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Muito Longe de Casa

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Muito Longe de Casa

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Ismael Beach  

Editora: A Girafa

Assunto: Memórias

Traduzido por: Cecília Gianetti

Páginas: 222

Ano de edição: 2007

Peso: 380 g

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Excelente
Marcio Mafra
25/04/2010 às 12:51
Brasília - DF

A sorte estava do lado de Ishmael Beah quando ele escapou de ser dizimado durante um ataque, na guerra civil de Serra Leoa, no qual foram assassinados seus pais e irmãos. Se é que – não morrer em tais condições - pode ser considerado sorte, ou qualquer outra coisa. O autor, na ocasião, era um pré adolescente e tinha 12 anos de idade. A guerra civil tinha atingido Mogbweno, um lugarejo pobre que fica na parte sul de Serra Leoa, bem pertinho da área do conflito. Partindo de Mogbweno Ishmael aderiu aos guerrilheiros e fugindo da morte, sem nenhum destino prédeterminado, foi mais para o sul, no sentido do litoral, passando por Kabati, Mattru Jong, Kamator. De Kamator alcançou Yele e daí subiu até Bauya, depois Freetown e cada vez mais ao norte para Kambia, quase fronteira no extremo sul de Nova Guiné, onde foi resgatado. Um mil e duzentos quilômetros devem ter sido o tamanho do trajeto. Trajeto de fuga, de desespero, de sofrimento, de fome onde o matar ou morrer não era um conto. Muitas vezes ele comeu uma mistura de cocaína, maconha e pólvora, mistura explosiva que anestesiava até as suas próprias atrocidades. Memórias de um menino soldado e selvagem é uma grande angústia, um tormento narrado crua e honestamente, onde a dor se sobrepõe às palavras. Ishmael Beah foi vítima e algoz de seus iguais. Foi tão violento e matador como os seus inimigos. Seu livro, embora escrito num estilo simples conta história tão inacreditavelmente verdadeira, que o melhor ficcionista não conseguiria fazê-lo. Leitura fácil. Leitura boa. Livro mais que excelente.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Ishmael Beah, contata pelo próprio protagonista, que escapou - por mero acaso - de um ataque de rebeldes da RUF Frente Unida Revolucionária, quando seus pais e um irmão foram assassinados. Não lhe restando nenhuma outra alternativa de sobrevivência, e sem mais nada a perder, se alistou no próprio RUF.

Numa miséria absoluta, passando fome e sede, armado com um fuzil AK-47 percorreu Serra Leoa, andando e sobrevivendo por todo o interior daquele país, durante os quase dois anos que durou a Guerra Civil.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Meus dois companheiros de tenda, Sheku e Josiah, os dois meninos mais jovens, ainda estavam dormindo quando a campainha soou às seis da manhã indicando que devíamos levantar para o treino.
- Andem, vamos lá. - Eu tentei acordá-los com uma sacudida sutil.
Eles apenas viraram para o lado e continuaram a dormir. Tive que os arrastar para fora da esteira pelas pernas e dar tapas nos dois até que acordassem. Os soldados já passavam de barraca em barraca arrastando aqueles que ainda estavam dormindo e jogando baldes d'água neles.
Nós nos encontramos no pátio de treinamento e novos tênis foram distribuídos, assim como bermudas do exército e camisetas de todas as cores. Alguns ganharam Adidas, outros ganharam Nikes. Eu ganhei um Reebok Pump preto e estava mais feliz por conta de meus tênis novos do que qualquer outra coisa que estava acontecendo. Tirei minhas calças velhas, que tinham as fitas cassete. Enquanto eu vestia minha bermuda nova, um soldado pegou minhas calças velhas e atirou-as numa fogueira acesa para queimar nossos pertences antigos. Corri até a fogueira, mas as fitas já estavam derretendo. Meus olhos ficaram cheios d'água, e meus lábios estremeceram quando dei as costas para o fogo.
Depois que vestimos a nova indumentária, formamos uma fila horizontal com as pernas separadas e as mãos coladas aos flancos. Enquanto esperávamos, alguns soldados voltaram do front e recarregaram suas armas e os pacotes de munição. Alguns tinham sangue nos uniformes e no rosto, mas eles não pareciam notar aquilo ou simplesmente o ignoravam. Eles comeram o café-da-manhã rapidamente e se encaminharam outra vez para onde não pareciam querer voltar. Cada soldado ficou de frente para a parede, respirou fundo diversas vezes e se agarrou firme à arma antes de começar a correr de volta em direção à clareira.
Sheku e Josiah ficaram ao meu lado, como se o fato de dividirmos uma barraca significasse que eu tinha me tornado seu irmão mais velho. Eles me observavam durante os exercícios e me seguiam, em vez de seguirem o soldado que havia se apresentado como cabo Gadafi. Ele era um cara jovem, mais jovem que o tenente e o sargento, mas era careca e sua postura o fazia parecer bem mais velho.
Depois do café-da-manhã tardio, ficamos em forma de frente para o cabo, que nos entregou os AK-47.

Nunca na minha vida tinha sentido tanto medo de ir a um lugar como naquele dia. Mesmo um lagarto correndo, naquele momento, me deixava apavorado por inteiro. Uma brisa leve soprou e atravessou minha cabeça, afiada, de uma vez só, fazendo meus dentes ranger de dor. Lutei contra as lágrimas que se formavam nos meus olhos e agarrei minha arma para me confortar.
Andamos para os braços da floresta, agarrados a nossas armas como se elas fossem a única coisa capaz de nos dar força. Até nossa respiração era silenciosa, temíamos que ela pudesse causar nossa morte. O tenente liderava a fila em que eu estava. Ele levantou um punho e paramos de nos mover. Então, lentamente ele abaixou a mão, e nos sentamos em nossos calcanhares, nossos olhos inspecionando a floresta. Queria olhar em volta para ver os rostos dos meus amigos, mas não poodia. Continuamos a nos mover rapidamente entre os arbustos até que chegamos à margem do pântano. Deitamos de barriga no chão e esperamos. Eu estava deitado ao lado de Josiah. Depois havia Sheku e um soldado adulto entre mim, Jumah e Musa. Olhei em volta para ver se eles me olhavam também, mas estavam concentrados no alvo invisível no pântano. Minha testa começou a doer, e a dor subiu devagar até a cabeça. Minhas orelhas ficaram quentes e agora as lágrimas corriam pelas minhas bochechas, sem que eu fizesse ruído de choro. As veias saltaram nos meus braços e eu as sentia pulsar como se tivessem começado a respirar por conta própria. Esperamos quietos, como fazem os caçadores, nossos dedos acariciando os gatilhos. O silêncio me atormentava.
As árvores baixas do pântano começaram a sacudir quando os rebeldes passavam por elas. Eles ainda não estavam visíveis, mas o tenente passou a ordem num sussurro que chegou a todos em efeito dominó:
- Atirem quando eu mandar.
Enquanto observávamos, um grupo de homens vestindo roupas civis emergiu dos arbustos. Eles acenaram e mais rebeldes surgiram. Alguns eram meninos, tão jovens quanto nós. Eles se sentaram juntos em fila, gesticulando, planejando uma estratégia. O tenente mandou que disparássemos uma granada, mas o comandante dos rebeldes escutou-a zunindo através da floresta quando foi lançada.
- Retroceder! - ele ordenou a seus homens. A explosão da granada só atingiu poucos deles, e pedaços de seus corpos voaram pelos ares.
A explosão foi seguida por uma troca de fogo entre os dois lados. Fiquei ali, deitado, com minha arma apontada para a frente, incapaz de atirar. Meu dedo indicador estava dormente. A floresta começou a girar. Senti como se o chão estivesse de cabeça para baixo, e eu, prestes a cair, me agarrei a um tronco de árvore com uma das mãos. Eu não conseguia pensar, mas podia ouvir os sons que as armas faziam ao longe e os gritos de dor das pessoas que morriam. Comecei a cair em uma espécie de pesadelo. Um jato de sangue atingiu meu rosto. No meu devaneio, abri um pouco a boca, e cheguei a provar o gosto do sangue. Cuspi e limpei meu rosto, e então vi o soldado de quem o sangue havia saído. O sangue vazava dos buracos de bala nele como água correndo de afluentes recém-abertos. Seus olhos ainda estavam abertos; ele ainda segurava a arma. Meus olhos estavam fixos nele quando ouvi Josiah gritar. Ele chorava, chamando pela mãe na voz mais cortante que já ouvi. Ela vibrou dentro da minha cabeça a ponto de eu sentir meu cérebro ser sacudido e se desprender de sua estrutura.
O sol mostrava partes de canos de armas e balas voando em nossa direção.
Corpos tinham começado a se empilhar, uns por cima dos outros, perto de uma palmeira baixa em que sangue pingava da folhagem. Procurei Josiah. Uma granada havia lançado seu pequeno corpo do chão, fazendo aterrissar num toco de árvore. Ele sacudiu as pernas, e seu grito foi se calando pouco a pouco. Havia sangue por toda parte. Parecia que as balas estavam caindo na floresta por todos os ângulos.
Rastejei até Josiah e olhei em seus olhos. Estavam cheios de lágrimas e seus lábios tremiam, mas ele não conseguia falar.
Enquanto eu o observava, as lágrimas foram substituídas por sangue em seus olhos, que logo passaram de castanhos a vermelhos. Ele tentou alcançar meu ombro, como se quisesse se segurar nele e se levantar. Mas no meio do caminho ele parou. Os tiros pareceram distantes na minha cabeça, e era como se meu coração tivesse desistido de bater e o mundo inteiro estivesse paralisado. Cobri seus olhos com meus dedos e o puxei do toco de árvore. Sua espinha dorsal estava estraçalhada. Coloquei-o no chão e peguei minha arma. Não tinha me dado conta ainda de que havia me levantado para tirar Josiah do toco de árvore. Senti alguém cutucando meu pé. Era o cabo; ele estava dizendo algo que eu não conseguia entender. Sua boca se movia e ele parecia horrorizado. Ele me puxou para baixo e, quando bati no chão, senti meu cérebro chacoalhar dentro da cabeça outra vez e minha surdez desapareceu.
- Abaixe-se - ele estava gritando. - Atire - ele disse, enquanto rastejava para longe de mim, de volta ao seu posto.
Quando olhei para onde ele estava, meus olhos notaram Musa, que tinha a cabeça coberta de sangue. Levantei minha arma e puxei o gatilho, e matei um homem. De repente, como se alguém estivesse disparando aquilo tudo dentro do meu cérebro, todos os massacres que eu já havia testemunhado desde o primeiro dia em que a guerra me tocou começaram a passar em flashes na minha cabeça. Cada vez que eu parava de atirar para trocar as câmaras e via meus dois amigos mortos, apontava com ódio a arma para o pântano e matava mais gente. Atirei em tudo que se movia, até que recebemos a ordem para retirada porque precisávamos de uma nova estratégia.
Pegamos as armas e a munição que estavam com os corpos dos meus amigos e os deixamos na floresta, que havia criado vida própria, como se tivesse prendido as almas que abandonaram os mortos. Os galhos das árvores pareciam mãos entrelaçadas, e suas copas, cabeças que balançavam numa prece. Agachamos na floresta e armamos outra emboscada a poucos metros de nossa posição inicial. Mais uma vez esperamos. Estávamos entre o fim da tarde e o começo da noite. Um grilo solitário tentou começar a cantar mas nenhum de seus companheiros quis participar; então, ele parou, para deixar o silêncio trazer a noite. Deitei ao lado do cabo, cujos olhos estavam mais vermelhos do que de costume. Ele ignorou meu olhar. Ouvimos passos sobre as folhas secas e imediatamente armamos pontaria. Um grupo de atiradores e meninos emergiu de trás dos arbustos e se escondeu rapidamente atrás de árvores. Quando se aproximaram, abrimos fogo, derrubando aqueles que vieram na frente. Seguimos o resto até o pântano, onde os perdemos. Lá, os caranguejos já se refestelavam com os olhos dos mortos. Tripas e crânios fragmentados boiavam na superfície do pântano, e a água havia sido substituída por sangue. Viramos os corpos para cima e pegamos suas munições e armas.
Eu não tinha medo daqueles corpos sem vida. Desprezava e chutava cada um deles para virá-Ios. Encontrei uma G3, alguma munição e um revólver, que o cabo guardou para si mesmo. Notei que a maioria dos atiradores e garotos mortos usava um monte de jóias no pescoço e nos pulsos. Alguns usavam até mesmo mais de cinco relógios de ouro num só pulso. Um menino, cujo cabelo eriçado agora estava encharcado de sangue, vestia uma camiseta de Tupac Shakur com os dizeres: "All Eyez on Me:' Perdemos alguns soldados adultos do nosso lado, e meus amigos Musa e Josiah. Musa, o contador de histórias, estava morto. Não havia mais ninguém por perto para contar histórias e nos fazer rir quando precisássemos. E Josiah - se eu tivesse deixado que ele continuasse dormindo no primeiro dia de treinamento, talvez ele nunca tivesse ido parar na frente de batalha.
Chegamos à aldeia ao anoitecer e nos sentamos encostados à parede do depósito.
Estava tudo quieto, e, como se tivéssemos medo do silêncio, começamos a limpar o sangue de nossas armas e das que havíamos trazido conosco, polindo e lubrificanndo as câmaras. Atiramos para o alto para testar o poder das armas. Compareci ao jantar naquela noite, mas não consegui comer. Só bebi água e nada senti. Quando voltava para minha tenda, topei contra uma parede de cimento. Meu joelho sanngrou, mas também não senti nada. Deitei de costas na cabana com meu AK-47 encostado no peito e a G3 que havia trazido comigo encostada no pino da barraca. Nada acontecia na minha cabeça. Havia um vácuo, e encarei o teto da barraca até que miraculosamente consegui apagar. Tive um sonho em que eu estava pegando Josiah do toco de árvore e um atirador aparecia na minha frente. Ele colocava a arma na minha testa. Imediatamente acordei do sonho e comecei a atirar dentro da cabana, até que os trinta tiros da câmara se esgotaram. O cabo e o tenente vieram logo em seguida e me levaram para fora. Eu suava, e eles jogaram água no meu rosto e me deram mais algumas pílulas brancas. Fiquei acordado a noite inteira e não consegui dormir durante a semana. Saímos mais umas duas vezes naquela semana e eu não tive qualquer problema para atirar com minha arma.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ismael Beah foi o mais jovem dos escritores convidados da FLIP 2007, em Paraty, RJ. Ele fazia parte da mesa temática sobre Meninos e Lobos, juntamente com o escritor brasileiro Paulo Lins.

Ismael contou sua história de horror. Inteligente, comunicativo, foi aplaudido de pé. Na ocasião comprei seu único livro.

A compra deste livro valeu a viagem a Paraty em 2007.


 

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