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O Brasil dos Avessos - José de Souza Martins

 
O BRASIL DOS AVESSOS
 
Por José de Souza Martins, sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de "A sociologia como Aventura" em artigo publicado pelo jornal Valor Econômico, de Sexta Feira, 26 de maio de 2017, Cadewrno Eu & Fim de Semana.
 
 
Fomos historicamente educados para temer, obedecer e calar.
Não é acidental que neste país as revoluções sejam revoluções de quem manda, e não de quem é mandado.
 
 
Já houve época em que, no Brasil, ensaístas competentes e eruditos enriqueciam a cultura política do país com estudos seminais que iam ao nó 
de nossas incômodas contradições para nos explicar o que achâvamos que éramos e não conseguíamos ser. Euclides da Cunha, o maior dos nossos 
ensaístas, explicou-nos com estilo e elegância o mais brutal dos nossos enganos em "Os Sertões". 
 
 
Republicanos que proclamaram uma República sem povo, constituída de uma humanidade servil, recém-saída da escravidão, analfabeta e 
ignorante, declararam guerra a uma comunidade de gente simples, do sertão remoto. Era, em grande número, descendente de índios tapuias.
Gente refugiada na religião para, na fé, se proteger das iniquidades da política e da economia, interpretadas como sinais mais do que evidentes do fim dos 
tempos e da proximidade do fim do milênio.
 
Os republicanos de praia inventaram um inimigo fictício, massacraram os devotos de uma monarquia milenarista para fazer de conta que haviam feito a revolução
do progresso em nome da ordem. 
 
 
São também esclarecedores seus livros "Contrastes e Confrontos" e "À Margem da História", conjuntos de ensaios sobre o que, aos olhos de hoje, 
podemos definir como a nossa hipocrisia constitutiva, a dos opostos refazendo-se mutuamente: os liberais opondo-se ao fim da escravidão e os 
conservadores empenhando-se em encerrá-la, ainda que ao seu modo, para dar lugar à terceira escravidão, a da peonagem na Amazônia.
 
Ou,já nos tempos de agora, um capitalismo delinquente, viabitizado pela facção de direita da esquerda. Nos meus tempos de estudante universitário, os últimos 
militantes da esquerda juvenil diziam que "com uma esquerda dessas, não é preciso direita". Euclides já mostrara que somos o país dos avessos. 
 
 
Pouco adiante,já nas primeiras crises da República, Alberto Torres, em dois robustos e luminosos ensaios, na perspectiva conservadora, analisou as 
perdas e insuficiências da organização política nacional. Concluiu que, na escravidão, ao menos tínhamos ordem: Ironizava aquela frase . 
positivista colada sobre o lábaro que a bandeira ostenta estrelado: "Ordem e Progresso". Creio que foi Millôr Fernandes, um de nossos maiores 
pensadores, quem disse: "Desde que tenhamos ordem, não tem importância que não tenhamos progresso". Ou teria sido o Barão de Itararé, outro pensador humorista? 
 
 
A verdade é que não temos os dois. O sempre lúcido Antonio Candido disse, mais de uma vez, que nossa critica social passa pelo humor e pela troça. 
Digo: e nisso ficamos. Ou Tiririca não é uma significativa nota de rodapé nas linhas tortas de nosso cinismo político? A política esterilizou-lhe o 
humor, triste evidência de um teatro de fundo de poço. 
 
 
Nessa embrulhada histórica que nos oprime há muito, o Brasil separa o desenvolvimento econômico do desenvolvimento social. O povo não 
conta. Não é apenas a falta de caráter de alguns, mais numerosos do que nos diz nossa vã ingenuidade, que explica a corrupção constitutiva de 
nosso sistema político. A partir do momento em que a ordem política foi concebida para manter o povo à margem, a porta da desordem foi 
escancarada e o convite à esperteza na política foi instituída. 
 
A República não só inventou um republicanismo falso e oligárquico como inventou um povo de ficção, completamente artificial, prisioneiro 
dos currais da dominação retrógrada. Periodicamente, as porteiras dos currais são abertas para que os inocentes úteis possam ir às urnas 
renovar mandatos ou eventualmente convocar esse ou aquele dissidente para que possamos fazer de conta que temos ordem. A imensa multidão dos 
condenados ao castigo do voto condicional, o voto sem alternativa de um sistema político de cumplicidades que nos torna a todos acólitos do que 
nossa consciência repudia. 
 
Isso, obviamente, não é coisa de agora. Para dizer tecnicamente, é estrutural.
Tem raízes profundas, na escravidão que formou nosso caráter, nossos medos e nossa cultura de sujeição.
Fomos historicamente educados para temer, obedecer e calar. 
 
Não é acidental que na história deste Brasil as revoluções sejam revoluções de quem manda, e não de quem é mandado. Fernando Henrique 
Cardoso, num esclarecedor ensaio socíolôgico dos anos 70, chama nossa atenção para o fato de que o Brasil independente não nasceu de uma 
revolução nacional, uma revolução do povo. A Independência foi Ieita pelo próprio Estado, no herdeiro da coroa proclamando a independência da 
Colônia, uma revolução sem povo, as funções da sociedade civil usurpadas pelo Estado.
Somos uma coisa à luz do dia, nas ruas, e outra coisa no escurinho do poder. 
 
 
Não é estranho que, como Alice, de Lewis Carroll, quanto mais depressa caminhamos, mais longe ficamos. 

 

 

 

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