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A Dança do Universo

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A Dança do Universo

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Autor: Marcelo Gleiser

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Cosmologia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 434

Ano de edição: 2000

Peso: 535 g

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Excelente
Marcio Mafra
10/04/2010 às 11:43
Brasília - DF


A abordagem do tema do surgimento do universo pelo físico Marcelo Gleiser demonstra os conflitos e as idéias dos homens, ao longo dos tempos, na busca do entendimento da criação mundo. O autor começa pelas visões cosmogônicas primitivas da humanidade passando por Galileu, Kepler, Newton, Einsten entre outros. Constroi uma pequena história da visão do homem comum sobre a origem do universo e contrapõe a visão do físico contemporâneo sobre o desenvolvimento dessas teorias. O autor - também craque na didática - mostra o homem na imensidão do cosmo, perdido no meio de suas fantasias, medos, mitos e religiões. A Dança do Universo além de divulgar as teorias mais recentes a respeito da formação do universo, se configura numa saudável contribuição para tentar minimizar a ignorância que assola a humanidade sobre este assunto, notadamente os ratos das bíblias e das igrejas. Por vezes a leitura fica arrastada, tornando-se cansativa pela repetição dos termos científicos e as demonstrações das teorias, bem parecidas com as dissertações acadêmicas. Mas é um livro excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A discussão da origem do Universo - tanto sob o ponto de vista científico quanto religioso - passando pelo desenvolvimento da física, desde os pré-socráticos até os debates contemporâneos, envolvendo a teoria da relatividade e da física quântica, junto com a análise das teorias dos grandes cientistas da humanidade, como: Copérnico, Kleper, Galileu, Newton, Maxwell, Boltzmann e Einstein.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A seguir, ilustrarei essa classificação dos mitos cosmogônicos com algums exemplos, começando pelos "mitos com Criação". Essa seleção de mitos é bastante pessoal, inspirada principalmente por sua beleza e relevância para meu argumento. Os mitos que assumem a existência de um início são, sem dúvida, os mais comuns, em especial aqueles que invocam um "Ser Positivo" no papel do Criador. Para o mundo ocidental, o mito de criação mais conhecido é encontrado no Gênesis 1:1-5 (c. 400 a. c.)
No princípio Deus criou o céu e a terra. A terra, porém, estava informe e vazia, e as trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus movia-se sobre as águas. E Deus disse: Exista a luz. E a luz existiu. E Deus viu que a luz era boa; e separou a luz das trevas. E chamou à luz dia, e às trevas noite. E fez-se tarde e manhã: o primeiro dia.
Deus, o Absoluto, exerce Seu infinito poder criativo através de palavras que dão existência ao Universo e ao seu conteúdo ("Exista a luz. E a luz existiu"). O processo de criação se efetua por meio da separação entre opostos, em particular entre luz e trevas, a mais primitiva polarização da nossa realidade. Essa separação permite então a definição do Dia e da Noite, marcando o início da passagem do tempo. Devido ao caráter verbal do processo de criação, alguns autores chamam esse tipo de Ser Positivo de "Deus Pensador". Criação é, de certa forma, um ato racional, expresso através de palavras. A mesma idéia aparece em vários outros mitos, como, por exemplo, no mito assírio já discutido e no mito maia "Popol Vuh".
Outro exemplo de Ser Positivo é o "Deus Organizador", em que a divindade (ou divindades) exerce o papel de controlador da oposição primordial entre Ordem e Caos. O Caos representa o Mal, a desordem, e é simbolizado em vários mitos por monstros como serpentes ou dragões, ou simplesmente deuses maléficos que lutam contra outros deuses em batalhas cósmicas relatadas muitas vezes em textos épicos, como no caso do Enuma elis dos babilônios. Neste, a batalha é entre duas gerações de deuses, pais e filhos, com os filhos saindo vencedores no final. A Terra surge do corpo mutilado da Deusa-Mãe. Em outros mitos, o Caos é representado de modo mais abstrato, fazendo inicialmente parte do Absoluto, junto com a Ordem. Encontramos um belíssimo exemplo no poema Metamorfoses, do romano Ovídio (43 a. C.-18 d. C.), escrito por volta do ano 8 d. c., uma rara expressão de interesse por essas questões vinda da literatura romana.
Antes de o oceano existir, ou a terra, ou o firmamento,
A Natureza era toda igual, sem forma. Caos era chamada,
Com a matéria bruta, inerte, átomos discordantes
Guerreando em total confusão:
Não existia o Sol para iluminar o Universo;
Não existia a Lua, com seus crescentes que lentamente se preenchem;
Nenhuma terra equilibrava-se no ar.
Nenhum mar expandia-se na beira de longínquas praias.
Terra, sem dúvida, existia, e ar e oceano também,
Mas terra onde nenhum homem pode andar, e água onde
Nenhum homem pode nadar, e ar que nenhum homem pode respirar;


Ar sem luz, substância em constante mudança,
Sempre em guerra:
No mesmo corpo, quente lutava contra frio,
Molhado contra seco, duro contra macio.
O que era pesado coexistia com o que era leve.


Até que Deus, ou a Natureza generosa,
Resolveu todas as disputas, e separou o
Céu da Terra, a água da terra firme, o ar
Da estratosfera mais elevada, uma liberação.
E as coisas evoluíram, achando seus lugares a partir
Da cega confusão inicial.
O fogo, esse elemento etéreo,
Ocupou seu lugar no firmamento,
sobre o ar; sob ambos, a terra,
Com suas proporções mais grosseiras, afundou; e a água
Se colocou acima, e em torno, da terra.


Esse Deus, que do Caos
Trouxe ordem ao Universo, dando-lhe
Divisão, subdivisão, quem que ele seja,
Ele moldou a terra na forma de um grande globo,
Simétrica em todos os lados, e fez com que as águas se
Espalhassem e elevassem, sob a ação dos ventos uivantes [. .. ]


Caos aqui não representa destruição ou desordem, mas sim a potencialidade de coexistência de todos os opostos, sem que sua existência individual possa se manifestar: "[ ... ] terra, sem dúvida, existia, [ ... ] , mas terra onde nenhum homem pode andar [ ... ]. No mesmo corpo, quente lutava contra frio, molhado contra seco, duro contra macio [ ... ]". E então Deus, cuja origem permanece inexplicável, aparece e organiza o Caos, separando os opostos e arranjando os elementos básicos (o fogo, o ar, a terra e a água) em seus devidos lugares, de acordo com a doutrina aristotélica.
Dentro ainda do subgrupo caracterizado pelo Ser Positivo, alguns mitos usam Deus como um artesão, como no mito dos índios Hopi já citado, ou no segundo mito do Gênesis, no qual Deus forma Adão a partir da terra e lhe dá vida ao soprar em seus pulmões. Outros usam a metáfora da procriação, que reaparece em várias versões: a Mãe Deusa, que literalmente dá à luz a Terra, ou que dá à luz outros deuses, que constroem a Terra; ou um Deus que cria uma companheira ou que usa sua parte feminina interna para criar o mundo. Um tipo final de mito com um Ser Positivo usa um sacrifício divino no processo de criação. Deus, o Absoluto, morre, dando então vida à Criação, o relativo. Um exemplo pode ser encontrado em uma das várias versões do mito chinês de P'an Ku (século III):
A criação do mundo não terminou até que p'an Ku morreu. Somente sua morte pôde aperfeiçoar o Universo: de seu crânio surgiu a abóbada do firmamento, e de sua pele a terra que cobre os campos; de seus ossos vieram as pedras, de seu sangue, os rios e os oceanos; de seu cabelo veio toda a vegetação. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão; seu olho direito se transformou na Lua, seu olho esquerdo, no Sol. De sua saliva e suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu a humanidade.


Um segundo tipo de mito com Criação assume que nada existia antes da criação do Universo. Não existia um Deus ou deuses, mas sim puro vazio, o Ser Negativo ou o Não-Ser. A Criação surge do nada, sem nenhuma justificativa de como esse processo foi possível. Um exemplo vem do hinduísmo, no Chandogya Upanisad, III, 19:


No início esse [Universo] não existia. De repente, ele passou a existir; tranformando-se em um ovo. Depois de um ano incubando, o ovo chocou. Uma metade da casca era de prata, a outra, de ouro. A metade de prata transformou-se na Terra; a de ouro, no Firmamento. A membrana da clara transformou-se nas montanhas; a membrana maisfina, em torno da gema, em nuvens e neblina. As veias viraram rios; o fluido que pulsava nas veias, oceano. E então nasceu Aditya, o Sol. Gritos de saudação foram ouvidos, partindo de tudo que vivia e de todos os objetos do desejo. E desde então, a cada nascer do Sol, juntaamente com o ressurgimento de tudo que vive e de todos os objetos do desejo, gritos de saudação são novamente ouvidos.
O tema do ovo cósmico é muito comum em mitos de criação. Numa das versões do mito de P'an Ku, ele próprio surge de um ovo. Um aspecto interessante desse mito é que o ovo aparece do nada, e a criação acontece espontaneamente, através da dissociação do ovo cósmico, sem a intervenção de um ser divino. O ovo nesse mito tem o mesmo papel que p'an Ku no mito relatado acima, ou seja, o de fonte de todas as coisas. Entretanto, não encontramos a idéia de sacrifício divino como fonte da Criação, mas apenas o modelo bastante familiar de um ovo chocando. Não sabemos de onde vem o ovo; ele "passou a existir", transformando-se em um Universo que também passou a existir, como se fosse o resultado da flutuação do Ser proveniente do Não-Ser primordial. Outro exemplo de criação a partir do nada vem dos índios Maori da Nova Zelândia:


Do nada a procriação,
Do nada o crescimento,
Do nada a abundância,
O poder de aumentar o sopro vital;
Ele organizou o espaço vazio,
E produziu a atmosfera acima,
A atmosfera que flutua sobre a Terra;
O grande firmamento organizou a madrugada,
E a Lua apareceu;
A atmosfera acima organizou o calor;
E o Sol apareceu;
Eles foram jogados para cima,
Para serem os olhos principais do Céu:
E então o firmamento transformou-se em luz,
A madrugada, o nascer do dia, o meio-dia.
O brilho do dia vindo dos céus.
Novamente, não existe um Ser responsável pela criação do mundo, que aparece do nada, resultado de uma inexorável necessiidade de existir.
O último tipo de mito com Criação representa a Criação como resultado da tensão entre Ser e Não-Ser, ambos originallmente coexistindo no Caos primordial. Entretanto, ao contrário da cosmogonia de Ovídio, aqui não encontraremos um Deus como responsável pela Criação; o processo criativo ocorre à medida que a ordem surge do Caos, a partir da interação dinâmiica entre tensões opostas. Usando uma linguagem científica moderna, podemos dizer que, nesse tipo de mito, a complexidade observada na Natureza emerge de um estado original de desordem por meio de uma manifestação espontânea de autozação. Essa idéia é claramente expressa em um mito taoísta anteerior a 200 a. c.:


No princípio era o Caos. Do Caos veio a pura luz que construiu o Céu. As partes mais concentradas juntaram-se para formar a Terra. Céu e Terra deram vida às 10 mil criações [Natureza], o começo, que contém em si o crescimento, usando sempre o Céu e a Terra como seu modelo. As raízes do Yang e do Yin - os princíípios do masculino e do feminino - também começaram no Céu e na Terra. Yang e Yin se misturaram, os cinco elementos surgiiram dessa mistura e o homem foi formado. [ ... ] Quando Yin e Yang diminuem ou aumentam seu poder, o calor ou o frio são produzidos. O Sol e a Lua trocam suas luzes. Isso também produz o passar do ano e as cinco direções opostas do Céu: leste, oeste, sul, norte e o ponto central. Portanto, Céu e Terra reproduzem a forma do homem. Yangfornece e Yin recebe.
Os opostos são representados por Yin e Yang, com Yin representando passividade, escuridão e fraqueza, e Yang representando atividade, brilho e força. A Criação resulta da complementaridade dinâmica entre os opostos, da tensão que surge da necessidaade de ambos existirem no mesmo Universo.
Agora examinaremos brevemente os mitos sem Criação. Já discutimos um exemplo dessa categoria, o Universo pulsante do hinduísmo, no qual a Criação surge e ressurge ciclicamente através da dança rítmica do deus Xiva. Um exemplo de um Universo eterno, sem criação, é encontrado no jainismo, uma religião originária da Índia, aparentemente fundada por Maavira, um contemporâneo de Buda, do século VI a. C. A versão que apresentamos é atribuída a Jinasena, um jainista que viveu por volta do ano 900 d. C. A idéia da Criação é rejeitada por completo, por meio de uma seqüência de argumentos lógicos extremamente lúcidos e, acrescento, bastante antipáticos.
Alguns homens tolos declaram que o Criador fez o mundo.
A doutrina que diz que o mundo foi criado é errônea e deve ser rejeitada.
Se Deus criou o mundo, onde estava Ele antes da criação?
Se você argumenta que Ele era então transcendente, e que
[portanto não precisava de suporte físico,] onde está Ele agora?
Nenhum ser tem a habilidade de fazer este mundo -
Pois como pode um deus imaterial criar algo material?
Como pôde Deus criar o mundo sem nenhum material básico?
Se você argumenta que Ele criou o material antes, e depois o
[mundo, você entrará em um processo de regressão infinita.
Se você declarar que esse material apareceu espontaneamente, você entra em outra falácia,
Pois nesse caso o Universo como um todo poderia ser seu próprio criador.
Se Deus criou o mundo como um ato de seu próprio desejo, sem nenhum material,
Então tudo vem de Seu capricho e nada mais - e quem vai acreditar numa bobagem dessas?
Se Ele é perfeito e completo, como Ele pode ter o desejo de criar algo?
Se, por outro lado, Deus não é perfeito, Ele jamais poderia criar um Universo melhor do que um simples artesão.
[ .. .J
Se Ele é perfeito, qual a vantagem que Ele teria em criar o Universo?
Se você argumenta que Ele criou sem motivo, por que essa é
Sua natureza, então Deus não tem objetivos.
Se Ele criou o Universo como forma de diversão, então isso é
uma brincadeira de crianças tolas, que em geral acaba mal.
[ .. ]
Portanto, a doutrina que diz que Deus criou o mundo não faz nenhum sentido
Homens de bem devem combater os que crêem na divina criação, enlouquecidos por essa doutrina maléfica.
Saiba que o mundo, assim como o tempo, não foi criado, não tendo princípio nem fim,
E é baseado nos Princípios, vida e Natureza.
Eterno e indestrutível, o Universo sobrevive sob a compulsão de sua própria natureza,
Dividido em três seções - inferno, terra e firmamento.
O Universo é eterno e indestrutível, sendo mantido e mudando de acordo com princípios naturais. Através dessa rejeição frontal de processos de criação ou destruição, os jainistas tentavam liberar a alma do eterno ciclo de transmigração típico do hinduísmo, na esperança de que ela alcançasse um estado de inatividade onisciente.
Lemos exemplos dos vários tipos de mitos de criação. Acredito que esses cinco subgrupos encerram as possíveis respostas dadas pelos mitos de criação ao problema da origem do Universo. No entanto, existe uma última alternativa, que é admitir que o problema da origem de todas as coisas não é acessível à compreensão humana, e que, portanto, permanecerá para sempre um mistério: já que pensamos porque existimos, é inútil tentarmos usar o pensamento para compreender a origem de nossa própria existência. Aqui está um claro exemplo achado no hinduísmo, no Rigveda X, escrito por volta do século XII a. c.:
Antes de o Ser ou o Não-Ser existirem
Ou a atmosfera, ou o firmamento, ou o que está ainda além,
O que fazia parte do quê? Onde? Sob a proteção de quem?
O que era a água, as profundezas, o insondável?
Nem morte ou imortalidade existiam,
Nenhum sinal da noite ou do dia
Apenas o Um respirava, sem ar, sustentado por sua própria energia.
Nada mais existia então.
No princípio a escuridão existia submersa em escuridão
Tudo isso era apenas água latente, em estado embrionário.
Quem quer que ele seja, o Um, ao passar a existir,
Escondido no Vazio,
Foi gerado pelo poder do calor.
No princípio esse Um evoluiu,
Transformando-se em desejo, a primeira semente da mente.
Aqueles que são sábios, ao buscar seus corações,
Encontraram o Ser no Não-Ser.
Existia o abaixo? Existia o acima?
[ ... ]
Quem realmente sabe? Quem pode declará-lo? E assim nasceu, e se traniformou em uma emanação.
Dessa emanação os deuses, mais tarde, apareceram.
Quem sabe de onde tudo surgiu?
[...]
Apenas aquele que preside no mais elevado dos céus sabe.
Apenas ele sabe, ou talvez nem ele saiba!
Existe um ser responsável pela Criação, mas o mito é completaamente reticente com relação à sua natureza ou essência. Os deuses inferiores não entendem o propósito da Criação, e mesmo o Um todo-poderoso talvez não o compreenda. Não existe uma resposta clara, já que a verdadeira natureza da Criação é incompreensível.


  • O Erro de Kleper

    Autor: Marcelo Gleiser

    Veículo: Jornal Folha de São Paulo, 1º de agosto de 2010 - ciência pagina A 23

    Fonte:

    Em 1596, com o furor de uma mente devota, o jovem Johannes Kepler, então com apenas 25 anos, publica seu primeiro livro, "Mysterium Cosmographicum" ou "O Mistério Cosmográfico". Nele, o astrônomo principiante propõe nada menos do que a solução para a estrutura do Cosmo, o que acreditava ser o plano divino da Criação.

    Tudo se deu durante uma aula que ministrava para um punhado de estudantes desinteressados. Quando explicava as conjunções dos planetas Júpiter e Saturno, Kepler se perguntou se o fato de Satumo estar aproximadamente duas vezes mais longe do Sol do que Júpiter era sintoma de uma ordem mais profunda: talvez a estrutura cósmica seguisse as regras da geometria. Fosse esse o caso, a mente humana teria acesso aos segredos mais profundos da Criação e à mente de Deus. E a língua em comum entre homem e Deus seria a matemática.

    Após várias tentativas frustradas, Kepler obteve a solução que tanto almejava. Na época, só eram conhecidos seis planetas, de Mercúrio a Satumo. Urano e Netuno, invisíveis aos olhos, só foram descobertos bem mais tarde. Kepler, numa visão genial, imaginou que o cosmo seria organizado a partir dos cinco sólidos platônicos, os cinco objetos mais simétricos que existem em três dimensões. Conhecemos bem dois deles, o cubo e a pirâmide (tetraedro). Kepler entendeu que, ao coloocar um sólido dentro do outro, como aquelas bonecas russas, com esferas entre cada um deles, poderia acomodar apenas seis planetas: Sol no centro; esfera (Mercúrio); sólido; I esfera (Vênus); sólido; esfera (Terra); sólido etc. Portanto, o número de planetas seria decorrente do número de sólidos perfeitos!

    Kepler foi além. Como os sólidos obedecem às regras da geometria, seu arranjo determina também as distâncias entre si e, portanto, entre as esferas que os cercam. Experimentando com padrões diferentes, Kepler encontrou um que previa as distâncias entre os planetas com uma precisão de 5% - quando comparado com os dados astronômicos da época, um feito sensacional.

    Para um homem que acreditava profundamente num Deus matemático, criador da ordem cósmica, nada mais natural do que uma solução geométrica. Kepler via seu arranjo como a expressão do sonho pitagórico de obter uma explicação geométrica para os mistérios do mundo. Para ele, essa era a teoria final.

    Podemos aprender algo com Keepler. Soubesse ele da existência de outros planetas, Urano e Netuno, como teria reagido? Certamente, seu sonho de uma ordem geométrica para o Cosmo dependia do que se sabia na época. Seu erro foi ter dado ao estado do conheciento empírico do mundo uma finalidade que não existe. Para Johannes Kepler, era inimaginável que o Cosmo puudesse se desviar de sua estrutura geométrica. No entanto, sabemos que nosso conhecimento do mundo é limitado, e será sempre.

    Por isso, devemos julgar declarações sobre teorias de tudo ou teorias finais com enorme ceticismo. A história nos ensina que o progresso científico caminha de mãos dadas com nossa habilidade de medir a Natureza. Achar que a mente humana pode imaginar o mundo antes de medi-lo pode ocasionalmente dar certo. Mas, em geral, leva a mundos que existem apenas na imaginação.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ninguem pode resistir a um escritor que aparece nos meios de comunicação. Se este aparecimento é semanal, num "quadro" do programa Fantastico, da Rede Globo de Televisão, o escritor vira estrela. Marcelo Gleiser é uma constelação inteira e brilha sem poeira nenhuma, em qualquer biblioteca, por mais modesta que seja.


 

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