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Todos Queremos Viver Mais - Iran Gonçalves Junior - Médico

SINAIS VITAIS  -  TODOS QUEREMOS VIVER MAIS

Autor - IRAN GONÇALVES JR., MÉDICO.

Publicação original do Jornal Valor Econômico, Caderno Eu & Fim de Semana, Edição 11 de maio 2018, ano 19, nº 911, pagina 23.

 

Atualmente há uma indústria voltada para a terceira idade, para a melhor idade ou qualquer outro eufemismo que descreva os idosos, pronta para oferecer produtos e serviços que, na maioria das vezes, não levam em consideração as consequências do processo de envelhecimento. Nos apelos do marketing, os idosos são instados a procurar como que um rejuvenescimento que permita que retomem a uma capacidade física e
mental de anos passados.

Senescência é o termo médico utilizado para descrever os processos biológicos que ocorrem nos organismos com o passar do tempo, processos estes que promovem modificações no funcionamento do organismo que não caracterizam uma doença, mas que são, com frequência, assim interpretadas.

No livro "A República", Platão descreve um diálogo entre Sócrates e Céfalo, no qual o filósofo questiona o anfitrião sobre como é viver tendo atingido uma idade avançada Céfalo responde que lamenta a falta de vigor físico, o maior cansaço e  a perda dos prazeres do corpo, mas não se descreve como doente, apenas idoso.

No processo normal de envelhecimento há perda de massa muscular; perda de massa óssea; aumento da gordura corporal.diminuição das capacidades cardíaca, pulmonar, gastrointestinal, endócrina e renal; diminuição da estatura; tendência à perda de peso; despígmentação e perda capilar. Há diminuição da acuidade dos sentidos: tato, audição, visão, paladar e olfato, o que faz com que os sinais do mundo externo cheguem alterados ao cérebro dos idosos.

O cérebro diminui de tamanho, há diminuição do número de neurônios e dos neurotransmissores; essas alterações tornam as funções neurológicas mais lentas, caracterizadas pela diminuição do desempenho intelectual, dos reflexos e da capacidade de memorizar fatos recentes. As alterações neurológicas levam a perturbações afetivas que alteram o comportamento habitual ou que se manifestam como sintomas de ansiedade, depressão ou agressividade.

As alterações comportamentais levam o idoso a ser visto como teimoso, conservador, arraigado às ideias antigas, intratável, um peso para a família e sociedade.

A herança genética, que. é a responsável por como e quando as alterações
biológicas irão se manifestar, associadas às condições nas quais transcorreu a vida de cada um, fará com que cada indivíduo manifeste estas modificações associadas ao envelhecimento de modo particular, mesmo comparando-se a indivíduos da mesma idade.

A vida como ela é, diria Nelson Rodrigues. Conhecer essas modificações do corpo pode suscitar o medo do inevitável, medo que paralisa, ou servir de alerta para o fato de que quanto mais longevos ficamos, maior a probabilidade de experimentarmos as consequências do envelhecimento e nos preparar, corno indivíduo e corno sociedade, para enfrentar estes desafios.

Podemos hoje minorar a magnitude de alguns desses processos. Uso de óculos ou aparelhos auditivos são exemplos óbvios. Quando se comparam idosos de uma mesma faixa etâria, aqueles que fazem atividades físicas e intelectuais de forma rotineira apresentam menor comprometimento físico e mental.

Cuidados com alimentação e peso, ausência de tabagismo e atividade física rotineira previnem o desenvolvimento de doenças que, por incidirem mais em pessoas idosas, parecem inexoráveis, corno a hipertensão, as doenças cardiovasculares, diabetes e câncer.

Diagnosticar precocemente e tratar adequadamente essas e outras doenças diminui seu impacto sobre o envelhecer saudável Além dos cuidados individuais, uma sociedade que se preocupa e se ocupa com o envelhecimento deve promover facilidades para seus idosos, desde a básica conservação de calçadas até políticas de saúde que envolvem toda a comunidade.

Na Holanda, a organização Humanitas, fundada em 1945, após a Segunda Guerra, desenvolveu um projeto que coloca idosos e universitários para morarem na mesma residência Para os universitários o ganho imediato é não pagar aluguel em troca de auxiliar os idosos no dia a dia.

O maior ganho, porém, é a quebra do isolamento social dos idosos, que são estimulados a realizar atividades físicas e mentais com os universitários, e o aprendizado para os jovens sobre o que serão suas necessidades futuras. Esse aprendizado estimula mudanças nas políticas
públicas para os idosos demandadas pelos membros ainda jovens da sociedade.

A falta de políticas públicas para integrar o idoso na sociedade transfere para as famílias todo o ônus do cuidado. A atual configuração das famílias, pequenas, atarefadas, mães e pais trabalhando, não permite a atenção adequada e aumenta o isolamento dos idosos que se transformam em problema e são considerados como um assunto médico.

A medicalização da senescência resulta em aumento dos custos da saúde, com realização de exames para investigar processos naturais que, muitas vezes, levam à solicitação de outros exames para investigar os achados do exame anterior, numa espiral que inclui utilização de medicamentos e
realização de procedimentos desnecessários que trazem risco ao próprio paciente.

A expressão "Polifarmácia do Idoso" descreve a utilização de múltiplos medicamentos nos pacientes idosos. Estudos mostram que 50% ou mais desses medicamentos são desnecessários; a mesma espiral de se acrescentar um medicamento para melhorar o efeito colateral do outro, se repete.
As interações medicamentosas entre esses diversos fármacos são desconhecidas, particularmente no organismo do idoso, e o risco ao paciente aumenta ainda mais. Este é um problema mundial.

Essa pressão da medicalização alimenta o discurso dos financiadores públicos e privados da saúde que repetem a necessidade de se elevar os impostos ou os preços dos planos de saúde, porque a população está envelhecendo e o idoso gasta muito.

Quando Sócrates pergunta a Cleófas se a velhice é a fase mais difícil da vida, esse responde que não é a velhice a culpada das queixas dos idosos e dos seus familiares, e sim o caráter de cada um; que a velhice é um fardo suportável para quem viveu com moderação e bom temperamento e, diz ainda, que não só a velhice, mas a mocidade pode ser penosa para quem, daquela maneira, não viveu.

Todos queremos viver mais, todos viveremos mais. Nos preparemos para isso .•

 

 

 

 

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