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O Esplendor de Portugal

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O Esplendor de Portugal

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Antonio Lobo Antunes

Editora: Rocco

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 381

Ano de edição: 1999

Peso: 445 g

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Bom
Marcio Mafra
25/12/2010 às 19:43
Brasília - DF


Esplendor de Portugal, titulo que o autor adotou para seu livro, é parte do hino nacional de Portugal e abre a página de rosto do livro. É uma rica e contrastante ironia arquitetada pelo português Lobo Antunes quando descreve os desesperos impostos aos angolenses e demais dos colonizados africanos. Os sacrifícios, as agressões e a luta fraticida dos colonizadores fizeram que se produzissem excelentes histórias do colonialismo português, nódoa que de alguma forma denigre a história da nação portuguesa. O processo narrativo, que inclui a linguagem nua e crua dos ressentimentos dos angolanos, por vezes é bizarro. Mesmo assim o final de Isilda, que vivia na terra dos defuntos, embora lógico, é triste e pode surpreender o leitor. Antunes e seu editor, como se fossem gênios da literatura, neste livro não hesitam em massacrar normas básicas da gramática (a paciência do leitor): Parágrafos começam com letra maiúscula e terminam com ponto.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Isilda e seus três filhos, Carlos o mais velho, mestiço e bastardo; Rui, o filho do meio, epiléptico incurável; e por fim, Clarisse, prostituta. Todos marcados por uma estranha solidão que os isola uns dos outros. Seus sacrifícios, desesperos, misérias e abandonos passados em Angola, colônia portuguesa na Africa, num tempo antes da guerra de libertação e depois da independência.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Porque sou mulher. Porque sou mulher e as mulheres não morrem como os homens dado faltar-lhes o mesmo peso de medo na carne, a mesma espessura nos ossos de inocência e solidão: transformam-se em fantasmas ou nem fantasmas, coisas vagas, fosforescências que rondam de quarto em quarto nos gestos e no modo de caminhar que possuíram em vida, arrepiando as cortinas, enevoando os cromados, olhando-nos do quintal ou da cozinha, penteadas e abanando leques e regressando à terra à medida que nos olham, à sepultura onde há semanas ou meses as deixamos, na rapidez sem densidade com que a água se some. Porque sou mulher. Porque sou mulher durante anos e anos, depois do funeral, encontrei sem surpresa a minha mãe a tricotar na cadeira de balanço da varanda, chamava-a baixinho, quase sem som, dentro de mim
-Mãe
os setters não davam por ela nem o meu marido nem os pavões nem as azáleas, os meus filhos continuavam a brincar sob a árvore-da-China, a sombra da cadeira no chão oscilava, vazia, e contudo a minha mãe guardava o tricô no cestinho, sorria, estenndia o braço feliz por me tocar na roupa
- Que bem te fica esse vestido filha
a minha prima casada com um fazendeiro do Duque de Bragança entrava com o tabuleiro do chá a mirar em volta admirada - Deu-te para falar sozinha Isilda?
designando a cadeira de balanço sem ninguém, a trepadeira nas colunas, as pálpebras das flores do algodão que pestanejavam ao vento enquanto um perfume açucarado como a tinta das cartas antigas me embalsamava de ternura, dois dedos com anéis me experimentavam a saia
- Que bem te fica esse vestido filha
eu me sentia contente, nova, bonita como quando me arranjava para sair com ela aos bailes do Ferroviário, toda de branco, luvas brancas, sapatos brancos, uma gardênia branca no decote, o governador levantava-me o nariz com o polegar
- O que tu cresceste menina
e tinha a certeza de nunca ser velha nem com rugas nem com cabelos grisalhos nem doente e a orquestra tocaria no palco até ao fim dos tempos. Porque sou mulher. Porque sou mulher e me educaram para ser mulher, isto é para entender fingindo que não entendia
(bastava trocar as palavras por uma espécie de distração divertida)
a fraqueza dos homens e o avesso do mundo, as costuras dos sentimentos, os desgostos cerzidos, as bainhas da alma, me educaram para desculpar as mentiras e o desassossego deles, não aceitar, não ser cega, desculpar conforme desculpei ao meu pai as suas infidelidades ruidosas e ao meu marido a sua indecisão patética, me ensinaram a inteligência de ser frívola com os meus filhos até a viuvez me obrigar a tomar conta deles e da fazenda na mesma impiedade com que tomava conta das criadas, a embarcá-los
- Angola acabou para vocês ouviram bem Angola acabou para vocês
no navio de Lisboa e a ficar entre defuntos que me interrogaavam do caramanchão e do pátio, limpando as feridas das balas que os mataram com a ponta do lenço. Porque sou mulher. Porque sou mulher e a tropa do Governo me ocupou a casa, me depenou o teto de vigas e telhas para construir abrigos contra os luchazes, os africânderes, os mercenários pagos pelos diamantes da Lunda, me roubou as vacas e os porcos e as galinhas e as cabras que achava a assar em espetos de escovões, deixou que o girassol e o arroz secassem no frio do cacimbo e o capim lhes devorasse as raízes ao ponto de não encontrar qualquer vestígio da plantação do meu pai, do que lhe vendera a terra e emigrara para a Venezuela ou o Brasil, e daqueles anteriores a ambos que durante duas ou três ou quatro gerações derrubaram a mata e os ninhos dos animais à força de escravos e machado, à força de sangue, obrigaram à força de sangue também o algodão a nascer na crista das colinas e a sul do algodão as cabanas dos escravos entre o jardim e o rio, junto ao mármore dos crocodilos na areia, os escravos a quem
embora continuassem escravos
chamávamos portugueses de cor ocupando a minha cama, o meu quarto, os quartos dos meus filhos, o escritório e as salas desertas da minha mobília e dos meus quadros com as armas, as esteiras e os rádios de pilhas, obrigando-me a dormir num estrado de bordão na cozinha com a Josélia e a Maria da Boa Morte, acordando a cada guinada do seu sono, sofrendo-lhes a presennça, suportando-lhes o cheiro, a Josélia e a Maria da Boa Morte dizendo sem me dizer
- Angola acabou para a senhora ouviu bem Angola acabou para a senhora
a servirem-me o peixe seco que sobrara da cantina e ocultaram na lenha do fogão, as conservas fora de prazo da despensa, os pássaros mortos das acácias e um ou outro frango que a tropa esquecera e ao acabar de comer notava a minha mãe na cadeira de balanço, guardando o tricô no cesto, contente de me tocar na roupa, não uma saia nem uma blusa, um pano do Congo que pertencera ao Damião atado nos rins como as lavadeiras faziam, a minha mãe orgulhosa de mim
- Que bem te fica esse vestido filha
experimentando o tecido num vagar contente, eu por instanntes nova e bonita caminhando pelo braço do meu pai, ao som da música, nas lajes da cozinha como nas arcadas do Ferroviário, admirada por oficiais fardados e homens de casaca, pelos óculos do governador que refletiam os lustres e as condecorações em pontinhos geométricos
- Muito chique sim senhores muito chique


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Convidado da FLIP em 2009, Antônio Lobo Antunes era um dos mais festejados pela crítica. Comprei todos os livros de sua autoria que encontrei em sebos.


 

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