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As Pequenas Memórias

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As Pequenas Memórias

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Autor: José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Memórias

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 138

Ano de edição: 2002

Peso: 180 g

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Bom
Marcio Mafra
12/12/2007 às 10:33
Brasília - DF

Neste "As Pequenas Memórias" Saramago conta coisas de sua infância e de sua pré adolescência, como se fora um livro de recordações ou de quase memórias, cobrindo um tempo de aproximadamente 15 anos. Ao longo da leitura, se percebe um certo "ajuste" de contas com algumas de suas recordações. O Saramago é um mestre da escrita, pois mesmo romanceando a sua própria infância, mantém o texto como se fora um memorialista. O livro é mediano, senão chato.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Parte da história de vida do próprio Saramago, na forma de recordações, se sua infância.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

E os cavalos? O meu problema com os cavalos é mais pungente, daquelas coisas que ficam a doer para toda a vida na alma de uma pessoa. Uma irmã da minha mãe, Maria Elvira de seu nome, estava casada com um certo Francisco Dinis que trabalhava como guarda na Herdade de Mouchão de Baixo, parcela do Mouchão dos Coelhos, designação por que era conhecido o conjunto de uma extensa propriedade na margem esquerda do Tejo, mais ou menos em linha recta com uma povoação metida para o interior chamada Vale de Cavalos. Voltemos ao tio Francisco Dinis. Ser guarda de uma herdade de tal tamanho e poder significava pertencer à aristocracia da lezíria: espingarda caçadeira de dois canos, barrete verde, camisa branca de colarinho sempre abotoado, abrasasse o calor ou enregelasse o frio, cinta encarnada, sapatos de salto de prateleira, jaqueta curta - e, evidentemente, cavalo. Ora, em tantos anos - dos oito de idade aos quinze são muitos, muitíssimos - nunca aquele tio se lembrou de subir-me para a desejada sela, e eu, suponho que por um orgulho infantil de que não podia ser consciente, nunca lho pedi. Um belo dia, não me lembro por que vias de acesso (talvez por conhecimento de uma outra irmã da minha mãe, Maria da Luz, talvez de uma irmã do meu pai, Natália, que servira em Lisboa como criada na casa da família Formigal Rua dos Ferreiros, à Estrela, aonde uma eternidade depois eu haveria de ir morar), alojou-se no Casalinho. que assim era chamada desde tempos muito apartados a humilde casa dos meus avós maternos, uma senhora ainda nova, "amiga", como então se dizia, de um comerciante da capital. Que estava fraca e necessitava de descanso, razão por que havia ido para ali passar uma temporada, a respirar os bons ares da Azinhaga e, de caminho, melhorando com a sua presença e o seu dinheiro o passadio da casa. Com esta mulher, de cujo nome não tenho a certeza de me lembrar exactamente ( talvez fosse Isaura, talvez Irene, Isaura seria), tive umas saborosas brigas corpo-a-corpo e umas brincadciras de mãos, empurras tu, empurro eu, que sempre acabavam atirando-a (devia ter uns catorze anos) para cima de uma das camas da casa, peito contra peito, pubis contra púbis, enquanto a avó Josefa, de sabida ou inocente, ria a bom rir e dizia que eu tinha muita força. A mulher levantava-se palpitante, corada, compunha o penteado que se havia desfeito e jurava que se fosse a sério não se teria deixado vencer. Parvo fui eu, ou ingénuo rematado, que podia ter-lhe pegado na palavra e nunca me atrevi. A sua relação com o dito comerciante era uma coisa assente, estável, como o demonstrava a filha de ambos, uma garotita de uns pálidos e sumidos sete anos, também a ares com a mãe. Meu tio Francisco Dinis era um homem pequenino, empertigado, bastante marialva em casa, mas a docilidade em pessoa sempre que tinha de lidar com patrões, superiores e gente vinda da cidade.Não era de estranhar, portanto, que rodeasse de mesuras e cortesias a visitante, o que até poderia ser entendido como prova da boa educação natural da gente do campo, porém fazia-o de um modo que a mim sempre me pareceu mais chegado ao servilismo que ao simples respeito. Um dia, esse homem, que em paz descanse, querendo mostrar todo o bem que queria às visitas, pegou na tal menina, pô-la em cima do cavalo e, como se fosse o palafreneiro de uma princesinha, passeou-a de um lado a outro diante da casa dos meus avós, enquanto eu, calado, sofria o desgosto e a humilhação. Alguns anos mais tarde, na excursão de fim de curso da Escola Industrial de Afonso Domingues, donde sairia serralheiro mecânico um ano depois, montei num daqueles sorumbáticos cavalos do Sameiro, pensando que talvez ele pudesse indenizar-me na adolescência do tesouro que me havia sido roubado na infância: a alegria de uma aventura que tinha estado ao alcance da minha mão e em que não me deixaram tocar. Demasiado tarde. O escanzelado rocinante do Sameiro levou-me aonde quis, parou quando lhe apeteceu e não virou a cabeça para me dizer adeus quando me deixei escorregar da sela, tão triste como naquele dia. Hoje tenho imagens desses animais portada a casa. Quem pela primeira vez me visita pergunta-me quase sempre se sou cavaleiro, quando a única verdade é andar eu ainda a sofrer dos efeitos da queda de um cavalo que nunca montei. Por fora não se nota, mas a alma anda-me a coxear há setenta anos.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Fernanda me trouxe este livro no Natal de 2007 e poetizou: "Cada filho é único para seu pai, ainda que não seja único. Cada livro é único para seu dono, mesmo que seja único. Feliz Natal. Da filha não-única, Fer. Dez/07"


 

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