carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Os Cus de Judas

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Os Cus de Judas

Livro Ótimo - 1 comentário

  • Leram
    1
  • Vão ler
    1
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    1

Autor: Antonio Lobo Antunes

Editora: Marco Zero

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português (de Portugal)

Páginas: 174

Ano de edição: 1984

Peso: 205 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Ótimo
Marcio Mafra
02/07/2010 às 14:22
Brasília - DF

Embora o título adotado para o livro possa aparentar linguagem chula, em verdade “Os Cus de Judas” é uma expressão idiomática dos portugueses, principalmente dos originários da Ilha da Madeira, e significa um lugar muito distante, um lugar perdido no tempo e no espaço. Significa, também, além de longe, um lugar ruim. Os Cus de Judas foi uma das primeiras publicações de Lobo Antunes e conta uma história – nua e crua – numa linguagem dura do personagem, que mostra suas duas facetas, uma do médico de campanha, servindo no exército português, que tenta arrumar sua cabeça desarranjada pelo que viveu no palco da guerra civil de Angola e a outra que luta contra a solidão em que se tornou a sua vida. Ao longo do livro, o leitor se depara com uma Angola destruida e degradada pela guerra colonial. A experiência, narrada pelo autor é cruelmente destacada não só pelas absurdas baixas dos militares, completamente desprezadas pelo Estado português, como também pela insignificância das vidas dos civis angolanos, dizimadas sem dó nem piedade, incluindo a população pobre e as crianças que – mesmo antes da guerra civil, já viviam nas mais miseráveis das condições humanas, típicas do continente africano, vilipendiado desde o século XV. Os Cus de Judas alterna o relato das tragédias de Angola com as lembranças da juventude do narrador. A leitura é densa, gostosa e carregada de emoções e reflexões sobre a guerra e a própria vida, ainda que por vezes permeie a dificuldade da leitura no original de Portugal. Livro mais que bom!


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história dos 27 meses, entre os anos 1971 e 1973, de vida degradante, pestilenta, canalha e mórbida de um soldado que servira o exército colonial em Angola, como integrante das forças armadas portuguesas, para guerrear contra os angolanos que tinham a petulância de falar em “separação de Portugal”, nos tempos da PIDE e da maldita ditadura de Salazar.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Lisboa, mesmo a esta hora, é uma cidade tâo desprovida de mistério como uma praia de nudistas, onde o revelador do sol exibe brutalmente nádegas planas e peitos sem cones de sombra a aprofundá-los, que o mar parece abandonar na areia à laia dos seixos sem arestas da vazante. Uma noite de cartório notarial, em cujos lençóis de papel selado ressona timidamente um povo de terceiros-oficiais resignados, transforma as casas e os prédios em tristes jazigos de família, no interior dos quais os casais azedos esquecem por algumas horas as suas querelas minúsculas, para se assemelharem a estátuas jacentes de pijama de riscas, que o despertador à cabeceira da cama empurrará em breve para quotidianos frenéticos e cinzentos. No Parque Eduardo VII, os homossexuais surgem do escuro à aproximação dos carros, oferecendo de entre os arbustos os trejeitos de medusa de plástico dos seus gestos e a vibração de pestanas das pálpebras míopes, que o excesso de rímel sublinha de promessas duvidosas. Do outro lado da rua, o Palácio da Justiça, ainda não invadido pelos sorrisos ferrugentos de cárie das prostitutas que dividem com os insetos o duche de claridade pálida dos candeeiros das redondezas, preenchia uma espécie de plataforma de relva do seu imenso volume reprovador: ali dentro, diante de um juiz desinteressado, ocupado a palpar cautelosamente um furúnculo do pescoço, o meu casamento terminará sem grandeza nem glória, após vários meses lancinantes de reencontros e separações, que me retalharam de angústia os destroços de um longo inverno de aflição. Separamo-nos, sabe como é, numa paz feita de alívio e de remorso, e despedimo-nos no elevador como dois estranhos, trocando um último beijo em que morava ainda um resto indigerido de desespero. Não sei se consigo aconteeceu assim, se por acaso conheceu a agonia dos fins de semana clandestinos em estalagens à beira·mar, numa desordem de ondas cor-de-chumbo esmagadas contra o cimento lascado da varanda e as dunas a tocarem o céu baixo de nuvens idêntico a um teto de estuque esfarrapado, se abraçou um corpo que ao mesmo tempo se ama e se não ama na pressa ansiosa com que os macacos pequenos se dependuram dos pêlos indiferenntes da mãe, se jurou sem grande convicção promessas precipitadas, mais decorrentes do pánico da sua angústia do que de uma ternura generosa e verdadeira. Durante um ano, percebe, tropecei de casa em casa e de mulher em mulher num frenesi de criança cega a tatear atrás do braço que lhe foge, e acordei muitas vezes, sozinho, em quartos de hotel impesssoais como expressões de psicanalistas, unido por um telefone sem números à amabilidade vagamente desconfiada da recepção, a quem a minha bagagem exígua intrigava. Estraguei os dentes e o estômago em casas de pasto todas semelhantes aos restaurantes das estações de estrada de ferro, de que a comida sabe a carvão de coque e a lenços úmidos do ranho já saudoso das despedidas. Freqüentei sessões da meia-noite, de nuca arrepiada pela tosse do solitário ào banco de trás, que lia as legendas em voz alta para se inventar uma companhia. E descobri, uma tarde, sentado numa esplanada de Algés, na borbulhosa presença de uma garrafa de água das Pedras, que estava morto, entende, morto como os suicidas do viaduto que de quando em quando cruzamos na rua, pálidos, dignos, de jornal dobrado no sovaco, os quais desconhecem que faleceram e cujos hálitos cheiram a almôndegas com puré de batata e a trinta anos de funcionário exemplar.
Não sente uma espécie de choque interior diante das vitrinas apagadas, idênticas ao olho ausente àos estrábicos? Em pequeno imaginava muitas vezes, estendido na cama, de músculos retesas no pavor de adormecer, que toda a gente desapaarecia da cidade e eu circulava nas ruas vazias perseguido pelas órbitas ocas das estátuas que me vigiavam com a implacável ferocidade inerte das coisas, petrificadas na atitude artificial e pomposa das fotografias da época heróica, ou evitando as árvores de que as folhas tremiam numa inquietação marinha de escamas, e mesmo hoje, sabe como é, continuo a pensar-me sozinho na noite destas praças, destas melancólicas avenidas sem grandeza, destas transversais secundárias como afluentes, arrastando consigo capelistas suburbanas e cabeleireiros decrépitos, Salão Nelinha, Salão Pereira, Salão Pérola do Faial, com penteados de revistas de modas colados ao vidro das janelas. Em casa, a alcatifa bebe o som dos meus passos reduzindo-me ao eco tênue de uma sombra, e tenho a impressão, ao barbear-me, que quando a lâmina me retirar das bochechas as suíças de Papai Noel mentoladas da espuma, apenas ficarão de mim as órbitas a boiarem, suspensas, no espelho, indagando ansiosamente pelo corpo que perderam.

Como no Chiúme, entende, no Natal de 71, primeiro Natal de guerra após quase um ano na mata, um ano de desespero, expectativa e morte na mata, em que acordei de manhã e pensei: É dia de Natal hoje, olhei para fora e nada mudara no quartel, as mesmas tendas, as mesmas viaturas em círculo junto ao arame, o mesmo edifício abandonado que uma granada de bazuca destruíra, os mesmos homens lentos a tropeçar na areia ou acocorados nos degraus desfeitos da messe de sargentos, coçando em silêncio a flor-do-congo dos cotovelos como mendigos nas escadas de uma igreja. Acordei de manhã e pensei É dia de Natal hoje, vi o céu de trovoada do lado do rio Quando e a eterna segunda-feira do costume no cansaço dos gestos, o calor escorria-me das costas em grossos pingos pegajosos de gordura, e disse dentro de mim Não pode ser há qualquer coisa de errado nisto tudo, o pijama demasiado largo não parecia conter em si ossos e carne nenhuns e eu achei que não existia já, o meu tronco, os meus membros, os meus pés, não existia para além de um par de pupilas piscas que espiavam, surpreendidas, a planície da chana e a seguir à chana as árvores acumuladas na direção do norte de onde chegava o avião da comida fresca e do correio, eu era só essas pupilas espantadas que fitavam e que hoje reenncontro, mais velhas e descoloridas, no espelho do banheiro, após o arrepio nos ombros da primeira urina, vociferando para o próprio reflexo um apelo mudo sem resposta.

Dias antes havia partido de coluna uma companhia de páraquedistas apoiada por helicópteros sul-africanos, chegados do Quito-Quanavale para uma operação excessiva e inútil na terra dos Luchazes, e todas as noites os pilotos, enormes, louros, arrogantes, se embebedavam com estrépito quebrando copos e garrafas e desafinando canções em alrikander, comandados por um David Niven esquecido da dieta, que considerava numa indulgência de nurse os subordinados a vomitarem cerveja amparados uns aos outros, verdes de aflição e agonia:
- If you worry you die. If you don't worry you die. So, why worry?
Os oficiais pára-quedistas, estritos e graves como seminaristas laicos, abraçando contra o peito os crucifixos das armas, fitavam reprovadores aquele pandemônio de arrotos e de cacos, movendo silenciosamente os lábios em padre-nossos militares. O capitão, em quem morava o espírito Modas & Bordados de uma dona-de-casa minuciosa, esvoaçava preocupadíssimo em torno das louças ainda intactas, lançando aos cálices e aos pratos desgarradores soslaios de paixão sem esperança. O alferes Eleutério, encarquilhado como um feto, escutava a um canto o seu Beethoven. O catanguês deslizava para a senzala ao encontro de um churrasco de ratos. E eu, encostado aos caixilhos, assistia às elipses dos morcegos ao redor das lâmpadas, sem ouvir nada, sem pensar nada, sem desejar nada, certo de que a minha vida se resumiria para sempre ao oval de arame em que me achava, sob um céu baixo de chuva ou de cacimbo, conversando com o soba à sombra da máquina de costura monumental, a escutar as histórias de crocodilos de um tempo mais feliz.

A impertinência brutal dos sul-africanos, que nos julgavam um pouco uma espécie de mulatos toleráveis, acendia em mim uma chama crescente de Manuelinho de Évora que a selvageria dos pides e os abjetos discursos patrióticos da rádio alimentavam. Os políticos de Lisboa surgiam-me como fantoches criminosos ou imbecis defendendo interesses que não eram os meus e que cada vez menos o seriam, e preparando simultaneamente a sua própria derrota: os homens sabiam bem que eles e os filhos deles não combatiam, sabiam bem de onde vinha quem na mata apodrecia, tinham morto e visto morrer demais para que o pesadelo se prolongasse muitos anos, os fuzileiros haviam desfilado uma noite pelo quartel-general do Luso entoando insultos, todas as tardes ouvíamos a emissão do MPLA às escondidas, alimentávamos mulheres e filhos com salários de miséria, demasiados estropiados coxeavam ao fim da tarde por Lisboa, nas imediações do anexo do Hospital Militar, e cada coto era um grito de revolta contra o incrível absurdo das balas. Mais tarde conhecemos a hostilidade dos brancos de Angola, dos fazendeiros e dos industriais de Angola reclusos nas suas vivendas gigantescas repletas de antiguidades falsas, de que saíam para abocanhar prostitutas brasileiras nos cabarés da Ilha, entre baldes de péssimo champanhe nacional e beijos sonoros como desentupidores de retrete que se despegam:

- Se vocês cá não estivessem limpávamos isto de pretos num instante.

Cabrões, pensava eu a beber cubas-livres solitárias ao balcão, cabrões gordos e suados, ricaços de merda, traficantes de escravos, e invejava as gargalhadas que as mulheres lhes segredavam nos pêlos das orelhas, os abraços dos ombros redondos delas, as nuvens de perfume espesso que os sovacos e as virilhas expeliam como turíbulos ao mais mínimo aceno, a cama D. Maria em que as deitariam, ao aproximar da manhã, num cenário de espelhos foscos, de árvores da borracha em vasos e de cãezinhos Ming de queixos horrorosamente torcidos por dores de dentes de louça, como a minha cara se torcia de incredulidade no Chiúme, nessa madrugada de Natal absolutamente idêntica a todas as madrugadas que conhecera em África, fitando os soldados que conversavam do outro lado da parada nos degraus da messe de sargentos, e vendo as nuvens de chuva que cresciam do Quando para mim, em enormes rolos de basalto pesados de uma ameaça de tempestade.

Não, não falta muito, moro ali adiante, naquele renque de feíssimos prédios verdes a que a noite confere, por um estranho milagre, a profunda dignidade hirta de uma abadia à medida da minha linhagem de comerciantes de bigode e corrente de relógio, a encararem a objetiva numa desconfiança bovina feita de medo e de supersticioso respeito. Acreditava-se em Deus nessa época mesmo através de uma máquina de tripé, um ser barbudo e severo, sexagenário de túnica, sandálias e risca ao meio, que geria uma empresa de mártires e de santos tão complicada como os Armazéns Grandela, distribuindo pecados, bulas, absolvições e passaportes para o Inferno por intermédio de encarregados de negócios terrestres chamados padres, os quais transmitiam aos domingos para a direção da firma telex em latim. Estas casas, não acha, são aliás construídas à medida das nossas ambições quadradas e dos nossos pequeninos sentimentos: a umidade infiltra-se, tudo empena, os canos entupidos gorgolejam guinadas de arrotos, as alcatifas descolam-se, inevitáveis correntes de ar assobiam nas frinchas mas compramos móveis em Sintra para ocultar misérias e manchas atrás de volutas de talha pretensamente antigas, do mesmo modo que vestimos o nosso egoísmo estreito das aparências de uma generosidade vingativa. O meu pai costumava contar-me que o rei Filipe exclamara para o arquiteto do Escurial Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos. Pois bem, neste caso a ordem recebida pelo gorducho de capacete e palito que presidiu à edificação destes monstros abstrusos agaiolado-pretensiosos deve ter sido Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos mongolóides. E, de fato, os vizinhos que se comprimem comigo no elevador exíguo possuem a boca aberta, as esclerótidas baças, a pele amarela e o riso de incompreensão contente das criaturas demasiado quotidianas para serem verdadeiramente infelizes, atravessando o deserto dos fins de semana diante dos aparelhos de televisão, a beberem por uma palhinha o capilé da sua mediocridade. Eu, que ainda conservo por milagre um tênue resíduo de inquietações metafísicas, acordo de manhã com ciática na alma, que os passos no andar de cima amachucam cruelmente, e a inteligência enferrujada por várias horas de prisão num andar insidiosamente preparado para me transformar num funcionário exausto, carregando uma pasta com as Seleções, os termos de café com leite do almoço e o
boião de geléia de abelhas cujo rótulo me promete a juventude ilusória de uma ereção ocasional.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

 Convidado da FLIP em 2009, Antônio Lobo Antunes era um dos mais festejados pela crítica. Comprei todos os livros de sua autoria que encontrei em sebos.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2019
Todos os direitos reservados.