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Mãos de Cavalo

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Mãos de Cavalo

Livro Ótimo - 5 opiniões

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Autor: Daniel Galera

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 189

Ano de edição: 2006

Peso: 245 g

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Péssimo
Priscila Loubach Tavares
10/12/2014 às 17:11
Belo Horizonte - MG
Me decepcionei! Li o livro pelos excelentes comentários publicados aqui, mas, particularmente não fez meu estilo. Achei enjoativo, cansativo. Parece que o autor simplesmente quis escrever um livro de qualquer coisa e ficou contando casos sem importância (ao meu ver), como adolescente querendo chamar a atenção, falando que vivia uma vida louca e se achava o máximo. Cheio de gírias gaúchas... muitas gírias! Eu, não gostei e não recomendo!


Excelente
Emilia Saenger
20/02/2013 às 16:43
Brasília - DF
O livro nos faz perceber um pouco da cultura sulista com uma descrição maravilhosa de alguns hábitos dos morados de Porto Alegre. A forma como foi escrito é bastante interessante e peculiar, o que faz a leitura simples e agradável.
Adorei.


Excelente
Rafael Mafra
01/01/2013 às 22:22
Brasília - DF
Cheguei até este exemplar por sugestão do Alan Freitas, que dele tomou conhecimento e descobriu que constava do acervo do Livronautas. Ele e a esposa leram e fizeram as melhores considerações. Fiquei sedento por lê-lo e não me decepcionei.

Mãos de Cavalo é um livro que contém uma boa trama, doses de surpresas, doses de nostalgia. As cenas são bem descritas, mas sem exagero e o autor pontua bem a diferença de pensamento de uma mesma pessoas em sua adolescência e na idade adulta e, ao longo da história, aparecem as causas para algumas das diferenças. É um livro de leitura simples, mas sem ser raso e talvez um pouco curto demais. Prende a atenção do começo ao fim. É o primeiro livro que leio do autor e pela sua qualidade, já acrescentei o recém lançado "Barba empapada de sangue" na lista de leitura.


Excelente
Alan Freitas
17/10/2012 às 16:32
Brasília - DF
Após ler um artigo sobre o livro me interessei pela obra e encontrá-lo disponível no Livronautas foi uma bela surpresa. Peguei o volume emprestado e foi, de fato, uma excelente leitura.

Temos duas narrativas paralelas sobre o protagonista: uma delas mostra eventos ocorridos ao longo de sua infância e adolescência, enquanto a outra, em uma escala de tempo bem mais curta, trata de acontecimentos presentes, com o personagem já adulto.

É um romance de formação, que mostra como fatos do passado moldam a personalidade e influenciam os rumos tomados ao longo da vida.

É muito bom ver literatura de qualidade sendo produzida por um jovem autor. Logo no início da obra já é impossível não esboçar um sorriso e se identificar com as peripécias do jovem ciclista se aventurando nos perigosos trajetos percorridos no bairro.

A inclusão de referências típicas dos anos 80 tais como os jogos eletrônicos são feitas de forma muito acertada, sem exageros. Isso dá um sabor especial à obra, sobretudo aos leitores contemporâneos ao autor.

Excelente
Marcio Mafra
15/04/2008 às 19:49
Brasília - DF


Geralmente as historias narradas simultânea ou paralelamente e que depois se entrelaçam, não surpreendem - e dificilmente encantam - porque fica muito evidente o desenrolar dos acontecimentos. O gaúcho Daniel Galera, surpreende e encanta neste Mãos de Cavalo. A simplicidade e beleza das descrições dos cenários por onde pedala o ciclista urbano, e as quase viagens que o Hermano, ou o Mãos de Cavalo, um médico do segmento da cirurgia plástica, com nome feito na praça, fazem pela vida, compõem uma gostosa leitura sobre memória, perda e culpa. A caloi cross aro 20, com freio de pé, do ciclista urbano, perspassa a viagem do gênero "on the road" do Hermano. Coisa de escritor elegante, inteligente e talentoso. Livro muito bom e ponto.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Duas histórias que, de certa forma, entrelaçam a vida do ciclista urbano e do cirurgião plástico Hermano. Ele sai de casa para ir a Bolívia escalar o Bonete, até então, uma façanha inédita. O ciclista urbano faz grandes loucuras, montado em sua bike, caloi 20, em Porto Alegre.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Apanhou muito, a ponto de o sangue já lhe escorrer pelo peito e haver respingado por boa parte das superfícies do banheiro. Imaginou os ossos de seu rosto quebrando sob a ação dos punhos ralados do Bonobo, os espectadores reunidos em semicírculo ao redor da briga, calados, observando a destruição completa do perdedor. "Hermano?" Parou. A porta estava coberta de respingos vermelhos. Tinta vermelha diluída escorria por seu pescoço e tórax. A pia estava toda vermelha. O chão estava vermelho. "Tá tudo bem, Hermano?" "Tudo bem, mãe." "Ouvi uns barulhos." "Não é nada. Vou tomar banho." Um rolo de papel higiênico inteiro, água e sabonete foram usados para limpar todo o banheiro. Deslocou a chave do chuveiro elétrico e tomou banho frio. Resíduos de tinta sanguínea misturada a água mancharam o chão do box no primeiro minuto. Depois a água ficou limpa. Sentiu vergonha, não exatamente pela encenação que tinha produzido e protagonizado, mas pelo fato de ter perdido uma briga roteirizada pela sua imaginação....."

...." como uma trepada de fato, como se isso pudesse fazer desmoronar aquele estado de felicidade quase eufórica que vibrava no interior do carro e parecia depender de um delicado equilibro de fatores. O rádio estava sintonizado na Continental e de repente, logo após algo que podia muito bem ter sido Ray Coniff, começou a tocar uma música não muito famosa do Pink Floyd chamada "Fearless", que havia escutado em vinil em algum momento da adolescência e tinha ficado carimbada como a trilha de momentos de meditação solitária. A Adri subiu no colo dele no banco do motorista e começou a agitar os cabelos negros, que na época desciam até quase a cintura, e a prever que os dois ficariam juntos muito tempo e a explicar por que estava absolutamente fascinada com a cadeira de filosofia da arte que estava cursando naquele semestre, e em determinado momento intuiu que estava fodido, que no seleto grupo de seus objetivos primários entraria manter aquela guria feliz do jeito que estava agora. E sentiu uma necessidade de dizer isso. "Sabe esse jeito que tu tá se sentindo agora?" "Que que tem?" "Eu quero fazer com que tu continue te sentindo assim pelo maior tempo possível." Cerca de um ano depois, semanas após sua graduação, estavam casados, morando num antigo apartamento de um quarto de propriedade da mãe dela, numa quadra nobre do bairro de Petrópolis. E a verdade é que seu objetivo de estender a felicidade daquelas horas da madrugada na Praia do Lami pelo maior tempo possível pode ser considerado o maior fracasso de sua trajetória, pois nada parecido com aquilo jamais voltou a ocorrer...."

....."o Uruguaio abriu a nova lata de cerveja, liberando um jato gorgolejante de gás carbônico e espuma. "E tu, Mãos?" Naiara ia saltando de uma pedra a outra,tentando percorrer o caminho sem pisar na terra. "O quê." "Vai entrar no Exército?" Hermano nunca tinha pensado no assunto. Na verdade,não entendia muito bem do que os outros estavam falando. O próprio conceito de Exército era meio insólito para ele. "Não sei. Falta tempo ainda." "Tu devia servir, Mãos." "Braço forte, mão amiga.' "Com essas mãos a serviço das Forças Armadas, a soberania do país estará garantida." "O Mãos de Cavalo vai fazer faculdade, certo que vai." "Uma pinóia. O Mãos vai ser ator. Daqueles que não falam nada." "Bah, bem certinho." "Aqueles filmes em que o ator principal não fala nada." "Nunca vi um filme assim." "Desejo de matar é assim." "O Stallone Cobra também. Se o Mãos puxasse ferro,podia ir pra Hollywood." "Você é a doença. Eu sou a cura." '"Ou vai ser dublê." "Ou isso. Se ele não se matar andando de bicicleta antes." "Acho que ele tá ficando brabo." " Tá brabo, Mãos de Cavalo?" "É, ele não gosta de ser o centro das atenções." Tá brabo. Tá brabo. Ficou cocô." Risos. "Tá ligado cara de nenê que fez cocô?"

....." Seria exagero dizer que a mão direita dele e a esquerda dela estavam unidas, pois mal se tocavam. Bolita falava sem parar e a bochechuda Lara, de cabelos loiros cacheados e olhos verdes, metida em um vestidinho preto atrevido que multiplicava sua idade e salientava o desenho de sua coluna vertebral, desinteressada nos efeitos irreversíveis do chá de cartucheira sobre a psique humana, olhava por cima do ombro dele com o olhar dos velhinhos bem velhinhos que recebem injeções intramusculares no braço em postos de saúde, o supremo olhar vazio. O Palhação e o Nêgo Cromado estavam em pé no meio da pista, cochichando no ouvido um do outro. Os alvos da tramóia eram claramente a Naiara e a Corina, que contornavam a área de dança numa busca discreta por companhia masculina. Corina era uma das gurias da vizinhança que já estava dando. O Palhação olhava para elas com uma cara muito séria, os lábios comprimidos por pensamentos profundos, e de repente se voltava para o companheiro, abria seu sorriso de caricatura e sussurrava coisas que faziam o Nêgo Cromado mover a cabeça para cima e para baixo em concordância. No entanto, não davam sinais de que iam sair do meio da pista de dança para falar com as meninas ou fazer qualquer outra coisa. O Pedreiro dançava com uma garota de fora do bairro, talvez uma das amigas de colégio da Isabela. De repente a garota lhe disse alguma coisa no ouvido e saiu bruscamente, forçando o Pedreiro a se unir ao Nêgo Cromado e ao Palhação. Por algum tempo, Hermano tentou compreender por que eles estavam lá e ele ali, sentado na cadeira. Não compreendeu. Depois tentou decidir se estava satisfeito ou insatisfeito com o fato de estar sentado na cadeira, longe da pista de dança. Não conseguiu decidir. Talvez ele quisesse sair dali e se juntar aos outros...."

...." Não tocou o despertador? Se tu pegar essa mensagem me dá um toque, porque tô só te esperando aqui. Olha que o Bonete vai fugir. Beijão na alma aê, falou." "Beijão na fissura anal do cu da tua mãe", resmunga, enquanto digita o número de casa no celular. No terceiro toque, a Adri atende. "Adri?" "É tu? Onde tu tá?" "Tá acordada?" "O Renan ligou pra cá perguntando onde tu anda, eu disse que tu tinha saído há mais de meia hora." "Se ele ligar de novo, diz que eu fui pra Bolívia sozinho." "Onde tu tá? Tá tudo bem?" "Posso te contar um segredo?" "Hein?" "Queria te contar uma coisa que nunca te contei." "Tá tudo bem contigo? O Renan..." "Sabia que tu foi a primeira mulher com quem eu trepei?" "Mas que porra é essa?" "Tô falando sério. Tu foi a primeira." "Tu tinha vinte e três quando eu te conheci, nem vem..." "Vinte e quatro. Enfim, queria te contar isso." "Por que isso, agora? Onde tu tá?" "Tchau. Quando a Nara acordar, diz pra ela que eu liguei pra dizer que amo muito ela." "Onde é que tu tá? Fiquei assustada agora. Tu tá indo pro Renan?" "Não." "Ai meu Deus." "Fica tranqüila. Tchau." "Peraí." "Tchau." Desliga, bota o aparelho em modo silencioso e joga de volta no assento do Passageiro. O visor se ilumina, indicando o recebimento de uma chamada, mas ignora. Está passando ao lado da velha praça da Esplanada. Continua tudo ali, o campinho de futebol, o "camarote" onde as gurias ficavam sentadas vendo o jogo dos guris, o gira-gira, o trepa-trepa e outros brinquedos do parquinho, só que tudo isso, além de corroído, descolorido ou desgastado pelos anos, agora lhe parece uma maquete 1:20 da praça reproduzida em sua memória. É como se os objetos e lugares perdessem tamanho com o passar 90 tempo, assim como os anos se encurtam. Chega ao próximo cruzamento e fica indeciso sobre a direção a tomar. Na verdade, não faz a mínima idéia de por que foi parar ali. Sabe apenas que não vai voltar agora pra casa, muito menos ir buscar Renan.


  • O Amigo da Solidão

    Autor: Por Adriana Abujamra

    Veículo: Jornal Valor Economico, Caderno Eu & Fim de Semana

    Fonte: Jornal Valor Economico, Caderno Eu & Fim de Semana, edição 11/11/2016

    O amigo da solidão Por Adriana Abujamra Em 2004, o escritor Daniel Galera participou pela primeira vez da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), como integrante de uma mesa dedicada a novos autores. Caçula do festival, com 24 anos à época, tinha dois livros publicados por uma editora independente criada por ele e dois amigos gaúchos. O selo, cujo objetivo maior era viabilizar a produção do trio, não rendia lucro, e os sócios festejavam toda vez que conseguiam cobrir os custos. Galera circulava pelas ruas de pedras de Paraty com uma mochila pesada nas costas, vendendo seus livros para quem cruzasse seu caminho. Numa dessas andanças, topou com o editor Luiz Schwarcz, que voltava de uma corrida matinal. Suado e ainda um pouco ofegante do exercício, chamouo pelo nome: "Opa! Galera?". "Sim, sou eu", respondeu o escritor, sem demonstrar surpresa, como se fosse trivial cruzar com o dono da Companhia das Letras e ser por ele reconhecido. "Um funcionário meu comentou que seus livros são bons. Não consegui ler ainda, mas fiquei interessado." O escritor sacou da mochila um exemplar de "Até o Dia em que o Cão Morreu" (2003), seu primeiro romance, e entregou ao editor. Uma semana depois, Schwarcz ligou dizendo que estava interessado em incluir Galera no catálogo da editora e iniciar parceria com uma obra inédita. O escritor trabalhava em um novo romance e mandou os quatro primeiros capítulos que já estavam prontos. Três dias depois, Schwarcz voltou a procurálo para selar o negócio. Ofereceu um adiantamento e pediu uma estimativa de quanto tempo levaria para concluir a história. Fezse silêncio do outro lado da linha. "Cara, e agora?", pensava Galera. "Tem contrato, adiantamento, prazo. Bá! Em quanto tempo eu acabo? Se eu sugerir muito, ele vai achar que sou relaxado." Saiu do impasse assegurando, no chute, que em seis meses entregaria o romance. Schwarcz, mais realista e experiente, ofereceu um tempo bem mais largo. Galera deixou os videogames de lado o que para ele é um suplício e entregou "Mãos de Cavalo", lançado em 2006, exatamente na data combinada. "Nunca estourei um prazo na vida. Sou o louquinho do prazo." Ao meiodia em ponto, Daniel Galera chega ao restaurante Jesuíno Brilhante, pequeno restaurante em Pinheiros, em São Paulo, para este "À Mesa com o Valor". O nome é inspirado em um bandoleiro do sertão do Rio Grande do Norte, de onde vieram também o proprietário, as receitas e a trilha musical da casa. Chapéus de cangaceiro enfeitam as paredes. Com cabelo castanho curto e sobrancelhas grossas, Galera veste tênis, calça social e blazer sobre uma camisa rosa clara. Uma cicatriz próxima ao lábio superior é uma lembrança de um tombo de bicicleta na infância. Na adolescência, aprendeu a tocar violão e tentou compor canções, "fracassando miseravelmente". Deixou a pretensão de lado, mas mantém as unhas da mão direita compridas, para dedilhar uns acordes de vez em quando. O porte atlético é mantido pela natação. De Daniel Galera e o cineasta Beto Brant em 2007, em festa de lançamento do filme ‘Cão Sem Dono’, baseado em livro do escritor, no Espaço Cabaret, em São Paulo natureza introspectiva, nunca se deu bem em jogos coletivos. "Todos os esportes coletivos que arrisquei fazer resultaram em vergonha e arrependimento." É no fundo silencioso da água, na solidão das braçadas repetitivas, que ele atinge um "estado meditativo" e encontra soluções para suas histórias. "No meu vestiário ideal, haveria sempre um computador." Em 2007, ano seguinte à estreia de Galera na Companhia das Letras, o escritor desbravava outro território. Chegava às telas de cinema a adaptação do livro que o autor deu a Schwarcz naquele encontro inicial em Paraty. "Cão Sem Dono", com direção de Beto Brant e Renato Ciasca e com os atores Júlio Andrade e Tainá Müller, teve resenhas elogiosas e ganhou prêmios em festivais, como o de melhor filme segundo a crítica no Cine PE de 2007. O escritor foi se tornando, assim, uma das principais figuras da nova literatura brasileira. Atualmente com 37 anos, Daniel Galera foi apontado em 2012 como um dos melhores jovens escritores brasileiros pela cultuada revista literária britânica "Granta", ao lado de nomes como Michel Laub, João Paulo Cuenca e Tatiana Salem Levy, colunista do Valor. No mesmo ano, Galera publicou "Barba Ensopada de Sangue" (Companhia das Letras), que ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura, o terceiro lugar no Prêmio Jabuti e foi vendido para 12 países os direitos para uma adaptação cinematográfica foram adquiridos pela produtora RT Features. O jornal "New York Times" publicou resenha elogiosa do livro seu primeiro romance vertido para o inglês , citando Galera como "escritor talentoso" de um "romance sedutor", com uma "força de tração das marés" e "excelente conclusão". O escritor, que fazia traduções, passou a viver apenas de literatura. "MeiaNoite e Vinte" é o título de seu quinto romance, que chegou às livrarias neste ano. Três amigos que haviam trabalhado juntos em um projeto literário reencontramse 20 anos depois, quando o quarto integrante do grupo, o escritor Andrei, é morto na rua por um ladrão. Há um clima de desilusão, de catástrofe iminente, acentuado por uma onda de calor e uma greve de ônibus que paralisa a cidade. A trama é narrada por três vozes: a bióloga Aurora, o jornalista Emiliano e o publicitário Antero. "Foi meu livro mais difícil", afirma. Para Galera é custoso interagir com muita gente e, pior ainda, ser o foco das atenções. Noite de autógrafo, então, é um tormento. Nervoso, esquece o nome das pessoas e é incapaz de entabular conversa. "É um negócio muito eufórico pra mim, acaba com minha energia. Preciso de um tempo maior para me recuperar." Por isso, aboliu a clássica noite de autógrafo no lançamento de seu novo livro. Vai fazer eventos menores e participar da Feira do Livro de Porto Alegre, que começa hoje. "Querem uma entrada?", pergunta o dono do restaurante, o jornalista potiguar Rodrigo Levino. "Tu tem aquele bolinho de arroz vermelho?", pergunta o escritor, amigo de longa data do dono do restaurante. Galera é padrinho do filho de Levino e foi cobaia para as receitas que hoje estrelam o cardápio da casa. Daniel Galera é filho de gaúchos que sempre leram bastante. Por acaso, ele nasceu em São Paulo, onde seu pai trabalhou com informática. Passou a maior parte da vida em Porto Alegre; aos nove anos, Galera começou a imaginar histórias, como se passasse um filme em sua cabeça. Algumas dessas cenas foram parar no romance "Mãos de Cavalo" que se tornou o filme "Prova de Coragem" (2016), com direção de Roberto Gervitz e Mariana Ximenes no elenco. Até hoje, uma das peculiaridades de seu processo de criação é elaborar o texto em detalhes na imaginação e só depois digitálo. Antes de ser escritor, Galera tentou se expressar via desenho, pintura e música. "Não ficava satisfeito, continuava sem conseguir dizer o que eu queria", diz. Quis ser artista gráfico, estudou publicidade e trabalhou como diagramador. Cursou a conceituada oficina literária de Luiz Antonio de Assis Brasil, romancista e professor de literatura. Nos anos 90, uniuse a colegas da faculdade para criar o fanzine digital Cardoso Online, onde publicou contos. Foi com alguns deles que criou a editora independente Livros do Mal; nela, estreou com a reunião de contos "Dentes Guardados" (2001). Galera na Flip de 2013 Galera lembra com nostalgia dos primórdios da internet. Sua turma logo descobriu, com furor, como compartilhar textos e fotos via rede. "Era uma fase de experimentações, tinha mais personalidade. A internet hoje tem mais ferramentas, mas é mais pobre, perdeu o componente de expressão pessoal para além das fórmulas dadas." Ele usa Twitter e Tumblr com parcimônia e encerrou sua conta no Facebook. "Excesso de comunicação para uma pessoa como eu é difícil de lidar." O escritor anda com vontade de fazer experimentos na rede, como escrever um livro usando diferentes suportes e liberar pequenos trechos da história durante o processo. "Tenho vontade de ficar um ou dois anos em hiato, colocando essas ideias em prática. Talvez um site, um conto de ficção científica ou de terror. Estou sossegadamente aguardando novas ideias." Chegam os pratos: língua com quiabo, acompanhado de feijão de corda e macaxeira para Galera e a fotógrafa Ana Paula Paiva, e o carrochefe da casa, carne de sol, para Clara Dias, assessora de imprensa da Companhia das Letras, e a repórter. "Ele é que faz a carne", diz Galera, apresentando João Batista Rodrigues, pai do dono do restaurante, que veio do Rio Grande do Norte para ajudar o filho. O fanzine digital Orangotango, que aparece em seu novo romance, foi criado a partir de sua experiência com o Cardoso Online. "Mas o que tento é investigar como os valores e as expectativas gestados naquela época evoluíram até hoje, tendo minha experiência própria como ponto de partida. Nenhum dos personagens do livro é baseado completamente em uma pessoa real", diz. É comum as pessoas imaginarem como teriam sido suas vidas caso tivessem feito escolhas diferentes. É o famoso "e se". É justamente da vida que poderia ter sido e não foi que nascem os protagonistas de suas histórias. "Quase todos eles podem ser entendidos assim. São versões de mim mesmo com uma diferença importante: eles tomaram rumos e fizeram escolhas que não fiz." A bióloga Aurora foi a primeira personagem a se delinear em "MeiaNoite e Vinte". Galera sempre se interessou por biologia, lê sobre o tema e costuma imaginar como teria sido sua vida caso tivesse enveredado por aí. O autor compartilha as mesmas questões da personagem: ansiedade com as mudanças climáticas, a superpopulação, o esgotamento do solo e os rumos da ciência. A personagem resvala para um niilismo, duvidando da eficácia da ciência como forma de melhorar o futuro. "Às vezes eu detecto em mim essa tendência niilista, mas me seguro. Vou até aí, a Aurora não, ela continua. É nesse ponto que começa a ser interessante para mim mesmo o que escrevo. Aí é que entra o legal da ficção", diz, mais interessado no assunto do que na comida. Assim como Emiliano, o jornalista gay do livro, Galera já escreveu para jornais e revistas. "Ele é uma versão possível de mim, mesmo na questão sexual. Fico pensando, se eu fosse ter essa tendência, como seria?" O expansivo publicitário Antero, diz, é o único personagem que não é uma versão. Bemsucedido financeiramente e enquadrado nas regras do mercado, o personagem solapa sua veia contestatória da mocidade. Antero acabou como pararaios das críticas de Galera à publicidade, que remontam à época da universidade. Por isso, foi difícil desenvolver empatia por esse personagem, ingrediente vital ao ofício, diz. "É preciso ousadia e imaginação para criar detalhes da história, colocarse no lugar do outro, seja mulher, homossexual ou alguém de classe econômica diferente", diz. "Como escritor, adentro nesse exercício de empatia, mas sabendo que tem um limite, sem a arrogância de achar que estou ocupando o lugar do outro de fato. É mais uma postura que uma técnica." Personagem não ganha vida própria. "É uma construção que habita minha mente. Nunca entendi quem diz que o personagem dá ordens para o autor." Galera trata com ironia essa questão em seu romance "Cordilheira" (2008). Anita, a protagonista, uma jovem e promissora escritora, resolve passar um tempo em Buenos Aires. Engata namoro com um portenho que faz parte de uma comunidade de escritores fanáticos, que não diferenciam realidade de ficção e se comportam da mesma maneira que seus personagens. "Cordilheira" foi o primeiro título da coleção Amores Expressos, em que autores brasileiros escrevem histórias de amor ambientadas em diversas cidades do mundo. O destino estipulado pelos organizadores foi Buenos Aires. Mas a experiência não foi prazerosa. "Talvez a culpa nem seja da cidade, mas do meu estado de espírito. Foi um período ruim da minha vida, estavam rolando problemas pessoais." Já a temporada de um ano em Garopaba, Santa Catarina, cenário de "Barba Ensopada de Sangue", foi diferente. Galera acalentava há anos o sonho de passar um período sabático em uma cidade onde não conhecesse ninguém, que tivesse custo de vida baixo e onde pudesse nadar. Sem filhos, mulher ou emprego fixo, era o momento ideal. Vendeu pertences e, ao chegar, encontrou a cidade litorânea, fora de temporada, vazia e muito gelada. A proprietária do apartamento que ele alugou alertou: "Vem muita gente pra cá que nem tu. Mas chega o frio e eles deprimem. Um ou outro até se mata, sabia?". O prognóstico, no entanto, não se concretizou. "Foi um período muito rico. O livro sequer teria sido cogitado não fosse o tempo que passei por lá." Com problema neurológico raro, o protagonista de "Barba Ensopada" não memoriza rostos, inclusive o próprio. Após o suicídio do pai, ele sai de Porto Alegre em busca de pistas do avô, que desapareceu no balneário catarinense. Para a temporada na praia, onde espera também esquecer a namorada que o trocou pelo irmão, se muda com videogame, fotos e a cadela que herdou do pai. Com o romance já concluído, Galera ganhou do pai um cão da mesma raça que aparece no livro. O animal ganhou o nome de uma fruta típica do Sul, butiá, e vive com o escritor. Os cães aparecem em seus romances, mas agora que tem um cão, o animal não meteu o focinho. "É que Butiá não gosta de exposição. Achei melhor preserválo e não o coloquei em 'MeiaNoite e Vinte'." "Deus do céu!", diz, quando chegam os doces: cocada, caju ameixa, caju passa e burra um pão de melado de cana com cravo, gengibre e canela, embebido em café com nata fresca. Galera mora há três anos com Taís Cardoso, pesquisadora no Instituto de Artes da UFRGS. O casal vive em um apartamento de dois quartos no bairro de Santana, em Porto Alegre. A primeira atividade do dia do escritor é levar o cão para passear. Depois, senta para escrever. O texto costuma sair de primeira, "mais ou menos pronto", já que desenha a história com antecedência antes de digitála. Trabalha até o meiodia ou 1h da tarde, no máximo. À tarde lê, vai à academia e cuida dos afazeres domésticos faz supermercado, prepara a comida. Nos fins de semana sucumbe com gosto aos videogames. O vício não foi abolido, apenas está sob controle. Foise a época em que, jogando madrugada adentro, nada era capaz de arrancálo do jogo. Certa vez, depois de algumas horas, Galera fez uma pausa para pegar um refrigerante na cozinha e topou com a modelo Fernanda Lima. Cumprimentou a conterrânea, que era amiga de sua então namorada, "para praticar o chamado convívio social", mas em segundos deixou a beldade plantada e voltou correndo para o videogame. "'Beyond Good and Evil' não podia esperar

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Comprei este livro depois de ter lido em jornal alguma crítica. Me chamou a atenção o fato do Daniel Galera contar apenas 29 anos, já tendo publicado dois ou três romances antes do Mãos de Cavalo.


 

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