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Pornopopéia

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Pornopopéia

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Autor: Reinaldo Moraes

Editora: Objetiva

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 475

Ano de edição: 2009

Peso: 690 g

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Ótimo
Marcio Mafra
19/12/2010 às 19:13
Brasília - DF


Livro bom é assim. Faz – ou não – sucesso. Se não faz, não adianta nada colocar na mídia, escrever em blogue, twiter ou orkut. Se faz, faz e ponto. Assim é Pornopopéia. O nome que o autor adotou é uma mistura de pornografia com pornéia e prosopopéia. E assim é o livro de Reinaldo Moraes. Não é uma história beatnick, que pudesse ter surgido pela influência de Kerouac, aquele do “On de The Road”. Pelo contrário, o personagem central é Zeca. Nada mais prosaico que alguém se chamar Zeca, mesmo em se tratando de um personagem que é um ex-roteirista e assina o filme Holisticofrenia. Zeca não busca a transformação da humanidade, das pessoas que vivem à sua volta, nem de ninguém. Ele quer – e pratica – sexo, muita droga e mais nada. É assim. Só vive o mágico agora, sem se importar com o que passou ontem e o que virá amanhã. Num certo sentido Pornopopéia é uma crônica – ácida, mas real – da vida underground paulistana. A linguagem é chula sim, mas muito bem elaborada, inventiva e recheada de um finíssimo humor. Pornopopéia é visceral e diametralmente oposto ao livro da Bruna Surfistinha, mas ao longo da leitura, tamanha é a devassidão que não há como não comparar os dois livros. A novela em que se transforma a encomenda de um pequeno filme institucional sobre embutidos de frango é coisa de escritor divertido e muito bom de imaginação: puro talento. Pornopopéia não é literatura marginal, embora machista, politicamente incorreta e socialmente desajustada. O final é muito bom.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de um ex-cineasta marginal, paulistano, de nome Zeca. Roteirista de cinema frustrado e que também criava, por razões financeiras, roteiros para filmes de publicidade. Suas aventuras ou desventuras – pelos subterrâneos da noite paulista - com muita devassidão, regada a muita droga, muito sexo, pouco dinheiro, e pouco rock-on-roll.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Acordei daquele sonecão pós-peixada nadando em suor, com uma vaga dor de cabeça e soltando petardos genocidas. Meu corpo sozinho me levou ao mar. Eu já tinha dado duas nadadas antes do almoço, a primeira de uma hora singrando as águas piscinosas do Pontal, pra além da arrebentação forte que tem lá, numa trajetória mais ou menos paralela à praia. A segunda tinha sido ali mesmo, na frente da Chapéu-de-sol. Mas nada como um mar depois do outro. Nadei e boiei de papo pro ar, abandonado àquela momidão placentária, no embalo das vagas, mirando um céu que já tinha sido bem mais azul de manhã. Me sentia pleno - pleno de peixe, camarão, cerveja e cachaça. Tive também uma aguda urgência urinária e dei uma bela mijada dentro d'água. Da água vieste, à água retomarás. Sentia os músculos ainda repuxentos da natação matinal, mas depois de alguns minutos me bateu um repentino ânimo olímpico e desatei em braçadas enérgicas mar adentro como se fugisse da bocarra de um tubarão ou fosse ao encontro duma sereia a me acenar do fundo da enseada. Quando dei por mim, tava eu lá no fundão, longe da praia.

Logo ficou claro que eu devia era ter ficado ali pelo rasinho mesmo, boiando ao sabor das marolas refrescantes, esquecido da vida. É isso que eu devia ter feito. Quando vi, porém, já tinha ultrapassado a raia imaginária onde eu tinha nadado pela manhã, a uns cem metros da rebentação, talvez duzentos, sei lá, é difícil calcular distâncias no mar, o metro ali flutua, cresce, encurta, dança e serpenteia ao sabor das vagas, e, se você embarca numa correnteza rumo ao mar aberto, acabam sobrando muitos metros debaixo do seu metro. Eu devia ter voltado assim que cheguei ao fundão. Em vez disso, e para me convencer de que eu poderia nadar até o fim do mundo, dei mais umas vigorosas braçadas em direção à Àfrica ocidental. Comecei, então, a me esbodegar pra valer. Aí parei. Parei, boiei, respirei e logo constatei que a correnteza me arrastava pra direita, pra depois do Pontal, ou seja, pro "mar de fora", como eles dizem aqui. Um pouco mais, estaria fora do âmbito da enseada de Porangatuba, bem longe da terra. Achei melhor me livrar logo daquela correnteza-expresso a caminho de Cabo Verde e sentei os braços no mar de novo pra retomar. Só que o caminho de volta no mar é sempre mais longo que o de ida, se você não é uma tartaruga marinha. Logo vi que não ia ser fácil a empreitada. Estava exausto. As braçadas de crawl me saíam cada vez mais fracas e eram ignoradas pela correnteza, que continuava me arrastando pra casa do caralho de Netuno. Tava na cara que eu ia precisar de mais força que aquilo pra me tracionar na água. Se eu parasse pra boiar e relaxar, ia ser arrastado pra longe e acabar danndo uma cabeçada num petroleiro em alto-mar. Tentei compensar a tibieza dos braços com umas pernadas vigorosas. Tão vigorosas que - CRAU!

Cãimbra. Puta cãimbra do caralho.

Soltei um berro ouvido apenas pelos vagalhões que me cercavam de todos os lados, abutres líqüidos rodeando a carniça extenuada.

A porra da cãimbra era epicentrada na batata da perna esquerda e se irraadiava em estilingadas de dor para baixo, até a planta do pé, e, pra cima, pela traseira da coxa, até o glúteo. Passei a mão na panturrilha encaroçada. Algum íncubo filho da puta me beliscava as carnes por dentro com uma tenaz em brasa. Procurei alongar a musculatura puxando a ponta do pé para trás, com a perna esticada, o que se revelou ainda mais doloroso e pouco prático, pois me fazia perder a sustentação na água e afundar de costas. A cada afundada eu engolia meio Atlântico até conseguir emergir de novo em busca de oxigênio. Se um tubarão me arrancasse a perna naquela hora eu lhe agradeceria o favor. A sensação de estar sendo derrotado pelo mar ia se impondo ao meu encharrcado entendimento. Eu não sabia o que fazer. Em poucos minutos, me vi sem forças pra sequer piscar o cu de medo.

Rapaz, era uma dor infame aquela, e só piorava a cada minuto. A reforma atlética que eu fizera no meu corpo nesses dias de spa litorâneo não dava mais pro gasto de me locomover pra fora daquela estrada fluida que me lançava no mar aberto, sendo que a cãimbra me puxava pro fundo. Já não era nada fácil me manter à tona. Me deixei levar, pensando em nada mais que permanecer vivo o maior tempo possível. Eu era um náufrago de navio nenhum: era a minha vida que tinha afundado de vez e me abandonado à sanha das águas. A cãimbra não dava sinal de amainar. Depois de um tem pinho boiando, com a perna ruim solta no fundo, comecei de alguma maneira a me acostumar com a porra da dor. Me baixou um Buda conformista com sua sabedoria de bolso. O negócio é o seguinte, eu me dizia: essa dor é minha, ela veio pra ficar. A minha vida e a dor da cãimbra eram inseparáveis naquele momento. O jeito era nadar só no braço, deixando a perna entregue ao próprio sofrimento.

Quando tentei me mexer de novo, a dor recrudesceu. Foda-se, recomendei-me com estoicismo. Respirar é preciso. Respirar e nadar contra a corrente, contra a dor, contra o medo e contra a morte. E fui que fui, aos gritos, às talagadas de mar puro que eu ingeria nas afundadinhas. Cada braçada que eu dava, tão heróica quanto inútil, só me conduzia à percepção pânica de que eu não chegaria vivo a lugar nenhum daquele jeito. Dali a uns dias meu corpo bateria em alguma praia nirvânica daquela costa, semidevorado pelos peixes e sem mim dentro dele. Foi pensando nisso que parei de nadar pra vomitar o robalo ao molho de camarões que tinha acabado de traçar no almoço. Ao mar o que é do mar. O vômito ficou boiando à minha volta durante um bom tempo. Se eu morresse afogado ali iria engolir parte do meu próprio vômito, num processo de auto-reciclagem digno de algum prêmio ambientalista internacional.

Além de ter perdido todo o pouco avanço conquistado com a nadada, o vento ainda resolveu soprar forte da praia pro mar, deixando claro que a natureza queria me expulsar de qualquer maneira da terra firme. No entanto, ou até mesmo por causa disso, começaram a surgir uns megavagalhões que pareciam decididos a surfar na contramão da correnteza e do vento em direção à praia. Me ocorreu que estava neles a minha salvação. Problema é que os vagalhôncios não paravam de treinar embaixadas comigo, me quicando pra cima e pra baixo. Mas a verdade é que, a horas tantas, eu me vi um pouco mais próximo da costa. A cãimbra, no entanto, não dava trégua à minha perna. Eu já não tinha mais força nem pra gesticular meu desespero a alguém da costa que pudesse me ajudar. Se eu estivesse batendo uma punheta, fumando um beque, ou mesmo estrangulando uma loira, como o barbudo Guará naquele filme do Bressane, aí, sim, com certeza, alguém me veria. Mas eu ali, morrenndo afogado, disso ninguém se tocava.

Àquela altura minhas braçadas eram não muito mais que simbólicas, servindo apenas à precaríssima flutuação do meu cadáver adiado neste mar que já foi português e tentava agora ser meu túmulo brasileiro.

nado

nado

e nada!

- é o que eu poderia ter declamado ali, se o mar estivesse pra haicais.

Várias certezas me vieram à cabeça, junto com a espuma formada pelo entreechoque dos vagalhões. A principal delas era: se a estratégia de pegar carona nos vagalhões não desse certo eu tava fodido. Desisti das braçadas, procurando só mesmo boiar de batráquio, barriga pra baixo, ao sabor dos corcoveios dos vagalhões, tarefa muito dificultada pela perna avariada que atuava como lastro. Mas eu não estava disposto a deixar uma reles perna me passar a perna, como não posso deixar de fazer agora esse trocadalho do carilho. Mandei a perna se foder, tentando cortá-la das minhas cogitações, e juntei forças prum sprint radical rumo à praia. Ou chegava logo aonde dava pé, ou me faltaria gás até pra boiar depois. Acho que o meu empenho convenceu os vagalhões a seguirem me empurrando devagarinho em direção à vida. Quando vi, a areia estava bem mais perto. Eu não ia ter outra chance igual àquela. A cada palmo que eu percorria, o refluxo das vagas me fazia perder um naco do avanço, fora a água que continuava a engolir comprometendo o pouco fôlego que me restava.

É doce morrer no mar o caralho. É salgado pra cacete. Cheguei a achar que não ia dar, depois que ia, depois que não ia mesmo. Foi quando esbarrei a ponnta do pé da perna caimbrada no chão. Berrei de dor. Mas, porra, amice, com dor e tudo nunca foi tão bom tocar o solo da mãe gentil, puta que me pariu. Dei uma mijada na bermuda de pura alegria. Passei a dar braçadas submersas de clássico agora, como quem revolve a água de uma bacia com as duas mãos em movimentos divergentes. Dois ou três vagalhões depois, eu já conseguia assentar a planta do pé da perna boa na areia do fundo, com água me batendo pelo queixo. Dali fui cavando caminho na água até pegar um jacaré numa ondinha maneira que me depositou na areia molhada. A perna ruim se deixou rebocar latejando suas dores infiltradas. Vomitei mais um pouco, só água agora, e tombei de costas, com um batimento cardíaco de drum&bass que fazia a praia toda tremer debaixo do meu corpo.

A cãimbra, sentindo frustrado seu intento de me matar, foi aos poucos cedendo sozinha. Eu estava tecnicamente morto. Nunca tinha feito tanto esforço físico na vida. De olhos fechados pro universo, fiquei esperando coração e pulmões decidirem se iam estourar, ou o quê. Quando todos os ponteiros do organismo saíram por fim do vermelho, e na perna lesada só latiam resquícios da maldita cãimbra, foi me dando uma euforia, um orgasmo cósmico que nem as melhores trepadas, nem as mais doidas viagens de ácido - nem as melhores trepadas durante as mais doidas viagens de ácido - tinham jamais me proporcionado. É estúpido e piegas dizer isso que vou dizer agora, mas, deitado naquela areia, debaixo do sol já mais domesticado das cinco e pico da tarde a me espiar pelas frestas das nuvens cinzas, com a brisa do mar me arrepiando a pele molhada, senti imensa alegria por estar, com o perdão da má palavra, vivo. Respirar era sublime. Minhas narinas, lavadas e enxaguadas

à náusea com água e sal, acolhiam cada prise de ar como uma indescritível dádiva a ser fruída em êxtase religioso.

O sol escorregava pros confins do horizonte depois de assistir à minha agonia, sem ter movido um só raio pra me ajudar. A natureza é foda, meu. Ela tá cagando e andando pra você a maior parte do tempo, mas tem lá suas vantagens. Por exemplo, senti meu pau acordando dentro da cueca de poliéster furadinho do meu bermudão. Era uma sensação natural, aquela. Fazia parte do pacote "retorno à vida". No meio da briga contra mar e cãimbra, de nada tinha me valido a piroca, que nem sabe flutuar, a desgraçada. Dizem que os enforcados morrem de pau duro cuspindo porra. Os afogados, não. Morrem de pau mole e engruvinhado. Mas, agora, safo da procela, mesmo sem eu estar sendo enforcado nem nada, o apêndice recreativo dava o ar da graça. Peguei nele por dentro da bermuda. Ah, meu pau! Ou seja: EU!

Fiquei pensando se batia uma punheta comemorativa ali na areia molhada.

Enquanto pensava, com as mãos agora entrelaçadas atrás da cabeça, constatei que o sol morria sem apelação naquele falso oeste, ou falso leste, sei lá. Eu sou, o sol já era, me rejubilei. Era a minha pequena vingança contra a grande estrela diurna. No céu, um urubu geômetra descrevia círculos concêntricos em cima da minha ereção. Desisti da punheta.

Quando me senti capaz de enfrentar de novo a gravidade, me pus de pé e toquei mancando morro acima. A perna ruim ainda se ressentia do ataque recente da cãimbra, mas deu conta de me trazer até em casa. Quando me vi aqui na rede, muitos metros acima do mar sacana, não pude deixar de cometer um haicai ressentido:

Amo o mar

mas o mar

quis me matar

Foi a última coisa que pensei antes de entrar em coma profundo de cansaço terminal.


  • O Malandro Voltou Fissurado - Questões litero-libertino-estupefacientes

    Autor: Mario Sergio Conti

    Veículo: Revista Piaui - 51 - dezembro 2010

    Fonte:

    Pornopopéia, o título do romance de Reinaldo Moraes, junta duas palaavras de origem grega. "Pomo", cuja etimologia remete a "prostituta", é a reepresentação de obscenidades. "Epopeia" é a forma literária que relata os feitos de um herói ou povo. O romance, de fato, está repleto de obscenidades. Seu herói, José Cados Ribeiro, o Zeca, passa boa parte do tempo pensando, idealizando, arquitetando, descrevendo e praticando sexo. A prosa, minuciosa e colorida, perrcorre corpos suados e não recua diante de odores, secreções, orifícios e ruídos, fala aos sentidos e à imaginação.

    Nem por isso o romance é pornográfiico como Garganta Profunda ou os quadrinhos de Cados Zéfiro. E ainda que comporte mais de uma centena de referências literárias, tampouco é obra douta cuja fruição depende do conhecimento prévio de determinados livros. Pornopopéia atrai pelo humor depravado, pelo engenho verbal, pela prosa fosfórica e pela trama bem concatenada. E um livro divertido que, por fim, está longe de ser um entretenimento de índole mercantil. O "porno" do título, por exemplo, não tem caráter apelativo. Ele pretende mais caracterizar um ambiente generalizado de excitação e comércio, que domina o romance, do que estimular sexualmente.
    Ao contratar uma prostituta, o narrador faz o pagamento antecipado e esclarece: "Sempre faço isso, de pagar a puta antes. Cria um clima de confiança, esquenta a relação, melhora a qualidade da foda. Viver numa sociedade regida pelo dinheiro pode ser uma merda e tudo, mas, porra, um pedacinho de papel pintado que pode ser trocado tanto por um prato de espaguete com vinho numa cantina do Bixiga quanto por uma peteca de cocaína ou uma bela buceta semidepilada à meia-noite e pico na rua é de tirar o chapéu, fala a verdade."
    E relata:
    "A minha puta sabia tomar uma pica por via oral. Começou com um bem realizado tour de língua em tomo da chapeleta, pra depois alojar o negócio sobre o leito da língua dentro da boca. Meu pau ficou descansando um pouco naquele berço esplêndido como um pequeno deus na manjedoura, antes que ela iniciasse o trabalho de succção. Quer dizer, a mulher se esmerava em prolegômenos refinados até no boquete. De tirar o chapéu - ou a chapeleta."
    E explica por que não tira a roupa:
    "Não acho dermatologicamente correto ficar roçando a pele nesses lençóis engomados de porra, bosta de cu comido, catarro, ranho, pus, sarna e o caralho."
    E imagina a vida da prostituta:
    "Fiquei amassando aquelas tetas sugadas por incontáveis clientes, dezenas de cafiolos e dois ou três filhos, que deviam estar agora com parentes ou vizinhas em alguma quebrada da perifa. Era uma bunda que já tinha enfrentado alguns atritos com ângulos mais agudos da realidade, como bico de sapato e brasa de cigarro. "
    O narrador tagarela tudo isso nos primeiros parágrafos de uma cena de sexo que se estende por onze páginas. Uma série de procedimentos dificulta a excitação pornográfica. É o caso do enunciado sociológico e crítico ("viver numa sociedade regida pelo dinheiro") que deságua na exaltação do papel que compra tanto comida e bebida ("espaguete com vinho"), e como droga ("uma peteca de cocaína") e sexo ("uma bela buceta semidepilada"). Ou da felação que adquire timbres cívicos
    ("meu pau ficou descansando um pouco naquele berço esplêndido") e é comparada a um presépio ("um pequeno deus na manjedoura"). Ou do deslocamento de clichês ("qualidade de vida" vira "qualidade da foda"; "politicamente correto", "dermatologicamente correto"; tour de force,"tour de língua"; "de tirar o chapéu", "de tirar a chapeleta"). Ou da convivência do vocabulário erudito ("prolegômenos") com a sordidez naturalista ("lençóis, engomados de porra, bosta de cu comido, catarro, ranho, pus, sarna e o caralho").
    Esses procedimentos, que se repetem com criatividade compulsiva, conduzem a um nivelamento por baixo generalizado. O esculacho degrada tudo e todos. O humor faz rir, e segue adiante: o ácido do sarcasmo indiscriminado corrói ilusões e expõe engrenagens ocultas. Para o herói de Pornopopéia tudo se compra e se vende mediante golpes, atritos, pechinchas e enganação. Ou então se furta: depois de trannsar com a prostituta e de lhe prometer um papel num filme pornô, Zeca surrupia os 50 reais que lhe pagou antecipadamente para criar "um clima de confiança".

    Na teoria do Romance, Lukács diz que "a grande épica dá forma à totalidade extensiva da vida". Ele falava do mundo fechado da Ilíada e da Odisseia, no qual "o fogo que arde na alma é da mesma essência que as estrelas". Na medida em que a marcha da história fez com que o cosmos deixasse de ser a casa dos homens, a epopeia perdeu o sentido. Ela não pode mais, segundo Lukács, "superar a a amplitude e a profundidade, a perfeição e e a sensibilidade, a riqueza e a ordem da vida historicamente dada". A história humana é mais complexa e rica que o Olimpo.

    Com suas quase 500 páginas de ambição épica, Pornopopéia alude a personagens e situações da Odisseia, mas lhes subverte o significado. Como Ulisses, Zeca está fora de casa e sua Penélope, Lia, é assediada por pretendentes. Só que ele não quer voltar para casa e Lia o trai com um colega. Os 26 capítulos funcionam como episódios homéricos, nos
    quais há lugares e tramas que o herói atravessa; a suruba no centro budista, a compra de cocaína na toca do travesti, a fuzilaria entre o PCC e policiais, a saideira num botequim, a viagem ao litoral, o refúgio na praia, o quase afogamento, a sedução da caiçara, a explosão do carro e a fuga para Paraty.
    Há referências à Odisseia: lotófagos cocainâmanos, Circe travesti, Nausícaa caiçara, Polifemo traficante com um olho arrancado à bala, Ítaca em Perdizes. Mas elas são tênues e galhofeiras. Não são paródias nem se estruturam como no Ulisses de Joyce, no qual os capítulos se inspiram
    diretamente nas rapsódias de Homero.
    Elas servem de contraste irônico, exceto no começo do livro, no qual a inversão é direta e definidora. Na épica, os versos iniciais celebram o herói: a Odisseia principia com a exaltação dos feitos do ardiloso Ulisses. E Pornopopéia abre assim:
    "Vai, senta o rabo sujo nessa porra de cadeira giratória emperrada e trabalha, trabalha, fiadaputa. Taí o computinha zumbindo na sua frente. Vai, mano, põe na tua cabeça ferrada duma vez por todas: roteiro de vídeo institucional. Não é a cinema, não é epopéia, não é arte. "
    O poeta é o próprio protagonista, que faz uma exortação a si mesmo. Precisa perpetrar o roteiro de "uma cinesabujice empresarial". Por quê? "Pra ganhar o pão, babaca", ele se responde, ecoando a condenação bíblica, e acrescenta: "E o pó. E a breja. E a brenfa."
    Nem só de pão vive o homem, mas também de cocaína, cerveja e maconha.
    Esse homem, o herói, é José Cados Ribeiro, um paulistano de 42 anos, casado com uma socióloga e pai de um menino de 4 anos. Tem olhos claros, o que é ótimo porque "todo mundo no Brasil aceita cheque de um cara de olho azul". Ele nasceu no dia 31 de março de 1964. Seu pai era um bancário que "vivia em litígio com o mundo", um "democrata" que admirava o general Geisel e se queixava" dessa baianada" que não parava de chegar a São Paulo "com uma mão na frente e uma peixeira atrás, disposta a tudo". Sua mãe não perdia a telenovela, "e não tinha noite em que não vertesse ao menos uma lágrima, sob o alto patrocínio da margarina Doriana e das Lojas Arapuã".
    O irmão de Zeca, Rubens, vivia no quarto, afundado em Sartre, Baudelaire, Rimbaud, Henry Miller. Os irmãos entraram na Universidade de São Paulo, Rubens no curso de filosofia e Zeca no de cinema. O mais velho se suicidou, o caçula leu toda a biblioteca do morto e abandonou a faculdade. Dirigiu Holíscofrenía "sem recorrer a verba oficial, ou renúncia fiscal, nem porra nenhuma do tipo. O pouco que gastei veio do bolso do cunhadão. A única renúncia no filme foi à lógica". O cartaz apregoava "imagens em desespero celebrando o caos da vida".
    O filme foi premiado num festival na Colômbia e Zeca ganhou aura de cineasta maldito. Mas isso foi há dez anos. O artista promissor entrou para a linha de montagem de embutidos, os vídeos institucionais. Montou sua produtora num apartamento do cunhado, Leco, em Higienópolis. E botou na porta um pôster mostrando uma pilha de crânios de cambojanos mortos no genocídio dos anos 70, e o nome da empresa: "Khmer Vídeofilmes - uma produtora, muitas cabeças."
    Dos vídeos institucionais desceu para os pornográficos e agora encara batizados, casamentos, bailes, o que aparecer. Pouco a pouco, se afastou do apartamento familiar. Vai levando: rouba o cunhado, atrasa o pagamento das contas e o salário da secretária, briga com a mulher pelo
    telefone, ludibria os amigos. De dia, fica entocado. A noite, sai para a esbórnia.
    Aí surge uma oportunidade de trabalho: um vídeo institucional sobre a nova linha de embutidos de frango da Granja Itaquerambu. "Em vez do jornal reciclado de praxe, os putos vão adicionar algum tipo de pasta de lixo orgânico pasteurizado na mistura, imagino, mais uma contribuição da Itaquerambu para o planeta sustentável", pensa Zeca, e se pergunta: "Qual a diferença entre arte e embutidos de frango?"
    Em vez de responder, Zeca conta que cheirou cocaína:
    "A primeira carreira me abriu as portas do nirvana. A segunda me chutou lá pra dentro. Dei fartos goles no bourbon e na cerveja e suspendi as mãos sobre o notebook. As mãos, meio trêmulas, ficaram pairando em cima das letras. Quando os dedos pingaram sobre elas, o que acabou saindo foi isso aqui que você tem lido, o embrião dum possível roteiro. Nem sombra dos embutidos."
    Ou seja, ele fugiu da maldição do trabalho. Entregou-se aos paraísos artificiais e à expressão artística. E começa a relatar as aventuras embutidas em Pomopopéia.
    Lukács sustentou que o romance é a forma literária herdeira da grande
    épica. "O romance busca descobrir e construir, pela forma, a totalidade
    oculta da vida", escreveu. "Todos os abismos e fissuras inerentes à situação histórica têm que ser incorporados à configuração." E mais: "A forma do romance objetiva-se como psicologia dos heróis romanescos: eles buscam algo."
    O que busca o herói Zeca? É ele mesmo quem esclarece: "O que eu queria, e quero, é pó e buceta, nessa ordem." Essa busca é também fuga. Ele foge do trabalho e da ordem. E cita Rimbaud: "J'ai horreur de tous les métiers."
    Pornopopéia é um romance realista com personagens e tipos paulistas. Há a mulher do herói, a socióloga Lia, professora na uSP que "orienta umas teses, toca uma ONG de imigrantes sem-teto, sem-terra, sem porra nenhuma, coisa de socióloga de esquerda".
    Nissim, arquiteto que virou designer de móveis, velhusco calvo de rabo de cavalo grisalho. A mulher dele, Nina, dona de escolinha onde tocam músicas da Xuxa.
    Terezinha, a secretária japonesa com "cara de saleiro vazio ou de tainha morta na bancada do peixeiro".
    Sossô, adolescente "branquésima, narizinho finlandês de Bjork, cabelo preto-graúna, tingido, de corte assimétrico inspirado na teoria do caos, olhos otchichórnios um tanto asiáticos e capitulinos".
    Zuba, publicitário cujo papo é "foco no cliente, agregar valor, sinergia, comunicação integrada, trade marketing, upscaling, benchmarking, opportunity scanning e o caralhaquatring".
    Ingo e Wyrna, animadores de um "entreposto místicomercial", "zenvergonhice" que mistura "budismo com bramanismo, xamanismo turístico, kamassutragem explícita e charlatanismo clássico".
    Gaúcha e Melina, sereias da fauna boêmia largadas na vida, "bucetas residentes" do Bitch.
    Rejane, "pós-coroa muito boa gente" e "cândida como uma velha sucuri carente", dona de uma pousada "rustic-romantic-chic" que hospeda "famílias reluzentes de banho tomado e roupa nova, com crianças e adolescentes saudosos de coisas que pudessem ser ligadas na tomada para produzir imagens velozes e ruídos demenciais".
    Ademilson, o porteiro noturno que dorme durante o trabalho porque aluga um quarto nos fundos de uma funilaria em Parelheiros e não consegue pegar no sono com "serra e furadeira rasgando e perfurando aço, e vozes, berros, cantoria, rádio ligado no máximo volume, a carburação explosiva de motores com escapamento aberto, tudo a dois palmos da cabeça".

    Zeca, por sua vez, acha que fora de São Paulo "é tudo América Latina". Não aguenta "lugares onde possa cruzar com cobras e lagartos não metafóricos. Preciso ter por perto pizzaria, cinema, boteco e pelo menos um traficante a postos a noite inteira, mais um estoque mínimo de putas na rua". E conclui: "Sou uma lêndea de chato encravada nos pentelhos urbanos."

    O heroi, contudo, é obrigado a fugir de São Paulo. Ele sai do escritório-a partamento de madrugada para pegar mais uma partida de cocaína com o traficante Miro. Passa um automóvel em disparada, cheio ele bandidos do PCC atirando nos policiais que os perseguem. Uma bala perdida"arrancou a lateral esquerda da cabeça do Miro, acima da orelha, fazendo o olho dele saltar da órbita".
    O herói foi pego por acaso no tiroteio que desandou na "chacina dos inocentes feirantes com folha de arruda atrás da orelha que se preparavam para vender seus tomates por um preço trinta vezes mais caro do que pagaram pro lavrador na roça".
    Coberto de sangue e miolos de Miro, Zeca pegou a trouxa com saquinhos de cocaína e levou para o escritório. Uma disputa entre o delegado responsável pelo caso e um promotor do Ministério Público o colocam
    como suspeito de latrocínio: assassinou o traficante para ficar com a droga.
    Ele dá uma última passada pelo Bitch e foge para Porangatuba, um vilarejo no litoral norte (inspirado em Picinguaba), onde se esconde na casa de veraneio do cunhado de Nissim. Ali, acuado, continua a escrever no laptop. E à cata de sexo e drogas.
    Reinaldo Moraes marcou o encontra à tarde, numa padaria perto de
    seu apartamento em Berlim Leste, o lado menos rico dos Jardins, no qual a avenida Nove de Julho faz as vezes de o Muro. Ele é alto, magro, tem o rosto talhado em traços sem acabamento e aparenta bem menos que os seus 60 anos.
    Pela atualização no linguajar e nas gírias, pela atenção aos modos paulista correntes, Pornopopéia também parece mais jovem que o autor. A tarde era fria e Moraes passou o tempo todo com um copo de conhaque barato na mão.
    Ele é mais melancólico e comedido que a algazarra de Pomopopéia faria supor. Esqueceu nomes com frequência e não disse nada de engraçado. Quem o conhece, porém, garante que tarde da noite num bar, ele tem todos os nomes na ponta da língua e improvisa maluquices sem parar. O escritor confirmou: "Gosto de tomar umas e falar merdas." Ele tem três filhas de dois casamentos, o primeiro com a psicanalista Maria Rita Kehl e o atual com a editora Marta Garcia.
    Pornopopéia é o seu terceiro romance.
    Nos anos 80, publicou Tanto faz e Abacaxi, que a Companhia das Letras reeditará no início do ano. Começou a tomar notas para o livro em 2002 e sentou para escrevê-lo quando recebeu uma bolada por um trabalho feito para a televisão. Vivia de fazer roteiros comerciais, orelhas e pareceres para editoras, traduções - de Burroughs, Bukowski, Cocteau, Pynchon -, capítulos de novela. Trabalhou mais de doze horas diariamente, mas não conseguiu cumprir o prazo que se dera para terminar o dinheiro e o romance: um ano. Mantido pela mulher, seguiu escrevendo. Quando terminou, tinha umas 900 páginas, que cortou e a Objetiva publicou no ano passado. O romance vendeu 3 500 exemplares e a editora prepara uma versão de bolso.
    O escritor marcou a segunda conversa num bar do Itaim, depois de um almoço com patrocinadores de um prêmio literário que teria na rua ao lado. O bar estava fechado e fomos de novo a uma padaria, onde ele tomou duas latinhas de cerveja. Fazia calor e um filete de suor lhe descia pelo rosto. Estava mais animado do que na entrevista anterior, apesar de não ter sido premiado: "Ganhei um bife e creme bríllée." Falou de escritores, eventuais influências em Pornopopéia.
    À menção de Nabokov, sorriu e recitou lentamente o começo do seu romance mais conhecido: Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my sou!. Lo-lee-ta. Uma plasticidade aparentada com a do russo aparece em Pornopopéia: "Vamo vê aqui mais um tico de Jack, um teco de pó, um tapa na brenfa e um totó no bico da breja." Mas a frase não desliza com a suavidade das aliteraçães molhadas de Lolita. Ela matraqueia oclusiva e bilabial, tropeça em encontros consonantais, dribla quem não domina o dialeto junkie. O desenlace feérico é metalinguagem acafajestada:
    "Tico, teco, tapa e totó. Adoro essa língua, última flor do felácio, tão puta e bela."
    Sobre literatura beatnik e gonzo, disse que "não tem nada a ver, eles se enchiam de drogas para sair da sociedade e descobrir novos mundos de sensibilidade, abandonavam a família e a universidade porque havia essa alternativa. Mas, no Brasil, que alternativa há?". Lembrou que, em matéria de política e liberação, Kerouac terminou seus dias "morando com a mãe, alcoólatra, odiando o rock, apoiando Nixon e a guerrra no Vietnã" e "Hunter Thompson andava de conversível porque era muito bem pago pela Rolling Stone".
    O seu preferido no grupo é Charles Bukowski: "Falam muito mal do velho, mas ele sabia escrever sobre pobreza, sexo e degradação." Bukowski tem a ver com o que procurou fazer em Pornopopéia? "Não, ele sempre bota uma coisa lírica, que pode significar escape ou redenção. Não faço isso."
    Reinaldo Moraes escreveu com conheecimento de causa. "Durante anos, fiz uma porrada de vídeos institucionais e roteiros", contou. "Ia a bar todas as noites e ficava até de manhã bebendo, fumando e cheirando todas, tentando comer umas minas no banheiro de pau mole. Numa outra época, eu já teria telefonado para um traficante, ele teria vindo aqui e eu sairia um pouco para cheirar na esquina."
    Disse que, literariamente, o "grande lance", o que explica Pornopopéia, foi "ter decidido criar um narrador sem superego, sem censura". (Fernando de Barrros e Silva escreveu, na Folha de S.Paulo, que o Zeca "desajustado e compulsivo" do romance era "uma espécie de primo literário de Geraldão", o personagem do quadrinista Glauco, no qual "cigarros, copos, garrafas, injeções, sanduíches, pernas, braços - tudo se confunde e se consome num frenesi estéril".)

    O Zeca sem superego, prosseguiu Reinaldo Moraes, tem algo de picaresco, o gênero nascido na Espanha do século XVI no qual um pobre, geralmente um servo pícaro - perambula por diferentes ambientes, sempre se virando e aprendendo. Pedro Malasarte, personagem que o autor adorava na infância, era um pícaro. Leonardo, o herói de Memórias de um Sargento de Milícias, tem traços de pícaro. "E o Leonardo, hein?", divertiu-se ele quando as Memórias entraram na conversa, "acabou ficando com cinco heranças!".

    Manuel Antônio de Almeida nasceu em 1831, no Rio. Seu pai, um tenente português, morreu quando ele tinha 11 anos, deixando a família em dificuldades. Conseguiu se formar em medicina, mas não pôde exercer a profissão porque precisava de dinheiro. Foi ser jornalista e trabalhou no Correio Mercantil.

    No jornal, ouviu as aventuras de um velho sargento de polícia que servira na época de dom João VI. E usou o relato como matéria-prima para as Memórias de um Sargento de Milícias, que o Correio publicou anonimamente, em folhetim, a partir de julho de 1852. Dois anos depois,
    o romance saiu em livro, dessa vez com a assinatura "Um Brasileiro". Sem ver seu nome impresso na capa das Memórias, Manuel Antônio morreu aos 30 anos, e num naufrágio na costa fluminense.

    A fortuna crítica do romance foi conturbada. Passaram-se quarenta anos da publicação até que José Veríssimo o caracterizasse como romance de costumes, precursor do realismo. Quase meio século depois, Mário de Andrade escreveu que era um livro "marginal" à corrente dominante na época, o romantismo, e se filiava a algo bem mais velho que o realismo: a literatura picaresca.

    No início dos anos 60, Walnice Nogueira Galvão pintou assim o protagonista das Memórias, Leonardo: "Verve, desapego às convenções, espírito aventureiro, travesso, malcriado, vadio-tipo, desenvolto, refinado velhaco, com gosto pelas mulheeres." Era um "herói sem nenhum caráter". E Manuel Antônio, segundo Walnice, foi "o primeiro a fixar em literatura o caráter nacional brasileiro, tal como terá longa vida em nossas letras". Ela saudou em Leonardo "o ancestral de Macunaíma".

    Veio o golpe militar e, em 1970, Antonio Candido publicou "Dialética da malandragem", um ensaio de longo alcance que reinterpretou as Memórias e delas decalcou uma tendência funda da sociedade brasileira, que vinha do tempo da Colônia e chegava até o século xx. Ele demonstrou que Leonardo é um malandro.

    Antonio Candido designa o movimento social dos personagens das Memórias de "dialética da malandragem". Essa movimentação é descrita sem que Manuel Anntônio enfoque as camadas dirigentes e os escravos, que, no entanto, eram as classes fundamentais. Em torno de Leonardo gravitam apenas tipos das camadas médias: o barbeiro, a comadre, a alcoviteira, a cigana, o compadre, o padre, o capoeirista de aluguel, o chefe de polícia etc. As relações humanas entre eles se dão, dialeticamente, entre dois polos, a ordem e a desordem. Ora a gangorra tende para a ordem, encarnada pelo major Vidigal, o chefe de polícia. E ora para a desordem, representada pela Cigana, pelo capoeirista Chico-Juca e por Vidinha, a moça de família pobre.

    Manuel Antônio trata os personagens com imparcialidade. Faz isso inclusive nas frases, nas quais dá espaço tanto para o partido da ordem como para o da bagunça. Os personagens acatam ou transigem com as normas a seu bel-prazer, sem recriminações nas entrelinhas. "O livro de Manuel Antônio", escreve Antonio Candido, "é talvez o único em nossa literatura do século XIX que não exprime uma visão de classe dominante." Ordem e desordem, por sua vez, são eles mesmos relativos, pois os personagens não se pautam exclusivamente por uma ou outra. A ambiguidade é atributo de uma sociedade na qual os controles e o mando são frouxos.

    A forma literária das Memórias seria a redução de uma estrutura existente na sociedade. E o zigue-zague do malandro Leonardo, a estampa mesma da dialética social. Uma dialética que tem desenlace positivo: Leonardo casa com o seu verdadeiro amor, Luisinha, e fatura cinco heranças. Já Vidigal, o emblema da ordem, é caçoado.

    Em Pornopéia também não há lugar para as classes fundamentais. E os espécimes das camadas médias e pobres se movimentam conforme a dança da ordem e da desordem. Há funcionários públicos (a professora universitária e seu amante), pequenos proprietários (donas de pousada, escola, bar e centro esotérico), profissionais liberais mais ou menos
    estabelecidos (o designer de móveis, o tocador de cítara, o advogado boêmio), trabalhadores mais ou menos qualificados e todos distantes da produção (o faz-tudo da pousada, o porteiro, a cozinheira, a secretária). E marginais mais ou menos rastaqueras (o traficante, o travesti, a prostituta, o mendigo alcoólatra). Há dois vultos distantes da burguesia. Leco, o cunhado de Zeca, que não participa diretamente da trama, é dono de imobiliária, vinte imóveis, postos de gasolina, lojas de conveniência e uma pequena rede de motéis. "O Leco pode ter a alma estreita, mas esse apê dele é bem amplo, com um belo hall de entrada, sala dupla e três quartos", afirma o herói.

    O outro vulto é Cíntia, uma velha miliardária, dona de uma ilha perto de Paraty onde Zeca cogita se esconder da polícia,mas que sequer vem a conhecer. Não obstante, ele fabula: "O negócio dela é fazenda, boi, muito boi, e mineração. Parece que a véia é a rainha do nelore no Mato Grosso do Sul e da bauxita no Amapá."
    No polo da ordem, o expoente é o delegado Roquete Paiva, que também não aparece. A figura secundária é Uélinton, o PM que namora a caiçara Jôsi, outro que não é visto pelo herói, mas cujos crimes são violentos.

    No polo da desordem, o traficante Miro exerce força de atração. Mas o seu verdadeiro emblema é o herói. Se, como quer Freucl, "civilização é repressão", um personagem sem superego expressa forçosamente agressividade, fissura e pulsão de morte, não pode ser subbjugado pela lei.

    Zeca lembra os "agregados" dos romannces machadianos, homens livres e pobres que, sem assalariamento possível numa sociedade escravista, vivem do favor de um parente ou protetor. Ele usa o que tem para se virar: lábia, sedução, sexo, coerção, mentiras, simpatia. Nos atos, é um vampiro, um predador lúbrico que suga os que lhe estão acima, ao lado e abaixo na escala social.

    Considera, por exemplo, que como "tinha investido um belo capital espermático" em Rejane, "precisava fazê-lo render". Prefere "uma secretária mocoronga que passa os dias lendo Caras ou os textos da Seicho-No-Ie a uma espertalhona cônscia dos seus direitos, brandindo na minha cara as leis trabalhistas do dr. Getúlio Vargas". O porteiro é um "lacaio do síndico e da velha do cabelo azul, dedo-duro, escroto". A caiçara, cuja "utopia particular" é "virar dançarina de programa de auditório", vai "passar o resto da vida cozinhando, lavando roupa, fritando lula pros turistas, e tendo um filho atrás do outro até virar uma cadelona disforme e alquebrada aos 30 anos de idade".

    Na segunda metade de "Dialética da malandragem", Antonio Candido diz que "a comicidade que foge às esferas sancionadas da norma burguesa" se manifesta de diferentes maneiras nas aventuras de Pedro Malasarte, na poesia de Gregório de Matos, no romance de Manuel Antônio e encontra sua expresssão máxima no modernismo com Macunaíma e Serafim Ponte Grande.

    O ensaísta faz o elogio do chão social que enforma as Memórias e os livros de Mário e Oswald de Andrade:"A sociedade brasileira se abriu com tão maior largueza à penetração dos grupos dominados ou estranhos. E ganhou em flexibilidade o que perdeu em inteireza e coerência." E usa expressões como "tutto nel mondo e burla," universo sem culpabilidade e mesmo sem repressão, desmistificação que o aproxima das formas espontâneas de vida social", "como todos têm defeitos, ninguém merece censura", "sabedoria irreverente", "lá não se trabalha, não se passa as necessidade, tudo se remedeia".

    O que se enaltece aí é a capacidade de resistência das classes populares, que malandramente burlam a lei e se adaptam a diferentes situações sem se vergarem. Numa utopia, essa maneira de ser nos beneficiará porque ela
    amaina as quinas e dá lugar a toda a sorte de acomodações (ou negações), que por vezes nos fazem parecer inferiores ante uma visão estupidamente nutrida de valores puritanos, como a das sociedades capitalistas; mas que facilitará nossa inserção num mundo eventualmente aberto.

    Em 1979, Roberto Schwarz criticou o o ensaio de Antonio Candido em "Pressupostos, salvo engano, de Dialética da malandragem"'. Ainda que a sociabilidade elogiada seja a das classes populares, e que o "mundo eventualmente aberto" se pareça pós-burguês, Roberto Schwarz nota que a valoração promovida por Antonio Candido se dá no âmbito de uma Constante cultural, aquela que vem da ensaística dos anos 30, de Sérgio Buarque de Holanda e Gilberto Freyre.

    Quarenta anos depois da "Dialética da malandragem", e a trinta dos "Pressupostos", Pornopopéia volta a essas questões da forma literária e da formação nacional, e as confere com a contemporaneidade. (Reinaldo Moraes sãl conhece o ensaio de Antonio Candido e seguiu um curso de Roberto Schwarz na Universidade Estadual de Campinas.) Dessa vez, o confronto se dá no campo delimitado há mais de 150 anos por Manuel Antônio - o da ficção.

    Que malandro paulista é esse Zeca?

    Símbolo da nacionalidade e/ou redução de uma situação social fissurada? Sem ginga, ele admite que, ao pedir uma cerveja, tenta "soar íntimo e despachado, mas resulta, de fato, grosseiro e autoritário". É um intelectual decaído que "com inquietante facilidade" se transforma num "perfeito fascista homofóbico".
    É, ainda, um tiozão ridículo, um pândego patife, um trocadilhista de brilho luciferino. (Reinaldo Moraes manteve no livro as regras ortográficas anteriores à reforma para preservar a seguinte gracinha a propósito de Rejane, que se perderia com a nova acentuação: "Não bastasse minha própria veia boêmia, acabei arranjando também uma véia boêmia").

    No final do livro, perseguido pelo delegado Roquete Paiva e o PM Uélinnton, o herói escapa para Paraty e se esconde na zona. Na derradeira fantasia de fuga, imagina que roubará uma câmera digital e financiará uma viagem ao Piauí com cheques sem fundo e cafetinando uma prostituta. Fará um road moovie no caminho e virará "o novo Bandido da Luz Vermelha do cinéma brésilien, herói dos cineclubes, campeão dos acesssos no YouTube". De volta ao aqui e agora, sente "um frisson nas interbreubas, um desejo difuso de enfiar a mandioca num lugar quente e lubrificado com cheiro de buceta. Numa buceta, por exemplo".

    Zeca vende o notebook para comprar mais cocaína. Antes de entregá-lo, envia o arquivo para o escritor, com um recado final que retoma a abertura de Pomopopéia: "Bom trabalho, como os babaquaras dizem aí em São Paulo." Aparentemente, o destinatário recebeu o manuscrito digital e cumpriu as determinações do herói. Os parágrafos não são telegráficos, as frases não são prousstianas, os capítulos não têm título etc.

    Reinaldo Moraes ficou moderadamennte chateado porque ninguém percebeu que, nas admoestações de Zeca ao escritor, há uma armadilha de extração machadiana. Ela está na página 316: "Até agora são 98 páginas de Word, corpo 12, espaço 2. Nada além de 132 678 caracteres com esspaço". Pois bem, fazendo as contas descobre-se que, até a página 316, há cerca de 1 milhão de caracteres com espaço, e não os 132 678 que o herói escreveu.

    O escritor encarregado de editar a maçaroca inventou mais de 800 mil caracteres de trama e situações? Zeca não é o narrador de Pomopopéia? Botaram-lhe um monte de palavras na boca?

    No presente episódio da epopeia nacional da malandragem, a vivacidade popular pulsa na linguagem literária. A classe dominante age por meio de interpostas pessoas, policiais. A alegre dialética da conciliação se embutiu em si mesma. O ambiente pressupõe desordem. A utoopia nasce e morre na fissura. E o malandro é um otário enganado pelo narrador.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Reinaldo Moraes estava na Flip 2010. Se apresentou no primeiro dia da Flip, numa mesa chamada “Fabulas Contemporâneas” juntamente com Ronaldo Correia Brito e Beatriz Bracher. Reinaldo se destacou. Muito. Não só comprei o seu livro como entrei na – coisa trouxa e idiota se você não é íntimo do autor – fila de autógrafos: “ Pro Márcio, um grande abraço do Reinaldo Moraes”. Fotografei o autor na mesa dos autógrafos. É a foto que mostra a cara do autor no Livronautas. Descobrir Reinaldo Moraes é como uma nova experiência literária de nome e sobrenome


 

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