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O Legado da Perda

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O Legado da Perda

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Autor: Kiran Desai

Editora: Alfaguara

Assunto: Romance

Traduzido por: José Rubens Siqueira

Páginas: 413

Ano de edição: 2007

Peso: 690 g

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Bom
Marcio Mafra
26/04/2008 às 17:59
Brasília - DF

Ao fazer a leitura do Legado da Perda, o leitor vê, além de um romance indiano da atualidade, que o livro é também, uma história sobre a globalização, onde a autora narra as conseqüências do colonialismo e dos conflitos das nações, com destaque para os conceitos e preconceitos de religião e de raça. Numa visão muito particular da "Índia" com seus costumes, vestes, tradições e conflitos, vão desfilando os personagens que formam o universo do Juiz Jemubhai Popatlal Patel, a sua querida e inquieta neta, órfã de pai, com o curioso nome de Saí, além do confuso cozinheiro, que está sempre acompanhado de sua cachorra Mutt, mas tem o seu pensamento voltado para o filho Biju, que mora nos EUA. As vezes a história é engraçada e as vezes é triste. Como também, as vezes é bem repetitiva e fica marcando ponto sem sair do lugar. Também permeia o romance, um conflito indo-nepales que está se formando e que trará de vez o caos à vida de moradores do Himalaia. O livro é bom, mesmo que por vezes, a sua leitura seja maçante.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história do Juiz Jemubhai Patel que vive isolado,num lugarejo do Himalaia. Moram com ele: Saí, sua neta órfã, o cozinheiro e sua inseparável cachorra. O juiz é pessimista e amargo e vive lá para fugir do mundo que só lhe causou desilusões.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Durante todo o dia as cores tinham sido como as do anoitecer, neblina deslizando como uma criatura de água pelos grandes flancos de montanhas tomadas por sombras e profundidades oceânicas. Brevemente visível acima do vapor, o Kanchenjunga era um pico distante talhado em gelo, absorvendo o resto da luz, no topo uma pluma de neve soprada alto pelas tormentas. Sentada na varanda, Sai lia um artigo sobre lulas-gigantes num exemplar antigo da National Geographic. De vez em quando, levantava os olhos para o Kanchenjunga, observava sua mágica fosforescência com um arrepio. Sentado num canto isolado com seu tabuleiro de xadrez, o juiz jogava consigo mesmo. Enfiada debaixo de sua cadeira, onde se sentia segura, estava Mutt, a cachorra, roncando baixinho no sono. Uma única lâmpada nua pendia do fio no alto. Fazia frio, mas dentro da casa era ainda mais frio, a escuridão, o ar gélido contidos por paredes de pedra muito espessas. Ali, nos fundos, dentro da cozinha cavernosa, estava o cozinheiro tentando acender a lenha úmida. Mexia nos gravetos com cuidado, por medo da comunidade de escorpiões que vivia, amava e se reproduzia na pilha. Uma vez, encontrara uma mãe, inchada de veneno, com 14 bebês nas costas. O fogo enfim se acendeu e ele colocou a chaleira em cima, tão amassada, tão encoscorada como uma coisa escavada por uma equipe arqueológica, e ficou esperando que fervesse. As paredes eram chamuscadas, encharcadas, alhos pendurados pelos caules encardidos nas vigas queimadas, chumaços de fuligem grudados como morcegos no teto. A chama lançou um mosaico alaranjado brilhante sobre o rosto do cozinheiro, e a metade superior de seu corpo esquentou, mas um vento gelado torturava a artrite de seus joelhos. A fumaça subiu pela chaminé e saiu, misturou-se à névoa que ganhava velocidade, a chegar cada vez mais densa, escurecendo as coisas por partes: metade de uma montanha, depois a outra metade. As árvores, transformadas em silhuetas, surgiam e submergiam de novo. Gradualmente, o vapor tomou o lugar de tudo, objetos sólidos viraram sombra e nada restou que não parecesse moldado ou inspirado no vapor. O alento de Sai voava em nuvens de suas narinas e o diagrama de uma lula-gigante construída inteiramente de fragmentos de informação, sonhos de cientistas, afundou inteiramente nas trevas. Ela fechou a revista e saiu para o jardim. No limiar do gramado, a floresta era antiga e densa; as touceiras de bambu subiam a mais de três metros na escuridão; as árvores eram gigantes ataviadas de musgo, encaroçadas e tortas, cheias de tentáculos das raízes de orquídeas. A carícia da névoa em seu cabelo parecia humana e, quando estendeu os dedos, o vapor tomou-os delicadamente na boca. Pensou em Gyan, o professor particular de matemática, que devia ter chegado há uma hora com seu livro de álgebra. Mas já passava das quatro e meia e ela usou a neblina pesada para desculpá-lo. Quando olhou para trás, a casa havia desaparecido; ao subir de volta os degraus da varanda, o jardim desapareceu. O juiz tinha adormecido e a ação da gravidade sobre os músculos relaxados puxava para baixo as rugas de sua boca, fazia pesarem as faces, mostrava a Sai exatamente como ele ia fi car quando morresse. - Onde está o chá? - ele acordou e exigiu. - Ele está atrasado - disse o juiz, falando do cozinheiro, não de Gyan. - Vou buscar - ela ofereceu. A cor cinzenta tinha vindo também para dentro, pousou na prataria, fuçou pelos cantos, transformou o espelho do corredor em nuvem. Ao entrar na cozinha, Sai viu de relance a própria imagem se borrar e inclinou-se para gravar seus lábios na superfície, um beijo de estrela de cinema perfeitamente desenhado. - Oi - disse, meio para si mesma, meio para alguém. Nenhum humano jamais vira uma lula-gigante viva, e embora elas tivessem olhos do tamanho de maçãs para varrer o escuro do oceano, sua solidão era tão profunda que podiam jamais encontrar outra de sua tribo. Sai sentiu-se banhada pela melancolia dessa situação. Seria possível sentir a plenitude tão profundamente quanto a perda? Romanticamente concluiu que o amor deve com certeza residir no espaço entre o desejo e a plenitude, no vazio, não na satisfação. O amor era a ânsia, a expectativa, a reserva, tudo em torno que não a emoção em si. A água ferveu, o cozinheiro pegou a chaleira e a esvaziou dentro do bule de chá. - Terrível - disse. - Me doem os ossos, me doem as juntas; preferia morrer. Se não fosse Biju... - Biju era seu filho que estava na América. Trabalhava no Don Pollo. Ou seria no The Hot Tomato? No Ali Baba's Fried Chicken? O pai não conseguia lembrar, nem entender, nem pronunciar os nomes e Biju estava sempre mudando de emprego, como um fugitivo à solta, sem documentos. - É, muita neblina - disse Sai. - Acho que o professor não vem. - Montou como um quebra-cabeças as xícaras, pires, bule de chá, leite, açúcar, coador, bolachas Marie e Delite para caberem na bandeja. - Eu levo - ofereceu. - Cuidado, cuidado - disse ele, ralhando, e foi atrás com uma baciazinha de ágate com leite para Mutt. Ao ver Sai se aproximar nadando, as colheres soando musicais a bater na folha de estanho moldada, Mutt levantou a cabeça. - Hora do chá? - diziam seus olhos enquanto o rabo ganhava vida. - Por que não tem nada para comer? - perguntou o juiz, irritado, ao levantar o nariz da confusão de peões do centro do tabuleiro. Olhou, então, o açúcar no açucareiro: grânulos sujos, cintilantes como mica. Os biscoitos pareciam papelão e havia marcas de dedo escuras no branco dos pires. Nunca jamais era o chá servido como devia ser, mas ele exigia ao menos um bolo ou pãezinhos, biscoitos amendoados ou palitos de queijo. Algo doce e algo salgado. Aquilo era uma falsificação e ia contra o próprio conceito do chá da tarde. - Só bolacha - respondeu Sai à expressão dele. - O padeiro foi ao casamento da fi lha. - Não quero bolacha. Sai suspirou. - Como ele ousa ir a um casamento? E isso é jeito de tocar uma padaria? Idiota. Por que o cozinheiro não pode fazer alguma coisa? - Não tem mais gás, nem querosene. - Por que ele não pode fazer no fogo de lenha? Os cozinheiros de antigamente conseguiam fazer bolos perfeitos com uma lata rodeada de brasas. Acha que antigamente existia fogão a gás, fogão a querosene? Preguiçosos demais hoje em dia. O cozinheiro veio correndo com um resto de pudim de chocolate aquecido ao fogo numa frigideira, o juiz comeu a deliciosa massa marrom e seu rosto aos poucos assumiu uma expressão de rancorosa satisfação pudínica. Beberam e comeram, toda a existência ignorada pela não-existência, esse portal que leva a lugar nenhum, e observaram as copiosas fitas de vapor que o chá emitia, observaram suas respirações lentamente a se enrolar e torcer, enrolar e torcer. Ninguém notou os rapazes se esgueirando pelo grama- do, nem Mutt, até eles estarem praticamente na escada. Não que isso importasse, pois não havia trancas para mantê-los fora e ninguém à distância de um grito, a não ser tio Potty do outro lado do despenhadeiro jhora, que a essa hora devia estar bêbado caído no chão, imóvel mas sentindo tudo rodar. - Não ligue para mim, querida - ele sempre dizia a Sai depois de uma bebedeira, abrindo um olho só, como uma coruja - só vou ficar deitadinho aqui para descansar um pouco... Tinham vindo a pé pela floresta, com jaquetas de couro do mercado negro de Katmandu, calças cáqui, bandanas: a moda universal dos guerrilheiros. Um dos rapazes tinha uma arma. As últimas notícias acusavam a China, o Paquistão e o Nepal, mas naquele lado do mundo, assim como em qualquer outro, havia bastantes armas circulando para alimentar o esquálido movimento de um confuso exército. Estavam à procura do que encontrassem: facões kukri, machados, facas de cozinha, pás, qualquer tipo de arma de fogo. Tinham vindo atrás dos rifles de caça do juiz. Apesar da missão e da roupa, não eram convincentes. O mais velho parecia ter menos de vinte anos e um latido de Mutt bastou para fazê-los parecer um bando de meninas de colégio, correndo escada abaixo para se acovardar atrás das moitas borradas pela névoa. - Ela morde, Tio? Meu Deus! - tremendo atrás da camuflagem. Mutt começou a fazer o que sempre fazia quando encontrava estranhos: virou para os intrusos um traseiro que se abanava furiosamente e olhou para trás, sorrindo, demonstrando ao mesmo tempo timidez e esperança. O juiz detestava vê-la degradar-se assim, então chamou- a e ela afundou o focinho em seus braços. Os rapazes subiram de novo os degraus, envergonhados, e o juiz se deu conta de que essa vergonha era perigosa porque, se os rapazes projetassem inquebrantável segurança, estariam menos inclinados a usar os músculos. O rapaz que tinha o rifle disse alguma coisa que o juiz não entendeu. - Não fala nepalês? - cuspiu, os lábios retorcidos para demonstrar o que achava daquilo, mas continuou em hindi. - Armas? - Aqui não temos armas. - Vá buscar. - Você deve estar mal informado. - Pode parar com essa nakhra. Vá buscar. - Ordeno - disse o juiz - que saiam de minha propriedade imediatamente. - Traga as armas. - Vou chamar a polícia. Era uma ameaça ridícula, porque não havia telefone. Eles deram uma risada de cinema e depois, também como no cinema, o rapaz que tinha o rifle apontou a arma para Mutt. - Vá buscar senão mato o cachorro primeiro e você depois, o cozinheiro em terceiro, as damas por último - disse ele, sorrindo para Sai. - Vou buscar - disse ela, apavorada, e derrubou a bandeja de chá ao passar. O juiz sentou-se com Mutt no colo. As armas eram da sua época de Serviço Civil Indiano. Uma espingarda BSA com tambor de cinco balas, um rifl e Springfield calibre 30 e um rifle de cano duplo, Holland & Holland. Não estavam nem trancadas: ficavam penduradas no fim do corredor acima de uma fileira empoeirada de patinhos-chamariz verdes e marrons. - Xi, tudo enferrujado. Por que não cuida delas? - Mas ficaram contentes e a valentia desabrochou. - Vamos aceitar o chá. - Chá? - Sai perguntou, amortecida de terror. - Chá e um lanchinho. É assim que vocês tratam as visitas? Mandar a gente de volta para esse frio sem nada para esquentar? - Olharam uns para os outros, olharam para ela, de cima a baixo, e piscaram. Ela se sentiu intensamente, apavoradamente feminina. Claro, os rapazes todos conheciam as cenas de filmes em que herói e heroína, engalanados em confortáveis roupas de inverno, tomavam chá servido em serviços de prata por criados cerimoniosos. Então a neblina rolava, exatamente como rolava na realidade, eles cantavam e dançavam, brincando de esconde-esconde num belo hotel. Era o cinema clássico ambientado em Kulu-Manali ou, nos dias pré-terrorismo, na Caxemira, antes de atiradores surgirem da neblina e terem de fazer outro tipo de filme. O cozinheiro estava escondido debaixo da mesa de jantar e os rapazes o arrastaram para fora. - Ai aaa, ai aaa - ele juntou as mãos, implorando aos rapazes - por favor, sou um homem pobre, por favor. - Levantou os braços e encolheu-se como se esperasse um golpe. - Ele não fez nada, deixe ele em paz - disse Sai, detestando vê-lo humilhado, detestando ver que o único recurso que lhe restava era humilhar-se ainda mais. - Por favor, só vivo para ver meu filho por favor não me matem por favor sou pobre me poupem. Falas aprimoradas ao longo de séculos, passadas de geração em geração, porque os pobres precisavam de certas falas; o roteiro era sempre o mesmo e eles não tinham opção, a não ser implorar misericórdia. O cozinheiro sabia instintivamente chorar. Essas falas conhecidas permitiram que os meninos relaxassem ainda mais em seus papéis, que ele lhes entregara de presente. - Quem é que quer matar você? - disseram ao cozinheiro. - Só estamos com fome, só isso. Olhe, o seu sahib vai ajudar você. Aí - disseram ao juiz -, o senhor sabe como é que tem de ser. - O juiz não se mexeu, então os rapazes apontaram a arma para Mutt outra vez. O juiz agarrou-a e colocou atrás de si. - Coração mole demais, sahib. Devia mostrar essa delicadeza com as visitas também. Vá, arrume a mesa. O juiz se viu na cozinha, onde nunca tinha estado antes, nem uma vez, Mutt enfiada entre os pés, Sai e o cozinheiro apavorados demais para olhar, desviando os olhos. Ocorreu-lhes que poderiam morrer todos com o juiz na cozinha; o mundo estava de ponta-cabeça e podia acontecer absolutamente qualquer coisa. - Nada para comer? - Só bolacha - disse Sai pela segunda vez naquele dia. - Xi! Que sahib é esse? - perguntou o líder ao juiz. - Nenhum petisco! Prepare alguma coisa então. Acha que a gente pode continuar de barriga vazia? Choramingando, implorando pela vida, o cozinheiro fritou pakoras, massa mergulhada em óleo quente, esse som de violência parecendo um acompanhamento adequado à situação. Em busca de uma toalha de mesa, o juiz revirou uma gaveta cheia de cortinas amarelas, lençóis e trapos. Com as mãos trêmulas, Sai preparou chá numa panela e coou, embora não fizesse idéia de como preparar direito o chá desse jeito indiano. Só sabia preparar do jeito inglês. Os rapazes deram uma busca na casa com algum interesse. A atmosfera, observaram, era de intensa solidão. Umas poucas peças de mobília caindo aos pedaços recobertas pela escrita cuneiforme dos cupins, isoladas nas sombras junto com umas cadeiras dobráveis baratas de tubo metálico. Com o nariz torcido por causa do mau cheiro de rato de um lugar pequeno, embora os tetos tivessem a altura de um monumento público e os cômodos fossem espaçosos à antiga maneira dos ricos, janelas colocadas para paisagens de neve. Examinaram um diploma expedido pela Universidade de Cambridge que havia quase desaparecido debaixo de camadas de manchas marrons que desabrochavam nas paredes inchadas de umidade, enfunadas como velas de barco. A porta havia se fechado para sempre no quartinho de depósito em que o soalho afundara. Os suprimentos do depósito e o que parecia uma quantidade maluca de latas de atum vazias estavam empilhados em cima de uma mesa de pingue-pongue quebrada na cozinha, e só um canto da cozinha era usado, uma vez que fora originalmente concebida para os subordinados escravizados, não para o único criado restante. - A casa precisa de um monte de consertos - os rapazes aconselharam. - O chá está fraco - disseram, como sogras. - E está faltando sal - disseram das pakoras. Molhavam os biscoitos Marie e Delite no chá e chupavam ruidosamente o líquido quente. Dois baús que encontraram nos quartos eles encheram de arroz, lentilha, açúcar, chá, óleo, fósforos, sabonete Lux e Cold Cream Pond's. Um deles garantiu a Sai: - Só coisas que o movimento precisa. - O grito de um deles alertou a todos para um gabinete trancado. - Dê a chave. O juiz foi buscar a chave, escondida atrás dos exemplares da National Geographic que, quando jovem, imaginando outro tipo de vida, havia levado a uma loja para encadernar em couro com os anos marcados em caracteres dourados. Abriram o armário e encontraram garrafas de Grand Marnier, xerez amontillado e uísque Talisker. O conteúdo de algumas garrafas tinha evaporado completamente, alguns tinham virado vinagre, mas os rapazes colocaram as garrafas no baú mesmo assim. - Cigarros? Não havia. Isso os enfureceu e embora não houvesse água nos reservatórios, defecaram nas privadas e deixaram tudo fedendo. Então, estavam prontos para ir embora. - Diga: Jai Gorkha - disseram ao juiz. - Gorkhalândia para os gorkhas. - Jai Gorkha. - Diga: sou um idiota. - Sou um idiota. - Mais alto. Não estou ouvindo, hazur. Fale mais alto. Ele repetiu na mesma voz vazia. - Jai Gorkha - disse o cozinheiro, e - Gorkhalândia para os gorkhas - disse Sai, embora não tivessem pedido que dissessem nada. - Sou um idiota - disse o cozinheiro. Rindo, os rapazes saíram para a varanda e desapareceram na neblina, levando os dois baús. Um dos baús tinha letras brancas pintadas sobre o metal preto que diziam: Mr. J. P. Patel, SS Strathnaver. O outro dizia: Miss S. Mistry, Convento de Santo Agostinho. E desapareceram tão subitamente como haviam aparecido. - Foram embora, foram embora - disse Sai. Mutt tentou reagir, apesar do medo que ainda havia em seus olhos, e tentou abanar o rabo que insistia em se dobrar entre suas pernas. O cozinheiro irrompeu num alto lamento: - Humara kya hoga, hai hai, humara kya hoga - deixava ele a voz voar. - Hai hai, o que vai ser de nós? - Cale a boca - disse o juiz e pensou: esses malditos serviçais nascidos e criados para gritar. Ele próprio ficou sentado ereto, a expressão travada para evitar distorções, agarrado com firmeza aos braços da poltrona para controlar o violento tremor e embora soubesse que estava tentando deter um movimento interno, a sensação que tinha era de que o mundo sacudia com uma força arrasadora contra a qual tentava se segurar. Na sala de jantar estava a toalha que ele havia estendido, branca com um desenho de videiras interrompido por uma mancha vermelha escura onde, muitos anos antes, ele havia derrubado um cálice de vinho do porto ao tentar atirá-lo em sua mulher por mastigar de um jeito que o repugnava. - Que lerdo - os rapazes haviam provocado. - Vocês! Gente sem vergonha... Não fazem nada sozinhos. Tanto Sai como o cozinheiro tinham desviado os olhos do juiz e de sua humilhação e mesmo agora evitaram olhar a toalha de mesa, deram uma grande volta à sala, porque se registrassem a toalha, não dava nem para falar do castigo que o juiz lhes daria. Era uma coisa horrível, o rebaixar de um homem orgulhoso. Ele podia matar a testemunha. O cozinheiro fechou as cortinas; a vulnerabilidade deles parecia realçada pelo vidro e pareciam estar expostos na floresta e na noite, com a floresta e a noite estendendo seus escuros mantos felpudos sobre eles. Mutt viu o próprio reflexo antes de o pano se fechar, tomou-o por um chacal e saltou. Depois virou-se, viu sua sombra na parede e saltou mais uma vez. Era fevereiro de 1986. Sai tinha dezessete anos e seu romance com Gyan, o professor particular de matemática, não tinha nem um ano. Quando os jornais conseguiram passar de novo pelos bloqueios das estradas, diziam assim: Em Bombaim, uma banda chamada Hell No ia se apresentar no Hyatt International. Em Délhi, uma feira tecnológica sobre fogões a gás de esterco de vaca recebia delegados de todo o mundo. Em Kalimpong, no alto do nordeste do Himalaia onde eles viviam - o juiz aposentado e seu cozinheiro, Sai e Mutt - havia relatos de nova insatisfação nas montanhas, reunindo insurreição, homens e armas. Eram os indo-nepaleses dessa vez, cansados de serem tratados como minoria em um lugar onde eram a maioria. Queriam seu próprio país, ou pelo me- nos seu próprio estado, para gerir seus próprios assuntos. Ali, onde a Índia se dissolvia no Butão e no Sikkim, e o exército fazia flexões de pernas e braços, mantendo seus tanques com tinta cáqui para o caso de os chineses ficarem famintos de mais territórios além do Tibete, ali o mapa sempre fora confuso. Os jornais soavam resignados. Tinha havido grande quantidade de guerras, traições, permutas; entre Nepal, Inglaterra, Tibete, Índia, Sikkim, Butão; Darjiling roubada aqui, Kalimpong surrupiada ali - apesar, ah, apesar de a neblina baixar como um dragão, dissolvendo, desmanchando, tornando ridículo o desenho de fronteiras.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Kiran Desai era convidada da Flip de 2007. Natural que comprasse seus livros.


 

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