tempestade, andou pelo arame como se fosse uma prancha de surfe. Afrouxou os cabos estabilizadores para que o arame ficasse mais mexido que nunca. As ondas que o balanço criava tinham um metro de altura, brutais, erráticas, de lado a lado, para cima e para baixo. Vento e chuva por todo lado. A vara de equilíbrio tocava a ponta da grama, mas nunca o chão. Ele gargalhava na ponta do vento.
Só mais tarde pensou, ao voltar para a cabana, que a vara em sua mão tinha sido um para-raio: podia ter sido eletrocutado na tempestade - um cabo de aço, uma vara de equilíbrio, um prado aberto.
A cabana de madeira estava abandonada havia vários anos. Um único quarto, três janelas, uma porta. Ele teve de desparafusar as venezianas para ter luz. O vento vinha úmido. Um cano de água enferrujado pendia do teto e uma vez ele se esqueceu e nocauteou a si mesmo. Ele observava as acrobacias das moscas nas teias de aranha. Sentia-se à vontade, mesmo com os ratos arrranhando as tábuas do piso. Decidiu sair subindo pela janela em vez de pela porta: um hábito esquisito - não sabia de onde vinha. Pôs a vara no ombro e caminhou pela grama comprida em direção ao arame.
Às vezes alces das Montanhas Rochosas vinham pastar na beirada do prado. Erguiam as cabeças e olhavam para ele e desapareciam de volta à linha das árvores. Ele se perguntava o que eles viam, e como o viam. O balanço de seu corpo. A barra estendida no ar. Ele ficou em êxtase quando os alces vieram para ficar. Grupos de dois ou três deles, mantendo-se perto da fileira de árvores, mas se aventurando um pouco mais cada dia. Perguntava-se se eles chegariam e se esfregariam nos postes gigantes de madeira que ele havia enfiado no chão, ou se os mastigariam e roeriam, deixando o arame arqueado.
Ele voltou no inverno, não para treinar, mas para relaxar e repassar os planos. Ficou na cabana de madeira, em um morro que dava para o prado. Espalhou os planos e fotografias das torres pela mesa tosca perto da pequena janela que dava para o completo vazio.
Uma tarde, ficou estarrecido com um coiote vindo pela neve e pulando brincalhão justo sob seu arame. Em seu ponto mais baixo no verão o arame estava a quatro metros e meio no ar, mas a neve agora estava tão empilhada que o coiote poderia ter pulado por cima.
Depois de um tempo, foi colocar um pouco de lenha no fogão e então subitamente o coiote sumiu, como uma aparição. Ele estava seguro que havia sonhado, só que quando olhou pelos binóculos ainda havia marcas das patas na neve. Ele saiu no frio pelo caminho que havia cavado na neve, usando apenas botas, jeans, uma camisa de lenhador, um lenço. Subiu na cavilha dos postes, caminhou pelo arame sem vara de equilíbrio, procurando as pegadas. A brancura o emocionava. Achava que era como pisar ao longo da espinha de um cavalo em direção a um lago gelado. A neve reinstruía a luz, curvava-a, coloria-a, fazia-a saltar. Ele estava extasiado, quase entorpecido. Eu deveria pular nela e nadar. Mergulhar. Pôs um pé para fora e então saltou, braços esticados, palmas abertas. Mas no meio do voa, compreendeu o que havia feito. Nem mesmo teve tempo de praguejar. A neve estava quebradiça e densa, e ele havia pulado em pé do arame, como um homem em uma piscina. Eu deveria ter pulado de costas, dado a mim mesmo uma forma diferente. Mergulhou até o peito na neve e não conseguia sair. Preso, tentou se mover para a frente e para trás. Suas pernas pareciam erradas, nem pesadas nem leves. Ele estava encaixotado, uma cela de neve. Desvencilhou os cotovelos e tentou agarrar o arame acima dele mas estava muito embaixo. A neve escoava por seus tornozelos, entrando em suas botas. Sua camisa tinha se erguido no corpo. Era como aterrissar em pele fria e úmida. Podia sentir os cristais em sua coluna, seu umbigo, seu peito. Era dever dele viver, lutar por isso  - pensou que seria o trabalho de sua vida conseguir sair dali. Rangeu os dentes e tentou se erguer pouco a pouco. Uma dor prolongada, puxando seu corpo. Ele afundou outra vez para sua forma original. A ameaça cinzenta do sol se pondo. A linha distante das árvores como sentinelas, aguardando.
Ele era o tipo de homem que podia se erguer até o queixo com um dedo, mas não havia nada para pegar - o arame estava fora de seu alcance. Houve o pensamento momentâneo de ficar ali, congelado, até o degelo chegar e ele descer se descongelando até ficar outra vez a quatro metros e meio debaixo do arame, putrefazendo-se, o tipo mais demorado de queda, até chegar ao chão, talvez até ser roído pelo mesmo coiote que admirara.
Suas mãos estavam completamente livres e ele as esquentou apertando-as e abrindo-as. Tirou o lenço do pescoço, devagar, com movimento medido - sabia que seu coração trabalhava mais devagar no frio -, e laçou o arame com ele e puxou. Pequenas gotas de neve caíram do lenço. Podia sentir os fios do lenço esticarem. Ele conhecia o arame, a sua alma; ele não iria traí-lo, mas o lenço, pensou, era velho e gasto. Podia se esticar ou rasgar. Chutou seus pés abaixo, pela neve, abrindo espaço, procurando algo compacto. Não caia para trás. Cada vez que ele se erguia, o lenço esticava. Ele agarrou acima e se puxou para mais alto. Agora era possível. O sol mergulhara completamente por trás das árvores. Ele fez círculos com os pés para soltá-los, empurrou seu corpo de lado pela neve, arremessou para cima, arrancou seu pé direito da neve e jogou sua perna, tocou o arame, achou a graça.
Puxou seu corpo para o arame, ajoelhou-se, depois repousou um momento, olhou para o céu, sentiu o arame tornar-se sua medula espinhal.
Nunca mais ele andou na neve: deixava esse tipo de beleza lembrá-lo do que poderia acontecer. Pendurou o lenço em um gancho na porta e na noite seguinte viu o coiote outra vez, farejando sem rumo em volta de onde sua impressão ainda estava.
Às vezes, ia ao vilarejo local, pela rua principal, até o bar onde os fazendeiros se reuniam. Homens duros, olhavam-no como se ele fosse pequeno, ineficaz, estéril. A verdade é que era mais forte do que qualquer um deles. Às vezes um empregado da fazenda o desafiava para uma queda de braço ou uma luta, mas ele tinha que manter seu corpo sintonizado. Um ligamento torcido seria um desastre. Um ombro deslocado o faria regredir seis meses. Ele os apaziguava, mostrava-lhes truques de cartas, fazia malabarismos. Ao sair do bar, batia nas costas deles, furtava suas chaves, movia suas camionetes meio quarteirão, deixava a chave na ignição, voltava caminhando para casa à luz das estrelas, rindo.
Pregado do lado de dentro da porta da sua cabana havia um pequeno cartaz: NINGUÉM CAI PELA METADE.
Ele acreditava em caminhar lindamente, elegantemente. Tinha que trabalhar com um tipo de fé de que chegaria ao outro lado. Havia caído apenas uma vez enquanto treinava - uma vez exatamente, portanto sentia que não poderia acontecer outra vez, estava além da possibilidade. De qualquer maneira, uma única falha era necessária. Em qualquer trabalho de beleza, tinha que haver um pequeno fio para ficar pendurado. Mas a queda havia lhe quebrado várias costelas e às vezes, quando respirava fundo, era como um pequenino lembrete, uma aguilhoada perto de seu coração.
As vezes praticava nu só para ver como seu corpo trabalhava. Sintonizava a si mesmo com o vento. Escutava não apenas a lufada, mas a antecipação da lufada. Tudo se reduzia a sussurros. Sugestão. Usava a própria umidade em seus olhos para alerta. Aí vem ela. Depois de um tempo aprendeu a agarrrar qualquer som do vento. Mesmo a marcha dos insetos o instruía. Amava os dias em que o vento investia pelo prado com fúria e ele assobiava dentro dele. Se o vento tornava-se forte demais ele parava de assobiar e preparava todo o seu ser contra ele. O vento vinha de tantos ângulos diferentes, às vezes subitamente, trazendo cheirodeárvores, bafodepântano, borrifodealces.
Havia momentos que ele ficava tão à vontade que podia observar o alce, ou seguir as pequenas colunas de fumaça dos fogos da floresta, ou observar o falcão-de-rabo-vermelho parado em uma só perna sobre o ninho, mas quando estava em sua melhor forma, sua mente ficava livre da visão. O que ele tinha a fazer era reimaginar coisas, gravar uma impressão em sua cabeça, uma torre ao longe em sua visão, o perfil de uma cidade abaixo dele. Podia congelar essa imagem e então concentrar seu corpo no arame. As vezes ele se chateava por trazer a cidade ao prado, mas tinha que fundir as imagens junntas em sua imaginação, a grama, a cidade, o céu. Era quase como se estivesse caminhando em outro arame acima em sua mente.
Havia outros lugares onde praticava - um campo no interior do estado de Nova York, o lote vazio de um armazém à beira do rio, um trecho isolado de pântano a leste de Long Island -, mas era o prado o mais difícil de deixar. Ele olhava por cima do ombro e via aquela figura, mergulhada até o pescoço na neve, despedindo-se com um aceno dele mesmo.
Ele entrava no barulho da cidade. A algazarra de concreto e vidro. O baarulho do tráfego. Os pedestres se mexendo como água em torno dele. Sentia-se como um antigo imigrante: colocara os pés em novas terras. Circulava pelo perímetro da cidade mas raramente perdia de vista as torres. Era o limite do que um homem podia fazer. Ninguém mais sequer sonhara com isso. Podia sentir seu corpo avolumar-se com a ousadia. Secretamente, explorava as torres. Passava pelos guardas. Subia as escadas. A torre sul ainda estava inacabada. Boa parte do edifício ainda estava desocupada, guardada por andaimes. Ele se perguntava quem seriam os outros que passavam a seu lado, que propósitos teriam. Foi até o telhado inacabado, usando um chapéu de operário para evitar que o detectassem. Fez um molde da torre em sua cabeça. A visão dos cavaletes duplos no telhado. O formato em y do cabo como terminaria sendo. Os reflexos das janelas e como elas o espelhariam, em ângulos, desde abaixo. Pôs um pé para fora da beirada e mergulhou o sapato no ar, plantou uma bananeira na própria beirada do telhado.
Quando saiu do telhado sentiu que estava acenando outra vez para seu velho amigo: mergulhado até o pescoço, desta vez em um quarto de milha no céu.
Ele estava checando o perímetro da torre sul uma madrugada, anotando os horários dos caminhões de entrega, quando viu uma mulher de macacão, ajoelhada como se amarrasse os cadarços do sapato, outra e outra vez, ao redor da base das torres. Pequenos jorros de penas saíam das mãos da mulher. Ela estava colocando as aves mortas em pequenos sacos de plástico. Principalmente pardais de garganta branca, algumas aves canoras também. Elas migravam tarde da noite, quando as correntes de ar estavam mais calmas. Fascinadas pelas luzes dos prédios, batiam nos vidros, ou voavam interminavelmente ao redor das torres até que a exaustão as pegasse, suas habilidades naturais de navegação atordoadas. A mulher lhe deu uma pena de um pequeno pássaro de garganta preta, e quando ele deixou a cidade de novo, levou-a para o prado e também a pregou na parede da cabana. Outro lembrete.
Tudo tinha propósito, sinal, significado.
Mas no final ele sabia que tudo se resumia ao arame. Ele e o cabo. Sessenta e quatro metros e a distância que ele cobria. As torres tinham sido desenhadas para oscilar até um metro em uma tempestade. Uma rajada violenta ou mesmo uma mudança repentina de temperatura forçariam os prédios a um vaivém e o cabo poderia se esticar e quicar. Era uma das poucas coisas que dependiam da sorte. Uma vez lá, teria que seguir o arame quicando ou voaria. Um balanço dos prédios poderia partir o arame em dois. A ponta desgastada do arame poderia até cortar a cabeça de um homem no meio da queda. Ele precisava ser meticuloso para fazer tudo certo: o cabrestante, a catraca, as chaves de boca, a tensão, o alinhamento, a matemática, a medida da resisstência. Ele queria o fio em tensão de três toneladas. Mas quanto mais esticado um cabo, mais graxa poderia exsudar. Mesmo uma mudança na temperatura poderia fazer um toque de graxa escapar do núcleo.
Ele repassou os planos com amigos. Teriam que entrar na torre sem serem vistos, colocar os cavaletes no lugar, içar firme o arame, vigiar os seguranças, mantê-lo informado com um intercomunicador. De outra maneira, a caminhada seria impossível. Eles espalharam os mapas do edifício e os decoraram. As escadas. Os postos dos seguranças. Sabiam de esconderijos onde nunca seriam encontrados. Era como se estivessem planejando um asssalto a banco. Quando ele não conseguia dormir, saía perambulando pelas ruas emudecidas ao redor do World Trade Center: a distância, iluminados, os prédios pareciam um só. Ele parava em uma esquina e se colocava lá em cima, imaginava-se no céu, uma figura mais escura do que a escuridão.
Na noite anterior à caminhada ele estendeu o cabo por todo o comprimento de um quarteirão da cidade. Motoristas olhavam enquanto ele o desenrolava. Precisava limpar o fio. Meticulosamente, continuou e o esfregou com um trapo ensopado de gasolina, depois o friccionou com lixa. Precisava ter certeza que não haveria nenhum fllamento solto que pudesse aguilhoar seu pé através das sapatilhas. Uma única lasca - um anixo - poderia ser mortal. E havia espaços em todo o cabo onde os fios precisavam se assentar. Não poderia haver surpresas. O cabo tinha suas próprias vontades. O pior de tudo seria um torque interno, quando o cabo se vira para dentro, como uma cobra se movendo em sua pele.
O cabo tinha seis cordões de grossura com 19 fios em cada um. Dois centímetros e vinte e dois milímetros de diâmetro. Perfeitamente trançado. Os cordões tinham sido trançados ao redor do núcleo numa trama larga que dava aos seus pés o máximo de garra. Ele e seus amigos caminhavam pelo cabo e fingiam estar alto no ar.
Na noite da caminhada foi preciso dez horas para amarrar o cabo furtivo.
Ele estava exausto. Não havia trazido água suficiente. Pensou que talvez nem pudesse ser capaz de andar, tão desidratado que seu corpo iria se quebrar no movimento. Mas a simples visão do cabo estendido entre as torres o emocionou. A chamada veio pelo intercomunicador da torre ao longe. Eles estavam prontos. Ele sentiu uma descarga de pura energia se mover por ele: estava novo outra vez. O silêncio parecia feito para ele se balançar. A luz da manhã subia pelos estaleiros, o rio, a beira d'água cinza, passando pela esqualidez do East Side, a partir de onde se espalha e se propaga - vãos de portas, toldos, pedaços de cornija, saliências das janelas, tijolos, grades, a linha dos telhados - até dar um longo salto e alcançar o espaço duro do centro comercial. Ele murmurou no intercomunicador e acenou para a figura que esperava na torre sul. Hora de ir.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Durante a FLIP 2010, comprei este livro, depois de ouvir a palestra do Colum McCann


 

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