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Resistência

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Resistência

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Autor: Agnès Humbert

Editora: Record

Assunto: Memórias

Traduzido por: Regina Lyra

Páginas: 320

Ano de edição: 2008

Peso: 500 g

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Ótimo
Marcio Mafra
08/09/2010 às 17:39
Brasília - DF

No primeiro momento o leitor tem a impressão de que se trata de mais um livro sobre a 2ª Guerra Mundial. A produção literária de autores, principalmente judeus, sobre este tema inundou o mundo entre os anos 50 e 60. Inclusive no Brasil. Consta que a Livraria Amazon, dos EUA, catalogou a existência de 54.673 livros sobre a 2ª Guerra Mundial. O leitor poderá achar curioso que o livro de Agnès Hubert possua 69 páginas de “Post Facio”. Assim, Resistência pode parecer mais do mesmo. Essa mesmice é um tanto difícil de ser entendida, revivida ou bem compreendida pelos brasileiros porque - com exceção de uns poucos combatentes – o Brasil não sofreu os horrores da guerra, salvo pelos militares que foram enviados à Itália quase no final da guerra. Resistência é a transcrição das anotações que fez a autora, logo após o final da guerra (originalmente foi editado em 1946) é um comovente diário, que se inicia em Paris, no dia 7 de junho de 1940 e termina em 11 de junho de 1945. O relato é cru, brutal e nojento tanto na descrição dos massacres dos prisioneiros, como pelo desmoronamento da falsa eficiência nazista. Por vezes se parece com a narrativa do Jonathan Littel, em As Benevolentes. Só que Littel fez uma obra de ficção, enquanto Agnès Humbert escreveu a história de seu proprio sofrimento e da maior parte de sua existência. O livro começa quando da invasão da França pela Alemanha de Hitler. Daí em diante muda totalmente a vida da historiadora de arte e de seus colegas de profissão que trabalham no Museu do Homem em Paris. Agnès fundou um dos primeiros grupos de resistência francesa, que foi o jornal Résistance. Em 1941 todo o grupo é traído por um espião infiltrado no grupo e eles são presos e entregues à Gestapo. Os homens foram fuzilados e as mulheres foram deportadas para a Alemanha como trabalhadoras escravas. A narrativa fala também das humilhações sofridas pelos soldados franceses aprisionados e tratados como animais. Todo o livro é um testemunho vigoroso da oposição à ocupação nazista da França e dos desdobramentos trágicos que culminaram em prisão, deportação e mesmo execução daqueles que militaram contra o governo de Vichy. Governo de Vichy foi a denominação do governo do Primeiro-ministro Philipe Pétain, com sede em Vichy. No prefácio da edição brasileira de Resistência, assinado por Marina Colassanti consta que as mulheres sempre perdem a guerra. Agnès Humbert provou o contrário.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

As memórias de Agnès Humbert começam no Palácio Chaillot em 7 de julho de 1940 na época da a invasão de Paris pelo exército de Adolf Hitler, que acabou por dividir o território Frances em duas partes. Uma parte era administrada pela Alemanha, com sede em Paris e a outra pelo Primeiro-ministro Philipe Pétain, com sede em Vichy. Agnès, historiadora da arte e etnógrafa, junto com uns poucos intelectuais criou o movimento chamado Resistência. Em meio caminho de sua atividade foi presa pela polícia alemã, condenada e enviada para trabalho escravo em território alemão, onde permaneceu até a chegada dos aliados, em 11 de junho de 1945.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Krefeld, 11 de abril de 1942
Por volta de uma da tarde, recebemos uma ordem para nos preparar.
Agrupadas em trios no pátio, lá vamos nós, escoltadas por duas guardiãs e dois cavalheiros que, ao que tudo indica, são guardas da fábrica. Nos obrigam a marchar no meio da rua, como soldados. Não consigo falar com Denise; os alojamentos não devem se misturar ... Passamos diante de uma loja de roupas femininas, há uma vitrine enorme, me vejo nela. Esta camponesa velha que claudica, calçada com coturnos ridículos e penteada de forma grotesca sou eu ... Preciso erguer a mão direita para me convencer de que a imagem que o espelho me devolve é realmente a minha ... Sim, a velha sou eu, pois a velha no espelho da loja ergue a mão direita ... Como eu ... Minha aparência é igual à de todas estas mulheres, tão feia e tão miserável quanto a delas. É horrível ser humilhada, andar na rua sob a luz do sol desse jeito ridículo! As outras mulheres na calçada - as ladies - ostentam belos vestidos, já meio primaveris ... Essa espécie de tristeza que me fecha a garganta é pueril. Não há por que me envergonhar de desfilar assim submissa pelas ruas de Krefeld ... Sim, é claro, debato comigo mesma, mas se ao menos tivéssemos, Kate, Denise e eu, as cores do nosso país, um broche que fosse, um tantinho que nos diferenciasse das ladras, das assassinas alemãs com as quais nos confundem ... O homem (e a mulher) é realmente um ser medíocre, uma vez que para acalmá-lo - para poupá-lo de uma humilhação aguda - bastam simplesmente três pedacinhos de fita grudados com linha!
Mandam que subamos num bonde particular. O trajeto dura cerca de meia hora. O que vemos da cidade me interessa. As casas são harmoniosas, esmeradas. As janelas, muito elegantes - com cortinas, naturalmente -, estão todas floridas. Entramos no campo, as árvores frutíferas desabrocham ... Que consolo esta escapada em meio à natureza ... Atravessamos uma velha aldeia que conserva a torre de seu castelo feudal, torre que, provisoriamente, se acha coroada por uma construção de madeira ... Defesa Antiaérea, sem dúvida. Passada a aldeia, mais um refresco através dos campos. Ao longe, vislumbramos um bosque. Como tudo isso é bonito para olhos que não contemplam a natureza há tanto tempo ...
Finalmente, a fábrica. É imensa, cercada de vilas operárias e de outras fábricas. Ao longe, uma grande ponte suspensa. As placas da estrada nos informam que se trata da Adolf-Hitler-Rheinbrücke ... A fábrica de tijolos vermelhos engloba vários prédios avantajados, todos muito modernos e esbanjando harmonia. O primeiro pátio é ornado de flores e grama. O prédio principal possui uma torre enorme que me faz lembrar, em escala muito maior, a torre do Palácio Vecchio de Florença ... Esqueço a minha aparência fisica tamanha a felicidade de contemplar algo novo, algo novo que me agrada, porque tudo aqui parece repleto de ordem e harmonia. O pátio em torno do qual as construções se agrupam é sulcado de trilhos - vários vagões de estrada de ferro se encontram ali ... Um deles vem da França ... "Homens: 40; cavalos em pé: 8." Nem homens nem cavalos, mas toneladas das nossas magníficas batatas ... São tantas que os alemães andam sobre elas ... Por que se incomodar com isso, a troco de quê? Minha mudança de humor é contida quando vejo ao longe, atrás da fábrica, duas grandes estufas ... A fábrica tem suas próprias flores ... Acho que na França não existe nada semelhante. Mas deveria existir. Todas essas flores dão um aspecto tão alegre, tão vivaz, tão humano a construções racionais e austeras. A fábrica se chama "Phrix. Rheinische Kunsttseide Aktiengeselschaft", mas Kate vai logo dizendo que o nome pelo qual a conhecem é mais curto: "Rheika".
São duas da tarde. Entramos. Na escada, um quadro de avisos. Daqui a pouco tentarei decifrar alguns. Um punhado deles é escrito em francês ... Estamos numa sala imensa. A estrutura é metálica, toda pintada de verde, e o chão, esmeradamente assoalhado e encerado. E por todo lado as pilhas de rolos, de formatos e tamanhos diversos, de seda brilhante e alva nos fazem pensar em milhares de noivas. Harmonioso salão branco e verde. Os carretéis giram em todos os sentidos. Obviamente, nos cabe enrolar as meadas de seda, "bobinar". Sou posta diante de uma máquina em que tudo parece girar e mexer com perfeita regularidade. Explicam-me o trabalho ... Não parece difiicil a contramestra é amável. Meus pés me doem horrivelmente, terei de ficar horas em pé ... Tenho uma idéia: peço permissão para descalçar meus coturrnos (meu calcanhar já está sangrando) e enrolar os pés nas gazes de seda jogadas no chão à minha volta. São gazes para acondicionar as meadas. Parecem pernas de meias. Imediatamente me concedem o que pedi. A contramestra chega a dar a impressão de sentir pena de mim. Trabalho sob a supervisão de uma operária alemã.Vai ser duro ficar de pé. Fora isso, acho que serei capaz de agüentar. Kate me faz sinal de que também com ela vai tudo bem. Vejo as operárias civis beberem garrafas de água gasosa - na verdade, temos sede -, sem dúvida o pó da seda que engolimos resseca a garganta. Lá adiante há um pequeno bebedouro, construído de forma bastante engenhosa, que permite beber água sem correr o risco de contaminação. A guardiã me informa com grosseria que esse bebedouro não é para o uso das prisioneiras. Não tenho o direito de me afastar da minha máquina - sob nenhum pretexto. Ela me acompanhará ao toalete duas vezes ao longo do expediente. Só isso. Nos toaletes, nem pensar em beber água. Também é proibido. Passei diante do quadro do mural e pude ler ali um aviso impresso em francês. O texto integral e preciso era o seguinte: "Existe em Krifeld, na Mittelstrasse, 46, um bordel (casa de prostituição) com moças estrangeiras. APENAS esta casa lhes é permitida." Abaixo uma assinatura ilegível de algum "figurão" da diretoria. Faz três
horas que cheguei à fábrica Phrix, deixei-me seduzir pela aparência externa, por essa harmonia à qual sou sensível - esqueci-me durante três horas de que estamos na Alemanha hitlerista, onde floresce, ao mesmo tempo em que florescem as plantas que ornamentam a fábrica, a prostituição transformada em instituição municipal, se não nacional, a prostituição e o racismo. "Moças estrangeiras" ... Sabemos o que isso quer dizer ... Durante três horas me esqueci de onde estava ... Lembrei-me agora! Nos concedem uma pausa para o lanche e nos levam, em trios, atravessando o pátio, até um outro prédio. Subimos uma grande escadaria muito elegante. Nas paredes, excelentes gravuras em madeira ilustram contos folclóricos. O salão do restaurante é imenso. Ao fundo, dois pianos, um contra o outro. O salão também serve de cinema. Praticamente não há paredes ... Os dois lados da sala são envidraçados e cobertos por cortinas brancas com estampas vermelhas ao estilo tirolês. É uma beleza. Menos belo é o retrato de Adolf que arremata o cenário. Nas paredes, escritos numa caligrafia bastante elegante, conselhos do mesmo Adolf aos operários. Estes textos constituem,juntamente com o retrato, a decoração do fundo do salão. À esquerda, próximo à porta, uma cozinha que percebemos através de biombos de vidro. Enormes marmitas elétricas esquentam a comida de milhares de operários. Os cozinheiros se vestem de branco. Claridade e limpeza evocam a imagem de um fantástico laboratório. Passamos, uma após a outra, por um guichê. Nos servem uma sopa excelente, que tomaremos em grandes mesas de madeira maciça, lavadas depois de cada refeição. Tudo isso é realmente ótimo, sim, mas ... Há o aviso na escada do outro lado do pátio: "um bordel (casa de prostituição) com moças estrangeiras. Apenas esta casa ... lhes é permitida ... "
Tudo iria muito bem sem o retrato no fundo do salão, sem os conselhos aos operários, sem prostituição, sem racismo, ou seja, sem Hitler ... Não posso me deixar iludir por esta encenação que agrada ao meu gosto de civilizada e acaricia meu senso de estética. As festas hitleristas que vi em Nuremberg - que vi no cinema - eram bonitas ... O avesso dessas festas é a guerra, o assassinato de homens, o assassinato da mente.
Às oito da noite, nos dão outra sopa. As porções são muito grandes, as alemãs comem dois ou três pratos. Eu me pergunto como conseguem digerir tão rapidamente tamanha quantidade de comida!
Encarregaram Kate de me avisar que o diretor de Anrath faria uma inspeção e que eu deveria adotar a posição de sentido quando ele passasse. A visita anunciada não tardou. Vejo um indivíduo de jaquetão cinza, chapéu de feltro, insígnia do Partido na lapela. É baixo, moreno, de aparência oriental. Rosto delicado, inteligente. Pára à minha frente, indaga com brutalidade por que tirei os sapatos. Explico. Ele responde:
- Muito bem.Você será severamente punida. E com essa promessa se afasta.
Às dez da noite nosso expediente se encerra. Somos postadas, à espera do bonde, na porta da fábrica. Uma chuva à qual se mistura um pouco de neve nos congela. Estava tão quente na fábrica! Não tenho casaco. Kate finge não precisar do seu - não é verdade, tenho certeza -, insiste e, finalmente, aceito com alegria o que já foi, ao que parece, uma camisola, uma vestezinha cinzenta de mangas curtas.
De todos os lados, os refletores iluminam o céu. Apesar da chuva, esperase, sem dúvida, um alarme.
Minhas pernas doem um bocado, estão muito inchadas. Faz um ano que não saio da minha cela onde a maior parte do tempo eu passava deitada e eis que de repente me vejo jogada numa fábrica onde executo um trabalho inusitado.
Deito para dormir empilhando sobre os pés toda a minha roupa e a trouxa de palha que me serve de travesseiro. Espero me sentir melhor amanhã.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Denise Abreu, advogada que trabalhou comigo na CDL, me presenteou este Resistência no meu aniversário de 2008


 

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