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A Morte de Ivan Ilitch

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A Morte de Ivan Ilitch

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Leon Tolstói

Editora: Martin Claret

Assunto: Contos

Traduzido por: Gulnara Lobato M Pereira

Páginas: 155

Ano de edição: 2005

Peso: 125 g

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Excelente
Marcio Mafra
19/08/2007 às 15:01
Brasília - DF

A Morte de Ivan Ilitich é a prova insofismável que tamanho não é documento. Trata-se de um livrinho mirradinho, publicado em 1889, portanto há quase 120 anos atrás. Se comparado com as opulências dos livros do americano Tom Clancy, publicados nos anos 90, fica-se espantado. Tolstói, ao contrário de Clancy, é prova que se a história é boa, o livro é bom, desde que o autor seja um escritor. Tenha talento. O romance conta a breve história de Ivan Ilitich, que simplesmente leva a vida. Era um juiz, afeito à burocracia, frio, pacato e acima de tudo leviano, julgava o destino das pessoas de forma impessoal, sem se deixar influir pela pessoalidade ou emoção. Repentinamente adoece, sendo-lhe diagnosticado que é portador de doença incurável. Seguem-se dores cada vez mais crescentes, incontroláveis, angustiantes e a certeza de estar cada vez mais próximo da morte, e que esta virá breve e inevitavelmente. Livro escrito há mais de cem anos, se ainda é comentado é porque é dez. Já o outro romance, Senhores e Servos, é ainda menor em tamanho e maior em talento. Embora os mais famosos romances de Tolstói sejam Guerra e Paz, e Anna Karenina. Escrito na mesma época que a Morte de Ivan Ilitich, Senhores e Servos conta a história de Vassílii Brekhonv, o senhor e seu servo Nikita, que vão fazer uma viagem de negócios. A maldade, bondade, realidade, solidariedade e inúmeros outras posturas da sociedade e dos homens de então, vão surgindo a cada passo, ou melhor, a cada tempestade de neve. Vassílii, bem agasalhado, consegue se proteger adequadamente do terrível frio. Nikita, o empregado, coberto pela neve, extremamente cansado, vê sua vida se esvaindo lentamente, pelo frio. O seu Senhor tenta uma fuga com o cavalo do trenó, deixando o servo entregue a sua própria sorte. Também é história breve e ótima - mesmo escrita há mais de cem anos, num ambiente frio e inóspito, que nós ocidentais, vizinhos da linha do equador só conhecemos pela TV. É leitura mais que boa. Confira o texto ao final.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF
Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A morte de Ivan Ilitich


..." Era de manhã. Era evidentemente de manhã, pois que Guerassim se fora e Piotr, o criado, estava apagando as velas, abrindo as cortinas e arrumando silenciosamente o quarto. Quer fosse noite ou manhã, domingo ou sexta-feira, era sempre a mesma coisa para Ivan Ilitich: sempre aquela dor surda que não o abandona um instante, sempre a sensação de que a vida está a fugir-lhe irresistivelmente, mas ainda não se esgotou por completo, sempre aquela morte terrível, detestável, que se aproxima, única realidade, e sempre a mesma mentira... Que importância têm, pois, nesse caso os dias, as semanas, as horas do dia?
- O senhor não quer chá?
"Ele tem necessidade de que os patrões tomem chá pela manhã, tem gosto pela ordem", pensou Ivan Ilitich e contentou-se em responder-Ihe:
-Não.
- O senhor não quer sentar-se no divã?
"Precisa arrumar o quarto e eu o estou incomodando. Eu represento a desordem, a sujeira", pensou de novo Ivan Ilitich e respondeu apenas:
- Não, deixa-me.
Piotr ficou por ali ainda algum tempo. Ivan Ilitich estendeu a mão. Piotr se aproximou com solicitude.
- Que deseja o senhor?
- O meu relógio.
Piotr apanhou o relógio que estava ao alcance da mão de Ivan Ilitich e mostrou-lho.
- Oito e meia, ainda não se levantaram?
- Não, senhor. Vladímir lvánovitch (era o filho) foi para o colégio e Praskóvia deu ordem para que a acordassem se o senhor pedisse. "Devo ir chamá-la"?
-Não, inútil.
"E se eu tomasse o chá?". Pensou.
- Chá... Tragas-mo.
Piotr dirigiu-se para a porta. Ivan Ilitich teve medo de ficar só. "Como retê-Io? Ah, sim! A poção!"
- Piotr, o meu remédio!
"Por que não talvez me faça bem."
Apanhou a colher e bebeu-o. "Isto não me aliviará. Tudo isto não passa de tolices de mentiras!" murmurou consigo mesmo, assim que sentiu aquele gosto insípido, desesperador que tão bem conhecia. "Não, não acredito mais nisto! Mas por que esta dor? Se ela pudesse cessar, ainda que por um instante!" Gemeu. Piotr voltou para perto dele.
- Não, vai-te. Traze-me o chá..
Piotr saiu. Ficando só, Ivan llitich gemeu, não tanto de dor (embora esta fosse atroz), quanto de angústia. "Sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa! Estes dias e estas noites intermináveis! Se isto pudesse acabar mais depressa. Mais depressa? Quê? A morte, as trevas!... Não, não! Tudo é preferível à morte"
Quando Piotr voltou com o chá numa bandeja, Ivan Ilitich olhou-o longamente com ar perplexo, sem compreender quem era ele e o que desejava. Piotr perturbou-se sob esse olhar. E quando viu a perturbação de Piolr, Ivan llitich voltou a si.
- Sim - murmurou.. - É o chá... Muito bem. Põe-no aqui. Mas ajuda-me primeiro a lavar-me e a vestir uma camisa limpa.
Ivan llitich começou a fazer a sua toilette. Lentamente, com inúmeras pausas, lavou as mãos, o rosto e escovou os dentes; depois se penteou e olhou-se ao espelho. Teve medo ao ver a própria imagem principalmente quando notou como seus cabelos lisos colavam-se-lhe à fronte pálida.
Quando trocou a camisa, sabendo que seu pavor seria muito maior se visse o estado de seu corpo, desviou o olhar do espelho.
Terminada a toilette Ivan llitich enfiou um roupão, cobriu-se com uma manta e sentou-se em sua poltrona para tomar o chá.
Sentiu-se por um instante refrescado; mas assim que começou a tomar o chá, voltou-lhe o mesmo gosto à boca e a dor recomeçou.
Fez um esforço para terminar o chá e deitou-se em seguida, com as pernas esticadas. Deitou-se e dispensou Piotr.
Sempre a mesma coisa: ora um raio de esperança, ora uma tempestade de desespero, e sempre aquela dor, aquela agonia. Sempre a mesma coisa. A solidão o atormenta; desejaria chamar alguém; mas sabe antecipadamente que se viessem seria ainda pior. "Se ao menos me dessem uma injeção de morfina! Eu poderia esquecer tudo! Vou dizer ao médico que arranje qualquer coisa. É impossível, é impossível continuar assim!"
Uma hora, duas horas se passam. A campainha retine na antecâmara. Talvez seja o médico. De fato é o médico, fresco, gordo, cheio de energia jovial, que parece dizer: "Você está se afligindo sem razão. Vamos dar um jeito em tudo isso". O médico sabe que essa expressão não tem cabimento ali, mas adotou-a de maneira definitiva e não pode mais abandoná-la, como alguém que houvesse vestido a casaca pela manhã para fazer visitas e não mais pudesse despi-la.
O doutor esfrega as mãos com um ar folgazão e satisfeito.
- Ainda estou gelado; está nevando fortemente. Permita-me aquecer-me um pouco - disse, como se bastasse esperar que ele se reaquecesse e que assim que estivesse reaquecido tudo se arranjaria.
- Então, como vai isso?
Ivan llitich sente perfeitamente que o doutor queria dizer: "Como vai essa força?", mas que percebe a impossibilidade de expressar-se assim e diz: "Como passou a noite?"
Ivan llitich contempla o médico com ar interrogativo:
"Não tens vergonha de mentir dessa maneira?" Mas o doutor recusa-se a compreender. E Ivan llitch queixa-se:
- Sempre mal. A dor não passa, não quer ceder. Se fosse possível fazer-se alguma coisa!
- Aí está! Vocês, doentes, são sempre assim. Pois bem, creio que agora já me reaqueci; a própria Praskóvia Fiódorovna, sempre tão cuidadosa, não poderia levantar nenhuma objeção contra a minha temperatura. Pois bem, bom-dia!
E o médico apertou a mão de Ivan llitich.
Em seguida, pondo de lado a expressão jovial, começou a examinar o enfermo com ar sério; toma-lhe o pulso, a temperatura; ausculta-o, apalpa-o, ouve-lhe a respiração, como sempre.
Ivan Ilitich sabe perfeitamente, que tudo aquilo não passa de mentira; mas quando o doutor, tendo-se ajoelhado, se inclina sobre ele, aplica o ouvido aqui e ali e executa assim com uma expressão grave, diversos exercícios de ginástica, Ivan deixa-se sugestionar, do mesmo modo que se deixava sugestionar às vezes pelos discursos dos advogados, embora soubesse muito bem que mentiam e porque mentiam....."

Senhores e Servos...


"Compreende que é a morte e não se sente desolado. Lembra-se de Nikita, que está debaixo dele, aquecido e vivo! Parece-lhe que ele, Vassílii Andrèitch, é Nikita e que Nikita é ele, e que sua vida não está mais com ele e sim com Nikita. Atentamente escuta e ouve o respirar e leve ressonar de Nikita. "Nikita está vivo", exclama para si mesmo, triunfalmente. E lembra-se do seu dinheiro, do seu armazém, da sua casa, das vendas e compras e dos milhões de Mironov. É incompreensível como aquele homem que se chama Vassílii Andrèitch dava tanta importância a tais bagatelas. "É porque ele não sabia o que era verdadeiramente de valor", dizia, pensando em Vassílii Andrèitch. "Não sabia o que hoje sei". Não é possível me enganar mais. "Agora eu sei." E ouve de novo o chamado daquela pessoa que já o chamara uma vez. "Já vou! Já vou!", responde, o coração transbordando de uma doce alegria. E depois disso Vassílii Andrèitch não viu, não ouviu, nem sentiu mais nada neste mundo. A tempestade não cessava. A neve em constantes e imensos turbilhões ia cobrindo o corpo de Vassílii Andrèitch, o Baio gelado e tremendo, o trenó já meio sepultado. E no fundo do veículo, sob seu amo morto e frio, Nikita dormia, sereno."


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Tolstói, assim como Dostoiévski, é nome que não pode faltar em qualquer prateleira.


 

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